Comporta. Esta é a terra (e a vida) deles

Esta sexta-feira deverá ser decidido o futuro da Herdade da Comporta. Os ativos despertaram o interesse de três grupos de investidores. O DN recupera uma reportagem de Graça Henriques publicada no ano passado. Quem é que lá vive e cuida que a Comporta seja um destino único, entre o trendy e o tradicional? Que histórias têm para contar?

Madonna mostra nas redes sociais que adora os passeios de cavalo na praia da Comporta; Phillip Starck anda anónimo de bicicleta pela terra; Christian Louboutin tem por lá casas... No New York Times ou na Monocle, a beleza natural da herdade - que agora foi vendida à holding ARDMA de Pedro Almeida depois do colapso do Grupo Espírito Santo - tem sido publicitada aos quatro ventos. Não é para menos: as dunas dividem os arrozais de uma praia maravilhosa. Mas quem é que lá vive e cuida que a Comporta seja um destino único, entre o trendy e o tradicional? Que histórias têm para contar?

Sílvia Rosa, gerente e cozinheira do Retiro do Pescador

Nuno Carvalho: O construtor de cabanas que é um lutador

Júlio Maria tem o estaminé junto à entrada do Carvalhal

É visível a felicidade de Nuno Carvalho quando anda entre as cabanas de colmo e caniço que construiu na Lagoa Formosa, junto à praia do Pego, na Herdade da Comporta. "Amo o meu trabalho!" Palavras que lhe saem com facilidade, enquanto mostra e fala das suas cabanas que tantos e tantos famosos têm pedido para construir na região. E todas, sejam elas em caniço, de madeira ou alvenaria com telhados de colmo, respeitam a arquitetura tradicional. Encontram-se da Carrasqueira à Muda, onde ele próprio viveu com os avós numa cabana de palha, como gosta de lhes chamar, até voltar para a casa dos pais no Carvalhal.

Jéssica António é licenciada em logística e fez mestrado em gestão empresarial

E como pode um homem não se sentir feliz quando o resultado do seu trabalho é o equilíbrio entre a tradição, a natureza e o conforto agora oferecido pelas cabanas que são capas das revistas de decoração e servem de bilhete-postal para promoção da Comporta como destino hippie chic?

Carlos Gomes é a cara da mercearia típica da Comporta e vai abrir um restaurante

Como pode um homem não se sentir feliz quando as dificuldades o obrigaram a abandonar a escola aos 14 anos e agora, aos 47, tem uma empresa com 187 trabalhadores diretos e 320 indiretos, a segunda PME líder no concelho, e é chamado para trabalhar em França, Itália, Rio de Janeiro e Nova Iorque?

José Ribeira, de Os Cavalos na Areia

Como pode não se sentir feliz um homem que perdeu o olho esquerdo aos 4 anos, dois dias depois do 25 de Abril, que por causa disso sofreu de bullying na escola, mas que também aqui encontrou mais força para prosseguir e ser diferente?

A história é arrepiante: "Estava a brincar com um amigo junto ao trabalho do meu pai. Era um menino curioso, fomos para o ribeiro, começámos a pescar e espetei um anzol no olho esquerdo. Fui a chorar para a minha mãe que estava doente no posto médico, a pedir ajuda. Passadas duas horas veio o capataz da Herdade da Comporta com um carro e levou-nos até ao hospital de Setúbal, por Alcácer... mais duas horas de caminho. Quando cheguei ao hospital, tinham-se despistado dois camiões da tropa em Águas de Moura e cagaram-se em mim. A minha mãe chorava: "Cuidem do meu menino!"... e as macas ocupadas pelas tropas. Disseram-lhe: "Tem que ter calma porque a ordem que temos é atender os militares." Passei 48 horas ao colo da minha mãe. 48 horas depois entrei no bloco e fui operado. Já era tarde. A solução foi uma prótese ocular, que é que o que tenho hoje."

Nuno Carvalho - que faz questão de dizer que não tem empregados, mas sim uma equipa de colegas de trabalho "bastante profissionais e extraordinários" sem os quais não teria conseguido o que tem - deixou a escola porque o pai não tinha dinheiro para lhe pagar os estudos. Ficava num lar interno em Alcácer que custava então 1500 escudos mensais (7,5 euros), quando o pai só ganhava 9000 no matadouro da herdade. Ainda se lembra de chegar a casa e ver a mãe a chorar por falta de dinheiro. "Não passei fome, mas não comia bifes." Ainda se lembra de os colegas terem dinheiro, alguns 100 escudos por dia, quando ele levava 20 escudos para as duas semanas. Como cada sandes custava 7,50 escudos, não chegava para três. Sumos, nem pensar, bebia água da torneira.

Quis ajudar, proporcionar uma vida melhor à família, às duas irmãs mais novas, e quando saiu da escola foi trabalhar. Primeiro a descascar eucaliptos até aos 16 anos; dos 16 aos 20 na resina; dos 20 aos 22 na construção civil. Começou como servente, ao fim de três semanas trabalhava como carpinteiro, cerca de um ano depois tinha sido nomeado encarregado geral. Fez o 12.º ano com 18 anos, a trabalhar de dia e a estudar à noite, depois enveredou por cursos profissionais - tirou o curso de encarregado geral de obra e aos 37 o de técnico de obra.

Tem uma estrelinha este homem que fica de rosto iluminado quando repete "amo o meu trabalho"? "Sou um homem de fé e de trabalho, a Nossa Senhora de Fátima tem-me ajudado muito. Não me sinto um homem nem de sucesso, nem realizado. Estou a aprender todos os dias e todos dos dias quero crescer. Para me sentir realizado tinha de ver a minha terra com todos os projetos de construção tradicional."

É este o ponto que irrita Nuno Carvalho, o que o faz alterar o tom de voz. A falta de respeito pela traça arquitetónica da região, cada um construir a seu bel-prazer sem respeito pela tradição. "Os culpados por estas aberrações são os arquitetos e engenheiros que trabalhavam para a herdade. Eram eles próprios que delineavam as regras dos loteamentos, obrigando as pessoas que compravam os lotes a apresentar antecipadamente os projetos nos escritórios da Herdade da Comporta, eram eles também que davam o parecer favorável aos projetos, sendo que as câmaras [de Alcácer do Sal e de Grândola] passavam os licenciamentos de acordo com os projetos que lá chegavam. Por isso, jamais poderia culpar as autarquias", afirma.

Esse incumprimento das tradições arquitetónicas, que aponta sobretudo aos profissionais portugueses, leva-o a dizer que deviam ser proibidos de entrar na herdade "que era o que acontecia nos tempos da ditadura a quem se portava mal dentro da herdade - eram postos fora e proibidos de entrar". E a expressar a sua admiração pelos estrangeiros que escolheram a Comporta para construir casas de sonho: "As casas mais bonitas são de personalidades reconhecidas internacionalmente e vem um arquiteto português, que considero um autêntico assassino da arquitetura tradicional, e projeta todas estas aberrações à vista de toda a gente. Os estrangeiros que defendem a nossa arquitetura merecem o máximo de respeito, apoiam e respeitam todos os residentes. Dizem-nos sempre obrigado, mesmo pagando agradecem, o que a maioria dos portugueses não faz."

"Os maiores decoradores do mundo adaptaram-se à arquitetura." Entre esses designers de renome está Jacques Grange, que considera o "pai" da sua empresa. Como também considera "pai" Luís Horta e Costa. Vera Enchia e Pequenina Rodrigues, ambas já falecidas, e Pedro Espírito Santo são outras pessoas que quer destacar porque acreditaram em si. E com quem aprendeu muito. Como também faz questão de lembrar que, apesar do colapso do grupo Espírito Santo, foi com aquela família que começou a trabalhar e lhe restam muitos amigos.

Mas se Nuno Carvalho tem clientes famosos - e são certamente muitos - faz questão de preservar a sua identidade, "porque merecem respeito e privacidade". O decorador de interiores Jacques Grange não é contudo apenas um cliente, é também um amigo. Conheceu-o através de Isabelinha Carvalho, do Museu do Arroz, pessoa a quem deve respeito como empreendedora na Comporta, e foi para o designer francês que construiu há cerca de vinte anos a primeira de centenas de cabanas que já ergueu. É com orgulho indisfarçável que a mostra num pequeno paraíso de cabanas e casas de telhados de colmo, escondido entre a vegetação e as dunas e de onde se escuta o bater das ondas do Pego, que se transformou na praia da moda. Nestas cabanas, à semelhança das outras que ergue, o mobiliário é quase todo construído pela sua empresa, o chão e as casas de banho em cimento afagado.

Mas o que aconteceu entre os tempos em que Nuno trabalhava na construção civil por conta de outrem e a construção da cabana de Jacques Grange? Primeiro, o facto de ter decidido trabalhar sozinho, depois a oportunidade de construir, com um colega, um alpendre tradicional na casa de Till Becker, à época CEO da Mercedes Benz Portugal. Uma obra que rendeu 10 ou 15 contos, estava-se então em 1992. Ganhava 1500 escudos por dia. Hoje uma cabana sofisticada, com aquecimento central, vidros duplos e outros luxos, custa mil euros por metro quadrado. Quis o destino que Till Becker desse uma festa. O alpendre foi um sucesso. Nesse verão Nuno Carvalho fez mais três ou quatro alpendres, no ano seguinte 15 ou 20... Aos 24 anos contratou meia dúzia de colaboradores e formou a sua empresa. A partir daí é o que se sabe. Sente-se um vencedor, insistimos? A resposta é pronta: "Só me considerava vitorioso se todos os meus amigos vivessem bem, até lá sou um lutador, não um vencedor."

O telefone de Nuno não para, reuniões e reuniões, trabalha até à uma da manhã, levanta-se às 6.30. "Tenho três paixões: a minha família, o meu trabalho e os meus clientes." Nós acrescentamos uma quarta - a coleção de 298 motos, todas legalizadas. Uma delas é especial e está toda recuperada - era a Famel que pertenceu ao pai. Em jeito de despedida, ainda atira a frase que ouvimos várias vezes: "Amo o meu trabalho."

Sílvia Rosa: A cozinheira que herdou o tempero do pai

Sílvia Rosa nasceu há 36 anos a dois passos do porto palafítico da Carrasqueira, a estrutura assente em estacas que faz lembrar a Ásia, onde os pescadores atracam os barcos e onde também se filmam anúncios televisivos ou shoots de moda, como a campanha de Louboutin. José Rosa, o pai de Sílvia, também percorreu vezes sem conta aqueles passadiços por cima do lamaçal do estuário do Sado, os irmãos José e Fernando ainda hoje o fazem. Eles prosseguem a arte paterna da pesca, ela a culinária.

O pai de Sílvia ganhou o apelido de "Caldeiradas" por causa dos petiscos que fazia para os amigos, deixou o rio e abriu na Carrasqueira o Retiro dos Pescadores. Foi há cerca de 30 anos. Sílvia estudava em Alcácer mas ajudava no café-restaurante, a servir às mesas, no balcão... e na cozinha onde o pai preparava os pitéus que ainda hoje fazem parte da ementa: choco frito, enguias de ensopado e fritas, arroz de marisco e de tamboril... A lista mantém-se quase sem mexidas, apenas saiu o tamboril - "é difícil arranjar de qualidade" - e entrou o arroz de lingueirão.

Quando terminou o 12.º ano decidiu parar um ano, tirar a carta e só depois iria para a faculdade. Foi uma machadada no seu percurso académico mas nasceu uma cozinheira de mão cheia. Tinha 26 anos quando o pai morreu e, desde aí, assumiu a cozinha e a gerência deste negócio familiar, onde todos ajudam, desde a mãe Armanda aos irmãos e sobrinhos, mas em que só ela e a cunhada são fixas.

Sílvia entra às nove, sai por volta da meia-noite, cozinha, às vezes traz os tachinhos às mesas, faz sobremesas, gere o negócio e mantém um ar tranquilo invejável. "Faço tudo isto para dar continuidade ao negócio da família, o orgulho do meu pai, que adorava isto. Até ver não me vejo a fazer outra coisa na vida, sempre dediquei a minha vida a isto. Desdobro-me, mas ainda não sinto desgaste."

Quando engravidou, a casa fechou um mês. "Não digo que seja insubstituível, mas para seguir como tem seguido, a casa depende de mim. Se metêssemos uma cozinheira, nunca faria igual. Não é fácil manter o tempero como eu consegui manter o tempero do meu pai."

O Retiro do Pescador é isso mesmo, um espaço onde vão todo o ano os homens e mulheres que pescam no Sado, mas que no verão se enche de turistas. Aos fins de semana, mesmo no inverno, muita gente vem de fora para se deliciar com os petiscos. A promessa é que o menu e o tempero continuará igual. Ali não se pensa em inovações gourmet. "Quero manter o que resta, melhorar o que faça falta e dar seguimento ao negócio."

Júlio Maria: Quando se inova com velharias

Num português carregado de pronúncia francesa, o jovem informa Júlio que vai levar a nassa para ver se fica bem lá em casa. Esta armadilha metálica para apanhar caranguejos será certamente transformada num candeeiro e será uma peça marcante na sala. É disso que Júlio Maria se orgulha: as velharias que vende passaram agora a ter outro uso. "Das portas velhas fazem-se mesas, cabeceiras de cama ou biombos. As pessoas agora são mais criativas." O negócio mudou. Como mudou a vida de Júlio, naquele dia em que um acidente de viação lhe roubou o braço esquerdo. Tinha então 35 anos. Foi essa fatalidade que fez que Júlio, agora com 56, se dedicasse às velharias.

O seu estaminé fica junto à entrada do Carvalhal e não passa despercebido. Mesas, cadeiras, portas, pias dos porcos, utensílios agrícolas ou de pesca, móveis... tudo chama a atenção. Há quem não passe o verão sem uma ou mais visitas ao Júlio do Carvalhal à procura "daquela" peça que fará a diferença numa casa de traços modernos ou reforçará a tradição de outras.

Homem dos sete ofícios, Júlio trabalhou na agricultura, no arroz, na resina, na construção de estradas em Lisboa, na cerâmica de tijolo em Tunes, foi polidor de mosaicos em Tavira. E tratou de cavalos do horseball na Quinta da Marinha e na Penha Longa. Ainda fez um curso de formação de carpinteiro em Évora, durante um ano.

Depois do acidente procurou uma ocupação que lhe permitisse viver. "Comecei a procurar nos montes alentejanos, visitava colegas no interior." Nessa altura, as famílias estavam a chegar à Comporta. Vendia potes de cal, rodas, charruas para os jardins; para o interior, uma estanheira alentejana, uma mesa de pastor... Agora há outras funções para as velharias do Júlio. "Muito turismo está a ser decorado com coisas que eram antigamente dos pobres, coisas mais simples. As pessoas são mais criativas, compram coisas para criar, misturam velharias com o moderno."

E Júlio também já deitou mãos à obra nesta empreitada da criatividade. Portas antigas que, com dezenas de boias de pesca coloridas, são autênticas instalações artísticas. A Casa da Cultura da Comporta tem uma, Júlio diz que o Hotel Sublime também lhe comprou uma. Saca do telemóvel e mostra uma porta só com boias laranja. "Não parece um cardume de salmões?"

Júlio nasceu na barraca onde guarda as velharias. Como a avó e a mãe. Daí a mágoa com a Herdade da Comporta, que já há alguns anos o quer retirar dali sem ser ressarcido. O caso já foi a tribunal e, conta, acabou por ganhar a causa na Relação. Mas continua a sentir-se inseguro quanto ao futuro e indignado. "Tenho uma doação da minha mãe, pago contribuições e querem tirar-me daqui a troco zero. Outras famílias foram ressarcidas, a minha família é igual às outras. A câmara está a ajudar as grandes entidades, em vez de ajudar as pessoas locais."

Jéssica António - No Gervásio: o trendy cruza-se com a tradição

A Casa Messejana, que foi rebatizada de O Gervásio, é um espaço tradicional onde os famosos gostam de ir. De políticos a atores, é habitual cruzarmo-nos com caras conhecidas. Até Carolina do Mónaco lá foi comer frango assado! Por aqui passam muitas histórias dos Brejos da Carregueira, um dos principais paraísos da família e amigos da família Espírito Santo, que construíram cabanas debruçadas sobre os arrozais. Criada há quase cem anos pelo avô de Jéssica António estava-se longe de imaginar que a casa viria a atrair tanta e tão famosa gente - era então a venda, onde se comprava mercearias, o petróleo, e os homens passavam as horas de ócio encostados ao balcão.

Quando Francisco António morreu, o filho Gervásio, pai de Jéssica, pegou no negócio. A casa foi ganhando prestígio. Gervásio tornou-se uma figura acarinhada por todos. Há cinco anos sofreu um AVC. Jéssica tem 24 anos e é a mais nova das três irmãs, foi criada atrás do balcão e cresceu ao mesmo tempo que a fama da casa. Talvez por isso tenha sido ela a agarrar com mais naturalidade o negócio. "Temos de ajudar a família, temos de preservar."

Os dias e noites de grandes enchentes, em que chegam a servir uma média de 250 refeições, acontecem no verão. Por isso, Jéssica conseguiu manter os estudos. Licenciou-se em logística e fez um mestrado em gestão empresarial. A experiência que tinha a trabalhar no restaurante ajudou-a a perceber a teoria, o que aprendeu aplica no trabalho.

Jéssica diz que os clientes gostam da casa como está, modesta e tradicional. Mas se tivesse capital, ideias não lhe faltam para modernizar o espaço e criar atrativos para os jovens que ali passam as noites de verão. "Não é uma questão de estética, mas para ficar mais funcional. Os clientes estrangeiros querem outro tipo de serviço, procuram coisas mais recatadas. Fazer, por exemplo, uma piscina, um bar de apoio, para os miúdos ficarem em segurança mas terem onde ir à noite."

Na zona do café e do restaurante, é Jéssica quem comanda. Na cozinha é a mãe, Maria Eduarda. De lá saem para as mesas quilos e quilos de choco frito, choco de coentrada, tachinhos de massadas, frango assado e mistas de carne, muitas travessas de ovos rotos. No verão a irmã Delfina ajuda quando sai do trabalho. No inverno, o negócio cai drasticamente, são os trabalhadores da construção que vão almoçar o prato do dia, no máximo 20.

O verão de Jéssica é muito diferente do dos jovens que passam as noites na esplanada d"O Gervásio depois de um dia de sol e mar. Conformada, ela até diz que já não gosta assim tanto de praia. "Não vou lá há tanto tempo que nem me dá grande cobiça. Tenho convites para tudo, mas acontece tudo no verão."

Carlos Gomes: A cara da mercearia e o desejo de um restaurante

É uma frase feita, sim senhor, mas aqui aplica-se que nem uma luva: ir à Comporta e não visitar o minimercado Gomes é a mesma coisa que ir a Roma e não ver o Papa. Onde é que há um minimercado com o teto repleto de cestas, onde se pode comprar trufas ou tripas de vaca para enchidos? Onde a decoração passa por alfaias, selas de cavalos, armários da avó e fotos antigas? Onde ainda se pode comprar produtos tradicionais como a Farinha 33, Pasta Medicinal Couto e creme Benamôr ou louças Bordalo Pinheiro e onde nos perdemos de indecisão com tantos sabonetes artesanais? Isto para já não falar dos mais requintados produtos gourmet que de imediato nos transportam por viagens gastronómicas.

Carlos Gomes é o gerente deste minimercado, uma sociedade familiar que junta os pais e o irmão António. Mas é dele que vêm estas ideias de o tornar tão especial. "É a minha cara. Faço isto avançar à minha maneira."

As cestas no teto são uma tradição antiga que fez questão de manter. Ainda se lembra de em gaiato carregar bilhas de barro para o armazém que depois eram penduradas ao lado das cestas e dos chapéus de palha. Nessa altura, era a "cantina", a mercearia criada pela Atlantic Company, quando era dona da herdade, para servir sobretudo os trabalhadores. Os ingleses permitiam que levassem os avios para casa e o valor era depois descontado no salário.

O pai de Carlos, José Maria Gomes, era gerente das cantinas do Carvalhal e da Comporta, mas seria aqui que assentaria arraiais. Quando a herdade decidiu fechar as cantinas, foi-lhe proposto que abdicasse da indemnização e ficasse, com um sócio, dono da cantina e do talho. Mais tarde dividiram-se e a família de Carlos ficou com a cantina.

Quando deixa a escola, ainda sem completar o 9.º ano, Carlos começa a interessar-se pelo negócio e a gravar o seu cunho. "Comecei a tentar ter sempre aqui o melhor e a ter vontade de dar produtos de qualidade aos clientes. É o mais importante para qualquer negócio, vender produtos de primeira." E ao longo dos anos tem conseguido. A prova é que está sempre cheio. No verão os corredores estão repletos de clientes. Há quem vá lá de propósito para comprar certos produtos, há quem não resista a tirar fotografias... "É uma mercearia original. Quero manter o tradicional, mas acima de tudo pesquisar e procurar coisas fixes. Gosto de cozinhar e viajar, às vezes tento não entrar em muitos sítios porque tenho as minhas ideias e posso ser influenciado."

As viagens que Carlos faz pelo mundo têm-lhe aberto o espírito e são responsáveis por alguns produtos mais exóticos que vende. Quando esteve na Tailândia, por exemplo, comeu algo que adorou. Pesquisou, pesquisou, até encontrar aquele molho e trazê-lo para as suas prateleiras. Há anos comeu mamão na Jamaica e não descansou até tê--lo à venda. "Com a internet está tudo à mão de semear, só precisamos de pesquisar os fornecedores."

Mesmo que esteja quase sempre a abarrotar de gente, Carlos não pensa num espaço maior: "Não seria a mesma coisa, a alma desta casa acabava."

E se afirma de sorriso rasgado "isto é a minha vida", a verdade é que Carlos tinha um sonho: "Um sítio para dar a comer coisas frescas às pessoas, sem nada congelado." Este sonho está prestes a realizar-se. O restaurante Gomes, num antigo celeiro ao lado da mercearia, deve abrir em outubro. A ideia é manter um laço forte: "Não vai haver despensa. Quero produtos frescos todos os dias e a despensa é o minimercado."

Carlos é daquelas pessoas que estão sempre a sorrir, natural. É um profissional do atendimento personalizado, que procura oferecer o melhor aos clientes. Está satisfeito com o desenvolvimento da Comporta. "Em gaiato odiava isto. Era areia por todo o lado, a luz acabava porque era de gerador e no inverno não havia nada para fazer. Agora, têm-se feito coisas muito giras."

José Ribeira: O homem dos cavalos que realiza sonhos

Os Cavalos na Areia são das atividades mais glamorosas da Comporta. Que o diga Madonna. Desde que descobriu esta maravilha, e sempre que se desloca a Portugal, a pop star não dispensa ir até à cocheira onde José Ribeira torna sonhos realidade. Afinal, quem nunca sonhou andar de cavalo a chapinhar nas ondas de uma praia deserta?

Este é o projeto da vida de José Ribeira. Que diz, por brincadeira, que nasceu em cima de um cavalo. Fez muita coisa na vida, foi empresário, trabalhou no setor imobiliário... "Estudei pouco e montei muito..."

Aos 50 anos, depois de ter corrido mundo, é aliciado para este projeto. Mesmo que faça questão de dizer que nunca estrutura nada, que as coisas acontecem na sua vida porque sim, os Cavalos na Areia parecem ter-lhe trazido outra perspetiva. "Adoro este projeto, é a minha vida, é um projeto de grande responsabilidade. Já conheci o mundo todo e não quero sair daqui. Aqui é para morrer."

Desde criança que os pais passavam férias na Comporta. Eram amigos da família Espírito Santo e ficavam na casa grande, "o prédio". Catarina, que foi a sua ama, viria a ser governanta do prédio. A ligação à terra é, pois, antiga. Há sete anos que ali assentou arraiais, que a Comporta o adotou. Há sete anos que foi criado este projeto de atividades turísticas. E há sete anos que José Ribeira trabalha sem parar. Os Cavalos na Areia funcionam 365 dias por ano, sempre com o objetivo de fazer pessoas felizes, sobretudo aquelas que nunca montaram. O Natal e o Ano Novo, a par do verão, são as épocas mais fortes. Neste negócio, é a meteorologia que dita as restrições. "É uma vida tranquila, mas não temos férias há sete anos, isto retira muito de nós, exige muita responsabilidade, os cavalos são animais muito imprevisíveis."

Sempre a crescer, assim descreve o projeto que começou nos celeiros da Torre e agora se transformou numa cocheira de madeira sobre os arrozais. Começou com cinco cavalos, agora são 29. Maresia, Tomate, Rubio, Caipirinha, Eco, Dólar, Vento, Capuccino... Altivos na cocheira, magistrais quando atravessam os campos de arroz numa nuvem de poeira ou galopam na praia.

Os grupos que chegam da praia vêm satisfeitos, com a felicidade estampada no rosto. "Adoram, é a atividade da vida deles. A minha grande satisfação é agradar a pessoas que nunca montaram." Dumbo, o pónei, acompanha o grupo que regressa à cocheira. "Está cá há dois anos, é o nosso cão. Anda sempre connosco e se não vai fica lixado... toma banho, espoja-se na areia, escolhe os grupos que mais lhe agradam..."

Ler mais

Exclusivos

Premium

nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.

Premium

Rui Pedro Tendinha

O João. Outra vez, o João Salaviza...

Foi neste fim de semana. Um fim de semana em que o cinema português foi notícia e ninguém reparou. Entre ex-presidentes de futebol a serem presos e desmentidos de fake news, parece que a vitória de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, no Festival do Rio, e o anúncio da nomeação de Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, nos European Film Awards, não deixou o espaço mediático curioso.