Como as cidades estão a (tentar) combater o turismo excessivo

De Barcelona a Veneza, vários destinos idílicos assistem à revolta das populações contra o turismo de massas. O turismo sustentável entrou na agenda mas em Portugal ainda dá os primeiros passos.

Com a aprovação da nova lei sobre o alojamento local, que entre outras medidas permite às autarquias definirem quotas para os licenciamentos em zonas de maior procura e reforça também o poder de intervenção dos condomínios, Portugal ensaia uma primeira resposta aos efeitos colaterais de um setor fundamental para o país. Mas os desafios do turismo de massas, que estão a gerar reflexão em vários destinos de eleição do planeta, sobretudo na Europa, são variados, ainda que com um denominador comum: o choque entre os visitantes e a qualidade de vida das populações residentes.

Um dos problemas mais citados, muitas vezes associado ao investimento no alojamento local, é especulação imobiliária, que em Portugal se faz notar sobretudo em Lisboa e no Porto. Recentemente, a propósito de um encontro de autarcas no Reino Unido, os presidentes da Câmara de Barcelona, Ada Colau, e de Londres, Sadiq Khan, publicaram uma carta conjunta no The Guardian onde desafiam os poderes centrais a tomarem medidas que façam dos cidadãos uma prioridade no acesso à habitação. "As cidades não são apenas uma coleção de edifícios, ruas e praças. Também são a soma da sua gente"", defenderam.

Tomar banho na famosa fonte de Treviso, por exemplo, pode valer até 500 euros de sanção.

Este manifesto ecoa o descontentamento de populações que, em vários pontos da Europa, começam a sentir como uma ameaça o que antes era geralmente encarado como uma benesse. E a reagir em consonância.

Barcelona - apesar do forte peso que o setor tem na sua economia - tem assistido nos últimos anos a um crescente ressentimento da população local contra os turistas. Quem passeia pelas ruas da capital catalã tem boas probabilidades de se deparar com grafitis nas paredes comparando turistas a terroristas ou mesmo questionado: "Se lhe chamam época turística, porque não podemos disparar contra eles?". Grupos de insatisfeitos mais radicais, como o Arran, já chegaram a tomar de assalto autocarros turísticos ou a acorrentarem-se a monumentos icónicos da cidade.

Controlar para evitar o choque

A cidade de Gaudi foi uma das primeiras a implementar um sistema de quotas nos licenciamentos para o alojamento local, suspendendo por completo o aumento da oferta em determinados bairros. Uma medida que atualmente é também uma realidade em Londres, Amesterdão e Paris ou, do outro lado do Atlântico, na cidade de Nova Iorque. Mas no caso de Barcelona não bastou para acalmar as populações, pelo que foram ensaiadas outras medidas, como a interdição dos passeios de segway e de scooters elétricas (por cá são os famosos tuk-tuk) no centro histórico e junto às praias. O certo é que o Arran já prometeu novos protestos para este Verão.

Um pouco por toda a Europa, onde existe pressão turística significativa, tem aumentado também a pressão sobre os poderes políticos para que sejam tomadas medidas. Mas as respostas, com exceção do ordenamento dos alojamentos locais, têm surgido de uma forma um pouco avulsa, à medida de protestos específicos.

O turismo representa já mais de 10% do Produto Interno Bruto global e suporta perto de 300 milhões de postos de trabalho

Em Roma, as multas por atitudes consideradas imprórias junto a monumentos podem chegar a várias centenas de euros. Tomar banho na famosa fonte de Treviso, por exemplo, pode valer até 500 euros de sanção. Em algumas cidades croatas os turistas podem ser multados por comerem e beberem em público ou por se passearem de fato de banho no centro histórico. Ainda em Espanha, nas Ilhas Baleares, as autoridades querem impedir o consumo de bebidas alcoólicas nos voos que chegam aos aeroportos locais, para prevenir distúrbios.

Reflexões mais aprofundadas - que partem do pressuposto de que o turismo representa já mais de 10% do Produto Interno Bruto global e suporta perto de 300 milhões de postos de trabalho - defendem em alternativa a evolução para um crescimento "sustentável" do setor. Por exemplo, num relatório de Dezembro de 2017, intitulado "Lidando com o sucesso: gerindo a sobrelotação em destinos turísticos", a consultora McKinsey propõe medidas no sentido de diluir, no tempo e no espaço, o impacto das entradas. Por exemplo, encorajando os turistas a visitarem os locais fora das épocas altas tradicionais e aliviando o impacto sobre as principais atrações desses destinos, promovendo - ou até criando - outros pontos de interesse.

A capital portuguesa registou, no ano passado, uma taxa de ocupação média de 80,5%, a segunda maior da Europa

Não funcionando essa abordagem, é provável que sejam tomadas medidas mais radicais. Em Veneza, cuja cidade histórica tem 60 mil habitantes mas recebe até 90 mil turistas diariamente, já se registaram manifestações de moradores neste ano, uma delas com mais de três mil participantes, e as autoridades locais estão a contemplar seriamente a hipótese de limitar as entradas de visitantes a um máximo de 70 mil por dia. Outras cidades europeias estudam faze ro mesmo, pelo menos no acesso a zonas históricas e determinados monumentos. Na Tailândia, já há praias interditas a turistas para mitigar o impacto ambiental deste setor.

Lisboa em crescimento constante

Estes problemas poderão parecer muitos distantes mas a recente controvérsia em torno do tema da habitação, sobretudo em Lisboa, mostra que os riscos de um crescimento desordenado do turismo não devem ser negligenciados em Portugal.

Lisboa, em particular, tem crescido constantemente. De acordo com o recentemente divulgado estudo "Atlas da Hotelaria", da consultora Deloitte, a capital portuguesa registou, no ano passado, uma taxa de ocupação média de 80,5%, a segunda maior da Europa, apenas abaixo de Amesterdão e à frente de destinos como Paris, Londres, Madrid e Barcelona.

Para este ano, de acordo com o mesmo estudo, está prevista a inauguração em Lisboa de 21 dos 49 novos hotéis projetados. Ainda assim, o setor do alojamento local não tem perdido força. Das 51 014 unidades registadas no país em 2017, representando 205 261 camas, 29% estavam em Lisboa, apenas abaixo de todo o Algarve (38%).

Em 2017, disparou também o número de unidades de alojamento local no país. No total, existem 51.014 unidades de alojamento local, que representam 205.261 camas. O Algarve concentra a maior fatia (38%) da oferta disponível, seguida de Lisboa (29%).

Ou seja: ainda que não assista a uma contestação muito visível aos excessos do turismo, e ainda que as medidas de controlo - como a interdição de autocarros com mais de oito lugares entre a Sé e o Castelo - sejam muito raras, a capital portuguesa já se debate atualmente com uma pressão, em termos de entradas, superior á de muitas cidades onde a revolta das populações já é uma realidade.

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