Carlos Moedas: "É preciso explicar a ciência de forma que as pessoas percebam"

Na antevisão do programa Horizonte Europa, que destina 100 mil milhões para a investigação e inovação científica, o comissário português disse que "é necessário explicar e conectar as pessoas com aquilo que é feito".

Uma ciência com capacidade de inovar sem barreiras, sem que fique confinada a uma comunicação fechada e seja antes um elo de ligação ao cidadão, às empresas e ao mundo. Carlos Moedas resumiu em traços gerais o novo pacote para ciência e inovação na União Europeia, o Horizonte Europa, a vigorar de 2021 e 2027, com a abertura da ciência europeia a ser um foco essencial. "É preciso explicar a ciência de forma que as pessoas percebam", disse o comissário europeu na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto onde participou numa antevisão do que será este programa que prevê um investimento de 100 mil milhões durante os sete anos.

"O Horizonte Europa é a abertura ao mundo", definiu, explicando que é necessário passar a mensagem que este orçamento "é a Europa, é o dinheiro dos contribuintes, somos nós". Carlos Moedas salientou que "é através da ciência e da inovação que podemos construir uma Europa melhor", com o Horizonte Europa, ainda por fechar mas já aprovado pelas instituições europeias (Comissão, Conselho e Parlamento), a ser um programa importante dividido em três pilares e que pretende ser ainda mais ambicioso que o "bem sucedido" Horizonte 2020 em curso.

O primeiro dos pilares aposta numa "ciência aberta", na área da investigação. Pretende obter "um paradigma diferente, manter a direção atual com o acesso gratuito às publicações científicas", frisou o comissário europeu. Mantém o Conselho Europeu de Investigação e pretende o reforço da liderança científica da Europa.

"Explicar de maneira que as pessoas percebam"

Carlos Moedas deu o exemplo dos EUA, "com a sua capacidade de vender o que fazem, o que gera logo mais influência mundial", em contraste com os "europeus, que têm demasiada humildade". Por isso, pediu para os cientistas da UE serem "mais assertivos" e para "explicarem de maneira que as pessoas percebam". No fundo, "não fazer mais pela ciência mas sim pelo financiamento", numa relação mais próxima com o cidadão. Neste pilar o investimento sobe de 13 mil milhões para 17 mil milhões.

No segundo pilar surgem as missões como novidade, divididas em cinco áreas, em se procura dar resposta aos desafios globais: saúde, segurança, indústria e digital, clima, energia e mobilidade, e alimentação e recursos naturais. Tem o maior orçamento, 52,7 mil milhões de euros, e "o grande desafio de ajudar as pessoas". Deu o exemplo da saúde em que o cancro surge como uma das missões mas apenas por ser "uma tradução numa linguagem que as pessoas percebam". É "boa para a saúde em geral" e para criar a perceção no cidadão que é útil.

Na inovação, o terceiro pilar, há uma das novidades com a criação do Conselho Europeu de Inovação. Numa Europa que "dá uma liberdade enorme aos cientistas, sem impor nada aos inovadores", Carlos Moedas refere que o novo conselho pretende ser uma base para os inovadores, até aqui um pouco perdidos no contacto com demasiados organismos. Irá ter um grupo alargado de avaliadores de projetos e o comissário português incentivou os cientistas portugueses a candidatarem-se a estes lugares.

Insistindo na necessidade de uma comunicação mais eficaz, com "a capacidade de conseguir contar a história", Carlos Moedas recordou um encontro que teve nos Estados Unidos com o ator Alan Alda, que "na terceira fase da sua vida vai ajudar os cientistas a comunicar", com cursos e workshops de improvisação teatral para cientistas. "É uma boa experiência", avaliou, considerando ainda que hoje há "um ciclo de feedback que é essencial", em que a comunicação não pode ser apenas unilateral, do cientista para a sociedade, mas igualmente no sentido inverso, com a avaliação à inovação científica e a necessidade que o cidadão sente.

A iniciativa no Porto foi promovida pelo Gabinete Horizonte 2020 da FEUP, em colaboração com a Associação Magellan, para apresentar o próximo orçamento para o financiamento à Investigação e à Inovação, que estará operacional no próximo quadro financeiro plurianual de 2021 a 2027. Antes da intervenção de Moedas, Anabela Carvalho, em representação do Gabinete de Promoção do Programa-Quadro, fez um balanço sobre a evolução da participação portuguesa nos programas-quadro da Comissão Europeia. Seguiu-se uma mesa redonda que reuniu representantes de instituições e empresas.

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