China vai investigar cientista que anunciou primeiros bebés modificados geneticamente

Comunidade científica condena "insanidade" e fala em "Caixa de Pandora". A universidade ligada ao investigador já se demarcou da situação

He Jiankui, cientista da Southern University of Science and Technologya (SUSTech) da China, anunciou na passada segunda-feira a primeira "edição" genética de humanos conseguida com sucesso. A repercussão da novidade, ainda por confirmar, não demorou, e além de uma carta aberta 120 cientistas chineses a condenaram a "insanidade", a Comissão Nacional de Saúde da China vai "investigar seriamente" as declarações do cientista.

Em causa estão duas meninas gémeas cujo ADN o cientista terá conseguido manipular para que estas tivessem resistência ao VIH, algo que só acontece em menos de 1% da população mundial, estima-se. He Jiankui, segundo notícia avançada pela AP, terá recorrido a uma nova ferramenta chamada CRISPR-Cas9m tratando os embriões de sete casais em tratamentos de fertilidade. As gémeas em causa serão os primeiros bebés que resultam da experiência.

No entanto, entre comprovação científica e questões éticas, Comissão Nacional de Saúde da china já disse que vai "investigar seriamente e verificar" as declarações do cientista. A Comissão de Saúde e Planeamento Familiar da província de Shenzen, na China, também já disse que vai verificar o comité de ética e o processo de revisão do trabalho, segundo o ​​​​​​Guardian.

Também na sequência do anúncio da descoberta, 120 cientistas chinesas assinaram uma declaração conjunta em que condenam a "insanidade da situação" e pedem às autoridades que ajam e façam valer as leis para este tipo de procedimentos: "A Caixa de Pandora foi aberta, mas ainda temos uma hipótese de fechá-la antes que tudo se torne irreparável".

Entretanto, a própria universidade, a SUSTech, se distanciou das declarações de He Jiankui, afirmando que "a pesquisa foi feita fora dos terrenos da escola". Refere ainda o instituto de ensino que o trabalho é uma "violação séria de normas académicas e ética".

Até o hospital chinês ligado à suposta descoberta, situado também na província de Shenzhen, negou em comunicado qualquer envolvimento na situação. No seu site, a unidade hospitalar afirmou: "Nós opomo-nos firmemente a experiências genéticas que violem a ética e a moral humana". De acordo com a AFP, o hospital diz inclusivamente que a assinatura no documento que aprova a investigação poderá ser falsificado, pedindo também às autoridades que investiguem o caso.

Refere também o jornal britânico que um grupo de mais de 40 advogados pediram as autoridades para investigarem possíveis violações da lei. Isto porque a China, mesmo não tendo uma exclusão explícita do uso da edição genética em embriões, tem um guia ético feito por autoridades governamentais. Um grupo de 140 investigadores que trabalham apenas a questão do VIH também assinaram um comunicado contra a situação.

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