Os portugueses que querem combater incêndios a partir do espaço

Esta noite foi lançado um satélite que vai medir a direção dos ventos na atmosfera. Parte da tecnologia é de empresa portuguesa, que também quer observar em tempo real da progressão dos fogos florestais. Do espaço também se pode combater as chamas

Ricardo J. Rodrigues
© ESA

Dez, nove, oito, sete...

A contagem decrescente começou na noite de quarta-feira e, às 21h20, o Éolo descolou da base da Agência Espacial Europeia na Guiana Francesa para se instalar a 30 quilómetros da superfície da Terra. O satélite deve o nome ao deus dos ventos na mitologia grega - e isso é tudo menos uma coincidência. O dispositivo vai permitir medir velocidade e mudanças de direção do vento.

Seis, cinco, quatro...

É uma revolução para a compreensão do comportamento da circulação do ar na atmosfera. O que até aqui era analisado por balões meteorológicos pode agora ser lido com rigor e em tempo real. Duas empresas aeroespaciais portuguesas produziram tecnologia que vai ajudar a medir tudo isto - a Omnidea e a LusoSpace. Para esta última, que fabricou os dois magnetómetros (instrumentos de mapeamento do campo magnético da Terra), este é o primeiro passo para um projeto bem maior.

Três, dois, um...

A medição dos ventos em tempo real é o primeiro auxiliar. "O nosso objetivo agora é criar nos Açores um terminal de comunicações óticas, para criar uma rede global que transmita em tempo real informações sobre os fogos que acontecem na superfície da Terra", diz Ivo Yves Vieira, CEO da LusoSpace. Ou seja, se a partir do espaço se conseguir medir para onde sopra o vento a cada minuto, e ao mesmo tempo se for possível transmitir em direto o posicionamento do fogo, passa a ser possível gerir os meios de combate com um rigor sem precedentes.

Descolagem.

A partir da noite de quarta-feira, o Eólo entra em funcionamento. A empresa portuguesa também já está a trabalhar na criação de sistemas de comunicações por laser em vários satélites que estão prestes a viajar para o espaço. Falta uma central que receba as informações sobre o que se passa, para que se possa então perceber na Terra o que está a acontecer naquele preciso momento, através do olhar que vem de fora do planeta.

"Estamos a viver um momento extraordinário de crescimento de possibilidades nos negócios espaciais", diz Ivo Yves Vieira. Por isso, quando se fala da monitorização espacial dos fogos, a questão já não é se vai acontecer, é quando vai acontecer.

O mundo aeroespacial está a viver uma autêntica revolução e isso, para o CEO da LusoSpace, deve-se a um protagonista: Elon Musk. O patrão da Tesla lançou em 2002 a SpaceX com o objetivo de iniciar as viagens comerciais para o espaço e lançar as bases da colonização de Marte.

Nos últimos dez anos, a companhia enviou já uma série de foguetões para órbita, um deles foi inclusivamente à Estação Espacial Internacional - e agora a NASA admite autorizar as viagens tripuladas num curto espaço de tempo.

"A abertura a viagens mais baratas ao espaço está a permitir o aparecimento de novos atores no mercado. Estamos a viver um momento extraordinário", diz o Ivo Yves Vieira. A sua empresa é disso exemplo: desde a fundação, em 2002, tem crescido 30% ao ano. "Isto apesar de em Portugal as coisas estarem relativamente estagnadas. Se queremos entrar na corrida mundial, o tempo é agora."

O primeiro ponto a resolver, diz logo, é a formação. Apesar de existir um curso de Engenharia Aeroespacial no Instituto Superior Técnico, está muito virado para as questões da robótica, o que é apenas uma parte do mercado. "Temos engenheiros, mecânicos e físicos francamente talentosos. Mas, à falta de formação de base, somos obrigados a dá-la internamente na empresa. Devíamos agilizar mais as coisas, porque o potencial de crescimento neste momento é enorme."

O problema português é ser um país ainda institucional, opina, dependente do Estado. "Não quer dizer que o governo não esteja empenhado. Fala-se neste momento na criação de um Space Center na ilha de Santa Maria, Açores, que é bastante importante."

É aliás ali que a empresa planeia instalar o terminal de comunicações óticas, as tais que vão permitir monitorizar os fogos florestais.

Na próxima década, acredita Vieira, a corrida ao espaço vai acelerar. Desde que Portugal entrou na Agência Espacial Europeia, em 2002, o país contribuiu com recursos humanos e tecnologia de ponta para a exploração dos mundos que existem para além do planeta.

"Mas é preciso pensar agora além dos financiamentos governamentais, é preciso perceber as necessidades e os contributos que o mercado aeroespacial pode oferecer à humanidade e explorá-los. Já." As viagens comerciais já começaram. As turísticas estão prestes a arrancar. Há um projeto de colonização em Marte. E, daqui a menos de nada, é a partir do espaço que se vai gerir o combate à maior tragédia portuguesa das últimas décadas: os fogos florestais.