Manuel Heitor: "O ensino superior dá acesso a outras redes e pessoas"

Manuel Heitor, ministro do Ensino Superior, destaca a importância e as diferenças positivas para quem tem mais formação.

Pedro Sousa Tavares
Manuel Heitor, ministro do Ensino Superior.© António Cotrim/Lusa

Ter curso superior ainda é um fator de mobilidade social decisivo?

Sem dúvida nenhuma, ainda é e será, como em todas as sociedades. E há dois factos críticos, sobretudo quando consideramos a mobilidade social, que, como sabemos, está particularmente dependente dos níveis salariais. Em Portugal, quem tem formação superior, mesmo com os TeSP [cursos técnicos superiores profissionais], que não conferem grau académico, tem ao fim de cinco anos salários cerca de 70% superiores aos que não têm. De facto, sabemos que é um fator claro de mobilidade social, porque não há mobilidade social sem aumento do rendimento. Agora, há outras condições que vão para além dos níveis salariais. Sobretudo numa economia que é cada vez mais baseada no conhecimento e na capacidade de empreender...

... o ensino superior tem esse potencial de criar valor?

Hoje sabemos que todas as pequenas e médias empresas, nas startups, em todos os novos negócios, para quem tem aspirações a líder é muito difícil não ter um curso superior. Porque o curso superior dá-lhe acesso a outras redes, a outras pessoas. Não é apenas a formação técnica, o conhecimento: ao entrar no ensino superior tem-se acesso a outras redes. Estar em contacto com outras pessoas, que vêm de outros contextos nacionais e internacionais, é particularmente importante. O exemplo mais conhecido hoje é o papel do Erasmus. Os estudantes, ao participarem em mobilidades europeias, ficam com uma capacidade de se relacionarem e de empregabilidade (...) Costumo dizer que é um ciclo a três fases: começa-se a aprender, depois a apreender e finalmente a empreender. Isto é cada vez mais um fator de mobilidade social. As pessoas conseguem apreender e depois empreender, abrir as suas empresas.

Foi assim que se chegou a grandes empresas nascidas de startups, unicórnios como a Farfetch?

Exatamente. São pessoas que aprenderam, que depois estiveram de alguma forma envolvidas em atividades e em investigação, o que lhes deu a oportunidade de empreender, e que depois transformaram aquilo num negócio. Isto não passa apenas por ir a umas aulas: é preciso muita formação, ter contacto com pessoas de diversas áreas. Esta capacidade de aprender para não ser apenas um empregado. Por isso digo que não é apenas uma questão de salário.

Mas continuamos a ter uma franja da população que não chega ao superior. O que se pode fazer para cativar mais e novos alunos?

Pode fazer-se muito e é preciso persistir e insistir. Uma das apostas ganhas foram as formações curtas. A introdução das formações curtas, primeiro com os CEF [cursos de especialização tecnológica], em 2007, depois transformadas em TeSP, que entretanto passaram a ser formações de nível superior, mostram como se pode abrir o ensino superior. E neste ano esperamos números significativos de matrículas nesses cursos. Hoje, temos quatro em cada dez jovens de 20 anos a participarem no ensino superior e a forma de até 2030 chegarmos a seis em cada dez tem de ser através de formações curtas.

E quem já saiu do sistema de ensino sem chegar ao superior?

Temos sensivelmente 120 mil miúdos com 18 anos. Destes, 50 mil estão em licenciaturas. Temos cerca de dez mil, em números redondos, nas formações curtas. Depois, há cerca de 35 mil que já acabaram o ensino secundário e estão no mercado de trabalho. Outros 35 mil que nem sequer acabaram o secundário. Temos de captar mais alunos, sobretudo trabalhando em conjunto com os empregadores. Em muitos países, os alunos vão estudar mais tarde. Um relatório da OCDE, divulgado em julho, mostra que uma das coisas que diferenciam Portugal é que os alunos entram cedo e saem cedo no ensino superior. A formação ao longo da vida será também, cada vez mais, um fator de mobilidade social.