Novas descobertas arqueológicas podem reescrever história da Amazónia

A descoberta de geoglifos no estado brasileiro do Acre, figuras construídas em encostas ou planícies, reforçam a ideia de que habitavam na região povos indígenas, 2500 antes da chegada dos europeus

Susete Henriques
Amazónia, Brasil© REUTERS/Bruno Kelly

Novos geoglifos descobertos no estado brasileiro do Acre reforçam a ideia de que havia uma numerosa população milenar e hierarquizada na Amazónia 2500 anos antes da chegada dos europeus, dados estes que podem "reescrever" a história da região.

"A Amazónia era estudada como tendo um passado inóspito, uma região com pouca população e estas estruturas arqueológicas que estamos a ver aqui demonstram o contrário", disse à agência de notícias espanhola EFE Ivandra Rampanelli, arqueóloga com mestrado e doutorado em pré-história e responsável pela mais recente descoberta de geoglifos no Acre.

Para a investigadora, as escavações indicam que "poderia ter sido uma população densa, grande, organizada e hierarquizada e isso está a reescrever a história da Amazónia como um todo, está a mudar o que antes era visto como um território vazio".

Os geoglifos são figuras construídas em encostas ou planícies, utilizando a técnica de adição de terra ou pedras, com tonalidades escuras de origem vulcânica de forma a criar um mosaico.

Os investigadores descobriram nos últimos anos um total de 523 geoglifos no estado do Acre, que faz fronteira com a Bolívia e o Peru, país onde se localiza o famoso geoglifo de Nazca.

Segundo Ivandra Rampanelli, a responsável pelas escavações mais recentes, os novos "desenhos na terra" descobertos na planície de Acre estão associados a rituais dos povos indígenas que habitavam a região antes da chegada dos europeus.

As primeiras descobertas datam de 1977, segundo a especialista brasileira, quando investigadores locais encontraram oito áreas arqueológicas.

Apesar de um trabalho contínuo posterior, foi somente a partir de 2005 que um estudo sistemático destes locais avançou, nomeadamente com a ajuda de ferramentas diferenciadas como os satélites.

Os dois novos geoglifos estão localizados na região de selva da reserva Chico Mendes, no Acre, sendo que um deles é um círculo que tem noventa metros de diâmetro e cerca de quatro metros de profundidade

A mais recente descoberta na Amazónia ocorreu em outubro do ano passado, numa investigação coordenada por Ivandra Ramapanelli, do Instituto do Património Histórico do Acre, e com a participação dos espanhóis Agustin Diaz Castillo, da Universidade de Valência.

Em julho, os primeiros resultados da descoberta começaram a ser relatados.

Para Rampanelli, por estarem no meio da vegetação estes geoglifos estão melhor preservados "do que aqueles em áreas privadas e que hoje servem de pasto para o gado".

"Nas escavações futuras poderemos encontrar material que permanece bem preservado e estudos de inventário botânico, inventário florestal, estudos do solo, porque estão melhor preservados do que outras áreas abertas (...)", acrescentou.

Os dois novos geoglifos estão localizados na região de selva da reserva Chico Mendes, no Acre, sendo que um deles é um círculo que tem noventa metros de diâmetro e cerca de quatro metros de profundidade.

Uma expedição arqueológica britânica descobriu 81 aldeias deste tipo no estado brasileiro de Mato Grosso (oeste), com vestígios de cerâmica e ferramentas de povos antigos

A região amazónica do Brasil e da Bolívia tem mais de 800 geoglifos, dos quais 523 estão no Acre, um dos estados brasileiros mais pobres.

Recentemente também uma expedição arqueológica britânica descobriu 81 aldeias deste tipo no estado brasileiro de Mato Grosso (oeste), com vestígios de cerâmica e ferramentas de povos antigos.