Eventos climáticos em cadeia podem transformar planeta numa estufa

Vagas de calor extremo como a dos últimos dias - e as catástrofes a elas associadas - poderão tornar-se cada vez mais frequentes, alerta um grupo de cientistas da Alemanha, Suécia, Dinamarca e Austrália num artigo publicado no jornal da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos

Patrícia Viegas
Icebergue que no início de julho deste ano se aproximou da localidade de Innaarsuit na Gronelândia | foto Reuters
Pinguim num icebergue no Yankee Harbour na Antártica | foto Reuters/Alexandre Meneghini/File Photo

É um estudo novo, vem dos Estados Unidos, país que se retirou dos Acordos de Paris sobre o Clima por ordem do seu próprio presidente e mostra, mais uma vez, que a velocidade dos tempos da natureza não se compadece com a dos tempos da política.

Segundo um artigo que um grupo de cientistas internacionais publicou no jornal da Academia Nacional de Ciência dos EUA, com o título "Trajectories of the Earth System in the Anthropocene", ou seja, "Trajetórias do Sistema Terrestre no Antropoceno", uma sucessão de eventos como degelo, aquecimento dos oceanos, correntes instáveis e florestas moribundas poderá transformar o Planeta Terra num espécie de estufa e nem os esforços humanos para reduzir as emissões de CO2 terão impacto.

Os cientistas, da Alemanha, Suécia, Dinamarca e Austrália, tiveram em consideração uma interação e uma combinação de 10 processos de alterações climáticas, como, por exemplo, a libertação de metano no permafrost da Sibéria e o impacto do degelo na Gronelândia. No dia 12 de julho, um icebergue do tamanho de uma montanha aproximou-se de Innaarsuit, na costa oeste da Gronelândia. Causou o pânico. Os moradores foram retirados de casa. Em junho do ano passado pelo menos quatro pessoas morreram na sequência de ondas provocadas pelo desprendimento de um icebergue no noroeste da Gronelândia.

Assim, o que dizem estes cientistas, tal como já têm vindo a dizer outros, mesmo que o mundo cumpra o que está no Acordo de Paris, manter o aumento da temperatura média global abaixo dos 2ºC em relação aos níveis da era pré-industrial e limitar o aumento a 1,5ºC, isso poderá já não ser suficiente. O referido efeito dominó, dizem, poderia mesmo fazer subir as temperaturas até 5ºC.

O nível das águas do mar, alerta aquele artigo, poderia subir entre 10 e 60 metros, inundando várias ilhas e cidades costeiras, tais como Veneza (Itália), Nova Iorque (EUA), Tóquio (Japão) e Sidney (Austrália). Estas zonas teriam que ser evacuadas e deixariam de poder ser habitadas. Os cientistas avisam que a trajetória para um planeta estufa iria "certamente inundar ambientes deltaicos, aumentar o risco de tempestades costeiras com efeito destruidor e eliminar recifes de coral até ao final deste século ou até antes".

"Espero que estejamos errados. Mas como cientistas temos a responsabilidade de explorar se isto é real. Precisamos saber. É urgente. Esta é uma das questões mais existenciais da ciência", disse, citado pelo Guardian, Johan Rockström, diretor executivo do Resilience Stockholm Centre, instituto independente de investigação, especializado em desenvolvimento sustentável. Rockström é um dos autores do artigo publicado esta segunda-feira no jornal da Academia Nacional de Ciência dos EUA.

O impacto das alterações climáticas levou a conceituada revista Economist a fazer, esta semana, capa com o tema. A ilustrá-lo, uma fotografia de incêndios, o antetítulo "Na linha do fogo" e o título "O mundo está a perder a guerra contra as alterações climáticas".

No texto da publicação britânica lê-se: "A Terra está a arder em lume brando. De Seattle à Sibéria, este verão as chamas consumiram parcelas do hemisfério norte. Um dos 18 fogos que varrem a Califórnia, um dos piores da sua história, está a gerar um calor tal que criou uma espécie de microclima. Os fogos que varreram a zona costeira de Atenas mataram 91 pessoas. Noutras partes as pessoas sufocam com o calor. 125 morreram com o calor no Japão em resultado da onda de calor que elevaram as temperaturas em Tóquio pela primeira vez acima dos 40ºC".