Estudar nas férias compensa. Mas não compre guerras desnecessárias

Notas tendem a baixar no 1.º período devido à falta de rotinas e há estudos que indicam a perda de conhecimentos nas férias grandes. Mas Daniel Sampaio defende ao DN que nem sempre compensa exigir trabalho no verão

Pedro Sousa Tavares
Pais e sindicatos defendem que escolas devem ter mais autonomia© Fernando Pereira/global Imagens

Passar três meses sem pegar em manuais ou cadernos pode ser a concretização dos sonhos da maioria dos estudantes. Mas não é necessariamente o melhor para eles. Em 2011, a Rand Corporation, um poderoso think tank norte-americano, fez um estudo - ao qual têm sido dadas várias sequências ao longo dos anos - que revelou que a falta de trabalho escolar durante as férias grandes tem efeitos negativos cumulativos nos níveis de conhecimento. Sobretudo na matemática e na leitura, em que a perda de memória pode equivaler a um mês de trabalho por ano. E particularmente no grupo de estudantes oriundos de meios socioeconómicos mais desfavorecidos.

Mas significa isso que todos os pais devem exigir aos filhos que dediquem dias ou horas de trabalho ao estudo nos meses de verão? Nem sempre, defende ao DN o psiquiatra Daniel Sampaio, para quem cada caso é um caso. "Esse trabalho só deve ser feito com estudantes que tiveram dificuldades no ano letivo que passou", considera. "Se foram identificadas dificuldades, sobretudo nas disciplinas fundamentais - o Português, a Matemática, o Inglês - então deve fazer-se algum trabalho nas férias. Por um tempo reduzido mas vale a pena fazer algum trabalho", diz.

Já em relação aos alunos que "fizeram bem o seu trabalho", não apresentando dificuldades, o psiquiatra considera que a exigência de estudo suplementar nas férias pode ter mais efeitos negativos do que benefícios: "Normalmente, o que dá é origem a conflitos familiares", conta. "Vai estudar", "Não, porque estou de férias", "Deves estudar uma hora ou duas por dia"...

Para o psiquiatra, especializado no trabalho com adolescentes e adultos novos, "sobretudo hoje em dia, os jovens nas férias estão muito focados na sua vida social, na diversão. E deve ser-lhes dado esse espaço. Se trabalharam bem ao longo do ano, não há motivo para que não o tenham", insiste.

Nos Estados Unidos, o estudo da Rand resultou em recomendações de que a chamada Summer School (escola de verão), um reforço pedagógico oferecido nas férias, evolua do paradigma atual, em que se concentra na recuperação dos alunos com dificuldades, para a generalização a todos os estudantes. Mas, também por lá, a ideia não gerou consensos, com alguns especialistas a defenderem que, em vez de se aumentar a carga letiva de forma generalizada, as próprias escolas devem definir planos específicos para o regresso às aulas que permitam debelar as perdas de conhecimentos.

Em Portugal não existe tradição deste tipo de oferta pelas escolas. O mais próximo que se chegou desse modelo foram os planos de recuperação introduzidos há alguns anos pelo ministro Nuno Crato. Mas apenas para alunos do 1.º ciclo que tinham obtido negativas nas provas finais (entretanto extintas) que punham em causa a transição de ano. O atual governo criou um sistema de apoios tutorais, para alunos com duas ou mais retenções no currículo. Mas estes concentram-se no período normal de atividades letivas.

Em Portugal não existe a tradição de oferecer aulas suplementares nas férias grandes

Replicar no país o modelo das summer schools não seria fácil. Provavelmente implicaria repensar toda a organização do ano escolar. É que, apesar de terem dos períodos de férias grandes mais longos, os alunos portugueses também estão entre aqueles que, na OCDE, mais carga letiva têm ao longo do ano.

No entanto, a ausência de ofertas formais não significa que muitos pais - pelo menos aqueles que têm meios para o fazer - não estejam já a procurar soluções para evitar que os filhos percam o fio à meada. Soluções que encontram muitas vezes nos particulares.

"Não é um 'boom' mas há uma clara preocupação de que os alunos não fiquem tanto tempo parados em trabalhar", conta ao DN José Carlos Ramos, diretor e fundador de um dos maiores grupos de centros de explicações do país. "Por norma, as notas do 1.º período são sempre as piores do ano letivo. Os primeiros testes são sempre maus. E isso tem a ver com o arranque, com estarem três meses parados".

Por norma, é "no início de setembro" que aumenta a procura dos centros de explicações, que têm já planos de estudos específicos para estes alunos. "Normalmente, tendo em conta o número de horas adquiridas pelos pais, preparamos uma quinzena de revisões da matéria do ano letivo anterior".

Também há, confirma, alguns pais que procuram os centros com a intenção de anteciparem matérias do ano letivo seguinte, com o objetivo de darem aos filhos uma vantagem. Mas essa, diz, é uma abordagem que os explicadores evitam. "É muito complicado em setembro começar a antecipar. Até porque muitas vezes as matérias são encadeadas. Preferimos rever a última matéria a estarmos a sobrepor-nos aos professores: pedagogicamente não é muito correto. Pode gerar confusões com o ritmo escolar", considera.