Enviar e-mails de trabalho nos transportes públicos devia ser pago?

Existência de redes Wi-Fi a bordo e massificação dos dispositivos móveis têm permitido adiantar trabalho a caminho do escritório e no regresso a casa. Ingleses sugerem que isso passe a ser remunerado

Filipe Garcia
© REUTERS/Mike Segar

Um estudo desenvolvido pela Universidade do Oeste de Inglaterra e divulgado na última quinta-feira na Sociedade Geográfica Real britânica defende que o uso do e-mail profissional nos transportes públicos deveria ser contabilizado como trabalho remunerado. Esta é uma atividade que tem sido facilitada pela existência de Wi-Fi a bordo e pela massificação dos dispositivos móveis.

No total foram inquiridos cinco mil passageiros dos comboios que fazem as ligações Londres - Birmingham e Londres - Aylesbury.​​​​​ Os resultados indicaram que cerca de 54% dos passageiros usam o Wi-Fi das carruagens para enviar e-mails, enquanto os restantes 46% recorrem aos seus dados móveis.

A caminho do trabalho opta-se por se manter atualizado através de mensagens enviadas no dia anterior, enquanto no regresso a casa a tendência é acabar o trabalho que não foi feito durante o expediente. Em consequência, gera-se um prolongamento do horário de trabalho e os pais trocam os papéis do ambiente familiar para um contexto profissional.

"Eu sou uma mãe ocupada e confio nesse tempo. É muito importante para a minha sanidade ter o trabalho feito no comboio", disse à BBC uma passageira da rota Aylesbury - Londres.

"De qualquer forma é um tempo morto, o que me permite terminar as coisas e não trabalhar à noite", explicou um passageiro do percurso Londres - Birmingham.

De acordo com a investigadora Juliet Jain, do Centro para os Transportes e Sociedade da Universidade do Oeste de Inglaterra, os dispositivos móveis e o acesso à Internet têm provocado uma "indefinição de fronteiras" entre o trabalho e a vida familiar, e isso tem sido verificado nas viagens para o trabalho.

Ainda segundo a mesma especialista, caso os tempos de viagem fossem contabilizados como horas de trabalho, tal implicaria impactos sociais e económicos, bem como implicações para as companhias ferroviárias, que teriam de dotar os comboios com mais mesas, energia, espaço e melhores ligações à Internet, pelo que iria ser necessário um investimento por parte das companhias ferroviárias e dos operadores de telecomunicações.

Isso também podia fazer com que as empresas reforçassem a vigilância e a prestação de contas dos trabalhadores acerca do tempo que demoram até chegarem às suas secretárias.

"Esta flexibilidade crescente tem o potencial de mudar radicalmente o equilíbrio entre o trabalho e a vida, mas isso também abre portas para o stress e uma redução na produtividade. Com o conceito de acertar o relógio e não fechar mais, definir onde começa o lazer e o trabalho acaba por ser fundamental tanto para os empregados como para os indivíduos, para além de ser uma tarefa complexa para os reguladores", disse Jamie Kerr, do Instituto de Diretores.