Cientistas pensavam que seria a "última área de gelo" do Ártico. Quebrou este ano

Cientistas mostram-se assustados e surpreendidos com a situação, num local que não se esperava. Situação pode transformar bastante o clima, não só do Ártico, como em todo o planeta

Rui Salvador
© Reuters

Pela primeira vez desde que há registo através de satélite, o que começou a acontecer nos anos 70 do século passado, o gelo mais velho e mais espesso do Ártico está a quebrar-se e estão a surgir novas passagens em sítios que estariam normalmente congelados, até no verão. O fenómeno está a acontecer a norte da costa da Gronelândia e é já a segunda vez que acontece este ano.

Mesmo com a temperatura a subir em todo o planeta, esperava-se que a referida zona não quebrasse tão depressa, algo desmentido por imagens de satélite. "Esta área era vista como um último bastião e onde as alterações aconteceriam em último lugar, mas elas chegaram", disse à CNN Walt Meier, investigador do National Snow and Ice Data Center.

O gelo encontrado a norte da Gronelândia é particularmente compacto devido a um fenómeno meteorológico que o traz da Sibéria e que faz com que se acumule na costa da referida região.

"O gelo não tem para onde ir e acumula-se. Em média, tem quatro metros de espessura e pode chegar a montanhas de 20 metros. Este gelo, compactado e grosso, não é fácil de ser movido", diz também Meier, que acrescenta que o fenómeno indica uma transformação "dramática" do gelo do mar do Ártico e do seu clima. Admite, também, que a zona é "mais frágil do que previamente se pensava".

Ao The Guardian, Ruth Mottram, do Instituto Dinamarquês de Meteorologia, refere que não é normal existirem "águas abertas na costa norte da Gronelândia" e que a área é apelidada várias vezes de "a última área de gelo". Assim, refere também Mottram, o fenómeno que acontece agora pode sugerir que essa área estará mais a oeste.

"Assustador" foi o adjetivo utilizado por Thomas Lavergne, cientista no Instituto Norueguês de Meteorologia, que frisa: "Não consigo dizer quanto tempo este caminho de água ficará aberto, mas mesmo que feche em dias, o mal estará feito. O grosso e velho gelo já foi empurrado para longe da costa, para uma área onde derreterá mais facilmente".

Outro especialista, Keld Qvistgaard, de uma autoridade da Gronelândia, diz que está na área "há 26 anos" e não se lembra de uma "quebra tão grande".

A perda de gelo no mar tem consequências graves no clima do planeta, até porque, quando derrete, ao invés de refletir a luz solar, esta é absorvida pelo mar, aquecendo a água e o ar envolvente, gerando um ciclo.​​​