Alunos de Medicina já estudam para 2019. Plataforma resume aulas em 115 vídeos

Tomás Pessoa e Costa teve nota máxima em 2016. No ano passado, criou uma plataforma digital para apoiar estudantes que vão fazer a prova em 2019. Neste momento, tem mais de 150 alunos inscritos já a estudar

Aos 27 anos, Tomás é médico e faz a especialidade que escolheu em primeiro lugar. De outra forma não poderia ser, ele foi um dos seis que a nível nacional conseguiram tirar a nota máxima no Harrison: 100%. No ano passado, conta, "foi só uma aluna com 100%, mas houve uns 15 com 99%." Escolheu dermatologia, esteve indeciso. Pensou em ortopedia por estar muito ligado ao desporto de alta competição, mas agora acha que fez "a escolhe certa. Tenho muito mais perfil para esta especialidade. Não é só a prática clínica, investigamos muito, temos de fazer muitos artigos e publicações. Acho que tem mais a ver comigo", confessa.

Tomás está no serviço do Hospital dos Capuchos, do Centro Hospitalar Lisboa Central, a fazer o internato médico, mas gere ao mesmo tempo a plataforma digital que criou no final de 2018 com mais dois colegas. Já há várias empresas do estilo, mas Tomás diz que o site www.perguntasdaespecialidade.pté o primeiro já a trabalhar para a prova de 2019.

Neste momento, "não somos só três, era impossível com tanta matéria para tratar, já somos 53 e a maioria já a fazer a especialidade. E aquilo que temos feito é resumir a matéria dos oito livros que têm de ser estudados, detetar as contradições, fazer resumos e lançar perguntas. Já disponibilizámos 115 vídeos com resumos de aulas e mais de 400 perguntas com base em casos clínicos", explica.

Antes era só um livro para estudar, o Harrison, agora são mais por o exame abarcar outras áreas, como cirurgia, psiquiatria, pediatria, ginecologia-obstetrícia, etc.

Ao fim de um ano a plataforma conta com 800 subscritores, mais de 150 são estudantes que se preparam para a prova de 2019. Por isso, o teste piloto que decorrerá no próximo dia 23 em Lisboa, Porto, Coimbra, Braga e Covilhã, "irá ajudar bastante a perceber o que aí vem para nos adaptarmos mais ao exame".

Embora concorde que a Prova Nacional de Acesso à especialidade possa estar mais adequada aos tempos de hoje, Tomás sublinha que a fase que aí vem é de transição e "poderá ser um pouco ingrata." Porque, "em relação ao Harrison quem queria ter boa nota sabia o que tinha a fazer, havia muitos anos de experiência acumulada que ia sendo passada de alunos para alunos, em relação ao novo exame isso não acontece. Podemos ir vendo o que acontece em países como os Estados Unidos, Austrália e Espanha, que têm testes idênticos, mas não é a mesma coisa."

Tomás, jovem médico que quer ficar a trabalhar em Portugal, levou 15 meses a estudar para o Harrison. Primeiro eram cinco a seis horas por dia, depois, nos últimos quatro meses, oito, nove ou dez horas, mas nunca deixou de fazer o que gostava, como judo, de alta competição, e futebol. Aliás, esse é um dos conselhos que dá aos novos colegas. "Nunca deixei de fazer as atividades que tinha. O importante não é o número de horas que se estuda, mas se estudamos bem no tempo que temos. É preciso ter uma boa base de trabalho ao longo do ano, selecionar a matéria e fazer muitos testes, quase diariamente, para quando chegar o dia do exame este ser mais um e não um dia em que estamos a fazer algo que nunca fizemos," afirma ao DN dias antes do último exame Harrison, no dia 15.

Segundo o coordenador da Prova Nacional de Acesso, o médico Serafim Guimarães, o exame antigo cumpriu a sua missão durante 40 anos, mas tinha de haver uma mudança. Desde 2004, altura em que o Conselho Nacional do Internato Médico, alertou pela primeira vez para a necessidade de se fazer alterações no acesso à especialidade que outras vozes se juntaram a defender o mesmo, como Ordem dos Médicos, as escolas médicas e associações de estudantes. O Ministério da Saúde acabou por aceitar e, no ano passado, foi assinado um protocolo para se avançar com uma nova prova. O novo exame será à base de casos clínicos de forma a trabalhar mais o raciocínio e não tanto a memória, como acontecia com o Harrison.

Tomás Pessoa e Costa deu aulas durante quase dois anos nos cursos presenciais, agora ajuda os colegas através da plataforma que a sua empresa criou. "O nosso objetivo era facilitar ao máximo a vida aos alunos, daí o termos pensado em avançar com um projeto digital. Assim pode estudar-se em casa, no hospital, onde se quiser", sublinha.

Mas para aceder à plataforma é preciso subscrevê-la e pagar. "Tínhamos de ter forma de pagar aos formadores, mas a subscrição é muito mais barata do que a inscrição nos cursos presenciais, que rondam os 750 euros." De acordo com o que explicou ao DN, quem aceder à plataforma pode logo fazer um teste grátis e depois escolher o módulo que pretende subscrever, um ou mais ou o total, com os vídeos e as perguntas."

Por agora, diz, "dá-me muito prazer ter a minha empresa e poder ajudar os meus colegas, não é pelo dinheiro, nunca foi, porque ganhávamos muito mais a fazer domicílios ou urgências do que a estudar matérias, mas gostamos do contacto com os alunos."

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.