Abusos sexuais: Igreja tem de "deixar de lado qualquer hesitação"

Perpetradores dos abusos sexuais de menores devem ser entregues à justiça sem desculpas. Na abertura de encontro sobre abusos, cardeal filipino defende que bispos devem pôr de lado "qualquer hesitação" no tratamento deste tema.

Os perpetradores dos abusos sexuais de menores devem ser entregues à justiça sem desculpas, defendeu esta quinta-feira de manhã, no Vaticano, o cardeal filipino, Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, deixando de lado "qualquer hesitação" no tratamento deste tema.

"Em relação aos perpetradores, precisamos de servir a justiça, ajudá-los a encarar a verdade sem racionalização e, ao mesmo tempo, não negligenciar o seu mundo interior, as suas próprias feridas", disse, já quase a terminar a sua primeira intervenção no encontro histórico no Vaticano, convocado pelo Papa para discutir a "proteção de menores na Igreja".

O cardeal Tagle reconheceu que "o abuso de menores por ministros ordenados infligiu feridas não apenas às vítimas, mas também às suas famílias, ao clero, à Igreja, à sociedade em geral, aos próprios autores e aos bispos".

Para o também presidente da Caritas Internacional, de 61 anos, este facto não retira o peso dessas feridas terem sido "infligidas por nós, bispos, às vítimas".

"A nossa falta de resposta ao sofrimento das vítimas, até ao ponto de rejeitá-las e encobrir o escândalo para proteger os perpetradores e a instituição, prejudicou o nosso povo, deixando uma profunda ferida no nosso relacionamento com aqueles a quem somos enviados", admitiu Luis Antonio Tagle, que se referiu ao escândalo dos abusos como "o fedor da imundície infligida a crianças e pessoas vulneráveis", que os bispos "deveriam" ter protegido.

Do Chile, por exemplo, um dos países onde os abusos sexuais puseram em causa toda a estrutura eclesial, o porta-voz da Conferência Episcopal chilena, Jaime Corro, reconheceu, em entrevista ao jornal Sete Margens , que a Igreja Católica neste país sul-americano "sofreu uma perda de confiança, por parte dos cidadãos, nunca antes vista".

"As expressões de fé não se debilitaram e a participação nas missas e sacramentos não se reduziram de modo significativo. Mas apercebemo-nos de uma maior distância dos leigos em relação às figuras de autoridade, porque a origem do abuso sexual é o exercício abusivo da autoridade e a manipulação de consciência", afirmou o também secretário-geral adjunto do organismo que congrega os bispos chilenos.

Por isto, no Vaticano, o cardeal filipino questionou-se sobre como podem agora os crentes confiar numa proposta de "cura", que os bispos venham a propor, no final deste encontro, sublinhando que não podem continuar as falhas e as hesitações.

No discurso, Tagle notou que a Igreja precisa "deixar de lado qualquer hesitação" para se aproximar "das feridas do nosso povo", sem ter "medo" de também ela ficar ferida. "Sim, muitas das feridas que sofreremos fazem parte da restauração da memória a que nos devemos submeter", notou.

Para este cardeal, "assim que a justiça esteja servida" como pode a Igreja "ajudar as vítimas a curarem-se dos efeitos dos abusos". "A justiça é necessária, mas por si só não cura o coração humano partido. Se queremos servir as vítimas e todos os que estão feridos pela crise, precisamos levar a sério a sua ferida de ressentimento e dor e a necessidade de cura", ensaiou na resposta.

Luis Antonio Tagle recusou que esteja também a sugerir a desculpabilização dos abusos. "Antes mesmo de levantar a questão de pedir às vítimas que perdoem como parte da sua cura, devemos esclarecer que não estamos a sugerir que elas deveriam simplesmente deixar tudo para trás, desculpar o abuso, apenas seguir em frente. Não, longe disso."

Para o arcebispo de Manila, que defendeu "que o perdão é um caminho poderoso e até cientificamente apoiado para eliminar a dor, o ressentimento e [para] o coração humano". E completou: "Nós, como Igreja, devemos continuar a caminhar com aqueles profundamente feridos pelo abuso, construindo a confiança, fornecendo amor incondicional, e repetidamente pedindo perdão no pleno reconhecimento de que não merecemos esse perdão na ordem da justiça, mas só podemos recebê-lo quando é concedido como dom e graça no processo de cura", apontou.

O Papa Francisco chamou a Roma quase 200 responsáveis católicos para debater a proteção de menores na Igreja, pedindo já respostas concretas.

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