A mulher a quem o astronauta John Glenn entregou a vida fez 100 anos

Glenn disse ao diretor do Centro de Pesquisa de Langley que se os cálculos de Katherine Johnson confirmavam os do computador, então ele estava pronto para partir. E partiu. Foi o primeiro astronauta norte-americano a entrar em órbita da Terra. Johnson foi a primeira mulher da NASA a receber a medalha presidencial da Liberdade

Em White Sulphur Springs, uma pequena cidade no Estado da Virgínia, hoje com pouco mais de dois mil habitantes, ninguém poderia imaginar que naquela segunda-feira de 18 agosto de 1918 nasceria a mulher que os colocaria a todos na História dos Estados Unidos da América (EUA) e da Ciência Aeroespacial. Katherine Johnson, nascida com o apelido Coleman, começou aos dez anos a mostrar os seus dotes para os números e aos 18 forma-se com distinção em matemática e francês, na Universidade Estadual da Virgínia.

Foi a primeira mulher a fazê-lo, e a primeira afro-americana a ser selecionada para integrar um curso de pós-graduação na mesma faculdade, e ainda das primeiras a fazer parte da Ala Oeste da NASA. A ala que albergava outras tantas mulheres como ela, afro-americanas, licenciadas em matemática e física, que começaram a chegar ao Centro de Pesquisa de Langley, nas décadas de 1940 e 1950, mas que não podiam partilhar as salas de comando nem estar no mesmo edifício que funcionários que fossem homens ou mulheres brancas. Katherine chegou a Langley em 1953 e ajudou a colocar em órbita John Glenn, em 1962.

Esta mulher, de pequena estatura, franzina, sempre de sorriso no rosto, que casou duas vezes e teve três filhos, que este fim de semana foi homenageada pela NASA pelos seus 100 anos, pela sua genialidade, pelas suas tomadas de posição e também pelo seu exemplo de serenidade. A Universidade Estadual da Virgínia dedicou-lhe uma estátua de bronze, que seis netos inauguraram no domingo, e uma bolsa de estudo com o seu nome, e em nome de se ter revelado sempre como "um exemplo a seguir". Segundo anunciou a universidade, a bolsa beneficiará os estudantes que se especializarem nos campos da Ciência, Tecnologia, Engenharia ou Matemática, para ajudar indivíduos talentosos que estão sub-representados nesses campos.

Katherine já quase não dá entrevistas, uma das últimas que lhe é conhecida, data de 2010, mas esteve presente na cerimónia que a sua universidade lhe dedicou. A sua vida foi sempre fluindo com descrição, sempre pautada pela dedicação aos números, à ciência, à inovação, mas também ao papel da mulher e dos afro-americanos na sociedade civil.

A 2 de fevereiro de 2017, aceitou subir ao palco do Theatre Tolby, em Los Angeles, na cerimónia dos Óscares, junto das atrizes Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe, que desempenharam o papel de três mulheres afro-americanas na NASA, no filme Elementos Secretos. Johnson foi interpretada por Taraji, Vaughan por Octavia e Jackson por Janelle. Na altura, Taraji pediu ao público para dar as boas vindas a "uma verdadeira heroína". Jackson, de cadeira de rodas, sorriso simples no rosto, apenas proferiu duas palavras perante uma ovação estrondosa de pé: "Muito Obrigada." Nada mais. Bastava. A imagem de grande serenidade é mais um dos exemplos que deixa e referida por Taraji Henson, que chegou mesmo a dizer que não conseguiria ser como a sua personagem.

Uma serenidade que já antes manifestara, quando em 2015, recebeu das mãos do presidente Barack Obama a Medalha Presidencial da Liberdade dos EUA. Até hoje, é única mulher da NASA que recebeu tal honra. Em 2016, viu também o novo módulo do Centro de Pesquisa da NASA, dedicado à informática receber o seu nome. Foram 33 anos que Katherine Johnson dedicou à NASA, com cálculos que ajudaram em várias missões.

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