Identificado grupo desconhecido de humanos que viveu na Sibéria

Análises de ADN mostraram que antigos paleo-siberianos são os ancestrais das populações do norte da América

Análises ao ADN vieram fazer alguma luz sobre um enigma até hoje sem resposta: quem são os povos ancestrais das populações da América do Norte? Resposta que começa a ganhar forma, de acordo com um estudo da Nature agora publicado: um grupo de humanos até agora desconhecido.

"Em termos de povoamento das Américas estamos perto do elo perdido", afirmou Eske Willerslev, geneticista da universidade de Copenhaga e co-autor do trabalho publicado na Nature. "Não é o ancestral direto, mas está muito perto", acrescentou.

A tese mais aceite entre a comunidade científica defende que os primeiros humanos chegaram ao norte da América na última era glacial, há cerca de 14 500 anos, através de uma faixa de terra que então ligou a Sibéria ao Alasca, e que depois ficou submersa, no que é agora o estreito de Bering. Mas isso diz pouco sobre os antepassados dos nativos americanos que avançaram de um continente para o outro - os estudos realizados até agora, nomeadamente de ADN, não conseguiram estabelecer uma relação com o material genético de qualquer dos povos que habitam a região. Ou seja, os indígenas americanos não partilham os traços genéticos com os eurasiáticos.

Agora, os investigadores, da Universidade de Cambridge e de Copenhaga, fizeram uma análise ao ADN de dois dentes de leite humanos, do sexo masculino, com 31600 anos, encontrados por arqueólogos russos num sítio arqueológico na Sibéria denominado Yana. Escavado pela primeira vez em 2001, foi ali que surgiram as primeiras provas diretas de ocupação humana no nordeste da Sibéria (a região mais próxima do mar de Bering, que agora separa o território russo do Alasca), com a descoberta de ossos e ferramentas de pedra. Mas há indícios de que há 40 mil anos já havia populações ali fixadas, que combateriam as condições extremas através da caça de animais de grande porte, como os mamutes.

Comparado o material genético dos dois dentes com as populações conhecidas da Sibéria, os investigadores chegaram à conclusão que estavam perante um grupo até agora não identificado, que denominaram de antigos siberianos do norte, geneticamente distintos dos eurasiáticos ocidentais e dos asiáticos de leste. Mas ainda não são eles o elo perdido.

O puzzle completa-se com um fragmento de esqueleto com cerca de 9800 anos, encontrado num outro sítio arqueológico perto de Yana. O ADN identificado neste osso remonta, numa pequena fração, precisamente aos antigos siberianos do norte. Mas estes ter-se-ão misturado com asiáticos do leste que se movimentaram para norte que, a par de outras miscigenações, deram origem a um novo grupo, já geneticamente distinto dos antigos siberianos do norte, e que a equipa denominou como antigos paleo-siberianos. E neste caso sim, o ADN já é similar ao dos nativos americanos.

Willerslev estima que dois terços do material genético dos americanos do norte tenham como origem os antigos paleo-siberianos,."É a primeira evidência que temos, uma evidência concreta, de algo muito próximo geneticamente aos nativos americanos", afirmou o investigador.

Citado pelo The Guardian , John Hoffecker, da Universidade de Colorado Boulder (que não participou no estudo), saudou os resultados da pesquisa, sublinhando o facto de os seres humanos se terem adaptado às condições do nordeste da Sibéria há 30 mil anos. "Há 30 anos não fazíamos ideia que tínhamos uma população robusta e saudável de caçadores-recoletores, que prosperava no alto Ártico há 30 mil anos. É incrível".

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