"Estou apavorada". Quem é a mulher que diz que Ronaldo lhe pagou para calar violação

Tem 34 anos, é licenciada em jornalismo, jogou futebol e foi escuteira. Nascida e criada em Las Vegas, Kathryn Mayorga culpa o jogador português pela pior noite da sua vida. (Texto publicado originalmente a 3 de outubro de 2018)

"Ele é o deus do Futebol que toda a gente pensa que é perfeito e impecável. E há dias em que ela nem sai da cama. É errado". A afirmação é da mãe de Kathryn Mayorga, a mulher que acusa Cristiano Ronaldo de a ter violado num quarto de hotel em Las Vegas. O caso remonta a 2009, mas foi agora que decidiu falar pela primeira vez. À revista alemã Der Spiegel, Mayorga confessa: "Estou apavorada".

A norte-americana de 34 anos alega que o jogador português lhe pagou 375 mil dólares (322 mil euros) pelo seu silêncio, depois de terem chegado a acordo. O advogado de Mayorga apresentou queixa na semana passada num tribunal no estado de Nevada e a polícia de Las Vegas anunciou na segunda-feira que reabriu o caso da alegada violação. Cristiano Ronaldo nega as acusações e afirma que o sexo foi consensual.

Mas quem é Kathryn Mayorga? Tinha 25 anos quando se cruzou com Cristiano Ronaldo num clube noturno de Las Vegas, naquela que considera ter sido a pior noite da sua vida. Na altura queria ser modelo e trabalhava em bares: o seu trabalho era angariar clientes.

Licenciada em jornalismo pela Universidade de Nevada, casou-se em 2008 com o namorado, um albanês que trabalhava como barman e fazia reparação de computadores. O casamento durou um ano e voltou para a casa dos pais num dos melhores bairros de Las Vegas, com piscina e vista sobre a cidade. Hoje é professora primária.

Jogou futebol e foi escuteira

Nascida e criada em Las Vegas, Kathryn é filha de um bombeiro reformado. "Somos apenas pessoas simples", afirmou a mãe à revista alemã Der Spiegel, Cheryl Mayorga, que acompanhou a filha durante a entrevista. "Apoiamo-la a 100%". Um apoio que recebe também do pai e do irmão.

Jogou softball, futebol e foi escuteira. A mãe conta que Kathryn sofre de défice de atenção e que por essa razão a escola foi difícil devido aos problemas de aprendizagem, o que a levava a falar muito depressa.

Na altura em que conheceu Cristiano Ronaldo, a 12 de junho de 2009, conta que "trabalhava todos os dias, comia comida vegetariana e fazia muita coisa como modelo". Para o português, aquele foi um ano importante: protagonizou a transferência mais cara de sempre no futebol até então, que envolveu cerca de 100 milhões de euros, ao trocar o Manchester United pelo Real Madrid.

Kathryn Mayorga, que a Der Spiegel descreve como sendo "delgada, cabelo escuro e olhos verdes", estava trabalhar no bar Rain, que pertence ao Palms Casino Resort, quando conheceu o agora jogador da Juventus. Devido ao seu trabalho, explica, tentaram descredibilizá-la quando quis apresentar queixa. "Tentaram dizer: "Bem, o emprego que tens não é um emprego de uma rapariga decente'".

"Ele implorou-me para tocar no seu pénis por 30 segundos"

Foi na área VIP do espaço noturno que os dois conversaram. Conta que Ronaldo a apresentou aos amigos com quem estava, um deles o cunhado, e lhe pediu o número de telefone. Ela deu e ele foi-se embora, relata. Mais tarde recorda que recebeu uma mensagem de texto no telemóvel em que Ronaldo a convidava, a ela e às amigas, a ir a uma festa no hotel Palms Place, ao lado do bar. Mayorga e a amiga, Jordan - nome fictício - decidiram ir.

Foi na casa de banho da suíte do hotel que Cristiano Ronaldo a terá forçado a fazer sexo anal, apesar de a norte-americana ter dito repetidamente "não". Segundo Mayorga, tudo aconteceu quando trocava de roupa para entrar num jacúzi.

"Basicamente ele... implorou-me para tocar no seu pénis por 30 segundos". Quando lhe disse que não, continua Mayorga, CR7 terá implorado por sexo oral. Na entrevista, interrompida algumas vezes para que se pudesse acalmar, Mayorga diz que Ronaldo só a deixava ir embora se ela lhe desse um beijo. Garante à Der Spiegel que apenas lhe deu um beijo e nunca o tocou. Cristiano Ronaldo terá tentado depois agarrá-la à força até que um dos amigos entrou e perguntou ao jogador o que estava a fazer. "Imediatamente agarrei no meu vestido, vesti-o e ele disse: sim, sim. Nós vamos embora'".

Mas a história, alegadamente, não terminou ali. A norte-americana diz que Cristiano Ronaldo a puxou para um quarto e foi aí que terá sido forçada a fazer sexo anal, sem lubrificante e preservativo, escreve a revista alemã. O jogador ter-lhe-á perguntado depois se estava com dores. Kathryn Mayorga afirma que Ronaldo disse-lhe que "era um bom rapaz", com exceção "daquele um por cento".

"Pensei que tinha alguma doença. Pensei que ele tinha sida. Então fiquei tipo: 'Tens de me dizer se tenho uma doença' E ele diz: 'Não, não. Sou um atleta profissional e faço testes a cada três meses'", relata a professora primária, que diz ter-se demitido porque "precisa de todas as forças" para lidar com o caso contra o jogador português.

Na altura, em 2009, apresentou queixa na polícia, tendo-se sujeitado a um exame médico, mas não identificou o agressor.

A norte-americana diz ainda que o jogador português lhe pagou 375 mil dólares (322 mil euros) pelo seu silêncio. Assinou o acordo por medo e por impotência perante "o Deus do futebol" e com a esperança de remeter o assunto permanentemente no passado, justifica. Mas nunca conseguiu fechar esse capítulo da sua vida, diz. "Ele é muito famoso. Estou apavorada. Estou com medo".

O caso foi noticiado pela primeira vez no ano passado, também pela Der Spiegel, tendo como base documentos divulgados pela plataforma Football Leaks. O artigo da revista alemã falava no acordo extrajudicial entre CR7 e a norte-americana, que terá sido assinado em 2010. Na altura, o jogador e o seu agente, Jorge Mendes, negaram tudo. Em comunicado da Gestifute, os representantes de Ronaldo referiram-se ao artigo como sendo "uma peça de ficção jornalística", uma reportagem "falsa".

"A suposta vítima recusa ser identificada e corroborar a estória. E todo o enredo se baseia em documentos não assinados e em que as partes são identificadas por códigos, em emails entre advogados que não dizem respeito a Cristiano Ronaldo e cuja autenticidade ele desconhece, e numa suposta carta que teria sido enviada pela putativa vítima, mas que ele nunca recebeu", lê-se ainda no comunicado. Cristiano Ronaldo acrescentou ainda que iria processar a publicação alemã. "A imputação de uma violação é uma acusação nojenta e ultrajante que não pode ficar em claro".

Os advogados atuais de Mayorga questionam o acordo feito fora dos tribunais e apresentaram uma ação judicial em setembro. Aliás, de acordo com a Der Spiegel, os representantes legais da norte-americana têm um depoimento do jogador, em que ele descreve o que aconteceu naquela noite. No documento, Ronaldo terá afirmado que Mayorga "disse não e para várias vezes".

A polícia, entretanto, voltou a abrir a investigação.

"Querem promover-se à custa do meu nome. É normal"

Os representantes do capitão da Seleção Nacional consideram que a informação contida no artigo da Der Spiegel é "flagrantemente ilegal" e que "viola os direitos pessoais" de Cristiano Ronaldo de uma "forma excecionalmente séria". "Esta é uma divulgação não válida de suspeitas na área da privacidade".

"É, provavelmente, uma das mais sérias violações de direitos pessoais nos últimos anos", declararam também os advogados de Cristiano Ronaldo, em comunicado. Referem ainda que vai ser pedida "uma indemnização por danos morais num valor correspondente à gravidade da infração, que é, provavelmente, uma das mais sérias violações de direitos pessoais nos últimos anos".

O próprio reagiu às acusações no domingo: "'Fake news' [notícias falsas]. Querem promover-se à custa do meu nome. É normal. Querem ser famosos usando o meu nome. Faz parte da minha profissão. Sou um homem feliz, e está tudo bem."

"A queixa da senhora Mayorga, as provas físicas da agressão sexual (...) não são 'fake news'", respondeu o advogado da queixosa, Leslie Stovall.

De acordo com o advogado, Kathryn Mayorga espera não só "obter justiça", mas também "encorajar todas as vítimas de agressões sexuais a enfrentar os seus autores", por "mais célebres, ricos ou poderosos que possam parecer".

O caso surge um ano após o início do movimento #MeToo, com acusações de abuso sexual e violação ao famoso e poderoso produtor de Hollywood, Harvey Weinstein. A partir dessa altura, várias mulheres começaram a denunciar casos de abusos sexuais, envolvendo nomes bem conhecidos, como o ator Kevin Spacey e o comediante Louis Ck. Agora é Cristiano Ronaldo que corre o risco de responder em tribunal a uma acusação de violação.

(Texto publicado originalmente a 3 de outubro de 2018)

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