E se metro e meio de distância na fila do supermercado for pouco?

Estudo finlandês mostra que micropartículas de saliva permanecem mais tempo em suspensão e podem viajar nas correntes de ar. Resta saber se, contendo o vírus, podem propagar o covid-19

A discussão está no ar: será que a transmissão do covid-19 se pode fazer pela inalação de micropartículas de saliva expelidas por pessoas infetadas? Resultados preliminares de um estudo finlandês liderado pela Universidade de Aalto mostram que essa possibilidade pode ser mais forte do que até agora se pensava.

Tossir e espirrar para o interior do cotovelo, lavar as mãos a toda a hora e manter sempre uma distância prudente de metro e meio, ou mais, dos outros nas indispensáveis saídas para ir ao supermercado ou à farmácia são há semanas o mantra de milhares de milhões de pessoas no mundo - cálculos apontam para que mais de metade da humanidade está agora em regime de isolamento.

O objetivo é tentar conter a propagação do vírus Sars-cov-2 que há pouco mais de três meses surgiu na China e já se espalhou ao mundo inteiro, causando dezenas de milhares de mortos. Mas será que é suficiente?

O que se sabe sobre a transmissão da covid-19 aponta para que a infeção se propaga a partir das gotículas de saliva expelidas pelas pessoas infetadas, quando tossem ou espirram, e que aterram rapidamente nas superfícies em seu redor, onde permanecem por largas horas ou mesmo dias.

Quando alguém toca nessas superfícies contaminadas e depois leva inadvertidamente as mãos aos olhos, boca ou nariz pode ficar facilmente infetado. Daí, as recomendações todas de manter o distanciamento e fazer uma higiene frequente das mãos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem insistido não estar comprovado que o contágio também se pode fazer através micropartículas de saliva contendo o vírus (bioaerossóis) que possam permanecer por mais tempo em suspensão, penetrando depois nas vias respiratórias de outras pessoas. Mas a discussão tem andado no ar - literalmente.

Para tirar teimas, um grupo de investigadores finlandesas lançou-se ao problema - e os resultados não podem sossegar ninguém.

A equipa liderada por Ville Vuorinen, especialista em mecânica de fluídos da Universidade de Aalto, fez simulações computacionais para estudar o transporte de bioaerossóis através do ar e os seus resultados preliminares mostram que eles podem permanecer em suspensão durante mais tempo do que se supunha e propagar-se, não apenas a metro e meio, ou dois metros, mas a mais do que isso, transportados pelas correntes de ar.

"Uma pessoa infetada pelo coronavírus pode tossir e afastar-se do local, mas deixa para trás uma pequena nuvem de pequeníssimas partículas aerossóis que transportam o vírus", afirma Ville Vuorinen, citado num comunicado da sua universidade, explicando que "essas partículas podem chegar às vias respiratórias de outras pessoas que estejam na vizinhança".

Simulação em cenário de supermercado

O estudo, que envolve também cientistas da Universidade de Helsínquia, do Instituto de Meteorologia finlandês e de Centro de Investigação Tecnológico VTT, e tem também a colaboração do Instituto Finlandês de Saúde e Segurança, criou um modelo computacional para estudar como os aerossóis com menos de 20 micrómetros (mil vezes mais pequenos do que um milímetro) se propagam no ar, depois de lançados a toda a velocidade por alguém que tosse.

Segundo os investigadores, a dimensão média desses bioaerossóis é de 15 micrómetros e, na simulação, o cenário proposto era o de um espaço típico de um supermercado com alguém a tossir junto das prateleiras.

Ao contrário do que acontece com as gotículas de saliva maiores, que caiem rapidamente no solo ou noutras superfícies em redor da pessoa, os aerossóis permanecem no ar no local e podem ser transportados a maiores distâncias nas correntes de ar.


Resta agora saber se a carga viral transportada por estes aerossóis é suficiente para causar infeção.

Isso vai ser agora objeto de estudo pelo grupo de cientistas finlandeses, mas para Jussi Sane, diretor científico do Instituto Finlandês de Saúde e Segurança, os resultados preliminares "mostram a importância das recomendações que fazemos, de as pessoas se manterem em casa e, no caso de terem de sair, se manterem afastadas das outras pessoas, de tossir para o cotovelo e fazer a higiene frequente das mãos".

Olhando para os novos dados, o especialista considera que "eles ainda não suficientes para se emitirem novas recomendações", mas sublinha que "são importantes em si e terão de ser comparados com os dados reais de estudos epidémicos".

A investigação vai, por isso, continuar, mas fica uma certeza: manter as distâncias é mais importante do que nunca.

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