Dentes perfeitos. A lição que chega do passado, da velha Pompeia

Estudo aos "corpos de Pompeia" mostra que as pessoas não tinham cáries. A explicação estava na sua dieta, que era pobre em açúcares.

Pacientemente escavada ao longo dos últimos três séculos por gerações sucessivas de arqueólogos, a velha cidade romana de Pompeia, que uma catastrófica erupção do Vesúvio sepultou em vida no ano 79 d.C., continua a ser hoje fonte de fascinantes descobertas. Uma das mais recentes tem a ver com a saúde oral dos cidadãos de há quase dois mil anos da icónica cidade, e que pode ensinar muito ao mundo de hoje.

Um estudo de imagiologia aos "corpos de Pompeia" - uma técnica inventada pelo arqueólogo Giuseppe Fiorelli, no final do século XIX, permitiu o enchimento com gesso dos espaços vazios deixados pelos corpos das vítimas no interior das cinzas petrificadas, preservando assim os esqueletos - revelou algo surpreendente: as pessoas de Pompeia tinham dentes saudáveis, sem sombra de cáries.

A dieta seguida à época na região, à base de cereais, frutas, vegetais, peixe pescado localmente e uma outra refeição de carne, e com muito baixo teor de açúcar, explica os dentes quase perfeitos dos antigos cidadãos de Pompeia, segundo os autores do estudo, que foi realizado em 2015.

Os habitantes da velha Pompeia praticavam o que hoje chamamos dieta mediterrânica, que assim volta a marcar pontos. Mas a chave para os dentes saudáveis está, na verdade, na quase ausência de ingestão de açúcar por parte daquela população, ao contrário do que acontece nas sociedades de hoje, em que o consumo de açúcar excede largamente as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

"Comiam melhor do que nós, hoje", resumiu na altura Elisa Vanacore, especialista italiana em ortodôntica e uma das autoras do estudo, citada na Smithonian Magazine.

Lições do passado

Hoje uma janela quase única para o passado rico e cosmopolita da sociedade romana no primeiro século d.C., Pompeia permaneceu esquecida e ignorada durante milénio e meio, sob metros de lava e cinzas, que se fizeram chão fértil ao pés do Vesúvio.

Descoberta no século XVI, durante escavações para uma construção pelo arquitecto Domenico Fontana, a antiga cidade romana teve ainda de esperar pelo século XVIII para que ali se iniciassem as escavações sistemáticas que haveriam de trazer a sua antiga opulência e monumentalidade à luz do dia.

Esses trabalhos fundadores da moderna arqueologia iniciaram-se em 1748, mas só em 1763 foi descoberta a primeira inscrição documentando o nome da antiga cidade. Lá estava: Pompeia.

Muitos estudos têm entretanto revelado os detalhes da vida na antiga cidade romana com cerca de 15 mil habitantes, bem como da erupção fatídica que a varreu do mapa - e da vista - há quase dois mil anos, causando a morte a todos os que não conseguiram escapar a tempo.

Os "corpos de Pompeia" têm sido, de resto, uma das preciosas fontes de informação para auscultar esse passado.

O estudo do seu interior graças às novas tecnologias de imagiologia mostrou, por exemplo, que as vítimas morreram pela combinação do calor extremo, sufocação causada pelos gazes e cinzas e a queda de escombros dos próprios edifícios.

Já a análise dos dentes em alguns desses corpos confirma os benefícios da dieta com baixo teor de açúcar, que era a dos habitantes da cidade há dois mil anos. Não se pode dizer o mesmo, hoje.

Açúcar a mais

Para além do consumo generalizado de doces nas mais variadas formas - bolos, chocolates, rebuçados pudins, gomas, caramelos, e muito mais -, a alimentação moderna está cheia de açúcares escondidos em todos os alimentos processados que dominam as nossas dietas - e nos estragam os dentes.

Dos molhos às bolachas industriais e aos refrigerantes, dos cereais e iogurtes açucarados aos leites achocolatados e aos pratos pré-confeccionados e pré-cozinhados, a norma é a adição de açúcares como as sacaroses, as frutoses, as glucoses ou as dextroses, entre muitos outros. E tudo isso pesa - e muito - no saldo final do consumo de açúcar por cada um de nós.

A recomendação da OMS é a de que não se exceda um consumo diário de 25 a 30 gramas de açúcar, mas os números mostram que a média para a população mundial é mais do dobro.

Os efeitos na saúde, em verdadeiras epidemias de obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e cáries, estão à vista.

As cáries são hoje, aliás, o problema de saúde não contagioso mais generalizado no mundo segundo a OMS, que estima que a maioria das crianças em idade escolar (60% a 90%) tem ou já teve alguma cárie dentária, elevando-se esse valor a quase 100% nos adultos.

Um estudo realizado em Portugal em 2017 mostrou que 45% das crianças portuguesas com seis anos apresentam cáries dentárias. Já nas crianças com 12 anos essa percentagem elevava-se a 47%, enquanto nos jovens com 18 anos o número subia para 67,6%.

Ainda assim, os números apontavam uma diminuição em relação a 2006, em todas as faixas etárias, quando as percentagens eram, respetivamente, 47%, 56% e 72%.

O consumo de açúcar certamente não terá diminuído no espaço de uma década. A explicação para a melhoria dos valores foi o Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral, implementado a partir de 2009, segundo os autores do estudo, que foi realizado por instituições do porto, incluindo a universidade.

A medida cheque-dentista, para crianças e adolescentes, no âmbito daquele programa, bem como outras para promoção da saúde oral e prevenção das doenças orais nas escolas, incluindo a alimentação saudável e a escovagem. dos dentes, fizeram a diferença, segundo os autores do estudo.

Na última década e meia, esse programa permitiu reduzir em 75% o surgimento de cáries nas crianças e jovens em Portugal.

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