Da guerra civil americana para o laboratório. Em busca de novos antibióticos

Estudo confirma propriedades antibióticas de plantas que eram usadas há século e meio pelos médicos das tropas confederadas, para combater as infeções que assolavam os feridos no campo de batalha

Durante a Guerra Civil dos Estados Unidos, que opôs os Estados do Norte aos Confederados do Sul entre 1861 e 1865, o cirurgião-geral das tropas sulistas elaborou um guia prático de plantas, que servia de base para o tratamento das infeções que muitas vezes afetavam os soldados feridos. Agora, um grupo de investigadores liderado por equipa da Universidade de Emory, em Atlanta, conseguiu testar com sucesso três das plantas incluídas naquele antigo documento, e com isso comprovar a sua ação antibacteriana.

O estudo, publicado esta quarta-feira na revista científica Scientific Reports, mostra que extratos daquelas plantas são eficazes a combater a proliferação das perigosas estirpes resistentes das bactérias Acinetobacter baumannii, Staphylococcus aureus e Klebsiella pneumoniae, frequentemente associadasa infeções em ferimentos, e também responsáveis por infeções hospitalares, que poderão muito em breve tornar-se um problema de saúde pública global.

"Os nossos estudos sugerem que inúmeros soldados feridos poderão ter-se salvo ou evitado sofrer a amputação de membros devido ao tratamentos com essas plantas", diz Cassandra Quave, que liderou o estudo na Universidade de Emory.

A investigadora, que é etnobióloga e estuda o uso das plantas nas medicinas tradicionais, fez há anos a tese final do curso sobre o guia que o cirurgião-geral dos confederados, Samuel Moore, elaborou a partir de um livro de plantas medicinais locais, que tinha sido compilado pouco antes pelo botânico Frascis Porcher, a pedido da Confederação.

O estudo agora publicado vai mais além, ao analisar em culturas bacterianas, em laboratório, os efeitos de estractos de três das plantas. São elas o carvalho-branco (Quercus alba), que existe em abundância em todo o leste dos Estados Unidos, a árvore-das-tulipas (Liriodendron tulipifera),muito comum no estado da Virgínia, e a arália (Aralia spinosa), um arbusto nativo do leste dos Estados Unidos.

Para o estudo, os investigadores usaram extratos da casca do carvalho, folhas da árvore-da-tupila e elementos da camada interna da casca e das raízes da arália.

Os dois primeiros mostraram-se eficazes a inibir a proliferação as estirpes das três bactérias resistentes. O estrato das raízes e casca de arália mostrou-se capaz de neutralizar a ação da S. aureus.

O próximo passo nesta investigação vai ser identificar as moléculas que estão na origem dos efeitos observados.

Com isso, os investigadores esperam ter no futuro novas respostas no combate às infeções.

Num contexto em que os antibióticos estão a perder terreno, face a resistência crescente dos agentes patogénicos aos antibióticos atualmente disponíveis, este pode ser um caminho para evitar no futuro o aumento da mortalidade por infeções comuns.

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