Bacalhau do Mar do Norte está em risco e pode deixar de chegar às mesas

O stock de bacalhau quadruplicou entre 2006 e 2017, mas baixou drasticamente o ano passado. Organizações ambientais defendem que espécie está a ser pescada muito rapidamente e não tem tempo de se reproduzir.

As notícias não são boas: o bacalhau do Mar do Norte está a desaparecer e poderá deixar de chegar aos pratos dos portugueses, que consomem o equivalente a 20 por cento de todo o bacalhau capturado a nível mundial. O alarme chegou com um relatório publicado em julho pelo Conselho Internacional para a Exploração do Mar (ICES) que revelou que os stocks de bacalhau do Mar do Norte caíram para níveis considerados críticos. O documento refere que a espécie está a ser pescada de forma insustentável e recomendou um corte de 63% nas capturas - o ano passado a redução já foi de 47%.

O relatório do ICES está atualmente a ser validado por auditores independentes e no final de setembro os pescadores saberão se poderão manter os seus certificados de sustentabilidade do Marine Stewardship Council (MSC) (foram emitidos há apenas dois anos) ou se estes ficam suspensos. A decisão pode acabar com o bacalhau do Mar do Norte nas ementas, principalmente nas britânicas, diz o Guardian.

No início do ano, um novo estudo científico publicado pelo Programa de Monitorização e Avaliação do Ártico alertava para o facto de o stock de bacalhau proveniente do mar de Barents, no norte da Noruega - o mais consumido em Portugal - poder cair até zero antes do final do século. Isto caso o aquecimento global continue - que é o mais provável.

É no mar de Barents, no Ártico, que se pesca a maior parte do bacalhau que chega a Portugal, e há várias fábricas que trabalham apenas para a exportação. Mas o oceano do qual faz parte o mar de Barents é não só aquele que está exposto a níveis mais rápidos de aquecimento, como também o que regista o maior nível de acidificação do mundo - uma vez que a água fria absorve mais dióxido de carbono, alterando o seu nível de pH.

Estima-se que o aumento da temperatura do mar tenha sido de 3,5 ºC, comparativamente com uma média global de 1,1 ºC nos outros oceanos. Segundo o estudo, o aquecimento do "mar de Barents foi benéfico para o bacalhau, e responsável pelo facto de as apanhas terem voltado a níveis não vistos desde 1970, quando eram apanhadas 900 mil toneladas por ano. Qualquer aquecimento mais terá efeitos negativos, no entanto."

Este é o estudo mais completo alguma vez feito sobre o impacto das alterações climáticas nesta espécie, ainda que não o primeiro - em novembro do ano passado, um outro estudo alertava para a redução drástica de bacalhau caso a temperatura global aumente. .

Para onde foi o peixe?

As populações de bacalhau do Mar do Norte eram abundantes mas começaram a entrar em declínio até ficarem perto do colapso entre o início dos anos 1970 e 2006.

Chegou a existir um "plano de recuperação do bacalhau" para repor o número de peixes até níveis sustentáveis e que passou por limitar os dias de pesca, proibir a captura da espécie em viveiros naturais ou em colocar buracos maiores nas redes para permitir que o bacalhau mais jovem pudesse escapar.

Quase resultou. O stock de bacalhau quadruplicou entre 2006 e 2017. Mas o ano passado a recomendação do ICES foi já para reduzir a captura em quase metade (47 por cento). A avaliação deste ano - baseada em extensas investigações científicas - propõe uma redução mais radical: de dois terços.

"Não está claro quais são as razões para que isto aconteça. É necessário mais trabalho para investigar os efeitos da mudança climática, biológica e pesqueira", lê-se no relatório.

Para as organizações ambientais o bacalhau tem sido pescado acima do seu rendimento máximo sustentável nos últimos anos, o que significa que os peixes são retirados do mar antes que se possam reproduzir.

As espécies não obedecem a fronteiras, alertam especialistas

"Precisamos de compromissos juridicamente vinculativos para pescar em níveis sustentáveis, para monitorizar efetivamente as nossas capturas e devemos adotar uma abordagem ecossistémica para a gestão da pesca. Temos que proteger adequadamente os nossos stocks de peixes para o benefício dos nossos mares, comunidades costeiras e dos consumidores que esperam frutos do mar sustentáveis ​", diz Samuel Stone, da Marine Conservation Society, citado pelo Guardian.

A política comum de pesca da União Europeia foi considerada um exemplo de pesca sustentável, mas especialistas marinhos sublinham que os peixes não respeitam as fronteiras nacionais e, portanto, a indústria precisa de uma gestão internacional coordenada.

"Espécies como o bacalhau são 'stocks partilhados'", diz Phil Taylor, da Open Seas, que trabalha na proteção e recuperação do ecossistema marinho.

O mar do Norte é parte do oceano Atlântico e está situado a sul do mar da Noruega, entre a Noruega e as ilhas Britânicas, ligando o canal Skagerrak (que separa a Noruega da Dinamarca) ao canal da Mancha (que separa a Inglaterra da França).

Os limites geográficos do mar do Norte encontram-se no Reino Unido e nas ilhas Órcades, a oeste, na França, Bélgica, Holanda e Alemanha, a sul, na Noruega e Dinamarca, a leste, e nas ilhas Shetland, a norte.

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