A "enorme alegria" da mulher que vai dirigir a formação dos futuros padres

Ana Maria Jorge, historiadora especialista em História da Igreja, tomou hoje posse como diretora da Faculdade de Teologia da Universidade Católica. É a primeira vez que uma mulher ocupa o cargo.

"Sinto-me...nem sei bem como dizer..." Aparentemente ainda algo perplexa, foi assim que Ana Maria Jorge respondeu esta tarde à pergunta sobre como se sentia por se ter tornado a primeira mulher a dirigir a Faculdade de Teologia (FT) da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

Depois desenvolveu, afirmando que vê o reforço do papel das mulheres na Igreja Católica com uma "enorme alegria", sendo isso algo "fundamental" e com "necessidade de aprofundamento". A UCP parece estar a ser um campo de testes para esse reforço - já que a reitora também é uma mulher. E - pormenor relevante - são ambos cargos em que a nomeação final vem do Vaticano.

No contexto, Ana Maria Jorge - 56 anos, natural do Vimeiro - falou do pontificado do Papa Francisco como sendo representativo de "uma enorme abertura". "A figura do Papa Francisco fascina-me particularmente", admitiu a historiadora.

A cerimónia de posse decorreu na biblioteca Eduardo Coelho, no edifício da reitoria da UCP em Lisboa - ato legitimado com a presença do mais importante representante do Vaticano em Lisboa, o arcebispo italiano Rino Passigato, núncio apostólico. Ana Maria Jorge sucede na liderança da FT ao padre José Tolentino de Mendonça, nomeado no verão para dirigir os arquivos do Vaticano (e por isso promovido a arcebispo). A novidade da sua escolha não reside apenas no facto de ser mulher. É também a primeira vez que a FT terá à frente uma leiga (ou seja, alguém de fora do sacerdócio) e alguém cuja formação académica não é de Teologia (antes História, com licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade Clássica e doutoramento em Lovaina).

Falando com os jornalistas, Ana Maria Jorge sintetizou o seu "grande objetivo": "Que a Teologia seja realmente, no contexto dos outros saberes e no quadro universitário português e da Universidade Católica em particular, um campo que tenha o relevo que merece ter, que é o de construir, com os outros saberes, uma visão cada vez mais humanista e completa do ser humano".

A FT tem, nos seus três polos (Lisboa, Porto e Braga) cerca de 600 alunos. O peso dos leigos entre os estudantes está a subir mas os candidatos ao sacerdócio ainda são maioritários (uma licenciatura em Teologia é condição obrigatória para obter a ordenação sacerdotal). Dito de outra forma: a partir de hoje, a historiadora será a coordenadora geral da formação teológica dos futuros padres.

Na cerimónia, a reitora da UCP, Isabel Capeloa Gil, considerou Ana Maria Jorge como "a figura certa para as circunstâncias". E citou um excerto do Retrato de uma senhora, do romancista britânico Henry James (1843-1916), para dizer que as características enunciadas se aplicam "de forma magistral" à nova diretora da FT: "Era uma jovem senhora com grandes aptidões, a sua imaginação era notavelmente ativa. (...) Tinha a teoria de que só com o desejo insaciável de contribuir a vida valeria a pena; que era necessário estar entre os melhores, ter a consciência do que seria uma boa organização, de se mover no caminho da luz, da sabedoria natural, do impulso alegre, de uma inspiração graciosamente crónica".

Aproveitou também para expor a sua visão de futuro para a Faculdade de Teologia, "um espaço de formação presbiterial, de investigação sólida, de abertura cosmopolita ao mundo e à sua realidade, um laboratório cultural de encontro e reflexão numa universidade plural aberta a múltiplos saberes, geografias e culturas". E não se cansou de citar o Papa Francisco, na ideia de quer "uma Igreja em saída" (por oposição a uma Igreja virada para dentro e excessivamente clerical): "Sei que a equipa que agora toma posse [...] fará da Faculdade de Teologia uma faculdade em saída, ao serviço de uma Igreja em saída e de uma universidade que nela se revê como garante identitário".

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