A amizade, a política, os livros. As frases marcantes do padre e poeta Tolentino de Mendonça

Em livro ou em conversa, o português que este sábado é elevado a cardeal pelo Papa Francisco distingue-se pela serenidade e reflexão.

Padre, teólogo, professor e poeta, José Tolentino de Mendonça é este sábado elevado a cardeal no Vaticano. Aos 53 anos, o natural do Machico, Madeira, tem sido uma personalidade na sociedade portuguesa, com uma intervenção que vai muito além do cânone religioso. Na sua obra literária, como poeta ou ensaísta, nas entrevistas ou intervenções públicas, Tolentino de Mendonça pensa e faz pensar. Eis uma seleção de frases suas nos últimos anos.

"A amizade não se alimenta de encontros episódicos ou de feitos extraordinários. A amizade é um contínuo. Tem sabor a vida quotidiana, a espaços domésticos, a pão repartido, a horas vulgares, a intimidade, a conversas lentas, a tempo gasto com detalhes, a risos e a lágrimas, à exposição confiada, a peripécias à volta de uma viagem ou de um dia de pesca. A amizade tem sabor a hospitalidade, a corridas atarefadas e a tempo investido na escuta."

No livro "Nenhum Caminho Será Longo", 2012

"Um amigo é um outro eu de mim."

No livro "Nenhum Caminho Será Longo", 2012

"As nossas sociedades ocidentais estão a viver uma silenciosa mudança de paradigma: o excesso (de emoções, de informação, de expectativas, de solicitações...) está a atropelar a pessoa humana e a empurrá-la para um estado de fadiga, de onde é cada vez mais difícil retornar. O risco é o aprisionamento permanente nesse cansaço."

No livro "A Mística do Instante", 2014

"O espaço público é também um espaço de conflito - e o conflito é muito importante. A diversidade de opiniões é que torna a procura comum da verdade uma coisa séria."

Entrevista a Catarina Carvalho, na Notícias Magazine, 2011

"A política é algo que me interessa muito, o diálogo e o debate político. Tenho preocupação que os cristãos leigos façam da política um lugar de pensamento e intervenção, e estimulo as pessoas nesse sentido. A votarem, a organizarem-se e a pensarem."

Entrevista a Catarina Carvalho, na Notícias Magazine, 2011

"A verdadeira perfeição é a de quem não tem pés e não desiste de andar. Este não desistir de si é o essencial. É preciso combater esta culpa, esta moralização em torno de modelos de perfeição que são inatingíveis, e que, muitas vezes, deixam submersa a vida como ela é. Depois acabamos por viver longe de nós mesmos."

Entrevista a Anabela Mota Ribeiro, Público, 2012

"Este tempo é também de grande vigilância, de grande participação. Não é um tempo de desmobilização. É um tempo para as pessoas se sentarem a conversar. É um tempo para se encherem os teatros, para se encherem as assembleias. Para aprofundarmos o nosso destino comum.

Entrevista a Rita Silva Freire, no semanário Sol, fevereiro de 2013

"O consumo desenfreado não é outra coisa que uma bolsa de compensações. As coisas que se adquirem são, obviamente, mais do que coisas: são promessas que nos acenam, são protestos impotentes por uma existência que não nos satisfaz, são ficções do nosso teatro interno."

Crónica no Expresso, 2014

"Quando tudo se torna óbvio e regulado, deixa de haver lugar para a surpresa. Os sentidos adormecem."

Intervenção no Correntes de Escrita, 2016

"Por irónico que possa parecer, a ideologia da felicidade - que hoje contamina todos os planos da vida e da sua representação - tem disseminado de modo maciço a frustração, a tristeza e a infelicidade. Tornamo-nos mais infelizes a partir do momento em que erguemos a felicidade como idealização que absorve o nosso imaginário e ainda não percebemos até que ponto esse conceito abstrato se tornou uma armadilha que nos aprisiona no seu inverso."

Crónica no Expresso, 2018

"Nenhuma família permanece estática todo o tempo. E isso porque a família não é uma ideia, mas tem o dinamismo concreto e irrequieto da experiência"

Encontro Internacional das Equipas de Nossa Senhora em Fátima, 2018

"Para mim não há diferença entre uma biblioteca e um jardim"

Na ordenação episcopal como novo arquivista e bibliotecário da Santa Sé, 2018

"Acredito que aquilo que se experimenta num lugar elitista, nobre, como aquela biblioteca, se pode experimentar no lugar mais pobre, na margem mais miserável do mundo, porque o maior milagre é ver acontecer a vida. O maior milagre é poder servir a vida, e muitas vezes a vida na sua fragilidade, na sua contradição. Esse é o espetáculo mais divino que os nossos olhos podem ver."

Entrevista a Ana Catarina André, Rádio Renascença, 2019

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