Passámos 84 dias do ano a ver séries e telenovelas

No ano passado, os portugueses passaram 2022 horas a ver ficção, só nos canais generalistas. É ainda mais do que se passa a ver telenovelas no Brasil

Imagine que não sairia, por nada, do sofá de 1 de janeiro a 25 de março. Podia, assim, viver dois meses e meio a ver ficção portuguesa e ibero-americana em 2013, já que foram emitidas 2022 horas de histórias na RTP, SIC e TVI, ou seja, 84 dias ininterruptos. Este é o maior volume de horas de ficção emitido em terras lusitanas desde 2011, quando foram exibidas 1868 horas, menos 154 do que no ano passado.

Surpreendido com as contas apuradas pelo Observatório Ibero-Americano de Ficção Televisiva (Obitel)? Os especialistas não estão e até admitem que a conta pode vir a aumentar. Só em horário nobre, a produção doméstica cresceu 265 horas em apenas dois anos, totalizando 943. "Este aumento revela o contínuo interesse dos canais em oferecer histórias portuguesas que explorem as vivências, os quotidianos e os problemas da nossa sociedade", justifica Catarina Duff Burnay. Para a coordenadora do Obitel em Portugal, "a consolidação da SIC em horário nobre, e o consequente arrastamento dos conteúdos brasileiros para o fim do horário nobre e o princípio do horário noite", "a aposta da RTP em novos formatos de ficção no mesmo horário, e em explorar um novo horário/novo target/novo formato para a ficção "estão entre as razões que legitimam este aumento, a par da produção de ficção regular da TVI. Uma realidade que, refere a professora da Universidade Católica, "é um sinal positivo de vitalidade do mercado nacional".

Posição que António Barreira, coautor de O Beijo do Escorpião que terminou sábado passado, corrobora. "É notório que houve, de 2011 para 2013, maior investimento na ficção nacional. A RTP entrou no grupo com formatos de longa duração, a TVI manteve uma produção constante e a SIC passou a investir de forma continuada."

Apesar de o número de episódios emitidos no ano passado ter sido menor do que em 2012, eles estão efetivamente mais longos. Pedro Lopes, vice-coordenador do Obitel e autor de novelas como Sol de Inverno, o remake de Dancin"Days ou Laços de Sangue, exibidas na SIC, afirma que há dois motivos para isso: "uma questão económica - quanto maior o número de episódios, mais diluídos ficam os custos - e o auditório porque se as novelas funcionam há a tendência para pensar que o sucesso permaneça por mais tempo". O argumentista recorda que nem todas as horas de emissão têm produções originais, "há reposições nas madrugadas"e muitas delas a custo zero, por se tratarem de terceiras transmissões.

Segundo os dados do Obitel para 2013, Espanha emitiu menos 296 horas do que Portugal. Catarina Duff Burnay explica que apesar de o país vizinho ter registado sempre resultados superiores, este decréscimo pode ser explicado pelos custos gerais de produção, "que são cinco vezes mais elevados do que no nosso país, pelo que, em articulação com a crise financeira instalada, é normal a diminuição".

O Brasil, campeão da exportação de novelas no mundo, também ficou atrás no número de horas global, menos 650 do que em Portugal. Pedro Lopes alerta para a lei que obrigou os canais do cabo a investir em produção local, o que pode ter retirado investimento das grelhas de canal aberto. "A Globo está a produzir séries, mas se calhar o investimento dos canais em sinal aberto está a ser mais canalizado para o cabo", salvaguarda.

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