Guardian diz que é possível ganhar dinheiro nos media

Jo Confino, "jornalista e empreendedor", diz que o seu projeto - um negócio dentro do negócio que é o The Guardian -, demonstra que há nichos nos media que podem ser, não só sustentáveis, mas mesmo lucrativos.

Editor executivo no Guardian e com mais de 25 anos de experiências nos media, Confino é o responsável máximo do Guardian Sustainable Business, iniciativa que ele próprio criou e que hoje é uma das lucrativas do grupo britânico.

"É lucrativo. Verdadeiramente lucrativo. E está a crescer. Em abril lançamos nos Estados Unidos. Quando criamos uma necessidade, quando trabalhas para uma comunidade e crias algo de valor, as pessoas respondem e querem envolver-se ainda mais", disse à Lusa em Barcelona.

"Não se trata apenas de gerar conteúdos, trata-se de gerar debates. Temos 'workshops' e seminários, fazemos debates em direto 'online', 'webcasts', 'podcasts'. Utilizamos todo o potencial da multimédia e colocamo-lo ao dispor de um tópico de grande interesse e importância", explicou.

Não se trata, disse, de pretender que este modelo seja o modelo de êxito para todo o setor. Mas pelo menos de reconhecer que "o modelo velho acabou" e que as empresas de comunicação social "têm que procurar canais diferentes de rendimentos, várias fontes de clientes".

"E um deles é trabalhar com um público profissional. A 'web' permite-te trabalhar e apoiar comunidades de interesses. Não tens que trabalhar apenas para o grande público, para o generalista", explicou.

"No meu caso, no tema da sustentabilidade empresarial e de trabalho, tens centenas de milhares de pessoas em todo o mundo a trabalhar nesta questão. É uma disciplina emergente. Há muitos temas em debate, de gestão de recursos, a responsabilidade social corporativa, como fomentar colaborações, trabalhar com consumidores ou com clientes", refere.

Antigo correspondente na Wall Street e editor de economia do Guardian, Confino é hoje um gestor de uma comunidade virtual, que demonstra que se pode ter media sustentável, mas que, para isso, se deve voltar ao papel central da imprensa, não confundindo plataformas ou tecnologias com a base do jornalismo.

"A media tem de voltar ao seu papel central: educar e informar o público sobre os principais acontecimentos do dia. E um dos problemas é que a media é controlada por grandes corporações, movendo-se ao ritmo da anedota ou do entretenimento", disse.

"Numa altura em que deveríamos estar a olhar para as mudanças na sociedade, para os grandes temas em debate na sociedade - justiça social, justiça ambiental, sustentabilidade, os media parecem estar a conduzir as pessoas para ignorar esses assuntos ou, pelo menos para os minimizar", afirmou.

Trata-se de garantir, considera, que as pessoas "voltam a ver-se como cidadãos e não como consumidores", combatendo o "'status quo' que os grupos de media - controlados maioritariamente por grandes corporações, que tendem a ser conservadores - querem manter".

Confino reconhece os potenciais riscos das novas apostas relembrando, por exemplo, que este tipo de alternativas requer procurar patrocínios ou publicidade, mas que continua a ser essencial manter a independência.

"Temos patrocinadores que são líderes neste tema, como a Unilever ou a Accenture. As empresas, os patrocinadores, quem faz publicidade, quer hoje chegar cada vais mais próximo do consumidor. E isso significa que temos que ter cuidado que quando trabalhamos com estas empresas, com patrocinadores, que mantemos a independência editorial", afirmou.

"Temos que manter a nossa independência. Isto é o que todos enfrentam hoje. NGO [Organizações não Governamentais] que trabalham com o mundo das corporações, das empresas, que querem manter-se independentes e críticos", disse.

"O essencial é ser capaz de fazer dinheiro, ser eficaz mas mantendo as linhas editoriais estritas. Permanecer sempre do lado do leitor e não do de mais ninguém", sublinha.

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