Das fileiras franquistas às ligações ao PSOE

Oriunda da classe média-alta espanhola, a família Polanco militou no franquismo. Com a democracia, aliou-se aos socialistas e o grupo Prisa ficou conhecido como braço mediático do PSOE. É um dos mais poderosos clãs de Espanha.

Costumava dizer: " Quem me quiser enfrentar é melhor sair de Espanha." Um dos nomes mais influentes e polémicos de Espanha, Jesús Polanco -" Jesús del Gran Poder", como ficou conhecido - cresceu a dar vivas a Franco mas fez fortuna com a democracia. Após a sua morte, em 2007, o clã não perdeu poder: as novas gerações continuam a marcar a vida social, política e económica de Espanha, Portugal (Media Capital) e da América Latina, onde têm negócios.

Ao contrário do que Jesús gostava de afirmar, os Polanco nunca foram pobres, mas oriundos da classe média/alta espanhola. Durante a Guerra Civil espanhola, o pai do empresário foi perseguido e preso pelos comunistas, acabando por ser libertado pelas tropas de Franco. Jesús não esqueceu o episódio e agradeceu o gesto: militou na Frente de Juventudes e ingressou nas Falanges Juveniles de Franco, onde permaneceu até aos 30 anos. Em 1953, licenciou-se em Direito. A biografia oficial do empresário diz que ele teve de pagar os estudos vendendo livros de porta em porta, mas esta versão dos acontecimentos é contestada por muitos historiadores espanhóis que garantem que, embora órfão, Polanco nunca passou dificuldades. Pelo contrário - as ligações ao poder franquista ajudaram-no a singrar.

Começou por trabalhar com o director-geral de Propaganda do regime e, em 1958, criou a editora Santillana. Enriqueceu com a reforma educativa espanhola que arrancou na década de 70. Graças a um vasto leque de contactos no poder, Jesús teve acesso ao conteúdo dos novos programas educativos antes de a lei ser aprovada, em Agosto de 1970. Com essa valiosa informação, o empresário investiu na produção maciça de manuais escolares, antes que os outros editores tivessem tempo de o fazer. A lei entrou imediatamente em vigor, um mês após ser aprovada, sendo a Santillana a única editora com manuais disponíveis e actualizados para aquele ano lectivo. A situação provocou a ira do sector editorial, que acusou Polanco de tráfico de influências. Pouco depois, fundou o grupo Timón e, em 1976, começa a publicar o diário El País, que rapidamente se tornou líder de vendas. Em 1984, criou a holding Prisa, em que três dos seus quatro filhos (Ignacio, Manuel e Isabel - que morreu em 2008) trabalharam desde jovens. Só a mais nova, Maria Jesús, nunca assumiu qualquer cargo no grupo familiar. Da mãe dos seus filhos, separou-se no final da década de 80 para se casar com a milionária Mari Luz Barreiros, a mulher que lhe abriu a porta dos salões da alta sociedade madrilena. "Estou com Mari Luz porque não lhe interessa o meu dinheiro. Tem tanto quanto eu", disse o empresário. O amor não era recíproco: após 19 anos de vida em comum, Mari Luz abandonou o empresário.

"Polanco é Deus e Felipe seu profeta." A expressão ficou famosa em Espanha na década de 80 e resume as relações pouco claras, para muitos promíscuas, entre o presidente do Governo socialista e o empresário. Durante os 13 anos de Governo do PSOE, a Prisa foi acusada sucessivamente de ser alvo de favorecimento político. Mais recentemente, a polémica estalou quando o Governo de Zapatero concedeu uma terceira licença de transmissão em canal aberto ao Canal Plus da Prisa, apesar de inicialmente o concurso público estabelecer apenas a entrega de duas licenças - chamaram- lhe a "Lei Polanco".

Apaixonado por dinheiro, pouco culto e obcecado por poder, Jesús deixou como sucessor o filho Ignacio, presidente do conselho de administração da Prisa desde 2006. Com negócios em vários países da América Latina, o grupo controla mais de 475 emissoras em Espanha, o diário El País, a Cadena SER, entre muitos outros meios de comunicação. Em Portugal, onde a Prisa entrou em Julho de 2005, tornando-se principal accionista da Media Capital, também tem sido alvo de várias controvérsias. A mais recente envolveu o afastamento de Manuel Moura Guedes do Jornal de sexta- feira da TVI, o que para muitos comentadores resultou de mais um favor da Prisa ao PSOE e ao PS.

As ligações ao poder não têm hoje a solidez de outros tempos e nos negócios a situação é periclitante. A crise afectou as empresas do grupo, que acumulou nos últimos anos uma dívida de seis mil milhões de euros. Com a nova geração da família à frente dos negócios, o futuro é agora incerto para o clã Polanco, que deverá ter como única saída vender parte do negócio. Para já, a alienação de 30% da Media Capital é uma das medidas estabelecidas pelo grupo.

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