Volkswagen

Um ponto é tudo

Poderosa marca homenageia o cliente

Brecht lembrou um esquecimento num célebre poema. Neste, todos os versos insistem no mesmo: "O jovem Alexandre conquistou as Índias/ Sozinho?"... Pois é, os de baixo estão sub-representados nas homenagens. A primeira vez que se ergueu um monumento ao Soldado Desconhecido - por definição, este era um anónimo magala - nem fez ainda 100 anos. Nas primeiras legislativas depois da Grande Guerra (a que ainda não sabia que teria uma Segunda), o Parlamento francês chamou-se de "câmara azul", tal era o número de deputados que envergavam o uniforme de combatente vindo da linha da frente. A identidade com os irmãos de armas levou-os a votar o primeiro Túmulo do Soldado Desconhecido, em 1920. Depois de tantos séculos de guerras, enfim, a homenagem. Esta não é nunca de desprezar, mesmo quando pequena (em troca de uma vida perdida aos 20 anos tudo é pequeno). Ter-se homenageado o soldado demonstra já um certo respeito, ou receio, por ele - antes, as homenagens não se seguiam às matanças. Como a mentira a um empregado doméstico já era um estadio superior a quando se falava a verdade frente aos escravos. E assim vamos por diante, esperemos, de vitoriazinha em vitoriazinha até, sei lá... Ontem, nova homenagem. Soube-se que a Volkswagen vai mudar o seu logótipo. Com duas letras apenas - um V em cima de um W, dentro de um círculo - uma poderosa marca de automóveis atravessou 80 anos. A revolução é oficialmente explicada pelo salto para a modernidade, os carros elétricos. Mas a melhor versão talvez esteja na necessidade de a marca (e o seu logo) fazer-se esquecer das tropelias no Dieselgate. Há quem veja nisto um embuste, publicitário mas embuste. Será também, mas, muito mais do que isso, é uma homenagem à força do cliente. Enfim, os de baixo continuam a impor homenagens aos de cima.