Viriato Soromenho Marques

Viriato Soromenho Marques

'O Príncipe' na ilha da Páscoa

Quando analisamos as mudanças no sistema partidário seria prudente procurarmos os padrões e não inovações, mais aparentes do que reais. António Costa (A.C.) é claramente o político luso que nas últimas décadas mais estritamente segue as regras prudenciais expostas por Maquiavel para os governantes que querem conservar o seu lugar. O seu discurso tem a planura do campo tático, onde é o mestre incomparável. Não tem rugosidades utópicas nem tabus ideológicos. É um pragmático em estado puro, pronto a colaborar com toda a gente, à esquerda e à direita, desde que o interesse nacional e a continuidade governativa possam coincidir. Quando construiu a geringonça, nos tempos em que o diabo da austeridade parecia poder regressar para vingar qualquer erro, A.C. soube mudar o estilo mantendo a substância. A tal ponto que o seu ministro das Finanças foi alcandorado a chefe do Eurogrupo. Hoje, neste intervalo entre a pandemia e a presumível turbulência social que o fim das moratórias - combinado com o eventual regresso das regras europeias do tratado orçamental - tenderá a provocar, A.C. e o PS resistem, tenazmente, às mudanças no sistema partidário. Mesmo sem grande crescimento eleitoral, o PS poderá ganhar lugares no parlamento pela erosão que o Chega e a Iniciativa Liberal irão causar sobre o desmoralizado eleitorado do PSD.

Viriato Soromenho Marques

Nos limites da (des)obediência

Os 26 jovens, entre os 17 e os 28 anos, detidos numa recente ação de protesto junto ao aeroporto de Lisboa recolocam a necessidade de responder à pergunta formulada por Henry David Thoreau em 1849: estarão os cidadãos obrigados a abdicar da sua consciência perante leis e atos de governo que violam direitos humanos fundamentais? Thoreau tinha-se recusado a pagar impostos como forma de protesto contra a escravatura nos EUA. Por isso foi encarcerado em 1846. O título original do ensaio onde Thoreau pensou essa experiência intitulava-se Resistência ao Governo Civil, mas as edições póstumas imortalizaram as suas ideias sob a designação de "desobediência civil". Os 26 jovens, acusados de "desobediência qualificada", nessa ação promovida pelo movimento cívico Climáximo (centrado na luta contra as alterações climáticas), recusaram ficar pelo julgamento sumário. Fizeram bem. Isso permitirá uma apreciação substantiva da sua causa nos tribunais, ultrapassando o filtro amnésico da voragem dos dias.

Viriato Soromenho Marques

A verdade à nossa frente

Quem estude o que se escreve e diz em todos os países, meios e suportes, quem não fique ensurdecido pela ruidosa noosfera que regista, como num sismógrafo, o estado de espírito da nossa primeira cultura planetária, constatará que existe um elefante na sala. Dito de outro modo, o futuro das gerações mais jovens ameaça desaguar num planeta irreconhecível, desequilibrado, empobrecido. A causa não é externa. Não reside nem numa ameaça alienígena nem na eventual colisão de um meteorito de grandes proporções, como nos filmes de Hollywood. O problema radica em nós próprios. Na inércia de um modelo económico que apresenta características virais. Em vez de habitar a Terra de um modo simbiótico, respeitando os limites que a ética decreta e o conhecimento científico identifica com rigor, esse modelo atua sobre a Terra como um exterminador implacável. Um predador capaz até de autofagia.

Viriato Soromenho Marques

Razão e preconceito

Numa notável crónica, Daniel Deusdado demonstrou de modo fundamentado e convincente a insensatez da insistência em construir na Margem Sul qualquer aeroporto complementar ao da Portela (DN, 07 03 2021). Mesmo antes da pandemia, todo este processo - que agora ainda fica mais desfocado com o ressuscitar da falsa opção entre Montijo e Alcochete - estava à partida programado para dar um resultado favorável, independentemente dos fortíssimos factores contrários: as irregularidades no processo de avaliação ambiental (tanto na vertente da protecção da biodiversidade como dos impactos das alterações climáticas); a falta de objectividade do Ministério do Ambiente; as objecções dos representantes dos pilotos sobre os enormes riscos colocados à segurança de aeronaves e passageiros; uma análise custo-benefício irrealista...A vida vai-nos ensinando o limite dos bons fundamentos, face à teimosia de motivos tão poderosos que dispensam a razoabilidade argumentativa.

Viriato Soromenho Marques

Os donos disto tudo

Em junho próximo, na cidade sueca de Kiruna, um balão elevar-se-á até à altitude estratosférica de 20 quilómetros. Será a primeira etapa de um programa de geoengenharia da Universidade de Harvard, financiado pelo bilionário Bill Gates. O projeto é designado pelo acrónimo SCoPEx, que pode ser traduzido para português como "experiência de perturbação estratosférica controlada". Em linhas gerais, o que se pretende é disseminar partículas não tóxicas de carbonato de cálcio (CaCO3) para avaliar a sua capacidade de diminuir a radiação solar absorvida pela atmosfera, tentando desse modo indireto contrariar o processo de aquecimento global.

Viriato Soromenho Marques

Pode alguém ser quem não é?

Não é possível fingir ser-se quem não se é durante muito tempo, face a uma realidade extrema. Isto vale tanto para os indivíduos como para as instituições. A pandemia é uma forma aguda de realidade extrema. Oscilante, intensamente desconhecida (apesar dos avanços científicos), criativa nas suas metamorfoses, "visando" incrementar o seu sucesso na contaminação planetária, e dotada de uma durabilidade indeterminada, mas claramente superior à resiliência psicológica média do habitante urbano do século XXI. O impacto da pandemia sobre os indivíduos, não falando das vítimas mortais, terá custos ainda difíceis de estimar. Todavia, com mais ou menos danos e sequelas, a força vital que existe em cada um de nós impele-nos para nos reerguermos e seguirmos os nossos caminhos. Já o impacto da pandemia sobre o comportamento do Estado como um todo, ou declinado a partir de cada um dos seus poderes, poderá ter consequências exponencialmente mais graves. Quando um indivíduo perde o controlo sobre os seus atos, acidentes podem acontecer. Quando um governo calibra a sua política em função da fantasia e não da monitorização atenta do mundo real, os resultados trágicos ocorrem.

Viriato Soromenho Marques

De excomungado a reformador

No terceiro dia do ano, completou-se meio milénio sobre a excomunhão de Lutero (1483-1546), num processo de golpe e contragolpe, entre o jovem clérigo alemão e o papado, iniciado em 1517 com o ataque público e publicado do primeiro às Indulgências. Prosseguindo com a total pulverização do mapa teológico-político da Europa, na sequência da transformação desse protesto individual em Reforma Protestante (escrevi sobre isso no DN de 01.11.2017). O triângulo do universalismo medieval (uma religião, um Papa, um Imperador) há muito que escondia um vulcão à espera de entrar em erupção. Em 1511, Erasmo (1466-1536) tinha oferecido a um círculo restrito e ilustrado de leitores, o Elogio da Loucura, em que a natureza "humana, demasiado humana" do clero cristão era denunciada com mordacidade.

Viriato Soromenho Marques

Portugal no seu labirinto

No verão de 1881, a recém-criada Sociedade de Geografia (1875) promoveu uma expedição de 42 cientistas e estudiosos de várias formações à serra da Estrela. O grupo partiu de Santa Apolónia, estando a sua aventura bem documentada nas páginas do Diário de Notícias da época. Dez anos antes, já Antero de Quental, nas Conferências do Casino, denunciara o impacto das "conquistas longínquas", não só no despovoamento do país como no nosso profundo desconhecimento acerca do nosso território.

Viriato Soromenho Marques

Faltam adultos na sala

O que define a maturidade é a capacidade de assumir responsabilidades. Em especial, a responsabilidade de garantir um futuro individual e coletivo o mais seguro que seja possível. Isso significa saber identificar, diagnosticar e combater, atempadamente, as ameaças à viabilidade desse futuro. À luz desta definição de maturidade a nossa época não tem nota positiva. Vivemos mergulhados numa cultura de imaturidade perante os imensos desafios existenciais globais. Paralisados por uma espécie de sonambulismo moral, parecemos incapazes de alinhar consequentemente palavras e atos, conhecimento e ação.

Viriato Soromenho Marques

A política de Gonçalo Ribeiro Telles

Em novembro de 1967, Gonçalo Ribeiro Telles (GRT) deu-se a conhecer publicamente durante a comoção nacional das grandes cheias do Tejo, que ceifaram a vida a mais de 500 pessoas. A abrupta emergência enfraqueceu a censura. Só isso explica que GRT tivesse tido oportunidade de falar na RTP. Em vez de um flagelo inexplicável da natureza, aquela tragédia passou a estar associada a erros e escolhas humanas que destruíram a protetora vegetação ripícola da margem dos cursos de água, e à construção desordenada em cima de solos de leito de cheias.

Viriato Soromenho Marques

Pandemia e hierarquia de valores

Se o SARS-CoV 2 fosse uma arma, seria quase perfeita. A arma mais eficaz não é a mais letal, mas aquela que causa mais feridos de longa duração, que sobrecarrega as estruturas logísticas e hospitalares, que semeia o medo e a discórdia, que diminui a capacidade de luta através da entropia e desmoralização da sociedade. É exatamente o que estamos a observar - de modo ainda mais refinado do que na primavera - nestes primeiros passos da segunda vaga da covid-19. Estamos num momento de encruzilhada em toda a Europa. Seria conveniente analisarmos dois "pontos cegos" fundamentais no modo como encaramos o que está a acontecer. A sua elucidação poderá ajudar-nos, como cidadãos, a fazer um juízo crítico e a agir em conformidade. O primeiro aspeto negligenciado prende-se com a falta de humildade de muitas das opiniões e críticas à ação dos governos. É claro que os governos devem ser escrutinados e criticados, o que é inadmissível é o caudal de críticas insensatas, vindas também de peritos, que arrogantemente escamoteiam a colossal ignorância que ainda temos sobre este novo coronavírus. Recordo a ligeireza como alguns especialistas se têm atrevido a prometer vacinas para datas próximas, mantendo-se imperturbáveis perante o número crescente de testes que são interrompidos por efeitos indesejáveis na saúde dos voluntários. Ou ainda a sobranceria como responsáveis de saúde pública falam em "imunidade de grupo", para justificar os erros grosseiros cometidos, por exemplo, pelas autoridades de saúde suecas. O outro pressuposto inconsciente, que tem gerado muitos equívocos, é a recalcada necessidade de reconhecer a existência de uma hierarquia de valores nas políticas de combate à covid-19. Nas novas medidas propostas pelo governo - de tornar obrigatório o uso de máscaras em mais locais, assim como o download da aplicação StayAway Covid - importa ter em conta que os direitos de privacidade, devendo ser salvaguardados, têm, contudo, um peso inferior ao do direito à vida, sobretudo quando este depender da capacidade de evitar a propagação da doença. A questão correta é a de saber se essa aplicação tem ou não eficácia, mesmo depois de ser universalizada (o que parece não estar ainda esclarecido). O desprezo pelo direito à vida tem unido uma frente bastante insólita e disparatada que vai de Trump e Bolsonaro a intelectuais de "esquerda", como Giorgio Agamben. Para Trump, a vida dos mais frágeis não pode parar o curso normal dos negócios. Para Agamben, só um Leviatã tirânico seria capaz, para salvar a "vida nua" dos cidadãos, de os confinar compulsivamente... Os Estados europeus estão a devolver à autodisciplina dos cidadãos a tarefa de evitar novo confinamento. Trata-se de conciliar a liberdade individual com a responsabilidade que, em tempos pandémicos, cada um tem pelo direito à vida de todos os outros. Se as democracias europeias falharem na defesa da vida, todos conhecemos como abundam autoritarismos que a prometem salvar, em troca do sacrifício de todos os outros direitos que a tornam digna de ser vivida. Professor universitário

Exclusivo

Viriato Soromenho Marques

Rostos e máscaras

Há quinhentos anos vivíamos na alvorada, já em tons rubros vincados, da modernidade. Uma amizade entre dois homens geniais e dotados de um enorme poder de influência sobre a sua época - Erasmo (1466-1536) e Thomas More (1478-1535) - produziu duas obras que representam, em registos bem diversos de lucidez, esse tempo em que a Europa se agigantava para unificar o planeta inteiro sob a batuta de uma nova racionalidade. E isso por todos os meios: da espada e da palavra; da tecnologia e do comércio. A meio milénio de distância, a grandeza dessas figuras pode ser vista com maior amplitude, pois o nosso ponto de observação, mergulhado agora nas cores rubras do crepúsculo, é-lhes inteiramente tributário. No Elogio da Loucura, escrito por Erasmo em 1509, durante uma das suas visitas à casa de More, registamos não apenas uma amarga sátira de uma sociedade europeia atravessada ainda entre o medievalismo e a modernidade, mas constitui também um balde de água fria lançado sobre algum excesso de otimismo antropológico, cultivado precisamente pelas escolas de pensamento em que tanto Erasmo como More se filiavam. Em 1516, foi a vez de o pensador e político inglês se imortalizar através da ficção filosófica Utopia. Para o público do tempo, esta obra cheia de labirínticas significações, foi lida como um manifesto de futuro, tendo como núcleo a narrativa de Rafael Hitlodeu, um navegador português. More, também político atento, não poderia ficar indiferente ao sulcar luso de mares desconhecidos. Ele escreveu o seu livro enquanto Afonso Albuquerque (1452-1515) fazia a Europa regressar à Índia, desta vez para ficar longamente, ao contrário da breve passagem de Alexandre Magno, 18 séculos antes. Erasmo e More eram também homens do mundo. O primeiro era solicitado não apenas pelos inúmeros admiradores em toda a Europa (como o nosso Damião de Góis), mas pelo papado e pelas cabeças coroadas. O segundo chegaria a chanceler de Henrique VIII. Cada um à sua maneira, procuraram evitar a rutura da Europa, num processo que se iniciaria, teologicamente, com a reforma luterana, e se prolongaria, politicamente, com os Estados nacionais e os seus virulentos surtos bélicos. Erasmo simpatizava com muitas das críticas de Lutero à Igreja, mas abominava uma solução que iria replicar na cristandade o sangrento ódio islâmico entre sunitas e xiitas. More, por seu turno, acabaria decapitado por ordem de Henrique VIII. Demonstrou com o sacrifício supremo que a integridade da consciência de um homem livre não pode ser conquistada pela espada do soberano. Os séculos vertiginosos que se seguiram acabariam por fusionar os títulos das obras desses homens que se ergueram à condição de rostos da sua época. Hoje, a utopia realizou-se numa desmesura económica e tecnológica que parece ter ultrapassado as fronteiras da loucura. Talvez por isso, na imensa distopia quotidiana em que habitamos, os rostos não conseguem ganhar nitidez. Transformam-se em imprecisos esquissos e máscaras fugidias. Professor universitário