Viriato Soromenho Marques

Viriato Soromenho Marques

Romper o bloqueio

A26.ª conferência global sobre alterações climáticas (COP 26) decorrerá em Glasgow entre 31 de Outubro e 12 de Novembro deste ano. A situação internacional, quando o Planeta começa a afastar-se nas áreas mais vacinadas do auge pandémico, não é portadora de grandes promessas. A Covid 19 provocou uma diminuição nas emissões de gases de estufa e noutros impactos ambientais negativos. Mas isso foi passageiro, como quase tudo o que resulta de conjunturas exteriores à deliberação da vontade colectiva. O martelo pneumático do crescimento voltou ao trabalho na loja de porcelanas planetária. Com a agravante de que o carvão, o mais perigoso combustível fóssil, aparece como o grande vencedor. Não apenas nos países em vias de desenvolvimento, mas na própria Europa.

Viriato Soromenho Marques

Na ferida mudez do mundo

Há muitas décadas, o Gerês era o cenário preferido para longas deambulações, sem preocupação com fronteiras políticas (muito antes da entrada de Portugal e Espanha na então CEE). Desta vez, as caminhadas foram para perto de Vieira do Minho. Recordo, particularmente, um percurso designado como "trilho dos moinhos do Ave", entre as aldeias de Lamedo e Agra. Uma paisagem deslumbrante, mas que me inspirou um sentimento de tristeza que não me abandonou em todo o percurso. Natureza e cultura misturam-se organicamente num território sinuoso, carregado de marcas de outras formas de habitar a terra. Duas pontes romanas, inúmeros moinhos de água arruinados, lembrando o tempo em que o "mercado interno" de proximidade era uma questão de vida ou de morte. No coberto vegetal já existem, contudo, os sinais de uma guerra em curso. De um lado, carvalhos, castanheiros, as velhas oliveiras, loureiros, freixos, alguns abetos. Do outro, uma multidão, atrevida e sem cerimónia, de eucaliptos e acácias. No passado, tínhamos poetas vigorosos que cantavam a natureza como símbolo do transcendente e do divino. Agora, na melhor hipótese, temos guias de viagem que nos aconselham a visitar os lugares de uma natureza crepuscular, antes que seja demasiado tarde.

Viriato Soromenho Marques

Os bilionários assaltam o céu

Nas últimas semanas, os nomes de três dos mais mediáticos bilionários globais - Jeff Bezos, Richard Branson e Elon Musk - têm estado nas notícias por aquilo que é apresentado como uma corrida de machos alfa para saber quem é que vai mais longe no espaço. Como Branson se antecipou à viagem que Bezos realizará no próximo dia 20, este ripostou dizendo que será ele a atingir o limiar da linha de Kármán, a linha convencional, a perto de cem quilómetros de altitude, que separa a periferia da atmosfera terrestre do espaço exterior. Contudo, o que move estes gigantes não é uma luta pelo prestígio, mas a ganância nua e crua. Estes bilionários querem criar um novo mercado para enriquecerem ainda mais.

Viriato Soromenho Marques

As duas faces de Napoleão

A pandemia atenuou a reflexão europeia sobre o legado de Napoleão no duplo centenário da sua morte, que se cumpriu no passado dia 5 de maio. Os franceses continuam a colocar o imperador no topo das preferências, ao lado de Luís XIV, de De Gaulle e de Joana d'Arc. Mas a aura de Napoleão é universal e complexa. Diria que talvez tenha sido Beethoven quem melhor tenha surpreendido as duas faces que convivem e se entrechocam na sua ação histórica. O grande compositor já tinha concluído a sua 3.ª Sinfonia, quando soube que Napoleão se havia coroado imperador em dezembro de 1804. Temos testemunhos escritos que ele pensara dedicar a sinfonia Heroica a Napoleão, tendo, num ato de fúria, rasgado essa dedicatória. Beethoven admirara o general republicano, defensor e difusor das ideias da Revolução Francesa. Detestava, contudo, o imperador de um Estado expansionista, que foi dos primeiros a sacrificar no altar do nacionalismo.

Viriato Soromenho Marques

Mais azul no barlavento

Um dos privilégios da profissão/vocação de professor é o muito que aprendemos com os nossos alunos. Recentemente, participei num júri de doutoramento sobre alterações climáticas na região do Ártico. A autora, Laura Dorsch, partilhou as suas experiências junto de comunidades do povo Sámi (mais conhecidos por lapões) no Norte da Noruega. O seu vasto território tem sido fustigado pela crise ambiental, e em particular pela emergência climática. A sua paisagem vital, associada à dependência das manadas de renas, está em rápido declínio. Com o colapso do mundo físico rasgam-se também feridas mentais, que alguns julgariam ser apenas típicas das sociedades industrializadas e "desenvolvidas": a ecoansiedade, a biofobia, a solastalgia... conceitos manifestando a dor profunda causada pela perda do lar no sentido mais profundo: a nossa "terra", os lugares identitários que nos deram a segurança de uma pertença.

Viriato Soromenho Marques

Uma união em negação

A política europeia parece cada vez mais embarcada na construção de efeitos especiais, apresentados como se fossem realidades objetivas, sendo isso servido por uma enfática apologia de "valores europeus" que, depois de retirada a espuma retórica, se verifica não passar de um exercício narcisista de autocomprazimento. A conduta política europeia constitui uma penosa recusa de enfrentar os riscos do futuro. Não se percebe como poderá surgir a lucidez e a coragem para os diagnosticar e combater, ou para os assumir como uma consequência inevitável da deliberada manutenção da UE nesta instável encruzilhada. Estagnámos entre o completar das reformas indispensáveis para democratizar e salvar a UE ou o assumir resignado do falhanço da integração europeia, com o turbulento e devastador regresso à balança do poder dos Estados nacionais.

Viriato Soromenho Marques

Nem sinal de tédio

Passaram mais de 30 anos sobre a publicação do famoso artigo de Francis Fukuyama na revista The National Interest (verão de 1989) onde se analisava e advogava um radioso "fim da história" para a humanidade. Ele traria a plena realização das possibilidades evolutivas da nossa espécie, coincidindo com uma economia liberal completamente globalizada. Seria um mundo onde o desejo consumista dos cidadãos obrigaria os Estados iliberais, seguindo o exemplo do governo comunista chinês da altura, a adotar os princípios da economia de mercado.

Opinião

A estirpe portuguesa

Na quinta-feira, Portugal ultrapassou a Suécia em número de mortos (11 608 contra 11 520). Quando terminou o primeiro confinamento geral, eu fazia parte dos portugueses que se sentiam confortáveis pelo país não ter apostado na estratégia da "imunidade de grupo", que, na altura, se traduzia numa mortalidade sueca mais de três vezes superior à portuguesa. Hoje, quando Portugal apresenta números de contágios e de mortos que desenham curvas exponenciais semelhantes a mísseis balísticos prestes a sair da atmosfera, parece que Portugal assumiu afincadamente a opção de expor a sua população ao vírus, não esperando pelas vacinas. Só entre sábado (23) e quinta-feira (28), em apenas seis dias, somam-se 1688 mortos.

Viriato Soromenho Marques

No espelho da Torre Bela

O genial marquês de Condorcet (1743-1794) foi autor, durante a Revolução Francesa, da primeira Lei de Instrução Pública universal alguma vez escrita. Nela podemos ler: "A piedade para com os animais possui o mesmo princípio que a piedade para com os homens." A crueldade para com os animais indica alguém vil, perto de quem será prudente nunca baixar a guarda. Uma das imagens mais chocantes do "massacre" da Torre Bela é a de uma criança ao lado de um adulto, presumivelmente seu pai, no meio de uma sinistra paisagem juncada de animais abatidos. Veados, gamos e javalis que foram chacinados, sem hipótese de fuga, contra os muros da herdade.

Viriato Soromenho Marques

Duas tragédias da informação

No dia 8 de janeiro de 1815, as tropas britânicas que investiam contra Nova Orleães sofreram a sua mais pesada derrota nessa segunda guerra entre os EUA e a sua antiga potência imperial. Um conflito que os historiadores norte-americanos designam como a "Guerra de 1812". Embora seja sempre discutível, filosoficamente, falar na utilidade das guerras, a verdade é que nessa batalha os milhares de vidas perdidas ou mutiladas foram-no em vão. No dia 24 de dezembro de 1814, na cidade de Gante, a delegação de diplomatas enviada por Washington à Europa, em que pontificava o futuro presidente John Quincy Adams (1767-1848), conseguira chegar a um tratado de paz com os seus homólogos britânicos. Na altura, a informação viajava à velocidade do cavalo e do veleiro. A notícia de que a guerra havia terminado só chegou depois do fútil sacrifício no Louisiana.