Viriato Soromenho Marques

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Hamilton ainda não se avista

A nossa insaciável necessidade de boas notícias, perante o espetáculo de uma União Europeia (UE) que se arrasta à beira de uma crise em aceleração, levou algumas boas almas por essa Europa fora a saudar o projeto de um fundo de recuperação, apresentado em videoconferência pela chanceler Angela Merkel e pelo presidente Emmanuel Macron, a 18 de maio, como sendo um "momento Hamilton" europeu, uma quebra por Merkel do seu tabu contra uma "união de transferência".

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O despacho de Karlsruhe

O acórdão do Tribunal Constitucional Alemão (TCA), pondo em causa todo o trabalho do BCE desde 2015 na salvação da zona euro, fez-me lembrar, pelo potencial explosivo das palavras, o famoso Despacho de Ems, de 13 de julho de 1870, quando Bismarck fez chegar à imprensa francesa uma versão adulterada de um curto diálogo, travado na estância termal de Bad Ems entre o embaixador de Paris e o Kaiser Guilherme I, sobre a então escaldante questão do vazio trono espanhol. Bismarck queria a guerra, mas queria que fosse Napoleão III a tomar a iniciativa. Acicatado o orgulho francês com a sugestão de uma inexistente ofensa prussiana à dignidade do representante gaulês, o plano consumou-se.

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Viriato Soromenho Marques

Na Páscoa do "deus mortal"

Dentro da tempestade é difícil perceber os limites do que pode ser dito e escrito, sem cair na fífia ou no disparate. Há contudo um tema absolutamente incontornável, que esteve sempre latente e agora ganha uma evidência ensurdecedora: o que vai acontecer a essa instituição a quem todos agora suplicam? Qual vai ser o futuro do Estado, ao seio do qual todos agora se acolhem, das influentes multinacionais do setor automóvel ou da aviação civil aos humildes trabalhadores eventuais do turismo e da restauração? Importa recordar de onde viemos.

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Esse abismo que nos olha

Enquanto todos os dias dezenas de milhares de europeus são infetados e mortos pelo novo coronavírus, as linhas de fratura dentro da UE, e em especial da zona euro, estão a ficar ao rubro. O que está em causa é a recusa de quatro países - Alemanha, Holanda, Áustria e Finlândia - em aceitar uma emissão conjunta de títulos de dívida europeia para acudir a esta dupla emergência, que atinge a saúde pública e danifica a economia europeia e global. Na verdade, com a França, a Itália e a Espanha a favor dos coronabonds, com o BCE disposto, no que toca à política monetária, a prosseguir e a amplificar a via de Mario Draghi, o que continua a faltar é a coordenação orçamental que nas presentes circunstâncias só poderá ser conseguida com endividamento conjunto, para conseguir capital suficiente a taxas de juro baixas. Trata-se de um esforço titânico: reconstruir uma Europa capaz não só de superar o covid-19 como também de resistir aos gigantescos impactos da crise climática.

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Duas pestes

Sempre que ocorre uma ameaça de saúde pública com características de pandemia, existem, nos melhores cenários, dois momentos inevitáveis: a) o do medo, que pode ganhar contornos de pânico; b) o do veredicto crítico dos especialistas retrospetivos, aqueles que depois de tudo ter passado, sem deixar os destroços que se temiam, censuram as autoridades sanitárias por alarmismo e excesso de zelo... O covid-19 não constituirá exceção. As situações extremas destapam sempre as facetas mais sombrias e detestáveis da condição humana. A diferença no espectro de reações entre as pandemias pré-industriais e as pandemias modernas - dominadas pela eficácia da tecnologia farmacêutica, que leva à arrogância de Trump ordenando o desenvolvimento de uma vacina por decreto presidencial - reside mais na superfície, pois na exuberância patética de fundo tudo permanece idêntico.

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Céu azul em Wuhan

Há dias escutei na Antena 1 uma entrevista com um dos portugueses na altura retidos em Wuhan, a megacidade chinesa onde se iniciou a pandemia do coronavírus. Há vários dias que milhões de pessoas se isolavam em suas casas, para fugir ao contágio. Num cenário de ruas silenciosas e desertas, de fábricas encerradas, transportes reduzidos ou cancelados, esse compatriota dizia, com surpresa indisfarçável, que pela primeira vez pudera observar a cor azul do céu sobre a grande urbe. Se quisermos pensar nos significados dessa experiência única de azul chegaremos ao âmago de uma das maiores patologias da nossa civilização: a promiscuidade que mata.

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O Brexit como fadiga histórica

No day after do Brexit importa refletir sobre a deriva psicopolítica que ele representa. Uma deriva partilhada pelas elites partidárias (incluindo os trabalhistas, que foram seus cúmplices) e por metade do eleitorado. Apesar de toda a sua especificidade, penso que não se pode falar de uma excecionalidade britânica. O grande problema do Ocidente, desde que a invenção simultânea da máquina a vapor e do capitalismo industrial-financeiro introduziu o turbo na velocidade da história humana, consiste em saber qual o melhor modelo político para enfrentar os problemas resultantes dessa aceleração: se o da cooperação ou o da competição/conflito.

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Os disfarces das pulsões de morte

O que me parece mais admirável em Sigmund Freud (1856-1939) é a sua transgressão da regra entrópica do envelhecimento intelectual. Em Freud, ao contrário da maioria dos grandes autores, os escritos da fase final da vida são mais profundos, mais imaginativos, com uma ourivesaria literária mais apurada, e - suprema das vantagens - mais incapazes de serem aprisionados dentro de um sistema fechado. O que é um pesadelo para a maioria dos psicanalistas profissionais é uma alegria para os leitores independentes desse genial hebreu de Viena! Em 1920, no surpreendente ensaio Para além do Princípio do Prazer, Freud desarrumou décadas de trabalho anterior para propor uma nova teoria das pulsões, fundada no par antitético: "pulsões de morte" (Todestriebe) versus "pulsões de vida" (Lebenstriebe). Enquanto as pulsões vitais, também designadas como Eros, buscam manter, alargar, complexificar a existência, muito para além da vulgata sexual, as pulsões de morte são destrutivas, dotadas de inumeráveis mecanismos de disfarce e mimetismo. O que elas visam - tanto dentro dos indivíduos como fora deles - é a redução da complexidade, a substituição da diversidade pela mesmidade, e no limite, fazer com que o orgânico regresse ao seu mortal ponto de partida: a natureza inorgânica.

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Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

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Desvendar o paradoxo de Fermi

Que relação pode existir entre Donald Trump e Enrico Fermi (1901-1954) prémio Nobel da Física de 1938, e um dos maiores génios de sempre? Talvez Trump nos ajude a desvendar uma pergunta formulada por Fermi, que passou a ser designada entre os físicos como o "paradoxo de Fermi". De acordo com os relatos, em 1950, Enrico Fermi estaria num restaurante do Laboratório de Los Alamos, na fila para o almoço, numa conversa descontraída com outros cientistas célebres, entre os quais Edward Teller, tendo colocado, de modo interrogativo ("Afinal onde estão eles?"), a hipótese de não existência de vida extraterrestre suficientemente inteligente para produzir uma tecnologia capaz de conduzir à exploração do espaço exterior. Em 1950, a imprensa pululava com relatos fantasiosos de avistamentos de OVNI. Para Fermi, o paradoxo residiria no contraste entre a quase infinita probabilidade dessa existência de vida tecnologicamente exuberante, dada a imensa escala do universo, e a nulidade de provas empíricas da sua realidade. Fermi não deu grande importância a esta conversa, mas o seu impacto foi imenso. Carl Sagan e outros físicos defendiam a tese de que seria preciso refinar a procura por sinais de vida inteligente. Nesse sentido, a NASA criou o programa de pesquisa SETI, descontinuado em 1993, mas que ainda sobrevive de modo algo fragmentar e com financiamento de mecenato.

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O mal moral em horário nobre

Uma das coisas mais perturbantes e universais na preparação militar em tempo de guerra é a "lavagem ao cérebro" que permite transformar civis, educados para comportamentos pacíficos e respeitadores da lei e da ordem, em guerreiros prontos a matar. Todas as guerras, justas e injustas, defensivas ou ofensivas, não dispensam a construção da imagem do "inimigo", para educar a agressividade que reside bem no miolo mais primitivo do repertório genético da nossa espécie.