Viriato Soromenho Marques

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Um oásis na tempestade

A"crise política" aberta pela questão da contagem do tempo de serviço dos professores foi o álibi perfeito para impedir qualquer espécie de debate sério e consistente sobre o modo como o futuro do país depende, visceralmente, do futuro da União Europeia. E isso não seria uma fatalidade. Aprofundar as razões que explicam porque milhares de milhões de euros emprestados aos bancos, sem qualquer garantia de efetivo retorno, são aceitáveis para o orçamento nacional, enquanto uma fração mínima dessa quantia, em massa salarial, seria disruptiva para o equilíbrio das contas públicas, poderia ser um exercício intelectualmente esclarecedor, perfeitamente integrado no âmbito das eleições europeias em que nos encontramos. Ser capaz de discutir essa aparente contradição levaria o debate político ao labirinto da tenazmente persistente crise europeia, e à necessidade de pensar as reformas indispensáveis para a superar. Mas falar a sério da Europa não faz parte da nossa cultura política. A direita e o PS não querem olhar para o minotauro financeiro que se esconde nesse labirinto. A outra esquerda fala no assunto, apenas como pedrada retórica. Fica-se pelo protesto, sem esboço sequer de alternativa realista ("romper com as regras do euro", como repete o PCP, é um atestado da irrelevância política de quem o propõe). Alegre e até consensualmente, os partidos dedicam-se aos jogos florais da intriga doméstica, e os cidadãos respondem com a costumeira indiferença.

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Luzes de Aquilino na noite europeia

O hoje muito esquecido filósofo da história, Oswald Spengler (1880-1936), demonstrou com génio a natureza não linear do tempo histórico. A vizinhança temporal na história não se mede na métrica dos anos, mas sim na afinidade semântica das épocas. Voltei a sentir o rigor de Spengler ao reler dois livros extraordinários de Aquilino Ribeiro (1885-1963), sobre uma Europa, política, económica e sobretudo moralmente desfigurada e exangue. São textos escritos entre 1914 e 1920, mas só publicados como livros pela Bertrand - enriquecidos com soberbas páginas introdutórias -, respetivamente, em 1934 (É a Guerra) e 1935 (Alemanha Ensanguentada).

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Quando a democracia desliga os alarmes

Um relatório recente da Agência Internacional de Energia chamava a atenção para um enorme aumento em 2018 das emissões de gases de estufa. Uma variação crescente de 1,7% em relação a 2017, o que corresponde às emissões de todo o setor da aviação durante o ano anterior! No ano passado, a procura mundial por energia cresceu 2,3%, essencialmente no setor dos combustíveis fósseis, apesar de tudo o que já se avançou nas renováveis. Há três semanas, o Programa das Nações Unidas para o Ambiente atualizou as informações sobre o Ártico, uma das zonas geoclimáticas mais atingidas pelos impactos da crescente concentração de gases de efeito de estufa na atmosfera. Foi comprovado que a temperatura revela aí um aumento duas vezes superior à média mundial. Mais ainda, esse aquecimento está a precipitar o derretimento do permafrost, ou tundra, o que constitui uma das mais temíveis retroações positivas (efeitos que ampliam as suas causas). Na verdade, a tundra, ao derreter-se, não só instabiliza todas as estruturas humanas nela construídas (estradas, pontes, fábricas, povoações, etc.) como liberta enormes quantidades de carbono e metano, que vão intensificar ainda mais a velocidade e intensidade das alterações climáticas em curso. Isso, inclui, a já comprovada aceleração do ritmo de subida do nível médio do mar (NMM), que se elevou 23 centímetros desde 1880.

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Um combate pela memória

O mais recente livro de José Milhazes (Os Blumthal, Oficina do Livro) conta-nos uma dolorosa viagem pessoal ao trágico passado da família de sua mulher, Siiri, nascida na Estónia, quando este atual Estado membro da União Europeia era ainda uma parcela do império soviético. Através de uma árdua reconstituição documental do percurso biográfico de existências concretas, marcadas pela tragédia, este livro consegue focar criticamente uma época inteira. O período temporal considerado na obra concentra-se especialmente no período iniciado em 1918, com a independência da Estónia, conquistada depois da fragmentação do império czarista russo na sequência da revolução de novembro de 1917 e da paz unilateral assinada pelo governo bolchevique com o império alemão em Brest-Litovsk, em março de 1918. Embora vários sejam os esboços biográficos de antepassados de sua mulher, desenhados por José Milhazes, o núcleo da narrativa situa-se em torno da figura de Leida Holm (1901-1983), avó paterna de Siiri, e também do seu marido, prematuramente desaparecido (Erich Sóerd, 1901-1942). Leida, conhecida pela neta através da terna alcunha de Mamma, constitui-se como uma involuntária e amarga heroína, representando as vítimas anónimas desse tempo de chumbo. O verdadeiro nome da família de Leida, Blumthal e não Holm, revela uma perigosa origem judaica. Durante os primeiros 22 anos de independência da Estónia (1918-1940), Leida e vários membros da sua família militam, com risco e sacrifício, no partido comunista estónio. Com o pacto germano-soviético de agosto de 1939, Hitler invade a Polónia, dando em troca a Estaline a anexação dos três estados bálticos. Desde 1940 até 1992, a Estónia permanecerá subjugada. Primeiro pelos soviéticos, depois pelos alemães (1941-1945). Com a vitória sobre Hitler, Estaline consolida o seu domínio sobre o Báltico. A Estónia só recuperará a sua independência em 1992, no mesmo ano em que se extingue oficialmente a URSS.

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Famílias mortais

Bem gostaríamos que fosse de outro modo. Mas não é. Se a humanidade nos dá alguns motivos de esperança, não faltam também os sinais de que a barbárie permanece pronta a eclodir nos lugares e nas paisagens sociais mais diversas. Segundo a associação feminista UMAR, as nove mulheres vítimas de homicídio nestas primeiras semanas de 2019 correspondem a um terço das mulheres assassinadas no nosso país em todo o ano de 2018. A morte violenta de mulheres, vítimas de maridos, namorados e outros familiares recorda-nos a justeza da meditação de Thomas Hobbes, que no século XVII, para compreender a racionalidade de um contrato social, começava pelas relações de conflito entre indivíduos. Em vez de sujeitos coletivos, iniciava a meditação pela estrutura das paixões humanas na mais pequena e singular escala. Ao contrário dos defensores do primado, ou quase exclusividade, das clivagens entre grupos e coletivos, sejam as lutas sociais e políticas entre classes, entre esquerda e direita, ou entre nações e religiões, a guerra civil doméstica que alastra em tantas casas portuguesas confirma a supremacia de género como um dos mais letais focos de agressividade entre indivíduos.

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Da (in) competência dos intelectuais

Muito recentemente foi publicado um manifesto intitulado "Lutar pela Europa", assinado por 30 pensadores europeus. Parece um caso típico da lamentável "falácia das competências": o merecido prestígio dos signatários (na literatura e nas humanidades) é emprestado de modo indevido para assuntos em que não apresentam qualquer credencial relevante (política europeia). O primeiro autor é o controverso Bernard-Henri Lévy, mas também lá não falta, em nossa representação, o escritor António Lobo Antunes. À partida, a causa da iniciativa é nobre - a preocupação com o provável ascenso dos extremistas e populistas nas eleições de maio para o Parlamento Europeu. Todavia, o manifesto desaponta por ser um absoluto e pomposo deserto de ideias. As teses do manifesto são simples: a) a "grande ideia" de Europa está em perigo; b) a Europa está ameaçada pela barbárie das correntes identitárias, que querem travar a integração europeia; c) o combate decisivo é entre os "patriotas europeus", erguendo o "facho" europeu (péssima metáfora!), e os "nacionalistas". O manifesto esquece a pergunta básica: como é que chegámos a isto? Com um simplismo devastador, o manifesto trata o populismo como se fosse uma espécie de espontaneidade do mal, e não um sintoma da profunda doença em que a Europa agoniza.

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Viriato Soromenho Marques

Um futuro minguante

Nos últimos 30 anos mudámos a perceção sobre o futuro. A globalização, aberta pela implosão pacífica do império soviético, mobilizada pelo eclipse generalizado das ideias socialistas, incluindo no campo da social-democracia europeia (Blair e Schröder, por exemplo, enfraqueceram mais os direitos laborais do que os tories ou a CDU/CSU), e por uma vaga autoconfiante de neoliberalismo, provocou um triplo efeito: a) redução dos níveis globais de pobreza extrema, b) formação de "classes médias" nos países emergentes (sendo o caso da China o mais significativo); c) diminuição continuada e sistemática dos rendimentos do trabalho face aos rendimentos do capital no PIB dos países ocidentais.

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Direitos humanos em tempos de incerteza

Setenta anos após a exata data da sua aprovação formal, a Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas parece estar mais perto dos tempos de angústia que lhe deram origem, num mundo devastado pela guerra e pelos particularismos virulentos, do que do projeto de sociedade internacional justa, onde cada mulher e cada homem se deveriam assumir como "cidadãos do mundo", para usar um conceito retirado do último discurso de tomada de posse de Franklin Delano Roosevelt, a 20 de janeiro de 1945. São os riscos e as ameaças deste tempos de crise global que exigem de todos uma reflexão, comprometida mas livre, com estas palavras gravadas no granito, que constituem uma das últimas linhas de defesa contra o regresso da barbárie.