Viriato Soromenho Marques

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Famílias mortais

Bem gostaríamos que fosse de outro modo. Mas não é. Se a humanidade nos dá alguns motivos de esperança, não faltam também os sinais de que a barbárie permanece pronta a eclodir nos lugares e nas paisagens sociais mais diversas. Segundo a associação feminista UMAR, as nove mulheres vítimas de homicídio nestas primeiras semanas de 2019 correspondem a um terço das mulheres assassinadas no nosso país em todo o ano de 2018. A morte violenta de mulheres, vítimas de maridos, namorados e outros familiares recorda-nos a justeza da meditação de Thomas Hobbes, que no século XVII, para compreender a racionalidade de um contrato social, começava pelas relações de conflito entre indivíduos. Em vez de sujeitos coletivos, iniciava a meditação pela estrutura das paixões humanas na mais pequena e singular escala. Ao contrário dos defensores do primado, ou quase exclusividade, das clivagens entre grupos e coletivos, sejam as lutas sociais e políticas entre classes, entre esquerda e direita, ou entre nações e religiões, a guerra civil doméstica que alastra em tantas casas portuguesas confirma a supremacia de género como um dos mais letais focos de agressividade entre indivíduos.

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A terceira tribo

À medida que vamos conhecendo os resultados da auditoria da EY à CGD, importa perguntar que lições sobre o Portugal da III República nos pode essa inspeção ensinar? Embora a auditoria percorra o período de 2000 a 2015, com um tempo de vertigem correspondente ao auge e declínio do josé-socratismo (2007-2012), percebe-se que os financiamentos desastrosos da CGD vão muito para além dos valores apurados. Se tomarmos em consideração os 4,9 mil milhões de euros injetados na Caixa pelo Estado desde 2016, ficaremos com uma ideia mais exata das imparidades levianamente criadas pela verdadeira coligação que governou Portugal durante esse período: um obscuro triângulo das Bermudas da nossa infelicidade nacional constituído por políticos incompetentes, gestores venais e empresários caçadores-recoletores do erário público. A primeira lição consiste neste facto, que confirma a luminosa tese de Desmond Morris, na sua obra-prima O Macaco Nu (1967): a revolução do neolítico há dez mil anos permitiu criar sociedades crescentemente urbanas e com milhões de membros, mas os mecanismos antropológicos de poder reproduzem sempre o pequeno grupo de famílias que foi a unidade de referência da hominização durante dezenas e até centenas de milhares de anos. Todos os países, da China a Portugal, são governados por tribos de oportunidade, onde em vez de sangue, o que vincula os seus membros são os laços de cooperação na tomada, manutenção e usufruto do poder. Se contarmos todos os banqueiros, empresários e ministros envolvidos nos anos de febre da entrada de Portugal no euro, quando o país (Estado e privados) teve acesso a dinheiro à taxa de juro da dívida alemã, toda essa gente, a que tem processos na justiça, e a outra que continua a passar tranquilamente por entre as gotas da chuva, tudo somado não deve ultrapassar a centena de almas (compreende-se o protesto de Vara contra a sua solidão em Évora...). Também, a elite da I República - chefes de partido, maçonaria, empresários, intelectuais orgânicos - e os mandarins das várias gerações do Estado Novo não deveriam somar mais de uma centena de nomes verdadeiramente influentes.

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A maior dívida

Em 1789, ainda como embaixador em Paris dos recém-formados EUA, Thomas Jefferson escreveu ao seu amigo James Madison introduzindo um tema novo na literatura ético-política do Ocidente: a justiça entre gerações. Que obrigações ligam uma geração não apenas aos antepassados (cuja memória deve ser respeitada e preservada), mas sobretudo às gerações futuras? O pressuposto fundamental de Jefferson era o de que cada geração tinha direito a usufruir a Terra, mas de tal forma que não pusesse em causa esse mesmo direito para as gerações seguintes. Nesse distante mundo rural e pouco povoado do final do século XVIII, ele definiu dois princípios que deveriam inspirar as políticas públicas: nenhuma geração deveria limitar a liberdade da seguinte em matéria de revisão constitucional; nenhuma geração deveria sobrecarregar a seguinte com uma dívida pública não paga.

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Uma boa notícia

Já não me recordo da última vez que aqui escrevi sobre uma boa notícia. E esta é boa para os mais de 500 milhões de cidadãos da União Europeia. No dia 27 de novembro, o importante Comité do Parlamento Europeu (PE) para os Assuntos Económicos e Monetários (ECON), composto por 50 deputados (de um total de 751), rejeitou através de um empate (25:25) a proposta da Comissão Europeia (CE) para integrar o sinistro Tratado Orçamental (TO) no direito da União Europeia.

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A chanceler que encolheu a Europa

Depois do duplo desaire da CSU, CDU e SPD nas eleições estaduais da Baviera e de Hesse, a "grande coligação" em Berlim transformou-se num eufemismo que vale 40% das intenções de voto do eleitorado germânico a nível federal (dados Pollytix-Wahltrend). O que aconteceu aos partidos históricos da RFA não pode ser explicado pela narrativa preguiçosa da ascensão da extrema-direita, representada pelos neonazis, ainda engravatados, da AfD.

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Tropeçar na verdade

O assassinato, impossível de adjetivar, do jornalista saudita Jamal Kashoggi é uma trágica janela de oportunidade para romper os véus da ilusão diplomática, mergulhando brutalmente no autêntico software da política mundial. Depois de semanas a tentar esconder o óbvio, todos os sinais iniludíveis de culpa recaem sobre o príncipe saudita Salman. Este jovem tem ganho uma reputação de reformista no Ocidente, apesar da repressão duríssima dos seus opositores, e de conduzir uma política externa de imperialismo bélico no Iémen e na Síria. A que se junta o bloqueio do Qatar e o rapto temporário do primeiro-ministro libanês Hariri. Como é possível ter uma reputação tão oposta ao que os atos contam? Segundo a revista Foreign Policy, o príncipe contratou, no valor de milhares de milhões de dólares, as maiores empresas de relações públicas de Washington (Hannah Arendt designava-as, antes, como empresas de "mentira organizada"). Contudo, mesmo a mentira sofisticada tem limites, e o aprendiz de tirano dos desertos tem ainda muito que aprender. Foi esse, aliás, o teor das recentes declarações de Trump: não denunciou a brutalidade do crime e a imoralidade do mesmo, mas do alto dos seus 72 anos de experiência lamentou a tripla incompetência do seu amigo de 33: a ideia desproporcionada do assassínio, o "mau" desempenho na execução do mesmo e o seu desastroso encobrimento.

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Ir na corrente

Que lugar existe para a esperança coletiva se a política se entregar à inércia, desistindo de enfrentar os perigos que se perfilam cada vez mais nítidos no horizonte? Em Portugal vibramos com notícias e comentários sobre nomeações, que afetam o equilíbrio de poderes, e escândalos que ferem o prestígio da instituição militar. São temas relevantes, mas situam-se ao alcance da capacidade imunitária de uma democracia, mesmo mediana como a nossa. Contudo, estrutural, muito menos visível, e que no limite poderá abalar as instituições, erodir os poderes públicos e clivar o tecido social, é o descontentamento persistente das pessoas com a ausência de mudança na qualidade e nas expectativas das suas vidas. Apesar da retórica do fim da austeridade, o facto é que o país continua afetado por profundas desigualdades e disfunções, tanto nas finanças públicas (onde a dívida persistente aparece como uma corrente que amarra o tornozelo do nosso futuro nacional), como na esfera privada da economia.

Viriato Soromenho Marques

Altos cargos e pequenos homens

O famoso discurso proferido pelo presidente Lincoln na inauguração do cemitério nacional de Gettysburg, a 19 de novembro de 1863, quatro meses depois da grande batalha travada nesse local, e 18 meses antes do final da sangrenta Guerra Civil norte-americana, é a marca de água de um grande homem. São 272 palavras proferidas em menos de dois minutos, por um líder político que refundou os EUA, reinventou a instituição do presidente federal e reacendeu, temperado com o custo do seu sacrifício supremo, o farol mítico da atração universal dos EUA.