Viriato Soromenho Marques

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Viriato Soromenho Marques

Mudar de vida

Para os distraídos, crédulos de que a inteligência humana se tem vindo a apurar sem quebras, aconselho a que se comparem quaisquer dos atuais tratados de economia com o clássico ensaio que John Stuart Mill dedicou aos Princípios da Economia Política (1848). Ao contrário da hodierna economia dominante, que ignora olimpicamente o seu impacto destrutivo no mundo, Mill fala de uma economia integrada na natureza e ao serviço do aperfeiçoamento da justiça e da dignidade humanas. Mais de um século antes do relatório sobre Os Limites do Crescimento (1972), elaborado pela equipa do MIT chefiada por Donella e Dennis Meadows, Mill salientava a impossibilidade física de um crescimento económico material infinito. Com uma mistura de finura e rigor analítico, o pensador britânico indicava que, inevitavelmente, os sistemas económicos serão forçados a reconhecer a necessidade de um "estado estacionário" (stationary state). Contudo, o autor chama a atenção para a necessidade de distinguir o crescimento material, que tem limites físicos objetivos - os quais podem ser adiados mas não evitados - do desabrochar das capacidades humanas, cujos contornos de aperfeiçoamento são indetermináveis.

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O "elixir" de Salazar

Na sua conferência de 1919, sobre a política como profissão e vocação, Max Weber profetizou a era de líderes carismáticos que conduziria à II Guerra Mundial. Salazar ocupa um lugar singular nessa galeria, que vai de Mussolini a Estaline, unida pela recusa e o desprezo da democracia liberal. Contudo, ao contrário de Mussolini e Hitler, que tinham "sistemas filosóficos" barrocos e abrangentes, voluntaristas até à histriónica e fanática recusa dos factos, Salazar preferia uma política analítica, voltada para os casos concretos, mimética das ciências positivas: "Não sou", escrevia em 1943, "dos que julgam que há uma verdade política; mas firmemente creio que há verdades políticas tão exatamente demonstradas pela razão e pela experiência como conclusões das ciências positivas. Os que julgam possuir a verdade na política e no governo dos povos vão desgraçá-los com a imposição, até onde puderem, do seu elixir universal."

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A bordo do Titanic 2.0

No dia 14 de abril de 1912, antes da colisão com o icebergue que o afundaria, o Titanic recebeu seis avisos via rádio de diferentes embarcações acerca de perigosos blocos de gelo flutuante dispersos na sua rota. Aparentemente, o seu comandante, Edward Smith, estava convencido de que nenhuma força natural poderia opor-se ao mais rápido e poderoso navio do mundo. O Titanic nem sequer abrandou a sua velocidade excessiva (22 nós, ou 41 km/h), o que foi crucial no fracasso da manobra de desvio que poderia ter evitado a colisão fatal.

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A pandemia da economia viral

John Bolton não resistiu à oportunidade de fazer um sucesso editorial com um livro contando a sua passagem pela Administração Trump (The Room Where it Happened. A White House Memoir, Simon Schuster, 2020) povoado de pequenas anedotas fastidiosas, em que se destaca, permanentemente, o deslumbramento do autor consigo próprio, contrastando com a tontice e a impreparação do presidente. Em Washington não há períodos de nojo e a noção de reserva ou honra há muito desapareceu de um pessoal político que está no mercado para fazer lucro, ou como dizia o falecido filósofo John Rawls a propósito do Congresso dos EUA, para "vender e comprar leis", como num leilão onde há muito se perdeu o sentido da decência. Num certo sentido, Bolton e todos os outros que não hesitaram em ir comer à mão de Trump são moralmente piores do que ele. Quem come à mesa do monstro, quem aceita os seus convites, as suas nomeações, quem bate palmas às enormidades que o atual inquilino da Casa Branca profere todos os dias, quem se manteve calado perante a corrosão das instituições republicanas do federalismo norte-americano, torna-se cúmplice dos atos presidenciais.

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Olhar em frente

Um dos principais indicadores do caminho que a recuperação económica vai seguir, tanto em Portugal como na Europa, encontra-se no futuro da aviação civil. O título deste artigo recicla a infeliz gafe da diretora-geral da Saúde, numa recente conferência de imprensa, tentando justificar a orientação europeia que vai permitir que os aviões voltem a voar lotados, a partir de 1 de junho (anulando o limite de dois terços estipulado pelo Governo português numa portaria de 2 de maio). Não se começa bem. Na verdade, mesmo que os passageiros "olhassem em frente" durante toda a viagem, é difícil explicar esta exceção sanitária em relação a outros espaços fechados e outros meios de transporte, sem recorrer ao antigo estatuto de privilégio da aviação civil.

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A guerra está longe de ser vencida

O confinamento deixa marcas, nos corpos e nas mentes. Por isso é tão importante manter a cabeça lúcida e a narrativa coerente. Não uma coerência com os preconceitos e os dogmas do umbigo. Precisamos, sim, de uma coerência com o mundo exterior, com os factos e os acontecimentos, que nos permita agir e sobreviver, como indivíduos e sociedade. Quero falar do que correu bem até aqui. E depois do que está a começar a correr mal e deve ser contrariado. O que correu bem está à vista de todos e tem merecido nota positiva também por observadores internacionais. Na altura em que escrevo, usando um indicador amplo (o número de mortos por milhão de habitantes), nos principais países afetados por covid-19, só a Alemanha está ligeiramente melhor do que nós (61 contra 75). A Suécia já vai em 175, Reino Unido (255), Holanda (229), Bélgica (540), França (319), Itália (408), Espanha (464) e EUA (137).

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Rumar no frágil esplendor

No último fim de semana, eu e mais três amigos de sempre, resolvemos agarrar nas mochilas e partir pela estrada fora na realização de uma ideia longamente adiada. Nos velhos tempos em que éramos novos, preferíamos subir às montanhas, escalar pelas paredes de granito e calcário, caminhar pelos mantos de neve no alto da Estrela, vaguear pelos Picos de Europa, nas Astúrias, respirar com dificuldade nos cimos do Atlas marroquino. Mas aquilo que faltava estava mesmo à porta.

Viriato Soromenho Marques

Médicos e doentes

Não, este não é um artigo sobre a despenalização da eutanásia, mas pode ajudar no lento processo de reflexão a montante, imprescindível para formar uma opinião madura sobre qualquer assunto. Por convite do médico José Poças e do bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, tive a missão de apresentar em Setúbal um livro coordenado pelo primeiro: A Relação Médico-Doente: Um Contributo da Ordem dos Médicos, Lisboa, By the Book, 2019, 755 pp. Trata-se de uma obra muito extensa, rica na diversidade do seu conteúdo - basta referir que para ele contribuíram 81 autores, alguns deles fora do campo médico - e orientada para um alvo concreto: a OM mobilizou-se para uma tarefa visionária iniciada em Espanha, a saber, apresentar à UNESCO uma candidatura da Relação Médico-Doente como Património Imaterial da Humanidade! Mesmo que este objetivo, requerendo uma grande coligação internacional de associações e personalidades, não venha a ser atingido, este livro é um bem em si próprio pelas muitas janelas que abre para o mundo intenso, doloroso e comovente dos laços que a doença cria entre quem precisa de ser cuidado e quem presta esse socorro.

Viriato Soromenho Marques

Encalhados, sonâmbulos e nus

Não poderia existir forma mais auspiciosa de celebrar a honra atribuída pela Comissão Europeia (CE) ao escolher Lisboa como Capital Verde Europeia 2020 do que esta decisão do Ministério do Ambiente de dar luz, também verde, a um dos mais retorcidos e ambientalmente impactantes projetos de obras públicas desde o 25 de Abril: o Aeroporto do Montijo. A novel presidente da CE, Ursula von der Leyen, deve também estar muito agradecida a António Costa por este prestimoso contributo nacional para os objetivos do Pacto Ecológico Europeu (European Green Deal). Certamente que a intensificação do tráfego aéreo que esta nova infraestrutura vai permitir e estimular, encontra-se perfeitamente em linha com os ambiciosos objetivos europeus de reduzir até 2030 em 55% as emissões de carbono!

Viriato Soromenho Marques

Se até um povo de demónios...

A Cimeira climática de Madrid (COP 25) terminou com dois dias de atraso, e sem resultados. Só em 2020 é que existe a expectativa de uma nova e mais ambiciosa proposta de metas nacionais de mitigação. Por isso, quando mesmo sem grandes expectativas a má vontade é exposta na praça pública, isso mostra que a possibilidade de se obter uma resposta eficaz ao perigo colossal das alterações climáticas, através deste método, deverá ser nula, ou próxima disso.