Viriato Soromenho Marques

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Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

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Somos todos venezianos

Mesmo antes das destruições recentes, é do conhecimento geral que essa joia maior da cultura europeia, Veneza, será uma das primeiras vítimas da subida imparável do nível médio do mar (NMM), mercê das alterações climáticas. Para evitar as habituais manobras de diversão, que atiram tudo para cima de uma certa desorganização e escassa transparência do sistema político italiano (para não usar o termo corrupção em terra alheia), vale a pena citar um estudo de junho deste ano publicado pela Academia das Ciências dos EUA (J. L. Bamber et alia), em que se atualizam as projeções de subida do NMM para dois metros até 2100 e 7,5 metros até 2200, no cenário provável de um aumento da temperatura média na zona dos 5º C.

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No império das "paixões tristes"

O vandalismo nas noites de Barcelona, onde não faltaram grupos de adolescentes saqueando lojas, numa réplica da explosão de banditismo que sacudiu Londres em 2011, constitui uma imagem do abismo em que mergulhou o nacionalismo catalão. A ação de setores independentistas violentos revela a desorientação reinante. É a fúria que procura consolar a derrota. Contudo, não só os independentistas perderam como perdeu a Espanha democrática pós-franquista. Perdeu a própria UE, cada vez mais incapaz de unir os cidadãos europeus para as lutas que só juntos poderiam vencer. O novo projeto nacionalista catalão foi catalisado em 2006 pela objeção judicial parcial ao Estatuto da Autonomia catalã, contudo só ganharia maior expressão depois de 2011. A intransigência do governo de Rajoy, barrando o indispensável diálogo entre Madrid e Barcelona, já foi aqui, por mim, amplamente criticada. Menos conhecido é o facto de a componente europeia da estratégia independentista liderada por Artur Mas ter consistido em cortejar oportunisticamente a política de austeridade imposta pela Alemanha, baseada na fábula da cigarra do sul e da formiga do norte, procurando evitar a necessária reforma da incompleta e disfuncional zona euro. A tentativa de vassalagem a Berlim - a que esta com sabedoria jamais sucumbiu - foi assumida sem pudor. Em novembro de 2011, Artur Mas, no encerramento da VI Convenção de Comércio da Catalunha, afirmava: "Os alemães querem mandar na Europa, porque são os que pagam, eu digo com ironia que os catalães se parecem com os alemães, porque aqui [em Espanha] pagamos, mas não mandamos." A defesa pela Generalitat da austeridade incondicional na crise do euro, para se colocar sob a proteção do diretório, revela que para os independentistas radicais a UE é sobretudo um instrumento descartável, ao serviço da sua paixão identitária. A liderança catalã, incluindo esse hologramático Puigdemont, descontou o risco que corria ao colocar, na fuga para a frente de 2017, a hubris independentista acima da ideia de uma refundação federal do Estado espanhol. O que sobra quando a imaginação se quebra na parede da realidade é uma Catalunha dividida ao meio, a crispação de uma sociedade culturalmente vibrante, a substituição da prosperidade pelo empobrecimento, do cosmopolitismo pelo ressentimento. O futuro não promete independência, mas mais entropia na já ferida autonomia catalã. O assunto não comove no exterior, numa altura em que o mundo se dilacera, em formação dispersa, sem liderança nem rumo. No topo da agenda política e económica local, nacional e global deveria estar a necessidade de cooperação compulsória para enfrentar a emergência climática e ambiental, que vai minando as condições biofísicas de que depende o nosso futuro. A virulência de todos os nacionalistas é uma das "paixões tristes" que dilacera os homens, dentro de si e entre si, como escreveu Espinosa. Sempre os afastou da liberdade. Em 2019, torna mais improvável também a nossa própria sobrevivência coletiva num horizonte de escassas décadas.Professor universitário

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Os industriais do otimismo

Na sua autobiografia literária, Ecce Homo (1888), Nietzsche defendeu que a verdade não dependeria tanto da questão gnosiológica da adequação entre a nossa representação e a realidade objetiva, mas antes da coragem moral para ousar suportar o seu peso tantas vezes amargo. O erro não seria, desse modo, um problema de cegueira ou falta de rigor, mas teria origem no mal moral da "cobardia" (feigheit), na recusa em olhar a verdade de frente, delineando a partir dessa contemplação todas as consequências práticas e existenciais necessárias.

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Estaline e o "Museu Salazar"

Pensava abster-me na "discussão", com mais ruído do que substância, em torno do chamado "Museu Salazar". Com a ironia própria do real, essa força, segundo Ortega, ilógica para a nossa mente, acabei por decidir entrar na liça. O bizarro motivo para tal foi a divulgação pelos EUA de algumas atas secretas da Conferência de Potsdam. Ao ler os materiais relativos a 19 de julho de 1945, deparei com uma interessante discussão entre o demissionário Churchill (sairia de cena a 26 desse mês) e Estaline. Este queria que os Aliados dessem uma ajuda à mudança de regime em Espanha. Para ele, Franco só se tinha imposto devido ao apoio militar de Hitler e de Mussolini. Churchill estava contra, dizendo que, nesse caso, também o regime de Salazar teria de ser posto em causa. A resposta de Estaline é surpreendente: "O regime de Portugal surgiu a partir de forças internas, o de Espanha de forças externas. Eu não coloco no mesmo plano Espanha e Portugal." Com incredulidade, aceitei a deixa que um dos mais terríveis terroristas de Estado de sempre me oferecia para abordar o tema do dia. Muitos dos críticos do Estado Novo partem de um fatal erro metodológico. Em vez de tentar compreender esse regime e o seu longevo líder a partir de dentro da história de Portugal, fazem um exercício emocional de externalização, que é intelectualmente de uma preguiça inaceitável. Colocam Salazar no mesmo plano de Hitler e de Mussolini, e recusam-se até a classificar o Estado Novo como II República. Na minha leitura, pelo contrário, o Estado Novo e o seu chefe prolongaram três problemas nacionais que só foram resolvidos com o 25 de Abril e a III República, a saber: a superação da violência política; a consolidação da democracia representativa; e o fim do ciclo imperial. A I República impôs-se violentamente e nunca conseguiu livrar o país de uma guerra civil de baixa intensidade, que os 200 mortos (muitos deles fuzilados contra a parede) e mil feridos do derrube do governo de Pimenta de Castro em 1915 tristemente ilustram. Salazar não acabou com a violência, mas concentrou-a nos órgãos de polícia e reprimiu a sua difusão, reativando a vetusta gestão inquisitorial do medo. De igual modo, Salazar, tal como a I República, desconfiava do regime representativo (a monarquia constitucional não protegeu D. Carlos I de ser assassinado...). O regime corporativo tem raízes ideológicas nacionais, não só no catolicismo conservador e no integralismo monárquico, mas, como escreveu António José Saraiva, nas meditações de 1878 de Oliveira Martins sobre "democracia orgânica", e noutras ideias da "tertúlia ocidental". Finalmente, a guerra colonial encarniçada de Salazar replicou o fanatismo dos "guerristas" de Afonso Costa, que atolaram o CEP na Flandres para salvar as colónias africanas. Quando um país se recusa a rever-se nas sombras da sua história, e atribui causalidade externa ao que dolorosamente lhe pertence, isso significa que não há ainda nem distância nem maturidade para um exercício museológico.

Viriato Soromenho Marques

O incendiário e o patriarca

Foi Erasmo de Roterdão quem no seu Elogio da Loucura (1509) cunhou a melhor definição política de povo, chamando-lhe "esse enorme e poderoso animal". Ao contrário do que pretendem os sedutores, os demagogos ou os leitores precipitados de Rousseau, o povo também se engana. O "poderoso animal" às vezes equivoca-se na escolha dos seus líderes. No Novo Mundo, em pouco tempo, foram cometidos dois erros políticos pelos povos dos EUA e do Brasil. Erros que, dada a dimensão dessas duas federações, têm repercussão global. O poder que foi transferido para Trump e Bolsonaro pelos respetivos povos parece ter aumentado o atrevimento da sua ignorância. Nenhum deles sofreu a metamorfose que ocorre nos raros políticos que se transformam em estadistas.

Viriato Soromenho Marques

Como destruir bens públicos

Qualquer pessoa sente quando se encontra numa atmosfera civilizada. Os principais indicadores desse estado que causa prazer e gera um sentimento de confiança são os bens públicos. Administrações competentes, transportes cómodos e que seguem os horários, hospitais que cuidam de quem precisa, tribunais que servem atempadamente a justiça, água e eletricidade que estão à disposição quando são convocadas. A Europa é um dos lugares mais civilizados do planeta, muito embora o nível esteja a baixar, como as queixas na imprensa alemã sobre infraestruturas em falência o indicam.

Viriato Soromenho Marques

A guerra civil americana

A 14 de junho de 1956, num discurso perante estudantes da Universidade de Harvard, John Fitzgerald Kennedy, então senador do Estado do Massachusetts, explicava uma das características fundamentais que tinham abençoado a génese dos EUA: "Os grandes políticos da nossa nação contavam-se também entre os seus primeiros grandes escritores e académicos. Os trabalhos de Jefferson, Madison, Hamilton, Franklin, Paine e John Adams - para nomear apenas alguns - influenciaram tanto a literatura como a geografia mundial." Com efeito, o triunvirato do segundo ao quarto presidente (John Adams, Thomas Jefferson e James Madison) ilustra bem a verdade da tese de Kennedy. Muito mais tarde, no século XX, a Casa Branca foi habitada por um ex-reitor da Universidade de Princeton, Woodrow Wilson (1856-1924), que foi também um político que revolucionou o sistema internacional ao lançar a Sociedade das Nações, que é a mãe das Nações Unidas. Não só política e conhecimento estiveram lado a lado na tradição constitucional dos líderes dos EUA, como a prioridade entre essas duas vertentes está bastante clara nas palavras escolhidas pelo terceiro presidente para o seu obelisco tumular. Jefferson esqueceu todos os seus cargos políticos para deixar apenas três registos: a autoria da Declaração de Independência dos EUA e do Estatuto para a Liberdade Religiosa da Virgínia, e o ter sido "pai da Universidade da Virgínia". O significado é claro: o saber científico e a sabedoria ética tinham o primado sobre a política em estado puro, devendo esta estar ao serviço de uma sociedade capaz de beneficiar dos frutos do conhecimento e da aplicação dos princípios éticos na procura do bem comum.

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Viriato Soromenho Marques

Erros de um sonhador

Não é um espetáculo bonito ver Vítor Constâncio contagiado pela amnésia que tem vitimado quase todos os responsáveis da banca portuguesa, chamados a prestar declarações no Parlamento. Contudo, parece-me injusto remeter aquele que foi governador do Banco de Portugal (BdP) nos anos críticos de 2000-2010 para o estatuto de cúmplice de Berardo e instrumento da maior teia de corrupção da história portuguesa, que a justiça tenta, arduamente, deslindar.

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Um sismógrafo europeu

Se no futuro existir oportunidade para analisar o processo entrópico em que a UE se encontra hoje mergulhada, certamente que o estudo do Parlamento Europeu (PE) servirá como uma espécie de sismógrafo. Resumidamente, é possível dizer que as metamorfoses do PE permitem traçar o percurso em "U" invertido da construção europeia no seu atual modelo, que, como escrevi em livro recente (Depois da Queda, Temas e Debates/Círculo de Leitores), se encontra exausto e "tombado por terra".

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Viriato Soromenho Marques

Força chinesa ou fraquezas ocidentais

No longo processo de degradação e recomposição do sistema internacional, a China aparece como o ator com rumo político mais consistente. Em 2008, escrevi que a China está para o século XXI como a Alemanha unificada em 1871 esteve para o século XIX: um novo grande poder, desequilibrando as relações de força e as alianças tradicionais. Contudo, uma análise mais atenta revela que há um manifesto exagero no discurso de alerta contra os perigos representados pela China. Na verdade, os sucessos que a China vai obtendo são ampliados, no que à UE diz respeito, pela ausência de uma visão de mundo comum e duradoura por parte dos europeus. O mesmo ocorre com os limites e as oscilações da estratégia dos EUA. Para passar das palavras aos factos, nada melhor do que ler um indicador muitas vezes esquecido: o do investimento direto estrangeiro, expresso em euros, entre as três maiores potências económicas mundiais: EUA, UE e China. Se compararmos o stock do investimento direto da China nos EUA e na UE (192 mil milhões) com o valor do investimento dos EUA na UE e na China (2,66 biliões), e o montante do investimento da UE na China e nos EUA (2,63 biliões), verificamos que os EUA e a UE apresentam valores 12 vezes superiores aos do investimento chinês! O crescimento do dragão asiático tem sido um "negócio da China" para a elite dos super-ricos europeus e norte-americanos, que ganharam em todos os tabuleiros da globalização.

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Viriato Soromenho Marques

Luzes de Aquilino na noite europeia

O hoje muito esquecido filósofo da história, Oswald Spengler (1880-1936), demonstrou com génio a natureza não linear do tempo histórico. A vizinhança temporal na história não se mede na métrica dos anos, mas sim na afinidade semântica das épocas. Voltei a sentir o rigor de Spengler ao reler dois livros extraordinários de Aquilino Ribeiro (1885-1963), sobre uma Europa, política, económica e sobretudo moralmente desfigurada e exangue. São textos escritos entre 1914 e 1920, mas só publicados como livros pela Bertrand - enriquecidos com soberbas páginas introdutórias -, respetivamente, em 1934 (É a Guerra) e 1935 (Alemanha Ensanguentada).