Viriato Soromenho Marques

Viriato Soromenho Marques

Na vertigem da desrazão

Escrevo na pior fase, até agora, da crise pandémica mundial. Portugal é agora um trágico campeão. A contar, não a partir de cima, do sítio onde se vislumbra o céu, mas a partir do fundo, do temível lugar de baixo onde todas as culturas milenares situam o inferno. Nos próximos 40 dias poderemos perder tanta gente para a covid-19 como o número de soldados que morreram em 13 anos de guerras ultramarinas. Afinal, este "vírus bonzinho" continua a semear morte e miséria e a deixar muitos líderes políticos, que julgavam ter o assunto resolvido com as vacinas e a propaganda, a fazer pagar aos seus povos o preço da tóxica combinação de ignorância com arrogância.

Viriato Soromenho Marques

De excomungado a reformador

No terceiro dia do ano, completou-se meio milénio sobre a excomunhão de Lutero (1483-1546), num processo de golpe e contragolpe, entre o jovem clérigo alemão e o papado, iniciado em 1517 com o ataque público e publicado do primeiro às Indulgências. Prosseguindo com a total pulverização do mapa teológico-político da Europa, na sequência da transformação desse protesto individual em Reforma Protestante (escrevi sobre isso no DN de 01.11.2017). O triângulo do universalismo medieval (uma religião, um Papa, um Imperador) há muito que escondia um vulcão à espera de entrar em erupção. Em 1511, Erasmo (1466-1536) tinha oferecido a um círculo restrito e ilustrado de leitores, o Elogio da Loucura, em que a natureza "humana, demasiado humana" do clero cristão era denunciada com mordacidade.

Viriato Soromenho Marques

Portugal no seu labirinto

No verão de 1881, a recém-criada Sociedade de Geografia (1875) promoveu uma expedição de 42 cientistas e estudiosos de várias formações à serra da Estrela. O grupo partiu de Santa Apolónia, estando a sua aventura bem documentada nas páginas do Diário de Notícias da época. Dez anos antes, já Antero de Quental, nas Conferências do Casino, denunciara o impacto das "conquistas longínquas", não só no despovoamento do país como no nosso profundo desconhecimento acerca do nosso território.

Viriato Soromenho Marques

Faltam adultos na sala

O que define a maturidade é a capacidade de assumir responsabilidades. Em especial, a responsabilidade de garantir um futuro individual e coletivo o mais seguro que seja possível. Isso significa saber identificar, diagnosticar e combater, atempadamente, as ameaças à viabilidade desse futuro. À luz desta definição de maturidade a nossa época não tem nota positiva. Vivemos mergulhados numa cultura de imaturidade perante os imensos desafios existenciais globais. Paralisados por uma espécie de sonambulismo moral, parecemos incapazes de alinhar consequentemente palavras e atos, conhecimento e ação.

Viriato Soromenho Marques

A política de Gonçalo Ribeiro Telles

Em novembro de 1967, Gonçalo Ribeiro Telles (GRT) deu-se a conhecer publicamente durante a comoção nacional das grandes cheias do Tejo, que ceifaram a vida a mais de 500 pessoas. A abrupta emergência enfraqueceu a censura. Só isso explica que GRT tivesse tido oportunidade de falar na RTP. Em vez de um flagelo inexplicável da natureza, aquela tragédia passou a estar associada a erros e escolhas humanas que destruíram a protetora vegetação ripícola da margem dos cursos de água, e à construção desordenada em cima de solos de leito de cheias.

Viriato Soromenho Marques

Pandemia e hierarquia de valores

Se o SARS-CoV 2 fosse uma arma, seria quase perfeita. A arma mais eficaz não é a mais letal, mas aquela que causa mais feridos de longa duração, que sobrecarrega as estruturas logísticas e hospitalares, que semeia o medo e a discórdia, que diminui a capacidade de luta através da entropia e desmoralização da sociedade. É exatamente o que estamos a observar - de modo ainda mais refinado do que na primavera - nestes primeiros passos da segunda vaga da covid-19. Estamos num momento de encruzilhada em toda a Europa. Seria conveniente analisarmos dois "pontos cegos" fundamentais no modo como encaramos o que está a acontecer. A sua elucidação poderá ajudar-nos, como cidadãos, a fazer um juízo crítico e a agir em conformidade. O primeiro aspeto negligenciado prende-se com a falta de humildade de muitas das opiniões e críticas à ação dos governos. É claro que os governos devem ser escrutinados e criticados, o que é inadmissível é o caudal de críticas insensatas, vindas também de peritos, que arrogantemente escamoteiam a colossal ignorância que ainda temos sobre este novo coronavírus. Recordo a ligeireza como alguns especialistas se têm atrevido a prometer vacinas para datas próximas, mantendo-se imperturbáveis perante o número crescente de testes que são interrompidos por efeitos indesejáveis na saúde dos voluntários. Ou ainda a sobranceria como responsáveis de saúde pública falam em "imunidade de grupo", para justificar os erros grosseiros cometidos, por exemplo, pelas autoridades de saúde suecas. O outro pressuposto inconsciente, que tem gerado muitos equívocos, é a recalcada necessidade de reconhecer a existência de uma hierarquia de valores nas políticas de combate à covid-19. Nas novas medidas propostas pelo governo - de tornar obrigatório o uso de máscaras em mais locais, assim como o download da aplicação StayAway Covid - importa ter em conta que os direitos de privacidade, devendo ser salvaguardados, têm, contudo, um peso inferior ao do direito à vida, sobretudo quando este depender da capacidade de evitar a propagação da doença. A questão correta é a de saber se essa aplicação tem ou não eficácia, mesmo depois de ser universalizada (o que parece não estar ainda esclarecido). O desprezo pelo direito à vida tem unido uma frente bastante insólita e disparatada que vai de Trump e Bolsonaro a intelectuais de "esquerda", como Giorgio Agamben. Para Trump, a vida dos mais frágeis não pode parar o curso normal dos negócios. Para Agamben, só um Leviatã tirânico seria capaz, para salvar a "vida nua" dos cidadãos, de os confinar compulsivamente... Os Estados europeus estão a devolver à autodisciplina dos cidadãos a tarefa de evitar novo confinamento. Trata-se de conciliar a liberdade individual com a responsabilidade que, em tempos pandémicos, cada um tem pelo direito à vida de todos os outros. Se as democracias europeias falharem na defesa da vida, todos conhecemos como abundam autoritarismos que a prometem salvar, em troca do sacrifício de todos os outros direitos que a tornam digna de ser vivida. Professor universitário

Exclusivo

Viriato Soromenho Marques

Rostos e máscaras

Há quinhentos anos vivíamos na alvorada, já em tons rubros vincados, da modernidade. Uma amizade entre dois homens geniais e dotados de um enorme poder de influência sobre a sua época - Erasmo (1466-1536) e Thomas More (1478-1535) - produziu duas obras que representam, em registos bem diversos de lucidez, esse tempo em que a Europa se agigantava para unificar o planeta inteiro sob a batuta de uma nova racionalidade. E isso por todos os meios: da espada e da palavra; da tecnologia e do comércio. A meio milénio de distância, a grandeza dessas figuras pode ser vista com maior amplitude, pois o nosso ponto de observação, mergulhado agora nas cores rubras do crepúsculo, é-lhes inteiramente tributário. No Elogio da Loucura, escrito por Erasmo em 1509, durante uma das suas visitas à casa de More, registamos não apenas uma amarga sátira de uma sociedade europeia atravessada ainda entre o medievalismo e a modernidade, mas constitui também um balde de água fria lançado sobre algum excesso de otimismo antropológico, cultivado precisamente pelas escolas de pensamento em que tanto Erasmo como More se filiavam. Em 1516, foi a vez de o pensador e político inglês se imortalizar através da ficção filosófica Utopia. Para o público do tempo, esta obra cheia de labirínticas significações, foi lida como um manifesto de futuro, tendo como núcleo a narrativa de Rafael Hitlodeu, um navegador português. More, também político atento, não poderia ficar indiferente ao sulcar luso de mares desconhecidos. Ele escreveu o seu livro enquanto Afonso Albuquerque (1452-1515) fazia a Europa regressar à Índia, desta vez para ficar longamente, ao contrário da breve passagem de Alexandre Magno, 18 séculos antes. Erasmo e More eram também homens do mundo. O primeiro era solicitado não apenas pelos inúmeros admiradores em toda a Europa (como o nosso Damião de Góis), mas pelo papado e pelas cabeças coroadas. O segundo chegaria a chanceler de Henrique VIII. Cada um à sua maneira, procuraram evitar a rutura da Europa, num processo que se iniciaria, teologicamente, com a reforma luterana, e se prolongaria, politicamente, com os Estados nacionais e os seus virulentos surtos bélicos. Erasmo simpatizava com muitas das críticas de Lutero à Igreja, mas abominava uma solução que iria replicar na cristandade o sangrento ódio islâmico entre sunitas e xiitas. More, por seu turno, acabaria decapitado por ordem de Henrique VIII. Demonstrou com o sacrifício supremo que a integridade da consciência de um homem livre não pode ser conquistada pela espada do soberano. Os séculos vertiginosos que se seguiram acabariam por fusionar os títulos das obras desses homens que se ergueram à condição de rostos da sua época. Hoje, a utopia realizou-se numa desmesura económica e tecnológica que parece ter ultrapassado as fronteiras da loucura. Talvez por isso, na imensa distopia quotidiana em que habitamos, os rostos não conseguem ganhar nitidez. Transformam-se em imprecisos esquissos e máscaras fugidias. Professor universitário

Viriato Soromenho Marques

A arte do distanciamento

Em 1931, M. Ghandi visitou o Reino Unido para participar em negociações sobre o futuro da Índia. A reunião falhou, mas Gandhi deixou uma marca duradoura na opinião pública britânica, pela cordialidade, pela agudeza e pelo humor da sua inteligência. Dada a sua relutância em falar para microfones, muitas das declarações que lhe são atribuídas não podem ser confirmadas. Há uma de que gosto particularmente. Interrogado por um jornalista - certamente possuído por uma convicção inabalável da superioridade europeia - acerca do que é que pensava sobre a "civilização ocidental", Gandhi terá respondido: "Penso que seria uma boa ideia."

Viriato Soromenho Marques

Sábado, 22.08.1914

Sangue, sangue, há de chegar a beber-se sangue no chão - rezam os vaticínios." Com estas palavras encerrava Aquilino Ribeiro a sua entrada de 22 de agosto de 1914, num diário que daria origem à sua obra É a Guerra (Livraria Bertrand, 1958). O escritor português, vivendo nessa altura em Paris, com a sua mulher alemã e o seu filho de tenríssima idade, descreve as primeiras semanas de guerra a partir da capital francesa, antes de procurar abrigo seguro para a sua família em Portugal. Aquilino descreve, quase como um cientista elaborando um protocolo laboratorial, a vertiginosa transição química das almas de uma época de paz e narcisismo europeu para uma era que incendiou a Europa, até 1945, no holocausto dos ódios nacionalistas. Desde Waterloo (1815) que os europeus não testemunhavam nenhuma guerra europeia generalizada (as campanhas prussianas de 1864 a 1870, contra a Dinamarca, a Áustria e a França foram breves e cirúrgicas). Os europeus limitavam-se a refregas menores contra povos colonizados na África e na Ásia, sem capacidade militar para poderem rivalizar com o seu poderio tecnológico. Há exatamente 106 anos, a França sofreu o maior número de mortos militares num só dia de batalha da história moderna. Na abertura da ofensiva do Somme, em 1 de julho de 1916, os britânicos perderiam perto de 20 000 homens. No início da sua grande ofensiva de primavera de 1918 (a Kaiserschlacht, iniciada a 21 de março), a Alemanha sacrificaria quase 11 000 soldados. Nesse tórrido 22 de agosto de 1914, numa frente ampla nas zonas fronteiriças da França com a Bélgica e a Alemanha, Paris perderia 27 000 militares. Nesse dia, decidiu-se a derrota francesa na chamada Batalha das Fronteiras, mas o mais impressionante é o recalcamento que ainda persiste na historiografia da Grande Guerra (e não só da francesa), privando esses mortos do direito à memória do seu sacrifício absurdo.

Viriato Soromenho Marques

Mudar de vida

Para os distraídos, crédulos de que a inteligência humana se tem vindo a apurar sem quebras, aconselho a que se comparem quaisquer dos atuais tratados de economia com o clássico ensaio que John Stuart Mill dedicou aos Princípios da Economia Política (1848). Ao contrário da hodierna economia dominante, que ignora olimpicamente o seu impacto destrutivo no mundo, Mill fala de uma economia integrada na natureza e ao serviço do aperfeiçoamento da justiça e da dignidade humanas. Mais de um século antes do relatório sobre Os Limites do Crescimento (1972), elaborado pela equipa do MIT chefiada por Donella e Dennis Meadows, Mill salientava a impossibilidade física de um crescimento económico material infinito. Com uma mistura de finura e rigor analítico, o pensador britânico indicava que, inevitavelmente, os sistemas económicos serão forçados a reconhecer a necessidade de um "estado estacionário" (stationary state). Contudo, o autor chama a atenção para a necessidade de distinguir o crescimento material, que tem limites físicos objetivos - os quais podem ser adiados mas não evitados - do desabrochar das capacidades humanas, cujos contornos de aperfeiçoamento são indetermináveis.

Viriato Soromenho Marques

Limites do futuro possível

A anunciada Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica e Social de Portugal 2020-2030, da autoria de António Costa Silva (ACS), está já disponível. Apesar de censurável, a ideia do primeiro-ministro de pedir a um só autor uma obra desta envergadura - levando para o desenho das políticas públicas a síndrome lusa do sebastianismo -, a verdade é que o plano, tanto na sua força como na sua fragilidade, é um oásis de relevância no deserto de trivialidades da política nacional. Refletindo a experiência profissional de ACS, o plano olha o país como um estaleiro de obras - atuais e possíveis. Mobilizando um vasto cabedal de informação, o plano traça cenários e desígnios ambiciosos, para fazer da crise pandémica uma oportunidade que não pode ser perdida. Ressalta em cada página um dinamismo de demiurgo e um otimismo prometeico invencível.

Viriato Soromenho Marques

Nuno Vieira Matias

Quem quiser ter uma visão, onde a brevidade não hostiliza o rigor, sobre a vida e as obras do almirante Nuno Viera Matias (1939-2020), falecido no passado sábado, deverá ler um artigo publicado na Revista Nova Cidadania (n.º 70, março-junho 2020), da autoria de um camarada de armas mais jovem, o almirante Alexandre da Fonseca. Aí se encontra um registo do incansável percurso de serviço público prestado por este militar de carreira. Desde os tempos em que, como jovem comandante de um destacamento de fuzileiros especiais (DFE n.º 13) na Guiné, arriscou a vida em 32 situações de combate (lembro-me como, comovidamente, sabia os nomes dos militares que sob o seu comando tinham caído).

Viriato Soromenho Marques

Portugal e a metamorfose alemã

A pandemia parece ter operado uma revolução na política económica da Alemanha. Berlim sentiu o perigo e respondeu como os países que têm ambição estratégica: as ideologias são meros instrumentos de poder e não dogmas de fé. O ordoliberalismo que a Alemanha impôs à União Europeia, tornando-se, perigosamente, vencedora da crise do euro, foi rapidamente substituído pelo intervencionismo do Estado. Não o de Keynes (ensaiado furtivamente por Merkel na resposta à crise de 2008), mas o de Friedrich List (1789-1846), que mesmo antes de a Alemanha existir como Estado se bateu pelo seu direito a usar políticas económicas protecionistas contra o imperial liberalismo britânico. Os 130 mil milhões de euros do pacote anunciado em junho juntam-se aos 353 mil milhões de ajuda de emergência de março e aos 820 mil milhões de garantias do Estado a empréstimos, perfazendo 1,3 biliões de euros (PIB 2019: 3, 45 biliões). Metade das ajudas de Estado aprovadas pelos 27 até agora são made in Germany. Mesmo a dívida pública alemã, que se encontrava nos 59,8% do PIB em 2019 (depois de um pico de 82,4% em 2010), vai escalar para 75% no final do ano.