Viriato Soromenho Marques

Viriato Soromenho Marques

Nem sinal de tédio

Passaram mais de 30 anos sobre a publicação do famoso artigo de Francis Fukuyama na revista The National Interest (verão de 1989) onde se analisava e advogava um radioso "fim da história" para a humanidade. Ele traria a plena realização das possibilidades evolutivas da nossa espécie, coincidindo com uma economia liberal completamente globalizada. Seria um mundo onde o desejo consumista dos cidadãos obrigaria os Estados iliberais, seguindo o exemplo do governo comunista chinês da altura, a adotar os princípios da economia de mercado.

Viriato Soromenho Marques

A nobreza das nações

Para quem não tenha desistido da decência democrática, a ideologia nacionalista merece bem a designação que Nietzsche lhe deu na década de 1880: uma "doença" (Krankheit), de natureza infecciosa. Nos anos que precederam a unificação da Alemanha sob Bismarck, Nietzsche mostrara satisfação pela ultrapassagem dos vestígios de feudalismo que tanto atrasaram o nascer do Estado alemão. Contudo, o filósofo depressa percebeu que o militarismo e o antissemitismo iriam transformar o nacionalismo germânico numa força desagregadora, não apenas das esperanças universalistas do melhor da cultura alemã, mas também da possibilidade de construir uma civilização europeia cosmopolita e aberta.

Viriato Soromenho Marques

Confinamento e normalidade com Pascal

Blaise Pascal (1623-1662) faz parte de uma pequeníssima seleção histórica de génios que parece ter sido dotada de uma fibra superior aos próprios limites da condição humana. Morreu com apenas 39 anos e 2 meses deixando uma obra vastíssima e diversificada em tantos domínios que, apesar de centenas de académicos terem dedicado a sua vida ao estudo da sua obra, não se encontrará um apenas que consiga tratar com igual profundidade os resultados da sua prodigiosa inteligência, seja na física (teoria do vácuo e dinâmica de fluidos), na geometria, na matemática (máquina de calcular, cálculo das probabilidades), como também na teologia (foi um jansenista fervoroso), na filosofia, na teoria moral.

Viriato Soromenho Marques

Os donos disto tudo

Em junho próximo, na cidade sueca de Kiruna, um balão elevar-se-á até à altitude estratosférica de 20 quilómetros. Será a primeira etapa de um programa de geoengenharia da Universidade de Harvard, financiado pelo bilionário Bill Gates. O projeto é designado pelo acrónimo SCoPEx, que pode ser traduzido para português como "experiência de perturbação estratosférica controlada". Em linhas gerais, o que se pretende é disseminar partículas não tóxicas de carbonato de cálcio (CaCO3) para avaliar a sua capacidade de diminuir a radiação solar absorvida pela atmosfera, tentando desse modo indireto contrariar o processo de aquecimento global.

Viriato Soromenho Marques

A bondade no mundo

No início deste século, o pensador canadiano Thomas Homer-Dixon (1956) cunhou uma expressão que me parece captar com subtileza os males fundamentais da nossa época, a todos os níveis e escalas: a "lacuna de criatividade" (ingenuity gap). Por outras palavras, se colocássemos numa pista de atletismo, como se fossem dois corredores, os problemas que se colocam à humanidade, competindo contra as soluções disponíveis, só os distraídos ou os vendedores de ilusões seriam capazes de negar que cada vez mais os problemas parecem tomar a dianteira sobre as soluções no caminho para uma inquietante meta. As "soluções" não só surgem, invariavelmente, depois dos prejuízos, como tendem, pelo seu desajustamento, a tornar tudo ainda mais complicado e retorcido.

Viriato Soromenho Marques

Portugal no seu labirinto

No verão de 1881, a recém-criada Sociedade de Geografia (1875) promoveu uma expedição de 42 cientistas e estudiosos de várias formações à serra da Estrela. O grupo partiu de Santa Apolónia, estando a sua aventura bem documentada nas páginas do Diário de Notícias da época. Dez anos antes, já Antero de Quental, nas Conferências do Casino, denunciara o impacto das "conquistas longínquas", não só no despovoamento do país como no nosso profundo desconhecimento acerca do nosso território.

Viriato Soromenho Marques

Mereceremos Samuel Paty?

"Um país incapaz de transcender o seu passado, deprime". Esta sentença, aplicada à França, foi escrita por Régis Debray numa altura em que estava em causa o uso do véu islâmico por estudantes em estabelecimentos de ensino público (Ce que nous voile le voile, Gallimard, 2004). Nos últimos 15 anos tudo piorou exponencialmente. Se somarmos todos os atentados terroristas de fundamentalistas sunitas, a França apresenta já uma lista de centenas de mortos, ou milhares de vítimas, se incluirmos os feridos no corpo e no espírito. Contudo, o assassínio no passado dia 16 de Samuel Paty, um professor do ensino secundário, de 47 anos, decapitado por um refugiado checheno de 18 anos, constitui um salto qualitativo que não pode ser subestimado.

Viriato Soromenho Marques

Pandemia e hierarquia de valores

Se o SARS-CoV 2 fosse uma arma, seria quase perfeita. A arma mais eficaz não é a mais letal, mas aquela que causa mais feridos de longa duração, que sobrecarrega as estruturas logísticas e hospitalares, que semeia o medo e a discórdia, que diminui a capacidade de luta através da entropia e desmoralização da sociedade. É exatamente o que estamos a observar - de modo ainda mais refinado do que na primavera - nestes primeiros passos da segunda vaga da covid-19. Estamos num momento de encruzilhada em toda a Europa. Seria conveniente analisarmos dois "pontos cegos" fundamentais no modo como encaramos o que está a acontecer. A sua elucidação poderá ajudar-nos, como cidadãos, a fazer um juízo crítico e a agir em conformidade. O primeiro aspeto negligenciado prende-se com a falta de humildade de muitas das opiniões e críticas à ação dos governos. É claro que os governos devem ser escrutinados e criticados, o que é inadmissível é o caudal de críticas insensatas, vindas também de peritos, que arrogantemente escamoteiam a colossal ignorância que ainda temos sobre este novo coronavírus. Recordo a ligeireza como alguns especialistas se têm atrevido a prometer vacinas para datas próximas, mantendo-se imperturbáveis perante o número crescente de testes que são interrompidos por efeitos indesejáveis na saúde dos voluntários. Ou ainda a sobranceria como responsáveis de saúde pública falam em "imunidade de grupo", para justificar os erros grosseiros cometidos, por exemplo, pelas autoridades de saúde suecas. O outro pressuposto inconsciente, que tem gerado muitos equívocos, é a recalcada necessidade de reconhecer a existência de uma hierarquia de valores nas políticas de combate à covid-19. Nas novas medidas propostas pelo governo - de tornar obrigatório o uso de máscaras em mais locais, assim como o download da aplicação StayAway Covid - importa ter em conta que os direitos de privacidade, devendo ser salvaguardados, têm, contudo, um peso inferior ao do direito à vida, sobretudo quando este depender da capacidade de evitar a propagação da doença. A questão correta é a de saber se essa aplicação tem ou não eficácia, mesmo depois de ser universalizada (o que parece não estar ainda esclarecido). O desprezo pelo direito à vida tem unido uma frente bastante insólita e disparatada que vai de Trump e Bolsonaro a intelectuais de "esquerda", como Giorgio Agamben. Para Trump, a vida dos mais frágeis não pode parar o curso normal dos negócios. Para Agamben, só um Leviatã tirânico seria capaz, para salvar a "vida nua" dos cidadãos, de os confinar compulsivamente... Os Estados europeus estão a devolver à autodisciplina dos cidadãos a tarefa de evitar novo confinamento. Trata-se de conciliar a liberdade individual com a responsabilidade que, em tempos pandémicos, cada um tem pelo direito à vida de todos os outros. Se as democracias europeias falharem na defesa da vida, todos conhecemos como abundam autoritarismos que a prometem salvar, em troca do sacrifício de todos os outros direitos que a tornam digna de ser vivida. Professor universitário

Viriato Soromenho Marques

Duas lições de Vénus

Causou sensação mediática a revelação da descoberta da molécula fosfina na atmosfera de Vénus, por parte de uma equipa multidisciplinar de cientistas. Contudo, mais do que uma descoberta, trata-se da identificação de uma hipótese: a fosfina poderia (falta prová-lo) ser um indicador da existência em Vénus de micro-organismos elementares, capazes de sobreviver sem oxigénio. Sem retirar valor à nova hipótese, julgo que ela vale, sobretudo, por duas outras razões que ficaram ausentes das notícias: a constatação da imensa solidão humana no universo e o que Vénus já nos ensinou sobre o futuro da Terra.

Viriato Soromenho Marques

América desencantada

As próximas eleições dos EUA não mobilizam nenhuma paixão positiva fora dos EUA, e os ânimos que despertam entre os eleitores do país são ardentemente sombrios. Até os mais distraídos já perceberam que Trump - o mais perigoso presidente a sentar-se na Sala Oval e uma criatura paupérrima em decência humana - é uma consequência e não a causa da profundíssima degradação da sociedade e do sistema democrático-federal norte-americano. Uma corrosão que não só ecoa, mas sobretudo antecipa o que está a ocorrer e a expandir-se em muitas democracias pelo mundo fora, sem excluir alguns dos Estados membros da União Europeia. Por seu turno, Joe Biden é o candidato do resto do mundo, mesmo sem suscitar esperança ou entusiasmo. Desejamos que vença Biden, do mesmo modo como quereríamos ter um saco de areia por perto, em caso de bombardeamento, para nos protegermos dos estilhaços. Biden não irá, certamente, resolver nada, mas, pelo menos, promete uma pausa no ativismo maligno que tem transformado a presidência dos EUA numa ameaça para a própria integridade nacional, assim como num contumaz obstáculo a todas as iniciativas que ajudariam a sobreviver aos numerosos e complicadíssimos desafios existenciais da humanidade.

Viriato Soromenho Marques

Sábado, 22.08.1914

Sangue, sangue, há de chegar a beber-se sangue no chão - rezam os vaticínios." Com estas palavras encerrava Aquilino Ribeiro a sua entrada de 22 de agosto de 1914, num diário que daria origem à sua obra É a Guerra (Livraria Bertrand, 1958). O escritor português, vivendo nessa altura em Paris, com a sua mulher alemã e o seu filho de tenríssima idade, descreve as primeiras semanas de guerra a partir da capital francesa, antes de procurar abrigo seguro para a sua família em Portugal. Aquilino descreve, quase como um cientista elaborando um protocolo laboratorial, a vertiginosa transição química das almas de uma época de paz e narcisismo europeu para uma era que incendiou a Europa, até 1945, no holocausto dos ódios nacionalistas. Desde Waterloo (1815) que os europeus não testemunhavam nenhuma guerra europeia generalizada (as campanhas prussianas de 1864 a 1870, contra a Dinamarca, a Áustria e a França foram breves e cirúrgicas). Os europeus limitavam-se a refregas menores contra povos colonizados na África e na Ásia, sem capacidade militar para poderem rivalizar com o seu poderio tecnológico. Há exatamente 106 anos, a França sofreu o maior número de mortos militares num só dia de batalha da história moderna. Na abertura da ofensiva do Somme, em 1 de julho de 1916, os britânicos perderiam perto de 20 000 homens. No início da sua grande ofensiva de primavera de 1918 (a Kaiserschlacht, iniciada a 21 de março), a Alemanha sacrificaria quase 11 000 soldados. Nesse tórrido 22 de agosto de 1914, numa frente ampla nas zonas fronteiriças da França com a Bélgica e a Alemanha, Paris perderia 27 000 militares. Nesse dia, decidiu-se a derrota francesa na chamada Batalha das Fronteiras, mas o mais impressionante é o recalcamento que ainda persiste na historiografia da Grande Guerra (e não só da francesa), privando esses mortos do direito à memória do seu sacrifício absurdo.