Viriato Soromenho Marques

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Viriato Soromenho Marques

O monoteísmo do "deus dólar" continua

Em 1866, o jovem Eça de Queirós aproveitou a passagem por Lisboa do moderníssimo couraçado norte-americano USS Miantanomah para escrever na imprensa algumas notas penetrantes sobre a identidade dos EUA. No essencial ele identificava uma tensão matricial em Washington, definida pela oposição entre o "deus dólar", que explicava a violência expansiva, mesmo desumana, do seu capitalismo, e o impulso para a "justiça", traduzido na abolição da escravatura ao preço do enorme sacrifício da Guerra Civil, terminada no ano anterior. Gostaria muito de poder subscrever a tese de que nas recentes eleições intercalares a justiça prevaleceu sobre a idolatria do capital. Infelizmente, o sinal positivo dado pelos eleitores é ainda insuficiente para atenuar a gravíssima patologia da democracia nos EUA.

Viriato Soromenho Marques

Tropeçar na verdade

O assassinato, impossível de adjetivar, do jornalista saudita Jamal Kashoggi é uma trágica janela de oportunidade para romper os véus da ilusão diplomática, mergulhando brutalmente no autêntico software da política mundial. Depois de semanas a tentar esconder o óbvio, todos os sinais iniludíveis de culpa recaem sobre o príncipe saudita Salman. Este jovem tem ganho uma reputação de reformista no Ocidente, apesar da repressão duríssima dos seus opositores, e de conduzir uma política externa de imperialismo bélico no Iémen e na Síria. A que se junta o bloqueio do Qatar e o rapto temporário do primeiro-ministro libanês Hariri. Como é possível ter uma reputação tão oposta ao que os atos contam? Segundo a revista Foreign Policy, o príncipe contratou, no valor de milhares de milhões de dólares, as maiores empresas de relações públicas de Washington (Hannah Arendt designava-as, antes, como empresas de "mentira organizada"). Contudo, mesmo a mentira sofisticada tem limites, e o aprendiz de tirano dos desertos tem ainda muito que aprender. Foi esse, aliás, o teor das recentes declarações de Trump: não denunciou a brutalidade do crime e a imoralidade do mesmo, mas do alto dos seus 72 anos de experiência lamentou a tripla incompetência do seu amigo de 33: a ideia desproporcionada do assassínio, o "mau" desempenho na execução do mesmo e o seu desastroso encobrimento.

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Ir na corrente

Que lugar existe para a esperança coletiva se a política se entregar à inércia, desistindo de enfrentar os perigos que se perfilam cada vez mais nítidos no horizonte? Em Portugal vibramos com notícias e comentários sobre nomeações, que afetam o equilíbrio de poderes, e escândalos que ferem o prestígio da instituição militar. São temas relevantes, mas situam-se ao alcance da capacidade imunitária de uma democracia, mesmo mediana como a nossa. Contudo, estrutural, muito menos visível, e que no limite poderá abalar as instituições, erodir os poderes públicos e clivar o tecido social, é o descontentamento persistente das pessoas com a ausência de mudança na qualidade e nas expectativas das suas vidas. Apesar da retórica do fim da austeridade, o facto é que o país continua afetado por profundas desigualdades e disfunções, tanto nas finanças públicas (onde a dívida persistente aparece como uma corrente que amarra o tornozelo do nosso futuro nacional), como na esfera privada da economia.

Viriato Soromenho Marques

Altos cargos e pequenos homens

O famoso discurso proferido pelo presidente Lincoln na inauguração do cemitério nacional de Gettysburg, a 19 de novembro de 1863, quatro meses depois da grande batalha travada nesse local, e 18 meses antes do final da sangrenta Guerra Civil norte-americana, é a marca de água de um grande homem. São 272 palavras proferidas em menos de dois minutos, por um líder político que refundou os EUA, reinventou a instituição do presidente federal e reacendeu, temperado com o custo do seu sacrifício supremo, o farol mítico da atração universal dos EUA.

Viriato Soromenho Marques

Como se não houvesse amanhã

Os incêndios florestais não começaram com as alterações climáticas, mas tudo indica que estas provocaram uma mudança qualitativa no modo como aquele fenómeno se propaga e na intensificação das suas consequências devastadoras. Marc Castellnou e Alejandro García, dois especialistas em incêndios rurais, consideram - num notável texto no El País do passado dia 24 - que as catástrofes portuguesas de 2017 ficarão como marcos nos incêndios de "sexta geração", aqueles onde a combinação entre alterações climáticas e monoculturas florestais, concentrando quantidades letais de biomassa combustível, ganham contornos de virulência que escapam aos melhores dispositivos de combate. Em outubro de 2017, Portugal registou o recorde absoluto de área ardida por hora: 14 mil hectares. Os incêndios mais recentes na Escandinávia e a tragédia helénica, depois de estudados, poderão vir a confirmar essa tese. Os articulistas salientam que a melhoria da capacidade de combate aos incêndios na sua fase inicial não consegue evitar, apenas adia, a eclosão de megaincêndios. No caso de Portugal, Espanha e França, 98% dos incêndios são precocemente extintos, mas os 2% restantes são responsáveis por 95,4% da área ardida. A conclusão é cortante como uma lâmina: para evitar incêndios devastadores nas condições especialmente hostis das alterações climáticas, a chave está no ordenamento e não no combate. O seu alcance é universal. Vale tanto para as florestas de resinosas da Suécia e da Grécia como para as manchas de eucaliptos e pinheiros-bravos de Portugal.

Viriato Soromenho Marques

Quem defende o mar português?

Já Pascal notava que através do "divertimento" (divertissement) os indivíduos deixam-se mergulhar no torpor da futilidade agitada, afastando-se da dura meditação sobre a nossa condição finita e mortal. Com os povos acontece o mesmo. Se a história do presente tiver alguém que a queira e possa escrever no futuro, este pobre país - expropriado de alavancas económicas fundamentais e com escassa capacidade de controlar o seu destino coletivo - transformou 2018 numa espécie de ano do "triunfo dos porcos". São incontáveis as criaturas de mérito duvidoso que através do futebol, ou dos casos de polícia envolvendo tribalismo motorizado ou corrupção de alto nível, ocupam a agenda pública, transformando-se nos sátiros da nossa incapacidade de pensar o que é essencial.

Opinião

Ler jornais é saber mais

Dar início a algo, como é o caso da colaboração nesta nova metamorfose do secular DN, exige distanciamento. Importa meditar sobre o propósito da escrita nos jornais, e como na nossa vida se cruzam fios de causalidade, aparentemente desconexos. Escrevi o meu primeiro texto para a imprensa num jornal católico de Setúbal, em novembro de 1973. Era estudante liceal, quase com 16 anos. O artigo intitulava-se "Ainda o Chile" e nele explicava o que me parecia estar em jogo no derrube de Salvador Allende, pelo golpe militar de Pinochet de 11 de setembro. O censor de Setúbal foi criticado pela censura de Lisboa por não ter reparado no alegado caráter "subversivo" do artigo, mas a pouca idade do autor criou um efémero anel de inimputabilidade. Em 1986, como representante da opinião pública no Conselho de Imprensa de boa memória, presidido pelo saudoso juiz Jorge Mendonça Torres, fui o coordenador de uma campanha nacional para valorizar junto dos cidadãos a indispensável missão da imprensa escrita. Depois de muito refletir, concebi o lema sob o qual percorremos todo o território nacional, em palestras e conferências: "Ler jornais é saber mais". Nesse mesmo ano, por ocasião do meu aniversário, recebi um presente que ainda contemplo da minha mesa de trabalho: a primeira página do DN -nessa altura dirigido por Augusto de Castro - de segunda-feira, dia 9 de dezembro de 1957. Cheia de títulos como era comum na época... Em 1991, defendi uma tese de doutoramento sobre o conceito de razão em Kant. Qual é o fio condutor que une todos estes episódios pessoais, resgatados dessa corrente de esquecimento a que chamamos tempo? A ideia comum de que a escrita em jornais se define pelo seu valor no alargamento da esfera de conhecimento partilhado. Para Kant, o governo que impedisse a liberdade de imprensa era um governo que proibia a própria liberdade de pensamento. Na solidão da sua cabeça ninguém se pode considerar nem livre nem esclarecido. O conhecimento implica comunicação, pensar com os outros (mitdenken). E a imprensa, seja no século XVIII ou no século XXI, deve ser essa imensa esfera de mentes que dialogam e se corrigem mutuamente. Sem o "saber mais" que os jornais permitem, não existem condições para o "saber melhor" do conhecimento depurado. Por isso, cada vez que escrevo para este jornal e para os seus leitores, sei bem a responsabilidade que constitui a ação de pensar o efémero. Na espuma dos dias manifesta-se à escala humana a própria reverberação da eternidade.

Viriato Soromenho Marques

Portugal no choque do futuro

Entre a independência do Brasil, em 1822, e a fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1875 - que marcou o início da corrida febril e sistemática pelo império africano -, Portugal pensou-se como potência pós-imperial. Depois da Índia e do imenso Brasil, Portugal regressava à minguada e europeia "praia lusitana". A perda do Brasil não foi a de uma colónia, mas a de um reino irmão, desde 1815, ao qual devemos parte da nossa vitória na Guerra da Restauração (1640-1668), bem como a capital no Rio de Janeiro, que impediu o Corso de decapitar a dinastia de Bragança em 1807. Com o Brasil partiu também uma parte da nossa elite de pensamento e ação, de que é exemplo maior José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), uma das mais brilhantes e completas personalidades lusas de todos os tempos. Almeida Garrett, no seu Portugal na Balança da Europa (Londres, 1830), acentua bem essa nova solidão estratégica. Mouzinho da Silveira, em 1832, diz-nos que os portugueses fazem uma guerra civil por não terem percebido que três séculos de trabalho escravo acabaram. Agora é preciso criar valor pelo "trabalho próprio". Antero de Quental, na sua penetrante conferência do Casino de 1871, rejeita as "conquistas longínquas" como uma das causas da nossa decadência. Antecipando o Max Weber de 1905, Antero vai exaltar o exemplo da Europa protestante, culta, disciplinada e industriosa. O entusiasmo excessivo do micaelense com essa Europa, que lhe parecia pacífica, tinha sido antecipadamente corrigido por Andrade Corvo na obra Perigos (1870), na qual, numa antevisão genial, prevê que futuras guerras europeias obrigarão os EUA a intervir militarmente no Velho Continente. Os Açores serão a ponte entre o Novo e o Velho Mundo, selando uma futura aliança estratégica entre Washington e Lisboa. Do Ultimato (1890) à queda do Estado Novo (1974), Portugal regressa à mitologia imperial. Salazar foi o derradeiro e intempestivo representante desse republicanismo autoritário e colonialista, que já nos levara aos campos de batalha da Flandres em 1917.

Opinião

Em derrapagem

Em 1970, Georges Friedmann (1902-1977), na sua obra O Poder e a Sabedoria, designava a figura do "condutor" de veículos como símbolo da nossa civilização. Para Friedmann, um dos mais argutos estudiosos do nosso vertiginoso destino tecnológico, os milhões de desastres e centenas de milhares de mortos em acidentes de viação que anualmente ocorrem são a trágica representação do "grande desequilíbrio" que atinge o coração da nossa cultura contemporânea: o abismo entre o imenso poderio tecnológico e a frágil sabedoria moral das nossas decisões.