Viriato Soromenho Marques

Viriato Soromenho Marques

Quem salvará Sodoma?

O cinema é a arte filosófica por excelência. Uma espécie de estética total, que permite visualizar e dramatizar conceitos e ideias, fazer a razão e o entendimento ganharem rosto, voz e movimento. Quatro filmes recentes atingem o centro nevrálgico da angústia ética da nossa contemporaneidade: O Caso de Richard Jewell, de Clint Eastwood; Dark Waters, de Todd Haynes; Uma Vida Escondida, de Terrence Malick; J'Accuse, de Roman Polanski. O fio que entrelaça esses filmes, pensados e produzidos quase em simultâneo, é o de todos eles celebrarem exemplos reais de grandeza e coragem moral. O advogado Watson Bryant, erguendo-se em defesa de um pobre segurança que estava a ser imolado pela máquinas policial e mediática como bode expiatório do atentado terrorista nos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996). O causídico Robert Bilott, que arrisca tudo para defender as vítimas de um gigantesco crime ambiental, dolosamente cometido e prolongado pela inimputável empresa química DuPont. Franz Jägerstätter, um anónimo camponês austríaco, que se recusa a prestar o juramento de fidelidade a Hitler, pagando com a vida, em 1943, por esse ato que já lhe mereceu a beatificação pela Igreja Católica (2007). O major Marie-Georges Picquart, que ao assumir o comando de um serviço militar de informações se apercebe da conspiração antijudaica no seio das altas patentes militares, no famoso caso Dreyfus (1894-1906). Intimado a calar-se, Picquart, com imensa bravura, tudo faz até conseguir resgatar a vítima inocente da sua agonia perpétua na Guiana Francesa.

Viriato Soromenho Marques

O Brexit como fadiga histórica

No day after do Brexit importa refletir sobre a deriva psicopolítica que ele representa. Uma deriva partilhada pelas elites partidárias (incluindo os trabalhistas, que foram seus cúmplices) e por metade do eleitorado. Apesar de toda a sua especificidade, penso que não se pode falar de uma excecionalidade britânica. O grande problema do Ocidente, desde que a invenção simultânea da máquina a vapor e do capitalismo industrial-financeiro introduziu o turbo na velocidade da história humana, consiste em saber qual o melhor modelo político para enfrentar os problemas resultantes dessa aceleração: se o da cooperação ou o da competição/conflito.

Viriato Soromenho Marques

Os disfarces das pulsões de morte

O que me parece mais admirável em Sigmund Freud (1856-1939) é a sua transgressão da regra entrópica do envelhecimento intelectual. Em Freud, ao contrário da maioria dos grandes autores, os escritos da fase final da vida são mais profundos, mais imaginativos, com uma ourivesaria literária mais apurada, e - suprema das vantagens - mais incapazes de serem aprisionados dentro de um sistema fechado. O que é um pesadelo para a maioria dos psicanalistas profissionais é uma alegria para os leitores independentes desse genial hebreu de Viena! Em 1920, no surpreendente ensaio Para além do Princípio do Prazer, Freud desarrumou décadas de trabalho anterior para propor uma nova teoria das pulsões, fundada no par antitético: "pulsões de morte" (Todestriebe) versus "pulsões de vida" (Lebenstriebe). Enquanto as pulsões vitais, também designadas como Eros, buscam manter, alargar, complexificar a existência, muito para além da vulgata sexual, as pulsões de morte são destrutivas, dotadas de inumeráveis mecanismos de disfarce e mimetismo. O que elas visam - tanto dentro dos indivíduos como fora deles - é a redução da complexidade, a substituição da diversidade pela mesmidade, e no limite, fazer com que o orgânico regresse ao seu mortal ponto de partida: a natureza inorgânica.

Viriato Soromenho Marques

Desvendar o paradoxo de Fermi

Que relação pode existir entre Donald Trump e Enrico Fermi (1901-1954) prémio Nobel da Física de 1938, e um dos maiores génios de sempre? Talvez Trump nos ajude a desvendar uma pergunta formulada por Fermi, que passou a ser designada entre os físicos como o "paradoxo de Fermi". De acordo com os relatos, em 1950, Enrico Fermi estaria num restaurante do Laboratório de Los Alamos, na fila para o almoço, numa conversa descontraída com outros cientistas célebres, entre os quais Edward Teller, tendo colocado, de modo interrogativo ("Afinal onde estão eles?"), a hipótese de não existência de vida extraterrestre suficientemente inteligente para produzir uma tecnologia capaz de conduzir à exploração do espaço exterior. Em 1950, a imprensa pululava com relatos fantasiosos de avistamentos de OVNI. Para Fermi, o paradoxo residiria no contraste entre a quase infinita probabilidade dessa existência de vida tecnologicamente exuberante, dada a imensa escala do universo, e a nulidade de provas empíricas da sua realidade. Fermi não deu grande importância a esta conversa, mas o seu impacto foi imenso. Carl Sagan e outros físicos defendiam a tese de que seria preciso refinar a procura por sinais de vida inteligente. Nesse sentido, a NASA criou o programa de pesquisa SETI, descontinuado em 1993, mas que ainda sobrevive de modo algo fragmentar e com financiamento de mecenato.

Viriato Soromenho Marques

No império das "paixões tristes"

O vandalismo nas noites de Barcelona, onde não faltaram grupos de adolescentes saqueando lojas, numa réplica da explosão de banditismo que sacudiu Londres em 2011, constitui uma imagem do abismo em que mergulhou o nacionalismo catalão. A ação de setores independentistas violentos revela a desorientação reinante. É a fúria que procura consolar a derrota. Contudo, não só os independentistas perderam como perdeu a Espanha democrática pós-franquista. Perdeu a própria UE, cada vez mais incapaz de unir os cidadãos europeus para as lutas que só juntos poderiam vencer. O novo projeto nacionalista catalão foi catalisado em 2006 pela objeção judicial parcial ao Estatuto da Autonomia catalã, contudo só ganharia maior expressão depois de 2011. A intransigência do governo de Rajoy, barrando o indispensável diálogo entre Madrid e Barcelona, já foi aqui, por mim, amplamente criticada. Menos conhecido é o facto de a componente europeia da estratégia independentista liderada por Artur Mas ter consistido em cortejar oportunisticamente a política de austeridade imposta pela Alemanha, baseada na fábula da cigarra do sul e da formiga do norte, procurando evitar a necessária reforma da incompleta e disfuncional zona euro. A tentativa de vassalagem a Berlim - a que esta com sabedoria jamais sucumbiu - foi assumida sem pudor. Em novembro de 2011, Artur Mas, no encerramento da VI Convenção de Comércio da Catalunha, afirmava: "Os alemães querem mandar na Europa, porque são os que pagam, eu digo com ironia que os catalães se parecem com os alemães, porque aqui [em Espanha] pagamos, mas não mandamos." A defesa pela Generalitat da austeridade incondicional na crise do euro, para se colocar sob a proteção do diretório, revela que para os independentistas radicais a UE é sobretudo um instrumento descartável, ao serviço da sua paixão identitária. A liderança catalã, incluindo esse hologramático Puigdemont, descontou o risco que corria ao colocar, na fuga para a frente de 2017, a hubris independentista acima da ideia de uma refundação federal do Estado espanhol. O que sobra quando a imaginação se quebra na parede da realidade é uma Catalunha dividida ao meio, a crispação de uma sociedade culturalmente vibrante, a substituição da prosperidade pelo empobrecimento, do cosmopolitismo pelo ressentimento. O futuro não promete independência, mas mais entropia na já ferida autonomia catalã. O assunto não comove no exterior, numa altura em que o mundo se dilacera, em formação dispersa, sem liderança nem rumo. No topo da agenda política e económica local, nacional e global deveria estar a necessidade de cooperação compulsória para enfrentar a emergência climática e ambiental, que vai minando as condições biofísicas de que depende o nosso futuro. A virulência de todos os nacionalistas é uma das "paixões tristes" que dilacera os homens, dentro de si e entre si, como escreveu Espinosa. Sempre os afastou da liberdade. Em 2019, torna mais improvável também a nossa própria sobrevivência coletiva num horizonte de escassas décadas.Professor universitário

Viriato Soromenho Marques

Diplomacia de terra queimada

A vertigem de declarações políticas insensatas em torno da Amazónia revela a fragilidade do sistema internacional. Sobre a conduta errática e irracional de Bolsonaro e dos seus adjuntos em Brasília já tudo foi dito. Contudo, o G7, dominado pelo habitual e nem sempre esclarecido ativismo de Macron, também deixou muito a desejar. Não só pelo que foi dito, mas pelo que foi sugerido. O mundo está demasiado perigoso para nos darmos ao luxo da falta de rigor diplomático. A questão principal parece-me ser esta: dado o interesse extraordinário da Amazónia para o equilíbrio do ambiente e do clima planetários, faria algum sentido criar um estatuto especial de tutela internacional sobre a Amazónia? A resposta parece-me ser totalmente negativa. A ideia de territórios que são "património comum da humanidade" encontra-se sugerida no Tratado da Antártida (1959), que até 2041 permite aos países signatários a presença pacífica, sobretudo para fins científicos, nesse território ainda sem soberanias nacionais. Já a categoria de "fundos marinhos", da Convenção das Nações Unidas para o Direito do Mar (1982) é identificada ostensivamente como "património comum da humanidade".

Viriato Soromenho Marques

O incendiário e o patriarca

Foi Erasmo de Roterdão quem no seu Elogio da Loucura (1509) cunhou a melhor definição política de povo, chamando-lhe "esse enorme e poderoso animal". Ao contrário do que pretendem os sedutores, os demagogos ou os leitores precipitados de Rousseau, o povo também se engana. O "poderoso animal" às vezes equivoca-se na escolha dos seus líderes. No Novo Mundo, em pouco tempo, foram cometidos dois erros políticos pelos povos dos EUA e do Brasil. Erros que, dada a dimensão dessas duas federações, têm repercussão global. O poder que foi transferido para Trump e Bolsonaro pelos respetivos povos parece ter aumentado o atrevimento da sua ignorância. Nenhum deles sofreu a metamorfose que ocorre nos raros políticos que se transformam em estadistas.

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Viriato Soromenho Marques

Rumo a Vénus

Na altura em que escrevo, a Europa já foi atingida desde final de junho por duas ondas de calor, que quebraram recordes de registos meteorológicos da França à Noruega. Depois de décadas de negação ou mera preocupação retórica, pelo menos na Europa ninguém se atreve a negar a óbvia realidade do aquecimento global. Contudo, seria preciso ser muito ingénuo para acreditar que os mesmos atores políticos que continuam a dar generosos subsídios públicos ao uso de carvão, petróleo e gás natural, e que negociaram moratórias - atrasando a transição energética para fontes renováveis - com as grandes empresas emissoras de gases de efeito estufa, das petrolíferas ao setor automóvel, passando pelas cimenteiras e pela aviação, se tornem agora os paladinos de uma efetiva mudança.

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Viriato Soromenho Marques

Quando a "prata da casa" era de ouro

Em 1976, quando Ramalho Eanes foi eleito para o seu primeiro mandato presidencial, escrevi nalguns jornais da altura que o país corria o risco de bonapartismo. Tratava-se de um preconceito ideológico de ressonâncias marxistas, desculpável pelos verdes 18 anos do escriba. O futuro revelou um presidente Eanes tão firme na defesa da Constituição como o tinha sido como comandante de homens no campo de batalha. A fragilidade do regime, no pós-25 de Novembro, era imensa. À esquerda e à direita, para já não falar no choque dos egos gigantescos dos dirigentes partidários, sem esquecer também os de alguns militares, os perigos abundavam. Como presidente, Eanes era também chefe militar supremo (CEMGFA) e presidia ao importantíssimo Conselho da Revolução (CR). Como o historiador David Castaño bem o demonstra, numa obra fundamental (Eanes e a Democracia, Lisboa, Objectiva, 2018), Eanes conseguiu assegurar uma via serena para a extinção do CR, reformando as Forças Armadas no claro respeito do princípio da subordinação do poder militar ao poder civil. Num quadro nacional de grandes dificuldades económicas e financeiras, Eanes foi o garante do Estado de direito, apesar dos governos débeis. A cultura democrática geral era frágil, um ligeiro verniz que estalou com a proposta inqualificável de Sá Carneiro para fazer uma revisão referendária da Constituição. Esse dispositivo, que evoca o pior Carl Schmitt, caiu por terra face à oposição intransigente de Eanes.

Viriato Soromenho Marques

A guerra civil americana

A 14 de junho de 1956, num discurso perante estudantes da Universidade de Harvard, John Fitzgerald Kennedy, então senador do Estado do Massachusetts, explicava uma das características fundamentais que tinham abençoado a génese dos EUA: "Os grandes políticos da nossa nação contavam-se também entre os seus primeiros grandes escritores e académicos. Os trabalhos de Jefferson, Madison, Hamilton, Franklin, Paine e John Adams - para nomear apenas alguns - influenciaram tanto a literatura como a geografia mundial." Com efeito, o triunvirato do segundo ao quarto presidente (John Adams, Thomas Jefferson e James Madison) ilustra bem a verdade da tese de Kennedy. Muito mais tarde, no século XX, a Casa Branca foi habitada por um ex-reitor da Universidade de Princeton, Woodrow Wilson (1856-1924), que foi também um político que revolucionou o sistema internacional ao lançar a Sociedade das Nações, que é a mãe das Nações Unidas. Não só política e conhecimento estiveram lado a lado na tradição constitucional dos líderes dos EUA, como a prioridade entre essas duas vertentes está bastante clara nas palavras escolhidas pelo terceiro presidente para o seu obelisco tumular. Jefferson esqueceu todos os seus cargos políticos para deixar apenas três registos: a autoria da Declaração de Independência dos EUA e do Estatuto para a Liberdade Religiosa da Virgínia, e o ter sido "pai da Universidade da Virgínia". O significado é claro: o saber científico e a sabedoria ética tinham o primado sobre a política em estado puro, devendo esta estar ao serviço de uma sociedade capaz de beneficiar dos frutos do conhecimento e da aplicação dos princípios éticos na procura do bem comum.