Victor Ângelo

Victor Ângelo

A Espanha quer correr em África em pista própria

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, esteve recentemente em Luanda e, no regresso, em Dakar. A deslocação marcou o arranque do plano de ação aprovado pelo seu governo com o título "Foco África 2023". O plano é uma aposta na prosperidade africana. A Espanha quer ser um dos grandes parceiros do desenvolvimento de um conjunto de países designados como prioritários. A lista inclui, no norte, Marrocos, Argélia e Egito, deixando de fora a Líbia e a Tunísia - uma nação a que a Europa deveria dar uma atenção especial. Inclui ainda toda a África Ocidental (CEDEAO) e países de outras regiões - a Etiópia, o triângulo que Quénia, Uganda e Tanzânia formam, a África do Sul e, mais perto dos interesses portugueses, Angola e Moçambique. Esta dispersão de esforços parece-me um ponto fraco.

Victor Ângelo

A complexidade moçambicana

No seguimento do ataque terrorista à vila de Palma, 18 organizações da sociedade civil endereçaram uma carta aberta ao presidente de Moçambique. Para além da condenação dos atos de violência, a missiva expressa a preocupação existente e lembra ao presidente Filipe Nyusi que uma situação de crise tão grave como a presente exige mais e melhor comunicação pública por parte dos dirigentes nacionais. Percebe-se, assim, que a liderança do país não presta a devida atenção à obrigação de manter os cidadãos informados. A prática de minimizar os problemas é a norma. Não podemos ficar surpreendidos. A opacidade, a arrogância e o distanciamento são três das características que têm tradicionalmente definido a cultura política das elites no poder em Maputo.

Victor Ângelo

Que tal um almoço no Sahel?

Há uns anos, a minha mulher e eu fomos convidados para um almoço de Natal invulgar. O convite veio da presidência do Chade e o local do repasto situava-se a uma centena de quilómetros a norte de Fada, uma localidade a mais de duas horas de avião de Ndjamena, já na zona de transição do Sahel para o Sara. O plano consistia em voar até Fada e seguir por terra até um dos oásis da depressão de Mourdi - um conjunto de vales profundos, com várias lagoas, muito procuradas pelos mercadores das numerosas manadas de camelos em trânsito para a Líbia, onde cada camelo acaba vendido nos mercados de carne.

Victor Ângelo

Eles não cabem no nosso futuro

Reconheço as preocupações que muitos pensadores expressam sobre o que será o mundo, no rescaldo da pandemia do coronavírus. Uma boa parte diz que esta crise pulveriza as nossas sociedades e desestrutura a democracia e as alianças que nos ligam a outros povos, promove a tendência para o isolamento, o egoísmo nacionalista e a perda dos pontos de referência que davam sentido às relações internacionais. Assim, o mundo sairia da crise fragmentado, com cada país mais centrado sobre si próprio, mais autocrático e com as instituições do sistema multilateral bastante enfraquecidas.

Victor Ângelo

Terror ou democracia

Quase duzentos e cinquenta anos após a sua morte, Voltaire permanece como um dos pensadores mais influentes da história de França e da Europa. Escreveu abundantemente e foi conselheiro dos grandes de então. O seu pensamento político e filosófico abriu o caminho que levaria à Revolução Francesa e à divisa nacional, que ainda hoje se mantém: liberdade, igualdade, fraternidade. Os seus escritos troçavam dos dogmas religiosos, numa altura em que era muito perigoso fazê-lo, batiam-se contra a intolerância, advogavam a liberdade de expressão e a separação da Igreja do Estado. Em 1736, escreveu uma peça de teatro contra a intransigência religiosa, que intitulou O Fanatismo ou Maomé, o Profeta. Nesta tragédia, Voltaire critica diretamente e com todas as letras o fundador do islão. Pessoalmente, leio a obra como sendo uma investida contra as religiões, num caso, de modo aberto, noutro, o do catolicismo, de maneira mais subtil, para não pôr em risco a sua pele.

Victor Ângelo

O presidente Trump e as Nações Unidas

O nome do laureado com o Prémio Nobel da Paz deste ano será anunciado a 9 de outubro. A lista de candidatos conta com 318 nomes, um número impressionante. Ao que parece, o nome de Donald Trump estaria incluído no rol dos nomeados, o que não é impossível, pois um membro do seu governo, do Congresso ou qualquer outra personalidade, têm a faculdade de nomear. O facto é que o presidente veria com muito agrado a atribuição do Nobel. Calhava que nem ginjas, menos de um mês antes da eleição presidencial.

Victor Ângelo

Águas agitadas no Mediterrâneo Oriental

A semana esteve à beira de explodir, no Mediterrâneo Oriental. A Turquia continuou a prospeção marítima de depósitos de gás, com intenções económicas e políticas, e aumentou a sua presença militar em águas que a Grécia considera como pertencentes à sua plataforma continental. Esta, como retaliação, declarou que iria levar a cabo exercícios navais e aéreos nessas mesmas águas. E assim o fez, durante três dias, de 26 a 28 de agosto, em colaboração com as forças armadas de Chipre, da França e da Itália. Estas manobras seguiram-se a um outro exercício marítimo, greco-americano, que foi mais simbólico do que outra coisa, mas que não passou despercebido em Ancara. Certos comentadores turcos disseram, então, de modo subtil, pois criticar o regime mete muitos jornalistas na prisão, que um dos objetivos do governo deveria ser o de evitar o isolamento diplomático da Turquia. Um conselho muito revelador.

Victor Ângelo

De regresso aos imponderáveis

O grande desafio, nas nossas sociedades, é o de fazer desabrochar lideranças que sejam realistas, transformadoras e convincentes. Esse desafio é hoje premente. Com as férias de verão a aproximarem-se do seu termo, olha-se para os quatro meses que faltam para completar o ano e não se pode achar estranho que muitos fiquem apreensivos. Veem uma maré cheia de problemas e vaza de liderança internacional. Nenhum dirigente atual consegue ultrapassar os limites da sua paróquia e propor uma perspetiva animadora e credível, face ao que temos pela frente.