Victor Ângelo

Victor Ângelo

Le Pen e as nossas penas

Marine Le Pen veio a Portugal para apoiar o seu parente ideológico. A senhora é, em França, a face mais visível e feroz do extremismo de direita. O seu partido, o Rassemblement National (RN), é um apanhado de retrógrados, neofascistas, racistas, rufiães, antiglobalistas, bem como de vários órfãos políticos e outros ressabiados. A salgalhada inclui parte dos novos pobres, um proletariado que a modernização e a internacionalização da economia empurraram para os subúrbios da política e da vida. O RN representa um pouco mais de 20% do eleitorado, uma percentagem reveladora de uma França cheia de contradições, frustrações, desigualdades e ódios. Na cena partidária do país, Le Pen e os seus são olhados, incluindo pela direita conservadora, como nada recomendáveis, gente que não se deve frequentar.

Victor Ângelo

Irão: o dia seguinte

Em 2018, Mohsen Fakhrizadeh tornou-se conhecido quando Benjamin Netanyahu o acusou de ser o cientista à cabeça do programa nuclear iraniano. Fakhrizadeh foi assassinado nos arredores de Teerão há uma semana. Existem narrativas contraditórias sobre o desenrolar do crime. O certo é que a emboscada foi executada por um número razoável de agentes, uma boa dezena pelo menos, e de um modo profissional - a esposa, que viajava com ele, saiu ilesa, não fazia parte do objetivo.

Victor Ângelo

Eles não cabem no nosso futuro

Reconheço as preocupações que muitos pensadores expressam sobre o que será o mundo, no rescaldo da pandemia do coronavírus. Uma boa parte diz que esta crise pulveriza as nossas sociedades e desestrutura a democracia e as alianças que nos ligam a outros povos, promove a tendência para o isolamento, o egoísmo nacionalista e a perda dos pontos de referência que davam sentido às relações internacionais. Assim, o mundo sairia da crise fragmentado, com cada país mais centrado sobre si próprio, mais autocrático e com as instituições do sistema multilateral bastante enfraquecidas.

Victor Ângelo

A Europa e as migrações

A Comissão Europeia acaba de apresentar as grandes linhas para um pacto sobre as migrações e o asilo. Prometeu, além disso, submeter nos próximos meses um pacote complementar de propostas que trate das diversas facetas da questão. Ou seja, a integração dos migrantes; as operações de repatriamento - quer dizer, a expulsão - dos que virem os seus pedidos de asilo e de residência negados; a revisão das normas que regem o espaço Schengen e o reforço das fronteiras da União; a luta contra o tráfico de pessoas; e um novo tipo de cooperação com os países de origem dos migrantes. É um programa ambicioso. O meu receio é que todo este trabalho dê muita parra e poucos resultados. Esta é uma das matérias que mais dividem os países da UE. Não se conseguem acordos para além do reforço das fronteiras exteriores da União e da intenção, sempre difícil de levar a cabo, de proceder ao retorno musculado dos imigrantes que não forem aceites. Tem sido assim desde a crise migratória de 2015 e temo que assim possa continuar. Mas vale a pena insistir. A Comissão tem o mérito de nos lembrar que a questão das migrações é um dos principais problemas que temos pela frente. Também nos recorda que se trata de um desafio comum e não apenas dos países que a geografia e a história colocaram mais perto de África, do Médio Oriente, do subcontinente indiano ou da América Latina. Alguns, porém, não querem ver o problema como sendo de todos. Pensam que poderá ser resolvido se se fecharem as fronteiras, de modo a impedir os movimentos de massa. A aposta em fronteiras estanques é uma proposta irrealista. Não tem em conta a demografia, os conflitos, a falta de oportunidades e o desespero que existem às portas da Europa. Se eu fosse um jovem natural do Níger ou da Tunísia, a minha ambição primeira seria a de tentar emigrar para a Europa, a todo o custo. Teria a mesma atitude se viesse do Paquistão ou do Bangladesh. Hoje, é assim. Amanhã, a pressão migratória será incomparavelmente maior. Perante um cenário deste tipo, compreende-se que a Comissão considere que é melhor estar preparado. Não será fácil, mas há que tentar. As migrações desordenadas e as respostas apenas ao nível nacional acabarão por pôr em causa o acordo de Schengen e a continuação da UE. Tornar-se-ão, acima de tudo, uma bandeira para os populistas, e, por isso, uma ameaça para a democracia em vários países europeus. Trata-se, assim, de uma questão política da maior importância. Em Portugal, a problemática não é tão visível. Somos mais um país de emigrantes do que de imigrantes. É verdade que em certos círculos europeus já se começa a falar de Portugal como uma porta de entrada e uma antecâmara de passagem para quem vem da Guiné, de Cabo Verde, do Brasil e mesmo da Índia, para mencionar apenas os mais importantes. E já há quem olhe para o mar entre Marrocos e o Algarve e veja aí uma nova rota, que precisa de ser interrompida quanto antes. Na França, a situação é outra. O presidente Macron sabe quais poderão ser os custos políticos de uma imigração descontrolada. Também está consciente das fraturas que certas comunidades de imigrantes provocam na sociedade francesa. Chama a essas fraturas "separatismo" e considera-as como um dos problemas mais prementes. O separatismo de que fala é mais do que a falta de integração na sociedade gaulesa. É uma atitude deliberada de grupos de pessoas de nacionalidade francesa, mas com raízes estrangeiras, que recusam aceitar os valores laicos, tolerantes e igualitários que definem o etos francês. Esses valores são similares aos prevalecentes no resto da União, mas não são reconhecidos noutras terras, que viveram experiências históricas diferentes das nossas. Esta rejeição deliberada da assimilação é um fenómeno novo e preocupante. Menciono a França a título de exemplo. Poderia falar de outros países que, no eixo central da Europa, têm sido ao longo dos últimos 60 anos o destino de migrantes vindos de fora da cultura europeia. Em todos esses países, a migração é um tema sensível, latente quando as economias prosperam e aberto quando as dificuldades apertam. Ora, com a economia à beira de uma grande crise, por causa do impacto da covid, não tratar politicamente da questão migratória seria um erro de consequências imprevisíveis para a Europa. Não podemos consentir que se persista nesse erro. Conselheiro em segurança internacional. Ex-representante especial da ONU

Victor Ângelo

O presidente Trump e as Nações Unidas

O nome do laureado com o Prémio Nobel da Paz deste ano será anunciado a 9 de outubro. A lista de candidatos conta com 318 nomes, um número impressionante. Ao que parece, o nome de Donald Trump estaria incluído no rol dos nomeados, o que não é impossível, pois um membro do seu governo, do Congresso ou qualquer outra personalidade, têm a faculdade de nomear. O facto é que o presidente veria com muito agrado a atribuição do Nobel. Calhava que nem ginjas, menos de um mês antes da eleição presidencial.

Victor Ângelo

Águas agitadas no Mediterrâneo Oriental

A semana esteve à beira de explodir, no Mediterrâneo Oriental. A Turquia continuou a prospeção marítima de depósitos de gás, com intenções económicas e políticas, e aumentou a sua presença militar em águas que a Grécia considera como pertencentes à sua plataforma continental. Esta, como retaliação, declarou que iria levar a cabo exercícios navais e aéreos nessas mesmas águas. E assim o fez, durante três dias, de 26 a 28 de agosto, em colaboração com as forças armadas de Chipre, da França e da Itália. Estas manobras seguiram-se a um outro exercício marítimo, greco-americano, que foi mais simbólico do que outra coisa, mas que não passou despercebido em Ancara. Certos comentadores turcos disseram, então, de modo subtil, pois criticar o regime mete muitos jornalistas na prisão, que um dos objetivos do governo deveria ser o de evitar o isolamento diplomático da Turquia. Um conselho muito revelador.

Opinião

Da distância social à política

Não quero iniciar este diálogo regular com o leitor sem ter como primeiro tema a pandemia. É verdade que é um assunto batido, com muita gente a refletir sobre o que poderá ser o mundo, uma vez vencido o vírus. Uma boa parte dessas reflexões inspira-se no princípio da bola de cristal, uma técnica que foi aperfeiçoada, ao longo do tempo, por todo o tipo de adivinhos. Outros pensadores veem no desenrolar da pandemia a confirmação das suas obsessões ideológicas. Aproveitam para atacar à esquerda e à direita. Confirmam a morte do neoliberalismo ou da globalização, mesmo do capitalismo, aquecem ao apontar as causas climáticas, saúdam antecipadamente o fim da hegemonia americana ou a falência do projeto europeu e assim por diante. Para muitos desses intelectuais, futurismo parece rimar com irrealismo e irrequietismo. É, na verdade, fundamental saber-se olhar para o futuro. Temos consciência de que as grandes transformações vieram de quem conseguiu ver para além do horizonte. Cem anos após a mal denominada "gripe espanhola", a pandemia do coronavírus é o maior choque que se sofre depois da Segunda Guerra Mundial. É como um tsunami global. O mundo está a trabalhar em câmara lenta ou mesmo parado, nalguns casos. O que era até março uma aldeia global transformou-se num arquipélago de ilhas isoladas. As pontes levadiças estão todas levantadas, com medo do contágio que possa vir do vizinho. Vivemos um tempo de ansiedades e de medos. Todavia, apesar das incertezas, não fica descabido prever-se que a ordem mundial de amanhã seja bem diferente da que fomos construindo até ao início deste ano. Sem entrar no jogo da bola de cristal, prevejo que as questões da pobreza em massa, como existe em certas partes do globo, das desigualdades sociais, nas sociedades mais desenvolvidas, da deterioração do meio ambiente e da competição entre as superpotências marquem de modo predominante a agenda do futuro. Cada uma dessas questões traz consigo uma teia de outras interrogações, que mostram a complexidade do que temos pela frente. Por outro lado, é preciso vencer a indiferença social que, entretanto, se apoderou das pessoas. Cada um preocupa-se apenas com o tratar de si. Fecha-se na sua concha de alheamento perante as dificuldades dos outros. Muitos líderes políticos tiram depois a conclusão de que o importante é o que se passa no espaço doméstico, como se fosse possível parar os problemas à porta da nação, com o baixar de uma cancela fronteiriça. Daí até à crise do sistema multilateral é um passo de anão, tanto mais facilitado quanto mais tímidos, apagados ou confusos se mostrarem os que estão à cabeça das instituições internacionais. A competição entre as superpotências preocupa-me sobremaneira. Vejo os Estados Unidos e a China a percorrer uma rota perigosa. A pandemia veio acelerar o conflito, em particular do lado americano. Novas tensões e acusações permanentes contra o adversário podem levar a um passo em falso, que teria gravíssimas consequências para todos nós. Entretanto, ambos os lados procuram aumentar o número dos seus apoiantes na arena internacional. Aliados não é a palavra exata. O que cada um deles pretende é criar um círculo de Estados vassalos, que sigam a linha política definida em Washington ou Pequim e limitem o acesso dado ao outro lado. É esta a tendência crescente do relacionamento americano com a Europa. Estão a ter êxito com Boris Johnson, que acaba de dar uma cambalhota política no que respeita à Huawei. E continuam a fazer pressão junto de outros governos europeus, no mesmo sentido e em várias outras matérias, igualmente. A única resposta estratégica é, porém, a de manter uma certa distância entre as duas partes antagónicas, reforçando a soberania europeia. A pandemia ensinou-nos a expressão "distância social". A Europa precisa agora de aprender a prática da "distância política".