Um ponto é tudo

Ferreira Fernandes

Premium Sobre o amor na melhor revista de economia

Quando a revista The Economist faz capa sobre o amor moderno talvez seja altura de reconhecer que se está irremediavelmente em agosto. Fui ao calendário: sim, vamos a meados do mês. Mas reparo, de seguida, que o calendário era o do telemóvel. Tudo a ver: os encontros amorosos em The Economist são também os da era digital, engates dedilhando. Eu dedilho para saber a data, a revista escreve sobre como se chega ao dating (namoro) dedilhando data (dados e informação processada).

Ferreira Fernandes

A não ver as gentes e o seu chão

Parece que é um país onde se discute se as polícias devem, ou não, salvar - sem mas nem meio mas - as pessoas aflitas, cercadas pelo fogo e avessas a deixar para trás a sua casa. Mas quem abandona em jeito de ir tomar chá a sua casa ("o meu chão", como diz uma velha camponesa noutra página deste jornal), quem? A meio da semana, ouvi um jornalista a perguntar ao ministro, em Monchique: "Não se passou aqui uma desmesurada preocupação com as vidas humanas, deixando tudo arder?" Na altura, cataloguei "desmesurada preocupação com as vidas humanas" na categoria de frases infelizes, tolice de que ninguém pode garantir estar livre. E estava-se em Monchique no calor de incêndios que ainda ardiam.

Ferreira Fernandes

"Elogio" na boca de Bolsonaro é insulto

Jair Bolsonaro é defensor da ditadura militar e da tortura, é racista e homofóbico. Tem um mérito, porém: tropeça na língua portuguesa frequentemente mas quando lhe dá, e dá-lhe muito, para dizer enormidades, faz-se entender. "Pinochet devia ter matado mais gente" é um exemplo do seu florilégio. Outro: "Seria incapaz de amar um filho homossexual, prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí". Como já começa a ser um padrão com brutos notórios, há muitos que gostam: Bolsonaro é candidato presidencial nas eleições brasileiras de outubro, e as sondagens põem-no à cabeça.

Ferreira Fernandes

No Facebook, indignação, mas cautelas ao vivo!

Depois da denúncia nas redes sociais, tem sido um dos assuntos do dia em França, como mostram as edições online dos jornais franceses (e o DN também fez eco): a estudante Marie Laguerre, de 22 anos, vinha pelo passeio e cruzou-se com um homem. Este disse-lhe qualquer coisa, ela respondeu, ele atirou-lhe com pequeno cinzeiro de esplanada, ela respondeu, ele foi atrás dela e deu-lhe uma bofetada que a fez levantar os pés do chão e esvoaçar os longos cabelos. Sabemos (vemos, sem palavras) tudo isto pelo vídeo que foi publicado pela agredida no Facebook. As imagens são da câmara de segurança que vigiava a esplanada do bar, em frente à qual a agressão foi feita.

Um ponto é tudo

Discurso sobre a Europa: Ozil e Mbappé

Ozil, o bom futebolista alemão que jogou 92 vezes pela Alemanha, anunciou no domingo passado que nunca mais vestirá a camisola da sua seleção. A decisão deve-se, diz ele, porque se sentira vítima de "racismo" no seu país, meses antes, quando se fez fotografar junto do presidente turco Recep Erdogan, apoiando-o. Ozil é de origem turca e não admite que a sua situação dupla - a nacionalidade alemã e a origem turca - permita as críticas que lhe fizeram.

Um ponto é tudo

Desta vez Trump não chega para desculpa

Ignore-se a figura encimada por amarelo torrado (hoje já mais encanecido), esse Donald Trump que desvirtua qualquer discussão, e os factos são: na cimeira de 2014, os membros da NATO garantiram que iriam consagrar 2% do seu PIB à Defesa até 2024. Porém, quase três em quatro dos 29 signatários do acordo - entre eles, a Alemanha, o país que deve a sua sobrevivência e unidade ao que a NATO fez por ela durante décadas - estão abaixo daquela meta e dificilmente a podem vir a atingir no prazo prometido.

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Os avisos dos dois irmãos Lanzmann

Morreu Claude Lanzmann, o homem de Shoah, o filme sobre o Holocausto, documentário monumental de dez horas, filmado durante 12 anos, ouvindo sobreviventes judeus em 14 países. Como lembrar o peso de tanto? Talvez numa versão que desça à infinita raiz do assunto, o homem - um homem. Talvez falando de Lanzmann, não este, impossível de se falar dele sem a sombra do monumento. Falando, então, do irmão de Claude Lanzmann, Jacques, que morreu em 2006.

Um ponto é tudo

Não há rapazes tailandeses nos botes do Mediterrâneo

A nossa equipa. A que junta a atenção mundial, não com o entusiasmo de outras, na Rússia, mas com a compaixão virada para uma montanha tailandesa. Doze rapazinhos e o treinador, também desse futebol trivial, mas, desta vez, apanhados no jogo pela vida. Não nos interessam as regras deste desporto. Como perceber a prova que é miúdos de pouco mais de 12 anos, a partir de uma gruta perigosa, passarem por covas inundadas que só mergulhadores experimentados conseguem? É um jogo em que não nos interessa nada o desempenho e a habilidade, é um jogo de meta e de golo. Aqui, a vida da nossa equipa é só o resultado que conta.