Um ponto é tudo

Ferreira Fernandes

Brasil. Digo-o de mim para mim, com o coração apertado

Madrugada de 29 de outubro, 2018: "Brasil trágico." É verdade, já sei que irei escrever uma crónica com esse título daqui a uma semana e algumas horas. Sei, porque o mundo é assim e sei porque a crónica serei eu a escrevê-la. E, porque o mundo é mesmo assim e embora não seja eu a escrevê-los, sei também que vão aparecer vários comentários, publicados acerca dessa minha crónica, assim: "Bem feito, jornaleiros! Vocês diziam que Bolsonaro nunca ia ganhar... E agora? Aldrabões é o que vocês são todos."

Ferreira Fernandes

Aznavour e Macron, o rap e o dedo do meio

Charles Aznavour nasceu em Paris, mas nasceu Shahnour Vaghinagh Aznavourian. Ou mais complicado do que isso se o seu nome fosse escrito em arménio, língua antiga, ainda mais do que o francês mais antigo. Shahnour foi um francês de acaso, os pais iam a caminho da América. O parto interrompeu a viagem dos Aznavourian, se não eles bem poderiam estar num convés de navio, entrando na bacia do rio Hudson e balbuciando a ilusão: "América, América!", como no filme de Elia Kazan, com os imigrantes arménios frente à Estátua da Liberdade, fugindo do genocídio que lhes acontecia naqueles tempos. Shahnour foi um moderno cidadão comum, nasceu num acaso.

Ferreira Fernandes

Lena, a cidadã 

Morreu a Lena, a nossa Lena. Desculpem-me os leitores o tom pessoal desta crónica, mas ela não é tão pessoal assim. Somos a soma de muitos alguns. E entre esses alguns há o meu grupo - falo dos fronteiras perdidas, como o angolano Agualusa batizou. A Lena, que até é cabo-verdiana, é (deixem-me prolongar o tempo presente) a melhor das nossas representantes. Um dia, um dos partidos portugueses, o PSR, pai (a Lena diria mãe) do BE, apresentou-a na lista para eleições europeias, cabeça-de-lista. Uma cabeça de carapinha, tudo que ver com eleições para uma ideia moderna, a Europa. De outra vez, o presidente cabo-verdiano Jorge Carlos Fonseca, companheiro de clandestinidades, fez dela conselheira de Estado.

Ferreira Fernandes

Os porta-vozes sub-reptícios ficam gulosos 

O jornal satírico francês Le Canard Enchaîné tem uma célebre segunda página em que conta o que se diz nas reuniões semanais do governo. E publica entre aspas o que se diz. Por exemplo, o ministro das Finanças disse que "assim não dá", ao que o primeiro-ministro contrapôs "ai aguenta, aguenta" e o Presidente bateu com o punho na mesa e disse "é assim, ou vai ou racha!"... O exemplo que dou é inventado, mas ilustra bem uma típica notícia do Canard. Geralmente meia dúzia de linhas, seguida de uma dezena de outras pequenas notícias similares, com citações aspeadas, isto é, atribuídas sem dúvida a alguém. Há décadas que o jornal faz isso, com raríssimos desmentidos.

Ferreira Fernandes

McCain: o primeiro a mostrar-nos Trump

Ele era um herói americano. Daqueles que um episódio define, ou ilustra, ou redime. Um episódio. Um, definitivo. Sim, porque uma vida conta-se em romance russo, longo e contraditório - em Um Herói do Nosso Tempo, de Mikhail Lermontov, o oficial Petchorin é cínico, niilista e melancólico; em Crime e Castigo, de Dostoiévski, o jovem Raskólnikov é por ideais que mata gratuitamente uma velha; e em Anna Karenina, de Tolstói, a heroína é insegura, apaixonada e arrependida. Os romances russos precisam de muitas páginas porque mesmo em Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch, de Soljenítsin, a história de um prisioneiro e um pão, ou falta dele, é a história dos homens.

Ferreira Fernandes

O desmesurado eucalipto

Perguntou o repórter, numa daquelas infelizes frases que dizemos acontecer até aos melhores: "Não se passou aqui uma desmesurada preocupação com as vidas humanas, deixando tudo arder?" Desmesurada preocupação com as vidas humanas! Perguntou-se isto sobre o fogo de Monchique, um ano depois de Pedrógão... O ministro Eduardo Cabrita foi caridoso e não escarafunchou a faca na tolice. Pois foi pena.