Um ponto é tudo

Ferreira Fernandes

O caso da password promíscua

Uma vez, há mais de 30 anos, estava eu a escrever para o jornal Le Monde e fui fazer uma reportagem ao Parlamento português. Era sexta de manhã e assinalei ao fotógrafo este e aquele deputado nortenho a assinar a folha de presenças. Depois, a nossa equipa de reportagem foi para Santa Apolónia onde apanhámos o comboio do meio da manhã para o Porto. E quem lá ia? Claro, vários deputados, de vários partidos, estranhamente a caminho de casa, quando acabavam de deixar testemunho assinado de que estavam, àquela hora, em trabalho parlamentar na capital.

Ferreira Fernandes

Que a pequena demissão não esconda as culpas em Tancos

O ministro Azeredo Lopes demitiu-se. Eis o que tem, em si, importância bem relativa: a demissão pode estar relacionada com aquela circunstância de um ministro, além de ser, ter de parecer. Admite-se que o ministro Azeredo Lopes parecia demais. 1) Parecia que o ministro não fora claro sobre a escuridão do roubo de Tancos, e era de esperar que um ministro não parecesse tão vago sobre assunto tão sério. 2) O ministro parecia ter podido saber de um memorando, onde gente sob a sua alçada confessava uma ação criminosa.

Ferreira Fernandes

Brasil, tudo menos o Messias anunciado

Nas eleições de que todo o mundo fala, o Brasil devia ter, nas presidenciais, um daqueles candidatos a deputados, estaduais e nacionais, que também concorrem hoje. Um qualquer, mesmo daqueles candidatos de nomes malucos que são uma colorida tradição na democracia brasileira. O "Homem Aranha", o "Agora Nóis", o "Alceu Dispor 24 Horas", o "Buscando o Imponderável", o "Dr. Gatão", o "Claudinho Esse Sim", a "Loura do Cuguaçu", o "Ninguém" e o "Pirigoso". Qualquer deles! E, recuando, até podíamos convocar o macaco Tião, do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, que concorreu a prefeito em 1988, teve 400 mil votos e ficou em terceiro. Qualquer dos precedentes candidatos é melhor do que Jair Bolsonaro, o provável futuro presidente do Brasil. Segue-se a análise política expondo esse óbvio bom senso.

Ferreira Fernandes

Orlando Costa, anticolonialista

No domingo publiquei a entrevista que o primeiro-ministro deu ao DN antes de partir para Angola. Eu quis saber o que significava para ele, António Costa, essa visita a uma ex-colónia. E descrevi, por laços familiares, essa ligação, dizendo de um goês que nasceu em Moçambique, o seu pai Orlando Costa, "que é um filho do império português e foi um anticolonialista." Na entrevista, gravada, a minha formulação foi essa: "um filho do império português e anticolonialista."

Ferreira Fernandes

Os porta-vozes sub-reptícios ficam gulosos 

O jornal satírico francês Le Canard Enchaîné tem uma célebre segunda página em que conta o que se diz nas reuniões semanais do governo. E publica entre aspas o que se diz. Por exemplo, o ministro das Finanças disse que "assim não dá", ao que o primeiro-ministro contrapôs "ai aguenta, aguenta" e o Presidente bateu com o punho na mesa e disse "é assim, ou vai ou racha!"... O exemplo que dou é inventado, mas ilustra bem uma típica notícia do Canard. Geralmente meia dúzia de linhas, seguida de uma dezena de outras pequenas notícias similares, com citações aspeadas, isto é, atribuídas sem dúvida a alguém. Há décadas que o jornal faz isso, com raríssimos desmentidos.

Ferreira Fernandes

Papa, gays, psiquiatria e um homem comum

Pela doutrina católica, o Papa só é infalível quando determina solenemente em matéria de fé ou de moral, quando fala ex cathedra, isto é, "da cadeira" ou "do trono". Desta vez, no domingo, de regresso da Irlanda para Roma, o Papa falou, não do trono, mas do avião - felizmente, pois, sem infalibilidade. Disse ele, falando da homossexualidade: "Uma coisa é quando ela se manifesta na infância, há muitas coisas a fazer pela psiquiatria..." Infeliz, este juntar das duas palavras, homossexualidade e psiquiatria.

Ferreira Fernandes

A não ver as gentes e o seu chão

Parece que é um país onde se discute se as polícias devem, ou não, salvar - sem mas nem meio mas - as pessoas aflitas, cercadas pelo fogo e avessas a deixar para trás a sua casa. Mas quem abandona em jeito de ir tomar chá a sua casa ("o meu chão", como diz uma velha camponesa noutra página deste jornal), quem? A meio da semana, ouvi um jornalista a perguntar ao ministro, em Monchique: "Não se passou aqui uma desmesurada preocupação com as vidas humanas, deixando tudo arder?" Na altura, cataloguei "desmesurada preocupação com as vidas humanas" na categoria de frases infelizes, tolice de que ninguém pode garantir estar livre. E estava-se em Monchique no calor de incêndios que ainda ardiam.

Ferreira Fernandes

"Elogio" na boca de Bolsonaro é insulto

Jair Bolsonaro é defensor da ditadura militar e da tortura, é racista e homofóbico. Tem um mérito, porém: tropeça na língua portuguesa frequentemente mas quando lhe dá, e dá-lhe muito, para dizer enormidades, faz-se entender. "Pinochet devia ter matado mais gente" é um exemplo do seu florilégio. Outro: "Seria incapaz de amar um filho homossexual, prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí". Como já começa a ser um padrão com brutos notórios, há muitos que gostam: Bolsonaro é candidato presidencial nas eleições brasileiras de outubro, e as sondagens põem-no à cabeça.