Um ponto é tudo

Ferreira Fernandes

Que a pequena demissão não esconda as culpas em Tancos

O ministro Azeredo Lopes demitiu-se. Eis o que tem, em si, importância bem relativa: a demissão pode estar relacionada com aquela circunstância de um ministro, além de ser, ter de parecer. Admite-se que o ministro Azeredo Lopes parecia demais. 1) Parecia que o ministro não fora claro sobre a escuridão do roubo de Tancos, e era de esperar que um ministro não parecesse tão vago sobre assunto tão sério. 2) O ministro parecia ter podido saber de um memorando, onde gente sob a sua alçada confessava uma ação criminosa.

Ferreira Fernandes

Um Azeredo a voar e dois Tancos na mão

Na quinta-feira, o dia foi passado com jornalistas a fazerem esta pergunta a políticos: deve o ministro das Forças Armadas ser demitido se estiver envolvido no encobrimento da entrega das armas roubadas em Tancos? Perguntas parvas pedem respostas loucas mas, ontem, alguns dos políticos que responderam - cito dois, Luís Nobre Guedes (CDS) e Luís Campos Ferreira (PSD) - refugiaram-se no óbvio: quem estiver envolvido com aquele crime tem de ser punido.

Ferreira Fernandes

Lena, a cidadã 

Morreu a Lena, a nossa Lena. Desculpem-me os leitores o tom pessoal desta crónica, mas ela não é tão pessoal assim. Somos a soma de muitos alguns. E entre esses alguns há o meu grupo - falo dos fronteiras perdidas, como o angolano Agualusa batizou. A Lena, que até é cabo-verdiana, é (deixem-me prolongar o tempo presente) a melhor das nossas representantes. Um dia, um dos partidos portugueses, o PSR, pai (a Lena diria mãe) do BE, apresentou-a na lista para eleições europeias, cabeça-de-lista. Uma cabeça de carapinha, tudo que ver com eleições para uma ideia moderna, a Europa. De outra vez, o presidente cabo-verdiano Jorge Carlos Fonseca, companheiro de clandestinidades, fez dela conselheira de Estado.

Ferreira Fernandes

Lena, a cidadã 

Morreu a Lena, a nossa Lena. Desculpem-me os leitores o tom pessoal desta crónica, mas ela não é tão pessoal assim. Somos a soma de muitos alguns. E entre esses alguns há o meu grupo - falo dos fronteiras perdidas, como o angolano Agualusa batizou. A Lena, que até é cabo-verdiana, é (deixem-me prolongar o tempo presente) a melhor das nossas representantes. Um dia, um dos partidos portugueses, o PSR, pai (a Lena diria mãe) do BE, apresentou-a na lista para eleições europeias, cabeça-de-lista. Uma cabeça de carapinha, tudo que ver com eleições para uma ideia moderna, a Europa. De outra vez, o presidente cabo-verdiano Jorge Carlos Fonseca, companheiro de clandestinidades, fez dela conselheira de Estado.

Ferreira Fernandes

Papa, gays, psiquiatria e um homem comum

Pela doutrina católica, o Papa só é infalível quando determina solenemente em matéria de fé ou de moral, quando fala ex cathedra, isto é, "da cadeira" ou "do trono". Desta vez, no domingo, de regresso da Irlanda para Roma, o Papa falou, não do trono, mas do avião - felizmente, pois, sem infalibilidade. Disse ele, falando da homossexualidade: "Uma coisa é quando ela se manifesta na infância, há muitas coisas a fazer pela psiquiatria..." Infeliz, este juntar das duas palavras, homossexualidade e psiquiatria.

Ferreira Fernandes

A não ver as gentes e o seu chão

Parece que é um país onde se discute se as polícias devem, ou não, salvar - sem mas nem meio mas - as pessoas aflitas, cercadas pelo fogo e avessas a deixar para trás a sua casa. Mas quem abandona em jeito de ir tomar chá a sua casa ("o meu chão", como diz uma velha camponesa noutra página deste jornal), quem? A meio da semana, ouvi um jornalista a perguntar ao ministro, em Monchique: "Não se passou aqui uma desmesurada preocupação com as vidas humanas, deixando tudo arder?" Na altura, cataloguei "desmesurada preocupação com as vidas humanas" na categoria de frases infelizes, tolice de que ninguém pode garantir estar livre. E estava-se em Monchique no calor de incêndios que ainda ardiam.

Ferreira Fernandes

O desmesurado eucalipto

Perguntou o repórter, numa daquelas infelizes frases que dizemos acontecer até aos melhores: "Não se passou aqui uma desmesurada preocupação com as vidas humanas, deixando tudo arder?" Desmesurada preocupação com as vidas humanas! Perguntou-se isto sobre o fogo de Monchique, um ano depois de Pedrógão... O ministro Eduardo Cabrita foi caridoso e não escarafunchou a faca na tolice. Pois foi pena.

Ferreira Fernandes

No Facebook, indignação, mas cautelas ao vivo!

Depois da denúncia nas redes sociais, tem sido um dos assuntos do dia em França, como mostram as edições online dos jornais franceses (e o DN também fez eco): a estudante Marie Laguerre, de 22 anos, vinha pelo passeio e cruzou-se com um homem. Este disse-lhe qualquer coisa, ela respondeu, ele atirou-lhe com pequeno cinzeiro de esplanada, ela respondeu, ele foi atrás dela e deu-lhe uma bofetada que a fez levantar os pés do chão e esvoaçar os longos cabelos. Sabemos (vemos, sem palavras) tudo isto pelo vídeo que foi publicado pela agredida no Facebook. As imagens são da câmara de segurança que vigiava a esplanada do bar, em frente à qual a agressão foi feita.

Um ponto é tudo

Discurso sobre a Europa: Ozil e Mbappé

Ozil, o bom futebolista alemão que jogou 92 vezes pela Alemanha, anunciou no domingo passado que nunca mais vestirá a camisola da sua seleção. A decisão deve-se, diz ele, porque se sentira vítima de "racismo" no seu país, meses antes, quando se fez fotografar junto do presidente turco Recep Erdogan, apoiando-o. Ozil é de origem turca e não admite que a sua situação dupla - a nacionalidade alemã e a origem turca - permita as críticas que lhe fizeram.