Terças-feira do contra

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Estado da direita (II): a guerra civil no PSD

O PSD vive a pior guerra civil desde 1978. O "neopassismo" ("passismo" sem Passos) não conseguiu encontrar um candidato seu, usou Santana Lopes como barriga de aluguer, não digeriu bem a derrota interna e entrincheirou-se no grupo parlamentar (seja porque discorda ideologicamente de Rio e acha que o ódio a António Costa é a sua imagem de marca seja porque teme ser varrido da Assembleia em 2019). Por outro lado, Rio vai acumulando problemas na sua equipa, uns porque não pode governar o PSD sem parte do aparelho (e com um aparelho cheio de mitómanos não há conversa razoável possível), outros porque gosta de dar tiros nos pés (por exemplo, escolher Elina Fraga para uma direção política e sugerir uma reforma da Justiça "a sério" são duas coisas absolutamente incompatíveis).

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Uma ronda pela Europa

1 - Ao contrário da opinião publicada em Portugal, penso que a reedição da grande coligação na Alemanha é péssima para a União Europeia a médio prazo (consequente- mente, também não será boa para Portugal, apesar de todas as hosanas locais). Tive oportunidade de explicar isso há umas semanas. Quatro razões - a destruição do SPD como partido central do sistema partidário alemão e da Europa (agora nas sondagens com apenas 15% a 18%), um provável sorpasso pelo AfD e pelo próprio Linke (respetivamente, com 14% a 16% e 9% a 11% nas sondagens, estando os Verdes com 12% a 13%), um enorme eleitorado contrário ao atual projeto europeu ignorado pelo establishment politicamente correto (nas eleições de 2017, somou 31% à direita mais os 9% do Linke à esquerda), a possibilidade de um cenário austríaco a médio prazo (com uma democracia-cristã muito enfraquecida dando lugar a um governo dominado por populismo antieuropeu com semelhanças à direita húngara, polaca e checa). Mais tarde, numa lógica semelhante, Marques de Almeida, no Observador, acrescentou a possível queda de Angela Merkel como outra consequência inevitável do atual cenário.

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A crise do PSD (I): o sorpasso

Já tive oportunidade de aqui defender que a crise do PSD é estrutural e não meramente conjuntural. Não começou na noite de 4 de outubro de 2015, no ressentimento do dia 10 de novembro de 2015 (queda do segundo governo Passos-Portas) ou na demissão de Passos há dois meses. As suas origens remontam ao final do cavaquismo. O PSD inventou-se como o partido português mais português de todos. Uma coligação da pequena burguesia, das profissões liberais, do aparelho local da Ação Nacional Popular (pois as elites do Estado Novo foram para o CDS e, em menor peso, para o PS) e dos setores mais dinâmicos da sociedade portuguesa. Uma mistura da direita conservadora e reacionária fora das grandes cidades com um centrismo liberal moderado das grandes cidades. Foi esse PPD que conseguiu um espaço político entre os socialistas (agrupados no PS) e a direita mais tradicional (do CDS). Com o cavaquismo, o partido transformou-se. Ou melhor, voltou ao modelo da antiga União Nacional - a direita pendurada no Estado (enquanto o CDS passou a um partido sem ideologia e sem base demográfica consistente, o partido de Paulo Portas). Entre a direita pendurada no Estado e a esquerda pendurada no Estado, a esmagadora maioria do eleitorado (cada vez mais dominado por pensionistas e funcionários públicos) prefere a versão socialista. Por isso, fechado o ciclo cavaquista em 1995, o PSD passou a ser o suplente do PS. Governou apenas quando o PS apodreceu. As duas vezes (2002-2005 e 2011--2015) foram experiências desastrosas. Em vez de reformismo, houve cortes orçamentais. Em vez de novas ideias, houve reciclagem de ideias velhas. Em vez de abertura à sociedade civil, optou-se cada vez mais pelo aparelho puro e duro. Com a gerigonça em marcha e a nova realidade sociodemográfica (abstenção a aproximar-se dos 50%, jovens não votam, PAF alienou os pensionistas e os pré--pensionistas), o PSD enfrenta uma dinâmica eleitoral muito complexa (piores resultados da sua história em eleições autárquicas em 2013 e 2017, pior resultado da sua história em eleições europeias em 2014, um dos piores resultados da sua história em eleições legislativas em 2015).

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Do poder judicial aos tribunais mais entupidos da Europa

A polémica sobre o infame acórdão do Tribunal da Relação do Porto está já esgotada. Os argumentos de ambos os lados - ou, até mais corretamente, dos múltiplos lados - estão mais que batidos e rebatidos. Para surpresa de alguns, o dito acórdão, na substância, no estilo e na linguagem, até tem a sua quota-parte de apoiantes na sociedade portuguesa. Felizmente. Digo felizmente, não porque subscreva tal posição, bem pelo contrário, mas porque já é tempo de estas polémicas serem contextualizadas numa sociedade polarizada, em detrimento de uma visão aparentemente consensual. Os três juízes que defenderam aquilo que a muitos (e a mim) parece retrógrado representam uma opinião prevalecente em faixas da opinião pública portuguesa, que não podem, não devem, ser silenciadas ou eliminadas. Caso contrário, cria-se uma ilusão que depois não consegue compreender como tal infame acórdão (que não é exemplar único) acontece. A contribuição das redes sociais foi dar espaço a esta "nova direita", recordando que ela existe e por aí anda nas magistraturas, nas profissões liberais, na universidade e noutros grupos importantes da sociedade portuguesa.