Sem emenda

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O Anjo Exterminador

As últimas histórias confirmam a sensação, por tantos partilhada, de que o PS de José Sócrates foi responsável pelo mais negro período de mau governo das últimas décadas. Antes dele, outros também fizeram das suas e não foram poucas. Mas não andaremos longe da ideia de aquele ter sido o zénite da corrupção em Portugal. Por isso, assistimos a uma tentativa desesperada deste governo do PS de se distanciar do outro governo do PS, mesmo sabendo que muitas pessoas pertenceram aos dois. Talvez até por isso mesmo foram enormes os esforços. Primeiro, a hipocrisia da visita de solidariedade, a acompanhar o expediente da separação entre justiça e política. Depois, o silêncio culpado. A seguir, a indiferença. Finalmente, a lavagem de mãos, a terminar na indignação encenada. Um melodrama em quatro actos.

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A corrupção e suas variedades

O mais provável é que o PS esteja a caminho do fim. Não por causa da adesão ao mercado nem pelo seu entusiasmo com a frente de esquerda. Mas sim por causa da corrupção, que o PS nunca condenou claramente, sobretudo a sua e a dos seus amigos. O caso Sócrates, a que se acrescentaram tantos outros, está agora a mostrar contornos difíceis de apagar da memória. O caso PT, bem anterior, já tinha deixado feridas e cicatrizes profundas. Os casos Pinho e EDP, que ainda agora vão no adro, revelaram-se de tal maneira letais que será difícil convencer quem quer que seja que membros deste governo não tiveram nada que ver com o governo Sócrates, nesta que é talvez a maior derrota da democracia desde há mais de 40 anos.

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Um Estado frágil, um pobre país

A venda ao Estado chinês dos interesses da Gulbenkian no petróleo veio despertar fantasmas e levantar problemas interessantes. A decisão da Gulbenkian pode evidentemente justificar-se do ponto de vista da sua economia, das suas finanças a longo prazo e do seu equilíbrio futuro. A Gulbenkian não é uma empresa pública e daí se devem retirar conclusões rigorosas. A Gulbenkian não tem de se substituir ao Estado nem ao capitalismo caseiro. Os critérios de uma empresa ou de uma fundação não são os mesmos do que os de um país.

Opinião

Não somos todos iguais

É uma das frases mais ouvidas nos tempos que correm. "Eles são todos iguais!" Na ladroagem, na corrupção, na mentira, nas cunhas, no nepotismo e na trafulhice! "São todos iguais!" É o que se ouve nos cafés suburbanos, nas leitarias das avenidas novas, nas casas de chá de Cascais e da Foz, nos táxis e nos estádios de futebol: "São todos iguais!" Na fuga ao fisco, no tráfico de influências, no emprego para os amigos, nas autorizações legais e nos subsídios europeus: "São todos iguais!"

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Um paradoxo português

O paradoxo português actual resume-se em poucas palavras: aconteça o que acontecer, em 2018 ganharemos sempre. Se o governo não durar mais um ano, é uma boa notícia. É sinal de que o PS entende estar à altura de governar em maioria ou de refazer as suas alianças ao centro. Quer dizer que o PCP ou o BE, ou os dois, sentem que assim perdem mais do que ganham e que é preferível tentar o veredicto eleitoral democrático. É sinal de que o PS quer despertar o seu legado democrático e que as aventuras iluminadas vão cessar rapidamente.

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Os escravos em Portugal: um memorial

Excelente ideia a da construção de um memorial situado à beira-Tejo, entre a Ribeira das Naus e o Campo das Cebolas, locais onde, segundo consta, o tráfico de escravos tinha assento. Não se sabe se a proposta, feita por uma associação, será aprovada e concretizada. Nem qual será a sua forma ou configuração. Mas a ideia é boa. Sobretudo se for mais do que um memorial passivo e inerte. Se for um museu, um local de reflexão ou um centro de referência. Várias instituições desse género, nos Estados Unidos, em Inglaterra, na Holanda, em Angola e no Senegal, mostram como se pode fazer. Genocídios, holocaustos, massacres, autos-de-fé, deportações violentas, assassínios em massa, Goulag, campos de concentração e outras formas de exercício de poder e violência devem ser estudados. Para que não se esqueça. Espera-se, aliás, que esta iniciativa tenha melhor sorte do que um projecto de lei de criação de um museu dos Descobrimentos, a construir na Cordoaria, apresentado há mais de trinta anos e, infelizmente, nunca realizado.

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A Revolução de Outubro em Lisboa

Não se pode dizer que tenha sido deliberado, mas a greve geral da função pública desta semana, convocada pela CGTP, com o distraído apoio do Bloco, é uma maneira de comemorar o centenário da Revolução de Outubro que agora se celebra, entre o Outubro gregoriano e o Novembro ortodoxo. É um dos mais importantes acontecimentos da história contemporânea, um dos mais sanguinários episódios do século XX e uma das mais negras páginas da história da liberdade!