Sebastião Bugalho

Sebastião Bugalho

Angola: aplaudir uma mentira

"O vencedor perdeu" foi como a Economist titulou a sua análise às eleições gerais em Angola, realizadas no mês passado e envoltas em séria controvérsia desde então. Reconhecendo o desfasamento entre os resultados tidos como oficiais e o sentimento da sociedade civil, expondo o domínio do MPLA sobre o Tribunal Constitucional e a Comissão Nacional Eleitoral, a publicação inglesa traça um retrato sombrio da nação africana. Um regime miserável com um povo na miséria, resumindo.

Mikhail Gorbachev (1931-2022)

O imperdoável

Uma análise pormenorizada e estendida no tempo torna a biografia de Mikhail Gorbachev nascido em 1931, falecido esta terça-feira imperdoável para qualquer dos observadores que a contemple. A sua vida, ao contrário da maioria dos homens de Estado, não foi feita de ambiguidades pontuais ou contradições inevitáveis. Não era um cínico, nem um idealista; não era um convertido, nem um conversor; não era um dogmático, nem tão-pouco um hipócrita. O seu legado é a antítese de uma nuance. Teve consequências gigantescas, do ponto de vista global, e efeitos nefastos, na perspetiva dos povos sob a sua alçada. Conviveu com decisões trágicas e com feitos extraordinários. Não esteve sozinho nos seus crimes, o que não o iliba; nem teria triunfado sem o contributo de outros, o que não o diminui.

Sebastião Bugalho

Castlereagh, 200 anos depois

Robert Stewart, visconde de Castlereagh, nasceu em 1769 em Dublin, no mesmo ano que Napoleão, e morreu em 1822 em Londres, um ano depois dele. Foi o seu contemporâneo mais constante, ainda que não a sua némesis política ou militar. Protegido do então primeiro-ministro William Pitt, O Novo, Castlereagh é uma das mais originais e injustiçadas figuras europeias da era da Revolução Francesa. Em 1815, quando o Império Napoleónico finalmente cai, era indubitavelmente o homem mais influente no continente - e um dos mais poderosos. Foi ele que insistiu com Jorge III para nomear Wellington general do Comando Peninsular, posição sem a qual não teria chegado a Waterloo, e ao fim da guerra. Foi ele que se sentou com Metternich e Talleyrand em Viena, de 1814 a 1815, para impedir a Europa de se destruir novamente. E foi ele que, atormentado por difamações e ameaças, se suicidou em pleno exercício de funções, sete anos após a derrota do bonapartismo.

Opinião

A livre e o legislador

Quarta-feira, ao final da noite, o presidente dos Estados Unidos da América telefonou a uma congressista. Não para persuadi-la a mudar um sentido de voto, para convencê-la a apoiar um pacote legislativo ou para qualquer convite institucional da Casa Branca. Joe Biden, democrata, ligou a Liz Cheney, republicana, para lamentar a sua derrota nas primárias para as intercalares deste outono. O gesto, à primeira vista peculiar dada a importância de uma vitória democrata para a restante presidência de Biden, tem um significado.

Opinião

Um problema de definição política

Num longo almoço em tempos pré-pandémicos, sentei-me à mesa e questionei um interlocutor sobre a possibilidade de Carlos Moedas -- à data administrador da Fundação Gulbenkian e ex-comissário europeu -- ser candidato à Câmara Municipal de Lisboa. O meu interlocutor descartou a ideia, quase que duvidando da minha lucidez. "Um gajo porreiro nunca é líder de nada", considerou. Eu, falhando em perceber o ponto, mudei de assunto e continuei a comer.

Opinião

Cronómetros em riste

Com três anos e quatro meses até ao fim da sua presidência, o legado de Marcelo Rebelo de Sousa não será simples de descortinar quando chegarmos finalmente a 2026, o ano para que todos precocemente olham: do almirante a Santos Silva, de Montenegro a Moedas, de Ventura a Pedro Nuno, todos de cronómetro avidamente atento. Quando se colocar a década de Marcelo em perspetiva, a ascensão de novos populismos, a tragédia dos incêndios, o trauma da pandemia, a debilidade do Serviço Nacional de Saúde e a fragilidade das nossas instituições serão inseparáveis da era que, com António Costa, encabeçou. Por inevitabilidade das circunstâncias a que presidiu e dos governos com que conviveu, a frase que talvez o melhor resumirá é a que ele próprio proferiu na madrugada de Pedrógão Grande: "Fez-se o que se podia."

Sebastião Bugalho

Quem parte primeiro, senhores?

A convivência do novo líder do PSD com o velho governo do PS deve ser olhada como uma corrida de metas separadas. António Costa terá de cuidar o seu governo, de modo a proteger o seu estatuto na Europa e o seu capital interno, em caso de obrigações presidenciais, ou arrisca-se a entregar São Bento à oposição quando deixar de ser primeiro-ministro. A sua é uma corrida de saída, com todas as cautelas a que as saídas obrigam em política, em particular numa situação de crise como a que se antevê. Mário Soares saiu de Belém com um sucessor do seu partido na presidência e um primeiro-ministro do seu partido no governo; um feito difícil de repetir em 2026, precisamente trinta anos depois.

Sebastião Bugalho

Fazer de nós parvos

Pelas nove da manhã de ontem, o deputado Carlos Pereira (PS) dizia à TSF que a construção de uma pista suplementar ao aeroporto de Lisboa no Montijo era "uma relevante tomada de decisão" da parte do governo. Pelas 09.45, o gabinete do primeiro-ministro, que estava em Madrid, emitiu um comunicado desautorizando essa decisão do ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, e determinando a revogação do respetivo despacho. À mesma hora, fonte próxima de António Costa fazia chegar à imprensa que o chefe de governo "desconhecia" o dito. Em Madrid, na Cimeira da NATO, o primeiro-ministro recusava falar sobre o caso por estar "fora do país". Pelo meio-dia, o líder parlamentar do PS afirmava que "não sabia nem tinha de saber" da decisão do governo que, coincidentemente, o seu deputado Carlos Pereira defendera horas antes. Ao mesmo tempo, Mariana Vieira da Silva, ministra responsável pela coordenação política do governo, negava qualquer comentário sobre a ausência de Pedro Nuno da reunião do Conselho de Ministros, limitando-se a reforçar que o despacho do ministro tinha ordem de revogação. Horas depois, o próprio Pedro Nuno viria pedir desculpa pelo "erro de comunicação", assumir que o despacho estava já revogado e revelar que a solução ("o procedimento e objetivo definido") presente no despacho era do conhecimento do governo. À tarde, António Costa saudaria o recuo do ministro, abrindo ao mesmo tempo espaço para outras soluções que não a do Montijo, conforme as ideias, imagine-se, de Luís Montenegro, e contrariamente, pasme-se, aos tais deputados que haviam defendido a iniciativa de Pedro Nuno Santos, seu ministro.

Sebastião Bugalho

Plano B?

Ninguém me tira da cabeça que podemos estar todos enganados. Anos e anos de especulação em torno do putativo destino europeu de António Costa. Inícios de uma legislatura em maioria absoluta inaugurados com avisos do Presidente sobre essa possível fuga, daqui em dois anos. Garantias do gabinete do primeiro-ministro de que o mandato é para cumprir e que as aspirações estão devidamente hibernadas, até tempo indefinido. Entrámos, afinal, em 2022 a falar de 2024 e chegaremos a 2024 falando eventualmente de 2026 - sem esquecer, obviamente, que as maleitas nacionais se devem à troika e a Passos Coelho, eleito há mais de uma década.

Opinião

Macron e as impossibilidades

Na inusitada entrevista em que declarou a NATO morta, em 2019, o presidente da França disse algo invariavelmente menos recordado. À conversa com a sua biógrafa, Emmanuel Macron defendia então uma aproximação ao regime de Vladimir Putin. "Se queremos construir paz na Europa e reconstruir uma estratégia europeia autónoma, temos de reconsiderar a nossa posição com a Rússia", afirmava o chefe de Estado francês. Passaram-se três anos. A Rússia invadiu um país soberano, de fronteiras internacionalmente reconhecidas, sustentada numa retórica genocida e em práticas de guerra criminosas. O resultado da tentativa de rapprochement de Macron foi tudo menos bem-sucedido. Alguma cautela ou reserva seria o mínimo após tamanho fracasso político. O presidente francês, no entanto, discorda.

Sebastião Bugalho

Os príncipes na torre

A história dos príncipes na torre, um dos maiores mitos medievais de Inglaterra, foi distorcida pelos mistérios que se lhe seguiram e pela propaganda que lhes dedicaram. Tomás Moro, biógrafo de Ricardo III, fez por instaurar unanimidade entre a dinastia que lhes sucedeu. Shakespeare, na peça que eternizou Ricardo de Gloucester enquanto breve rei, foi talvez o maior responsável pelo perpetuar dessa interrogação: o que aconteceu, afinal, aos sobrinhos de Ricardo III, enclausurados na torre de Londres para este se fazer rei? Não se sabe. Os herdeiros de Eduardo IV não terão sobrevivido à ambição do tio, que foi de regente a soberano com a ajuda do Parlamento após a anulação do casamento dos pais. Dois pequenos corpos foram achados numa escadaria empedrada, dois séculos mais tarde, e devidamente enterrados na Abadia de Westminster. Gloucester, coroado Ricardo III, não teve melhor sorte. O reinado duraria dois anos, até à chegada dos Tudor como solução de paz para a chamada Guerra das Rosas. Henrique VII, que inaugurou esse tempo, foi confrontado duas vezes por pretendentes ao trono que se faziam passar por um dos príncipes desaparecidos. O primeiro, derrotado no seu segundo ano, foi perdoado e integrado na corte como cozinheiro, apesar de antes o terem coroado rei na Irlanda. O segundo, igualmente vergado, seria executado. Ambos tentaram aproveitar-se do sumiço dos York, clamando direito ao trono. Ambos reuniram apoiantes nacionais e estrangeiros com tal reivindicação. E ambos perderam em batalha a significância que a tragédia dos dois príncipes lhes havia conferido.

Sebastião Bugalho

A minoria absoluta de António Costa

O valor mais alto de inflação desde 1993. A maior queda do salário médio desde 2012, em plena troika. Um aumento inevitável das prestações do crédito à habitação. Uma acentuada queda do poder de compra. Uma subida dos juros com consequências sérias no serviço da dívida pública, por mais que a inflação a faça reduzir no curto prazo. Os encargos mensais das famílias a dispararem, num país onde a carga fiscal é elevada e a capacidade de poupança residual. O regresso da recessão, à espreita.