Sebastião Bugalho

Sebastião Bugalho

O futuro

Para o regime, haverá sempre um antes e um depois da Operação Marquês. A gravidade das acusações a um ex-primeiro-ministro, independentemente do número que chegue a julgamento, torna o processo definidor do modo como o país se olha e vê. O tempo até lá será longo, facilitando sentenças que antecedam a dita. Para José Sócrates, diz, trata-se de uma batalha política. Para a Justiça, nota-se, trata-se de uma guerra por si mesma. Para o país, é um reflexo desagradável do que foi ou se deixou ser. Na política, desde sexta-feira as consequências são previsíveis: o Chega ganhou uma bandeira, António Costa recuperou o receio de um adversário e Rui Rio, o único líder partidário com um discurso consistentemente belicoso contra o Ministério Público, uma janela.

Sebastião Bugalho

Xexão (1937-2021)

A noite ainda não denunciava a chegada de primavera quando, entre o mato junto a Caxias, um punhado de próximos e amigos procurava distingui-la entre as grades do cárcere. Em 1974, a três semanas do 25 de Abril, Maria da Conceição Moita, presa política, celebrou o seu aniversário à distância e através de um sinal. De acordo com o que já se pode chamar lenda, empunhou um roupão vermelho (uns dizem cachecol, outros uma manta, todos recordam a cor), como que saudando aqueles que, lá ao fundo, escondidos nas árvores, a esperavam a ela e à liberdade.

Opinião

Miranda Calha, um ano depois

Faz hoje justamente um ano que faleceu Júlio Miranda Calha, fundador do Partido Socialista de Portalegre, secretário de Estado da Administração Interna e do Desporto, homem da Defesa, da Liberdade, da Europa e do Atlântico, aos 72 anos de idade. Tive a honra de o conhecer e de o chamar amigo, coisa que não creio que se importaria que aqui escrevesse. Tive também a sorte de o entrevistar, por bom conselho de outro amigo, e de reviver com ele alguns momentos da sua extensa biografia política. Era, à data, o deputado mais antigo da Assembleia da República. E, da reforma agrária à sua sobrevivência a um atentado, da primeira medalha olímpica portuguesa às celebrações com Mário Soares, passando pelas viagens no Alentejo ao volante de um descapotável, Calha não se importou de vasculhar o fundo das suas memórias. O futuro‒ do país e do seu partido ‒preocupava-o muito mais do que aquilo que estava já feito.

Opinião

O planeta Rio

O leitor ficaria estupefacto com a impreparação que rodeia a maioria dos gabinetes políticos e partidários em Portugal. Palavra. No último ano, tal foi persistentemente óbvio. O chefe de Estado a gravar mensagens de vídeo com uma webcam amadora durante o confinamento. O líder de um partido com 46 anos - o CDS - a exercer mandato sem chefe de gabinete ou assessor de imprensa. Um candidato à maior autarquia do país a defender uma posição diametralmente oposta à do partido que o apresentou ‒ o IL ‒, quando uma pesquisa Google teria servido para evitar a imprudência. E já não falo do Governo, porque me obrigaria a um texto inteiro.

Sebastião Bugalho

A vacina portuguesa contra a covid-19

Talvez nenhum episódio tenha antecipado o momento nacional que vivemos como o da greve dos motoristas das matérias perigosas, no final do verão de 2019. Se recuarmos e lhe oferecermos a devida atenção, facilmente o reconhecemos. Ver o governo do Partido Socialista, sustentado ainda em toda a esquerda, vergar um sindicato com a ajuda das Forças Armadas foi uma irónica vénia de António Costa a um certo ator de Hollywood, cuja carreira terminou na Casa Branca. Igualmente cómico é recordar o desnorte do governo, perante um país em risco de ficar sem combustível nas gasolineiras, admitindo não ter dado pelo e-mail onde constava o aviso de greve na mesma semana em que inaugurava a Agência Portuguesa do Espaço, o que terá tornado Portugal a primeira potência espacial no planeta com problemas em abrir o correio eletrónico.

Sebastião Bugalho

O fim de um vociferar. Rush Limbaugh (1951-2021)

Ontem, nem todas as bandeiras foram içadas a meia haste na Florida, no sétimo dia da morte de Rush Limbaugh. Divisivo em vida, divisivo depois desta, a intenção de homenagear o radialista conservador não colheu consenso no estado governado por Ron DeSantis, republicano. Em Palm Beach, onde Limbaugh residiu durante décadas, a autarca local defendeu que "apesar de ter sido uma figura pública significativa, foi também incrivelmente divisivo, ferindo muitos com as suas palavras e ações". Tal não se trata propriamente de um exagero. Maestro da polarização, grande xamã do tribalismo e acólito vocal do trumpismo, a polémica do que fazer perante a sua morte talvez seja o tributo mais justo à sua vida.

Sebastião Bugalho

Obituário do Fiel Jardineiro

A morte de George Shultz, no sábado passado, aos 100 anos de idade, é marcante pela sua memória e simbolismo. Shultz, uma relíquia do establishment norte-americano, graduou-se no MIT, foi fuzileiro na Segunda Guerra, académico, gestor, secretário do Trabalho, do Tesouro, do Orçamento e, mais celebremente, de Estado. Era, até esta semana, o ex-governante com mais idade entre os seus contemporâneos. Num jantar na Casa Branca, chegou a dançar com Ginger Rogers. Da vida de estudante em Princeton conservava a tatuagem de um tigre, a mascote da universidade, que mais tarde proporcionaria momentos de humor entre pares e repórteres.

Sebastião Bugalho

É hora de ir embora, amigo

No dia 23 de agosto de 2016, o Francisco Rodrigues dos Santos deu a sua primeira entrevista. Por coincidência, foi também a primeira vez que entrevistei um político. Simpatizámos. Como qualquer pessoa que o conheça sabe, é um indivíduo socialmente encantador. No dia 23 de janeiro de 2019, três anos mais tarde, a Assunção Cristas convidou-me para beber café. Direta ao assunto, sentou-se e disse-me que queria que fosse deputado do CDS. Com a jovialidade de um miúdo de 23 anos, respondi-lhe: "Tava a ver que não convidava." Ela riu-se e passámos a tratarmo-nos por tu. No dia 22 de maio, no último comício das eleições europeias, fora já anunciado como candidato independente e a Juventude Popular, presidida por Rodrigues dos Santos, viera já manifestar-se contra o meu nome. À saída do evento, Paulo Portas viu-nos e brincou: "Vá, vão lá fazer as pazes."