Sebastião Bugalho

Sebastião Bugalho

O iliberal que sai, o iliberalismo que entra

Munido do seu usual talento estratégico, Rui Rio decidiu dar uma entrevista de inversão de marcha em vésperas de autárquicas. Lendo-a, é impossível não colher uma ideia de toalha atirada ao chão. "O que Passos Coelho disse é o que eu estou a fazer", diz Rio, que ainda há dias votava favoravelmente um relatório que acusa o governo de Passos de "fraude" e que teve como vice-presidente uma ex-bastonária que processou esse governo. "Agora, parti para uma etapa diferente", veio também anunciar, assumindo que os últimos três anos de aproximação ao Partido Socialista não produziram frutos. O PS não quer reformar, queixa-se o presidente do PSD. E precisou de seis anos de António Costa no poder para perceber isso. Entretanto, o PS beneficiou de uma liderança de oposição passiva e a direita, precisamente por isso, dividiu-se à procura de si mesma. Em ambas, no agigantamento socialista e na fragmentação não-socialista, Rui Rio tem responsabilidades. Mais do que consequências para o seu partido, o fracasso dessa estratégia desfigurou um sistema político, em si, já erodido.

Sebastião Bugalho

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021). Otelos

Um célebre filósofo espanhol escreveu que "um herói é alguém que quer ser ele próprio". No caso de Otelo Saraiva de Carvalho, nascido em 1936, falecido no passado domingo e cremado com honras militares mas não de Estado, a questão é: mas qual dos próprios? O Otelo que foi libertador de um país algemado a um regime ditatorial? Ou o Otelo que se insurgiu clandestinamente contra o regime democrático que se seguiu, já em período de normalidade constitucional? O Otelo apregoador da democracia direta ou o Otelo que clamava a necessidade de "um homem com a inteligência e a honestidade" de Salazar? O Otelo cuja performance operacional na madrugada de 25 de Abril é ainda estudada nas escolas de infantaria? Ou o Otelo que, mesmo acreditando na sua versão, se deixou rodear por gente que assassinou funcionários do Estado e uma criança? O Otelo que a justiça decidiu condenar, mas nunca por crimes de sangue, ou o Otelo que a política preferiu perdoar, mesmo que sem as unanimidades que a vida e a morte nunca permitiriam?

Opinião

Era uma saga portuguesa, com certeza

O fado que se segue não canta tristeza ou saudade, mas antes uma resignação àquela que é, em tudo, uma história reveladora da circunstância nacional. Não diria identidade, porque não somos isto. Nem ousaria inevitabilidade, porque não temos de continuar isto. Diria, sim, que por trás da cortina do poder há um hábito que fede, uma cultura regimental que corrói o regime, uma natureza política que diminui o que é político, o que é Estado e o que é - ou por que se fez - a República. O palco do concerto é discreto, encontrando-se, aliás, e de momento, encerrado, mas as traves em que assenta aparentam putrefação. Comecemos pelo princípio, já que a estrofe final jaz por compor.

Sebastião Bugalho

O nosso Trajano e a nossa tragédia

Um antigo mestre disse-me uma vez que os maus livros ficam velhos ao fim de um mês enquanto os grandes livros continuam novos passados mil anos. Dá-se o caso de Marguerite Yourcenar ser autora dos que encaixam na segunda categoria. Ninguém diria que a escritora francesa perderia o seu tempo a escrever sobre Rui Rio, coisa que de facto não fez, mas podemos vislumbrar nas suas Memórias de Adriano algumas pistas sobre o destino e a circunstância do líder da oposição, nascido seis anos após a publicação da obra-prima de Yourcenar. Ela, que dedicou meia-vida à ficção biográfica daquele imperador romano, manteve somente uma frase do seu primeiro rascunho: "Meu caro Marco". Sendo que o destinatário da carta com que Adriano se despede do mundo é o seu sucessor, Marco Aurélio, também nós, neste texto, falaremos dos dilemas em torno do futuro herdeiro de Rui Rio, e das vicissitudes evidentes que circundam o próprio.

Sebastião Bugalho

John McAfee (1945-2021). O hedonista insurreto

A maioria da humanidade vive atormentada ‒ ou, pelo menos, acompanhada ‒ pela incerteza em relação ao seu próprio fim. Todos temos encontro marcado com ele, mas poucos sabemos o formato, a data e a circunstância em que nos cruzaremos, por fim, com a inexistência. O cronómetro vai contando e o mistério é tão constante que se torna inconsciente: na inevitabilidade de os ponteiros pararem, todos ‒ ou quase todos ‒ deixamos de ouvi-los girar. John David McAfee, nascido nos Estados Unidos da América no último ano da Segunda Guerra, e defunto numa penitenciária espanhola há coisa de três dias, era uma exceção a essa regra. Tinha 75 anos.

Opinião

Shibboleth

O termo hebraico shibboleth, de acordo com o dicionário inglês da Universidade de Oxford, possui dupla aplicação. A primeira: shibboleth como princípio, frase ou ideia antigos e já não considerados importantes. A segunda: shibboleth como costume ou palavra que distingue um grupo de pessoas dos demais. No trigésimo segundo aniversário do massacre de Tiananmen, talvez nenhum outro termo que não shibboleth se aplique ao conceito de Liberdade na República Popular da China.

Opinião

Cinco desafios para o PSD

Mudar. Rui Rio prepara-se para perder a sua terceira eleição consecutiva. A troika, o passismo, a oposição interna, as sondagens, a maçonaria ou a imprensa não servirão como desculpa. Já se esperou, já se deu tempo, já se procurou entender, já chega. Rio começou por defender uma estratégia ao centro, de aproximação ao PS, com quem assinou pactos de nula consequência mas útil aparato, e acabou a aceitar acordos e putativas conversações com o Chega. Independentemente da bondade ou coerência ideológica destes movimentos, uma coisa é certa: nenhum deles resultou. Em três anos de liderança, Rio não tem um resultado acima dos 27% ou uma sondagem acima dos 30%. Neste país político, Costa é rei da governação e Ventura senhor da contestação. O PSD, único partido capaz de concretizar uma alternativa de poder, não existe. É agradecer-lhe, apertar-lhe a mão, passar o álcool-gel e seguir em frente. Pior será difícil.

Sebastião Bugalho

O discurso do rei

Raras são as vezes em que as testemunhas da História se apercebem, a devido tempo, que estão diante dela. Nem os que proferem um discurso nem mesmo os que o escutam são, normalmente, capazes de adivinhar a sobrevivência das suas palavras no futuro. Quando ouvi a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa, faz hoje uma semana, nas comemorações parlamentares do 25 de Abril, tive esse pressentimento. Comentei até para o lado: "não te esqueças disto, acabámos de assistir a um pedacinho de História." E estou convicto de que foi disso que se tratou. O Presidente da República fez História com a História. O seu discurso foi histórico no conteúdo e, creio, será histórico na sua recordação.

Sebastião Bugalho

O silêncio do inocente

Quando António Costa se tornou primeiro-ministro, possuía um currículo que poucos, quando aí chegaram, haviam conseguido. Fora deputado, líder de bancada, ministro dos Assuntos Parlamentares, ministro da Justiça, ministro da Administração Interna, vereador, eurodeputado, presidente da maior câmara do país e, naturalmente, líder da oposição. A agilidade que muito se tem aplaudido nos últimos seis anos deve-se, em parte, a isso: experiência. Costa foi político a vida toda; política é o que sabe fazer. Mas, tanto ou mais do que o seu percurso e vocação, há uma característica que distingue o primeiro-ministro e os seus mandatos. Quem ma insinuou foi outro crítico seu, igualmente desalentado com o estado do país. É que Costa, para o bem e para o mal, conhece Portugal. Sabe o que pode e o que não pode. O que deve e não deve. O que consegue e pode prometer sem conseguir. Como homem sem grande fervor ideológico, adapta-se consoante o ciclo, a circunstância e a necessidade. Para uns, trata-se de um pragmático. Para outros, um situacionista.

Pedro Soares Martinez (1925-2021)

O antimoderno

Na Rua de São Bento, dava-se um almoço anual. Numa morada apalaçada, adquirida decadente mas feita bonita pelo anfitrião, reuniam-se o professor e respetivos assistentes. No repasto, de data certa no dia do santo que partilhava o nome com o decano, Pedro Soares Martinez cultivava a relação com os seus discípulos do Direito. Deles, há três impressões que prevalecem após o seu desaparecimento, aos 95 anos, há escassos dias. A primeira, a perseverança das suas convicções, mesmo que ultrapassadas pelo tempo e pelo regime em vigor. A segunda, o seu sentido de humor, provocador e, por vezes, até autodepreciativo. A terceira, uma tentação algo cruel no que a avaliações diz respeito. "Deu-me cabo da média" é, eventualmente, o comentário mais repetido; a maioria, com um sorriso amargo, mas órfão de rancor.

Sebastião Bugalho

Costa vs. Costa

O rei fez xeque ao príncipe, mas não houve vencedores ou vencidos na partida desta semana. O tabuleiro girou e a disposição das peças evidenciou-se, mas quem presume um confronto aberto entre Presidente e primeiro-ministro desconhece a natureza de ambos. Este é um jogo sem cronómetro num xadrez em que, invariavelmente, a cor das figuras se confunde. A adivinha do movimento adversário é um atributo dos dois protagonistas, ainda que nenhum seja imune à incerteza da pandemia ou à imprevisibilidade da política. Costa e Marcelo, Marcelo e Costa, nós e eles, eles e nós. Será uma década disto e é além dos seus idos que vamos.

Sebastião Bugalho

Xexão (1937-2021)

A noite ainda não denunciava a chegada de primavera quando, entre o mato junto a Caxias, um punhado de próximos e amigos procurava distingui-la entre as grades do cárcere. Em 1974, a três semanas do 25 de Abril, Maria da Conceição Moita, presa política, celebrou o seu aniversário à distância e através de um sinal. De acordo com o que já se pode chamar lenda, empunhou um roupão vermelho (uns dizem cachecol, outros uma manta, todos recordam a cor), como que saudando aqueles que, lá ao fundo, escondidos nas árvores, a esperavam a ela e à liberdade.