Ruy Castro

Ruy Castro

A volta do y, do k e do w

Durante quase três anos, no começo dos anos 1970, vivi numa espécie de semi-ilegalidade em Lisboa. Tinha morada e emprego fixos e trazia todos os documentos em ordem e os impostos em dia. Mas carregava um nome que, apesar de ser composto de apenas três letras, continha uma que estava fora da lei: o y. Naquela época, num país de quase dez milhões de habitantes como Portugal e com milhares de cidadãos chamados Rui, eu devia ser um dos poucos Ruy - ou único, já que não conheci outro. Não seria isto a me obrigar a andar de cabeça baixa pelas ruas do Bairro Alto, mas eu sempre percebia uma sensação de estranhamento ao passar a alguém um papel ou cheque assinado com aquele arcaico e defunto y, de que Portugal já se livrara havia décadas.

Ruy Castro

Porque desconfio das autobiografias

Às vezes, por saberem que trabalho com biografias e já produzi algumas, perguntam-me se um dia escreverei a minha autobiografia. A resposta é decididamente não. E por uma razão simples: não acredito em autobiografias. Por não acredito quero dizer que não acredito no que está escrito nelas. "Todo o ser humano se olha ao espelho e se vê num vitral", já dizia Nelson Rodrigues - que, por acaso, biografei. E há também uma razão técnica para que eu discorde até da palavra autobiografia.

Ruy Castro

Como chamar Nelson Rodrigues de vovô?

No primeiro minuto da primeira aula do primeiro curso de Biografia que ministrei, há cerca de 15 anos, no antigo Palácio do Catete, aqui no Rio, comecei pontificando sobre uma ilusão comum a muitas pessoas: a de que a vida de seu excêntrico pai, tio ou avô "merece uma biografia". Ora, todo mundo tem um parente docemente maluco - o meu era um tio-avô que levou grande parte de seus 80 anos em busca do moto contínuo -, mas isso não faz de suas vidas um assunto para empolgar o planeta. E, assim, dando os trâmites por findos, decretei: