Ruy Castro

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Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

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O mundo sem fim de Elza Soares 

O musical de teatro Elza - sucesso no Rio, agora em São Paulo e, pelo visto, até ao fim dos tempos no resto do Brasil - é mais uma prova de que Elza Soares, em cuja vida o espetáculo se baseia, é o maior caso de ressurreição na história da música brasileira. Em sua carreira como cantora, que já passa de 60 anos, ela experimentou um período de enorme sucesso, nos anos 1960 e 70, e outro de total obscuridade, nos anos 1980 e 90. Mas, desde então, começou a voltar e nunca mais parou. Na verdade, nunca mais parou de crescer. Hoje, aos 81 anos oficialmente - sua idade real é mais difícil de calcular -, e cantando sentada, Elza Soares está maior do que em qualquer época de sua carreira. E com potencial para crescer ainda mais.

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Diga as piores verdades – nada gruda em Lula ou Bolsonaro

Teflon - em Portugal, tefal -, todo mundo conhece. É aquela substância antiaderente que recobre o fundo das panelas e faz com que, ao grelhar um bife ou fritar um ovo, não fiquem resíduos gordurosos grudados no fundo. O tefal ou teflon é uma das maravilhas da cozinha moderna. Nada se agarra a ele - nem lagartixas, cujas patas conseguem aderir a qualquer parede. E, para provar isso, há um filminho na internet mostrando, por coincidência, uma lagartixa tentando em vão escalar os poucos centímetros da lateral de uma frigideira protegida pelo produto.

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À mercê de uma faísca

Nelson Rodrigues deixou, entre muitas, uma frase que pode explicar a tragédia que se abateu sobre o Rio no domingo passado, a destruição por incêndio do Museu Nacional. "Subdesenvolvimento não se improvisa", disse Nelson. "É obra de séculos." Da mesma forma, uma catástrofe como esta não acontece de uma hora para a outra. Vinha sendo meticulosamente preparada desde pelo menos 1960, quando o então presidente Juscelino Kubitschek mudou a capital do Brasil, do Rio para a quase lunar Brasília, ainda em construção, e deu as costas ao património histórico e artístico brasileiro, concentrado no Rio em grande parte.

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O príncipe que queria ser vice - e logo de quem!

Durante algumas horas, no sábado da semana passada, o Brasil correu o risco de, quem sabe, ter como vice-presidente da República um legítimo Orleans e Bragança, herdeiro da Família Imperial brasileira deposta em 15 de novembro de 1889. Isso aconteceu quando um dos candidatos nas próximas eleições presidenciais, em outubro, Jair Bolsonaro, viu-se tentado a escolher o príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança como seu companheiro de chapa.

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Porque desconfio das autobiografias

Às vezes, por saberem que trabalho com biografias e já produzi algumas, perguntam-me se um dia escreverei a minha autobiografia. A resposta é decididamente não. E por uma razão simples: não acredito em autobiografias. Por não acredito quero dizer que não acredito no que está escrito nelas. "Todo o ser humano se olha ao espelho e se vê num vitral", já dizia Nelson Rodrigues - que, por acaso, biografei. E há também uma razão técnica para que eu discorde até da palavra autobiografia.

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Opinião

Millôr no Além

Millôr Fernandes, escritor, cartoonista, teatrólogo, tradutor, atleta (sim!) e o mais perto do que o Brasil já produziu de um pensador original, morreu em 2012, no Rio, aos 89 anos. Numa carreira de mais de 70 anos, desenhando e escrevendo onde quisesse, Millôr destilou sua inteligência e lógica implacáveis sobre todos os assuntos. Suas preocupações iam de sexo ("O homem feliz não usava camisinha", "Machão não come mel - come abelha") e política ("Não gosto da direita porque ela é de direita e não gosto da esquerda porque ela é de direita", "Roube ainda hoje! Amanhã pode ser ilegal!") até ao que você quisesse imaginar.