Ruy Castro

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O último homem sem telemóvel

Chego em casa, abro o computador e encontro cinco mensagens de pessoas que querem "fazer parte da minha rede no LinkedIn, enviaram-me "um convite" e "aguardam minha resposta". Entro em pânico. Que rede? Que convite? Que resposta? Não pertenço a rede nenhuma e não sei como responder a esses convites. O problema é que quase todos vêm de pessoas queridas, amigas de longa data, e, como não receberão resposta, poderão achar que as estou esnobando ou me fazendo de gostoso. A verdade é que não apenas não sou do LinkedIn como não tenho LinkedIn e, pior ainda, nem sei o que é um LinkedIn.

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Apagando Woody Allen

Um amigo, o psiquiatra e professor Elie Cheniaux, mandou-me um cartão de feliz 2019 ilustrado por uma cena de Todos Dizem Eu Te Amo, a sublime comédia musical de Woody Allen, de 1996. Elie é coautor (com J. Landeira-Fernandez) de um livro surpreendente e terrível, Cinema e Loucura - Conhecendo os Transtornos Mentais através dos Filmes, de 2010. Woody é um de seus heróis, juntamente com, entre outros, Billy Wilder, Nelson Rodrigues, Freud, Van Gogh e Zico. Exceto, naturalmente, Freud, ninguém lhe deu tantos motivos para reflexão científica quanto os personagens de Woody.

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Uma multidão de corruptos injusta e pessoalmente perseguidos

Nenhum agente público no Brasil, nem mesmo o presidente da República, pode ganhar acima de 33 mil reais por mês. Isso equivale a pouco mais de oito mil euros - o que, para as responsabilidades de certas funções, pode ser considerado um salário modesto. Mas você ficaria surpreso ao ver como, no Brasil, esse valor ganha uma extraordinária elasticidade e consegue adquirir coisas que, em outros países, custariam muito mais dinheiro. Com ele, nossos políticos compram, por exemplo, redes inteiras de estações de rádio e televisão, prédios de 20 ou mais andares em regiões de proteção ambiental e edificação proibida e extensões de terra maiores do que a área de certos países europeus. É um fenómeno. Mais surpreendente ainda foi o que descobrimos esta semana. O governador do estado do Rio - cuja capital é a infeliz cidade do Rio de Janeiro -, Luiz Fernando Pezão, fez apenas 11 saques em suas contas bancárias de 2007 a 2014. Alguns desses saques eram no valor de três euros, o que lhe permitiria comprar no máximo um saco de pipocas, e nenhum acima de oitocentos euros. Por mais que Pezão pareça um sujeito humilde e desapegado, como se pode viver com tão pouco? Talvez tivesse dinheiro em espécie acumulado em algum lugar - quem sabe um cofre em sua casa ou mesmo o seu próprio colchão -, do qual fosse retirando apenas o suficiente para seus alfinetes. Não por acaso, a Polícia Federal prendeu-o na semana passada, acusando-o de ter recebido o equivalente a dez milhões de euros de propina, naquele período em que ele era vice-governador do então titular Sérgio Cabral - que, por sua vez, está condenado por enquanto a 197 anos de prisão por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Cabral é acusado também de ter cerca de 85 milhões de euros em depósitos fora do Brasil. Onde estarão os milhões de Pezão? E Michel Temer, dentro de 20 dias a contar de hoje, deixará de ser presidente do Brasil. No dia 1 de janeiro, uma terça-feira, passará a faixa presidencial a seu sucessor e perderá a imunidade que o impede de ser condenado por atividades ilícitas anteriores ao seu mandato. É quase certo que, já no dia seguinte, agentes da Polícia Federal baterão à sua porta em São Paulo, para levá-lo a explicar-se sobre as atividades ilícitas praticadas antes e durante o mandato. Explicações que ele terá dificuldade para dar, já que os investigadores parecem ter provas robustas de suas trampolinagens. E não se pense que tudo nessa turma se refere a milhões - uma inocente obra de reparos na casa de uma filha de Temer em São Paulo, "oferecida" por um empresário, indica um gesto de gratidão desse empresário por certa obra de vulto em que Temer, como presidente, o favoreceu. Nem toda a corrupção tem o dinheiro como fim. Ele pode ser também um meio - para se chegar ao mesmo fim. No caso do Brasil, foi o que prevaleceu nos últimos 15 anos: o desvio de dinheiro público para a manutenção do poder político, eternizando o desvio de dinheiro público. É uma equação diabólica, principalmente se maquiada de uma tintura ideológica - práticas de direita com um discurso de esquerda. E não se pense também que isso envolveu apenas os políticos. A Operação Lava-Jato, que está botando para fora os podres do país, condenou até agora 65 pessoas à prisão, das quais somente 13 políticos, num total de quase duzentas em fase de investigação ou já denunciadas. Entre estas, contam-se doleiros, operadores de câmbio, publicitários, lobistas, pecuaristas, irmãos, cunhados, ex-mulheres e "amigos" de políticos e carregadores de malas de dinheiro, além de funcionários, gerentes de serviço, executivos, tesoureiros, diretores, sócios-proprietários e presidentes de grandes empresas. Entre os presos ou investigados, estão também um ex-presidente da Câmara dos Deputados, um ex-presidente do Senado, vários ex-ministros de Estado (dos quais três ex-ministros da Fazenda), três ex-tesoureiros do Partido dos Trabalhadores, meia dúzia de altos funcionários da Petrobras, o ex-presidente do banco de desenvolvimento nacional, seis ex-governadores estaduais, os presidentes das quatro maiores empresas de construção civil do Brasil e quatro ex-presidentes da República. Um deles, Luiz Inácio Lula da Silva. Portanto, quando lhe falarem que o querido Lula está sofrendo uma perseguição pessoal e injusta, pense nos citados acima, tão injusta e pessoalmente perseguidos quanto ele.

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Aparvalhado diante de Pelé

Pelé fez 78 anos no outro dia. Não houve grandes comemorações - certamente estão esperando pela data redonda, a dos 80, para que lhe rendamos todas as homenagens. Tem sido comovente vê-lo nos últimos anos, de andador ou cadeira de rodas, ainda se recuperando de uma cirurgia no fémur. Faz-nos pensar que o jogador mais completo que já existiu, o inventor de jogadas, o homem dos 1281 golos, o atleta do século, nivelou-se a todos nós ao descer ao seu nível de humanidade. E isso é injusto. Assim como Edson - Edson Arantes do Nascimento, sua persona, você sabe - sempre se referiu a Pelé como Pelé, na terceira pessoa, não está certo que Pelé, finalmente, tenha passado a se ver como Edson.

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O mundo sem fim de Elza Soares 

O musical de teatro Elza - sucesso no Rio, agora em São Paulo e, pelo visto, até ao fim dos tempos no resto do Brasil - é mais uma prova de que Elza Soares, em cuja vida o espetáculo se baseia, é o maior caso de ressurreição na história da música brasileira. Em sua carreira como cantora, que já passa de 60 anos, ela experimentou um período de enorme sucesso, nos anos 1960 e 70, e outro de total obscuridade, nos anos 1980 e 90. Mas, desde então, começou a voltar e nunca mais parou. Na verdade, nunca mais parou de crescer. Hoje, aos 81 anos oficialmente - sua idade real é mais difícil de calcular -, e cantando sentada, Elza Soares está maior do que em qualquer época de sua carreira. E com potencial para crescer ainda mais.

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Diga as piores verdades – nada gruda em Lula ou Bolsonaro

Teflon - em Portugal, tefal -, todo mundo conhece. É aquela substância antiaderente que recobre o fundo das panelas e faz com que, ao grelhar um bife ou fritar um ovo, não fiquem resíduos gordurosos grudados no fundo. O tefal ou teflon é uma das maravilhas da cozinha moderna. Nada se agarra a ele - nem lagartixas, cujas patas conseguem aderir a qualquer parede. E, para provar isso, há um filminho na internet mostrando, por coincidência, uma lagartixa tentando em vão escalar os poucos centímetros da lateral de uma frigideira protegida pelo produto.

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À mercê de uma faísca

Nelson Rodrigues deixou, entre muitas, uma frase que pode explicar a tragédia que se abateu sobre o Rio no domingo passado, a destruição por incêndio do Museu Nacional. "Subdesenvolvimento não se improvisa", disse Nelson. "É obra de séculos." Da mesma forma, uma catástrofe como esta não acontece de uma hora para a outra. Vinha sendo meticulosamente preparada desde pelo menos 1960, quando o então presidente Juscelino Kubitschek mudou a capital do Brasil, do Rio para a quase lunar Brasília, ainda em construção, e deu as costas ao património histórico e artístico brasileiro, concentrado no Rio em grande parte.