Ruy Castro

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Ruy Castro

Um Carnaval como nenhum outro

Imagino que, com milhares de brasileiros à solta nas ruas, Lisboa deve ter este ano o melhor Carnaval de sua história. Quando morei aí, no começo dos anos 1970, o Carnaval, por inexistente, era a época ideal para se pôr a leitura em dia. Num deles, reli Dom Quixote e Guerra e Paz durante os três dias e, na Quarta-Feira de Cinzas, ainda dei uma espiada em Ulisses. No Carnaval seguinte, li Em Busca do Tempo Perdido, completo. E, no terceiro, fui radical: li a Bíblia, os dois Testamentos, emendando um com o outro. O silêncio era absoluto na cidade - não se escutava o eco de um surdo ou tamborim. Para que não se diga que passava incólume pela festa, às vezes levava minha filhinha Pilar ao Carnaval do Coliseu dos Recreios e, enquanto ela jogava confetes para cima e dava uns passinhos no palco com as coleguinhas, cantando Ó Malhão, Malhão, eu, na plateia, dedicava-me a decifrar as palavras cruzadas do The New York Times.

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Uma língua que nem eu consigo falar direito

Os jornais brasileiros neste fim de ano, ao fazer seus balanços sobre quem se destacou em 2018, têm criado categorias que escapam até ao meu entendimento - logo eu, que, em outras eras geológicas, andava em más companhias e era dos primeiros a ouvir e disseminar os novos calões, gírias, escárnios e maldizeres. Claro que, com o passar dos anos, tendemos a nos voltar para os extratos médios da língua, onde ficamos a salvo de não sermos compreendidos. O problema é que, enquanto voltamos a falar um português médio e convencional, o mundo ao redor continua reinventando a língua, e aí é a nossa vez de não perceber o que estão dizendo.

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O que Orson teria achado de 'O Outro Lado do Vento'?

Um artista morre. Deixa um livro, filme ou samba inacabado, e alguém - ou alguéns - resolve terminá-lo. Para isso, vale-se de material deixado pelo falecido, de anotações à margem num roteiro ou de conversas que seus amigos teriam tido com ele. O resultado é quase sempre um fantasma de camisolão branco e olhinhos pretos, pairando sobre o restante da obra do artista, e ninguém saberá sua opinião sobre o que fizeram em seu nome. É justo isso?

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Ruy Castro

A falta que ele nos faz

Quem conheceu a casa de Tom Jobim no Jardim Botânico, no Rio, nos anos 1980 e 90, não conseguia deixar de se surpreender. Na estante da sua sala, poucos livros sobre música. Mas, ocupando as prateleiras, tomando a tampa do piano e empilhando-se sobre poltronas, alguns livros de poesia - e muitos dicionários. Dezenas de dicionários, em várias línguas e de todos os géneros: analógico, etimológico, de sinónimos, folclore, pássaros, tupi-guarani, gíria brasileira, gíria americana.