Ruy Castro

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Ruy Castro

Uma tragicomédia de hora em hora

O leitor português já se cansou de ouvir falar das grosserias do presidente brasileiro Jair Bolsonaro e de como, num dia normal de 24 horas, ele viola duas ou três vezes a Constituição, estupra as instituições, acusa inimigos sem provas, joga o povo contra o Congresso, apoia fechar o Supremo Tribunal Federal, compromete as Forças Armadas, bota os órgãos do Estado ao serviço de seus interesses, encobre as sujeiras dos filhos, mente compulsivamente e, como se não houvesse uma pandemia, circula pelo país sem máscara, cavoucando o nariz e trocando perdigotos com as pessoas que abraça.

Ruy Castro

Filmes a levar na mala

Se alguém perguntasse ao pesquisador brasileiro Saulo Pereira de Mello que filmes ele levaria para uma ilha deserta, a resposta seria: "Só um. Limite." E mostraria sob sua cama as doze latas da única cópia do filme, que guardava com sua própria vida - se o nitrato pegasse fogo, Saulo e o filme iriam embora em chamas. Limite é um filme de 1931, por um ardente cineasta amador chamado Mario Peixoto, de 21 anos. Nunca foi exibido comercialmente. Na verdade, só se sabe de uma única projeção, às dez horas de uma manhã de domingo, num cinema do Rio que seu diretor conseguiu alugar e só para convidados. E, mesmo assim, o dono do cinema o fez assinar um termo de responsabilidade no caso de a plateia quebrar as cadeiras ou atirar objetos à tela. E porquê essa possibilidade de fúria? Porque Limite não contava uma história.