Ruy Castro

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Ruy Castro

Um maravilhoso português do Brasil

Era como se, nas mãos deles, a música sempre voltasse ao primeiro dia da Criação. Uma das coisas que o Brasil legou de melhor ao século XX foi a sua escola de violonistas modernos - homens não apenas capazes de dar uma roupagem nova ao repertório clássico do samba e do choro, mas que se especializaram, desde 1940, em propor ousadas novidades técnicas, harmónicas e rítmicas. E que, para surpresa geral, não só conheceram o sucesso comercial como tiveram até presença internacional.

Ruy Castro

Deus era brasileiro. Era

Não sei se é uma característica de outros povos, mas, aqui no Brasil, temos a mania de achar que Deus é brasileiro. Nada jamais nos autorizou a acreditar nisso, mas é uma certeza, compartilhada - pelo menos, até há pouco - por grande parte da população. Talvez tenha que ver com o Brasil não ser sujeito a tsunamis, terremotos, vulcões, ciclones, tufões, avalanches, incêndios e outros desaires que atingem tantos países. Pode ter que ver também com o facto de que, mesmo com algum desastre iminente, algo faz que tudo de repente se transforme em samba - descobre-se petróleo para até o ano 3000, o Brasil ganha uma Copa do Mundo ou, se estivermos às vésperas do Carnaval, a preocupação fica para depois da Páscoa, não vamos esquentar a cabeça agora.

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Uma tragicomédia de hora em hora

O leitor português já se cansou de ouvir falar das grosserias do presidente brasileiro Jair Bolsonaro e de como, num dia normal de 24 horas, ele viola duas ou três vezes a Constituição, estupra as instituições, acusa inimigos sem provas, joga o povo contra o Congresso, apoia fechar o Supremo Tribunal Federal, compromete as Forças Armadas, bota os órgãos do Estado ao serviço de seus interesses, encobre as sujeiras dos filhos, mente compulsivamente e, como se não houvesse uma pandemia, circula pelo país sem máscara, cavoucando o nariz e trocando perdigotos com as pessoas que abraça.