Rute Agulhas

Rute Agulhas

Como contrariar a fadiga pandémica que sentimos?

Estamos há quase um ano a viver uma realidade que, numa fase inicial, e por ser uma situação nova e desconhecida, potenciou elevada ansiedade, medo e incerteza. Era uma situação estranha que nos obrigou a todos a alterar de forma drástica os nossos hábitos e comportamentos, na esfera pública e privada. Aprendemos a controlar o impulso de correr para abraçar alguém, a manter distância física e a diversificar as formas de comunicação. Aprendemos ainda a trabalhar de pantufas e a substituir o contacto visual pelos quadradinhos no ecrã do computador.

Opinião

Natal: o essencial é invisível aos olhos

Escrever um artigo sobre o Natal, e sobre este Natal em particular, não é fácil. Vivemos tempos difíceis, de grande incerteza e imprevisibilidade. Muitos olham à sua volta e veem-se sozinhos ou com (ainda mais) lugares vazios à mesa. Impossibilitados de abraçar quem mais amam, sentem-se como que amputados no coração. Outros deparam-se com as perdas... tantas perdas, de tantas formas e feitios que conduzem, invariavelmente, à perda de esperança.

Opinião

Porque sentimos necessidade de antecipar o Natal?

Este ano queremos que o Natal chegue mais cedo e, por isso, antecipamos as decorações e as compras. Porquê? De que modo nos ajuda isto a sentir melhor? A celebração do Natal é um ritual. Independentemente das crenças de cada família, é um ritual anual que confere previsibilidade, estabilidade e maior sensação de controlo. Ao mesmo tempo, reforça os vínculos afectivos com as pessoas de quem gostamos, gerando sentimentos de bem-estar, alegria e compaixão. O Natal é ainda associado a partilha, amor e esperança, emoções agradáveis que contrastam com a angústia, a ansiedade e as perdas que tantos de nós temos vivido nos últimos meses. Neste contexto atípico e de incerteza em que vivemos, planear este ritual torna-se ainda mais importante. É como se a vida à nossa volta voltasse a ser «normal» durante algum tempo, permitindo-nos focar a atenção em aspectos positivos e, em paralelo, minimizar os negativos. É como colocar um filtro nos nossos pensamentos, deixando à tona apenas aqueles que nos ajudam a sentir bem. Enquanto estivermos focados na árvore de Natal, no presépio e na lista de compras para a ceia, não pensamos no vírus, no desemprego e em tantas outras ameaças. E até podemos ouvir as notícias que desanimam... um pouco menos, quando vemos as luzinhas a piscar. Para as crianças o Natal é também muito importante, e não apenas pelos presentes, como possamos imaginar, mas sobretudo por quem está presente. Pela oportunidade de estar em família. E a verdade é que cada vez mais ouço crianças e jovens afirmar isto mesmo, deitando por terra aquela imagem estereotipada das crianças que apenas valorizam os bens materiais. Importa, porém, ter em conta duas situações. Em primeiro lugar, compreender e aceitar que muitas pessoas possam não sentir qualquer vontade em celebrar. A tristeza, as saudades e os lutos requerem tempo para ser processados e tê-lo é um direito de todos nós. Saibamos, por isso, respeitar o tempo e o espaço que algumas pessoas possam precisar. Em segundo lugar, que esta necessidade de celebração não nos tolde a visão e impeça de sermos conscientes e responsáveis. Que saibamos conciliar a festa e o convívio com a segurança de todos. E se o Natal este ano for diferente, com algumas restrições? Pois será. Acredito que encontraremos dentro de nós estratégias para lidar com essa diferença e aprender com ela. Se o Natal é quando um homem quiser, também pode ser como um homem quiser.

Opinião

Pais que receiam ser acusados de abuso sexual

Em contexto de conflito parental, muitos pais antecipam uma possível acusação de abuso sexual em relação aos filhos e, por isso mesmo, evitam manter determinados comportamentos. Recusam-se a brincar "às cócegas", ajudar as crianças mais novas a limpar-se depois de irem à casa de banho ou, ainda, a sentar os filhos no colo. Outros pedem testemunhas na hora do banho ou de trocar a fralda ao bebé, pedem ajuda à vizinha (mesmo a meio da noite) para colocar a pomada que evite as assaduras nas zonas genitais ou trancam a porta da casa de banho, com receio de que a criança entre sem avisar. Outros ainda equacionam instalar câmaras de vigilância em casa, numa busca desesperada por provas que os ajudem a defender-se, caso sejam acusados. Estes pais, não raras vezes, enfrentaram já outras acusações prévias. De violência doméstica, maus tratos físicos ou consumo de álcool e drogas. E quando os processos de avaliação, que se sucedem uns atrás dos outros, tantas vezes ao longo de anos a fio, revelam a ausência de indicadores neste sentido, o medo das acusações de abuso sexual ganha forma. Para estes pais que, como medida preventiva, decidem inibir-se na expressão afectiva e mesmo na prestação de alguns cuidados físicos aos seus filhos, o dia-a-dia é vivido com angústia e apreensão. E se algum comportamento é mal interpretado? Até onde posso ir e o que devo ou não devo fazer para que não seja injustamente acusado? Por sua vez, estas crianças veem-se privadas de pais espontâneos e capazes de expressar os seus afectos também de um modo físico. E por mais que a verbalização dos afectos seja importante, a verdade é que as crianças (e todos nós, se pensarmos bem) também precisam de toque e proximidade física, de serem inundadas de beijos e "espremidas" de tantos abraços. Falar desta realidade não equivale, naturalmente, a ignorar uma outra - a dos abusos sexuais reais. Sabemos que o abuso sexual existe, é prevalente e tem um claro impacto negativo na criança vítima, na sua família e na comunidade em seu redor. Os adultos devem estar atentos a eventuais sinais de alerta, ainda que estes possam ser subtis, ouvir a criança e pedir ajuda às entidades competentes face a uma suspeita ou revelação. Mas as falsas acusações de abuso sexual também existem, motivadas por erros de interpretação da realidade ou desejo de vingança e retaliação em relação ao progenitor acusado que se quer, por via da acusação, banir da vida dos filhos. E, neste contexto, sujeitam-se as crianças a avaliações sucessivas (por vezes bastante intrusivas), ao mesmo tempo que as privam de um direito fundamental - o direito a poder conviver com ambos os pais, de forma salutar e descontraída.

Opinião

O meu filho tem pesadelos

As crianças referem muitas vezes que têm «sonhos maus», associados a angústia, medo e ansiedade. Falamos dos pesadelos, que deixam memórias no dia seguinte e que são frequentes em crianças mais novas. Podem relacionar-se com mudanças que a criança esteja a vivenciar, novos desafios ou experiências de vida mais adversas. Como devem os pais reagir? O que fazer? E o que não fazer? Antes de mais, sabemos que os pesadelos estão frequentemente associados a mudanças de escola, ao nascimento de um irmão, à separação dos pais, à morte de alguém próximo ou a conflitos com os colegas e amigos. Podem ainda surgir associados à vivência de experiências mais traumáticas, como o bullying ou outro tipo de violência. Muitas crianças têm pesadelos relacionados com conteúdos que veem na televisão ou na internet, como monstros, lendas ou seres imaginários. Por outro lado, a situação pandémica que ainda vivemos e a incerteza relativamente ao dia de amanhã pode potenciar estados ansiosos que, por sua vez, podem aumentar a probabilidade de ocorrência de pesadelos. Os pais devem encarar os pesadelos recorrentes da criança como um sinal de alerta de que algo a preocupa. Em primeiro lugar, devem reflectir sobre eventuais circunstâncias indutoras de stress na vida da criança. Está a atravessar mudanças significativas? Está exposta a alguma situação que possa gerar ansiedade? Manifesta algum tipo de medo ou dificuldade? A que vídeos e jogos tem acesso? Intervir no sentido de minimizar as potenciais situações indutoras de stress na vida da criança será sempre o primeiro passo. Incentive a criança a falar sobre o seu pesadelo. Dizer «esquece, não penses mais nisso» não costuma ser eficaz, podendo inclusive ter o efeito contrário. Ao falar sobre o seu conteúdo, o pesadelo pode até parecer menos grave e assustador, na medida em que a criança se vai dessensibilizando gradualmente face ao mesmo. Ao deitar, os pais devem conversar com a criança, validando eventuais emoções mais desagradáveis que possa estar a sentir e incentivando-a a falar sobre elas. Ao verbalizar o que pensa e sente, é natural que a criança se sinta mais relaxada e confiante. A meio da noite, se a criança chorar e chamar por si ou aparecer no seu quarto, tranquilize-a, mantendo sempre um tom de voz baixo e pausado. Não é hora de lhe pedir para relatar o pesadelo, mas sim de a acalmar, ajudando-a a perceber que o pesadelo não corresponde à realidade. Se for necessário, fique ao seu lado algum tempo até que volte a adormecer.