Rui Tavares

Opinião

Olá todos, disse ela

O dia de ontem foi definido logo pela manhã, nos quiosques: "Revolução pacífica, democrática e bela - e de todos", tudo certo na frase, até o travessão. Assinou-a Rui Tavares, na sua habitual crónica no jornal Público. Ele é um homem de esquerda, que o povo não soube aproveitar para deputado nas últimas legislativas. Entretanto, o povo votou em Margarida Balseiro Lopes, deputada do PSD. Ela ontem discursou e dei-me conta de que já a tinha lido pela manhã, na crónica de Rui Tavares. Que bom a comunhão! A jovem deputada (ela é líder da JSD) soube usar o travessão, que tão bem tinha sido grafado por Tavares, e também destacou o conseguimento maior do 25 de Abril: é de todos. A social-democrata saudou o comunista Jerónimo, a bloquista Catarina, o socialista Carlos César, a centrista Cristas e o líder dela, Rui Rio. Para cada um, ela emprestou um ganho que o 25 de Abril lhes trouxe. Infelizmente, faltou a alguns deputados terem-se passado só 44 anos desde 1974 e precisar-se ainda de dias, meses ou talvez uns poucos anos mais para todos aplaudirem o que só pode ser unânime: ontem era de todos. Margarida é a primeira mulher líder da JSD, uma reportagem do jovem jornalista Miguel Santos Carrapatoso, do Observador, narrou então como ela arrancou a vitória e ele narrou-o com aqueles pormenores que o bom jornalismo deve dar dos bastidores partidários. Margarida Balseiro Lopes podia ter descansado desse recente sucesso. Mas não, ela ousou fazer o discurso óbvio - olá todos, da esquerda à direita... - e, no entanto, ainda reticentemente admitido na casa que devia ser a garantia desse discurso óbvio. E depois ela falou de corrupção. Olá todos! É que precisamos de todos - porque alguns não nos merecem.