Rui Pedro Tendinha

Opinião

Adeus mestre!

Os cineastas, os grandes cineastas, têm fãs, muitas vezes incondicionais. Cresci a ver a hollywoodização de Milos Forman e fiquei fã, sem medo da palavra. De Voando Sobre um Ninho de Cucos a Larry Flynt. O exemplo do cineasta do Leste que soube encontrar voz artística num sistema internacional de cinema. Ganhei por ele uma daquelas admirações quase na ordem do sagrado. Por isso, quando em 2007 fui a Madrid para o entrevistar a propósito da estreia de Os Fantasmas de Goya, fiquei extasiado. Saí da capital espanhola de cara à banda: o meu encontro com este ídolo cinematográfico surge precisamente na ocasião do seu único filme que me pareceu notoriamente falhado (veio a confirma-se como um desastre, quer no plano comercial, quer em termos de reação da imprensa especializada), mas, por outro lado, foi um prazer a conversa. O checo falava de Goya com uma paixão contagiante e uma simpatia desarmante. Aquele seu inglês com sotaque de filme de espiões cativava, o sorriso terno de setentão também era uma lança de sedução.Milos Forman ao vivo tinha um encanto muito próximo daquilo que ele mostrava como ator em 1986 em A Difícil Arte de Amar, de Mike Nichols, onde contracenava com uma ternura casual com Jack Nicholson e Meryl Streep ou, alguns anos depois, na última vez em que esteve em frente a uma câmara, em Os Bem-Amados, de Christophe Honoré, no qual exibia sem problemas as marcas da idade ao lado de Catherine Deneuve.Essa autenticidade que testemunhei num hotel em Madrid confirmava-se no seu cinema. Um cinema operático quando tinha de ser (Amadeus), sempre desafiante (Homem na Lua) e disponível para operar interrogações artísticas como em Larry Flynt. Dessa mesma viagem a Madrid nunca me esquecerei as ausências de Natalie Portman e Javier Bardem na ronda de entrevistas, supostamente por estarem embaraçados com o filme. Seja em que hora for, nunca se deixa um mestre sozinho.

Imagens de Berlim

Um festival gourmet com música forte

Ao contrário do que se possa pensar, as primeiras sessões a esgotar na Berlinale são as mais caras. Um filme com bilhete a 95 euros e muito antes de o festival começar já está mais do que esgotado? Sim, a culpa é da secção Culinary Cinema, onde os espectadores assistem ao filme cujo tema são os vinhos ou a comida e, depois, têm direito a um jantar de luxo no restaurante do festival, uma tenda bem aquecida com muito vermelho aveludado.

Opinião

Os sortudos do Rivoli

O festival Porto/Post/Doc apostou e bem em dois filmes que nunca vão ser vistos em salas de cinema. Dois filmes que tinham de ser vistos em sala de cinema. The Beguiled, de Sofia Coppola, filme incómodo nesta altura em que as aparências dos assédios são sensíveis e Voyage of Time, de Terrence Malick. Sim, Malick e Coppola apenas para os sortudos que anteontem e ontem foram ao Rivoli. Os programadores do festival tiveram "olho" e fizeram aos portugueses serviço público. Não se trata de demonizar as distribuidoras que decidem não levar certos filmes para as salas. Sabe-se que cada vez mais é difícil convencer os americanos a investir num país com um parque de salas tão pequeno e com bilhetes dos mais baratos na Europa, mas também corta-nos o coração quando são despejados nos cinemas, todas as semanas, em números avassaladores, filmes sem méritos. Cinema feito por tarefeiros que o público, muito naturalmente, acaba por ignorar.

Rui Pedro Tendinha

Tudo é marketing

Enquanto escrevo estas linhas está Sir Ridley Scott a dirigir Christopher Plummer em Todo o Dinheiro do Mundo, filme sobre o rapto de um dos netos do bilionário Jean Paul Getty. São as famosas cenas de substituição de Kevin Spacey, algo inédito em Hollywood num filme desta escala e com tão pouco tempo antes da estreia - a Sony já enviou um comunicado a reforçar que a estreia para 22 de dezembro se mantém e que há uma "aposta nos Óscares". O impensável está a acontecer: há um ator a ser apagado numa prática do mccarthismo ou do mais vil estalinismo. Só que não, tudo isto é a lei do mercado. É a Sony Pictures a tentar salvar um filme caro. Cedo se percebeu depois dos escândalos sexuais em torno de Spacey que Todo o Dinheiro do Mundo iria ser falado pelo facto de ter Spacey num papel sonante. Cedo se percebeu que Spacey iria matar o filme e, mesmo sem o seu nome no cartaz, haveria protestos contra o estúdio. O mais irónico é que antes disto tudo era a própria Sony que estava a apostar num forcing para Spacey ser nomeado para os prémios de melhor ator secundário. Agora, orgulhosamente, aposto que vai fazer o mesmo com o veterano Plummer que tem nove dias para ganhar um Óscar. E porque o marketing é que triunfa sempre no fim do dia, isto foi o melhor que poderia acontecer a Todo o Dinheiro do Mundo, a partir de agora um potencial sucesso de bilheteiras devido à curiosidade que conseguiu reunir. Não se duvide de que muitos vão pagar o bilhete para matarem o espanto de "como é que eles conseguiram apagar o Spacey?!" Vivemos dias muito tristes.