Rui Pedro Tendinha

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Rui Pedro Tendinha

O João. Outra vez, o João Salaviza...

Foi neste fim de semana. Um fim de semana em que o cinema português foi notícia e ninguém reparou. Entre ex-presidentes de futebol a serem presos e desmentidos de fake news, parece que a vitória de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, no Festival do Rio, e o anúncio da nomeação de Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, nos European Film Awards, não deixou o espaço mediático curioso.

Opinião

O precedente está aberto...

Chegámos ao ponto de os estúdios de Hollywood quererem agora desfazer-se dos seus filmes mais "artísticos" e vendê-los à Netflix. A Paramount prescindiu dos direitos internacionais de Aniquilação e fez um acordo com a Netflix, que assim consegue estrear na sua plataforma digital um dos filmes mais esperados da temporada. Abre-se assim o precedente que ameaça a vida comercial do melhor cinema de Hollywood nas salas. Fica-se com a ideia de que cada vez que houver cinema mais arriscado a vir das majors americanas, a solução será sempre esta. As consequências podem implicar um efeito de bola de neve e, num futuro próximo, filmes como Mãe!, de Darren Aronofsky (precisamente da Paramount), nunca mais os vamos encontrar num cinema perto ou longe de nós. O que é assustador neste caso é que uma obra como Aniquilação está fundamentalmente pensada para ser vista num grande ecrã. Os seus efeitos visuais em sintonia com um desconcertante jogo cromático pediam mesmo um ecrã gigante de cinema. A música de Geoff Barrow e Ben Salisbury suplica pela potência dolby de uma boa sala, já para não falar da genial fotografia de Rob Hardy. O próprio realizador do filme, Alex Garland, já veio a público mostrar a sua deceção com o acordo com a Netflix, salientando que Aniquilação é para ser visto nos cinemas. O problema maior nesta questão é que a decisão da Paramount terá que ver com os maus resultados em projeções-teste. Uma decisão puramente financeira e que denota que em Hollywood os executivos dos estúdios continuam a desconhecer o seu produto. Aniquilação nunca seria um filme popular como Arrival - O Primeiro Encontro (também da Paramount...), mas isso já se sabia, bastava ler o argumento e perceber toda a premissa conceptual do projeto. Aniquilação não fez dinheiro decente nos EUA, mas nunca, mas mesmo nunca merecia este castigo do seu estúdio...

Rui Pedro Tendinha

Sufjan no cinema

Bem curiosa esta coincidência da canção de Sufjan Stevens, Tonya Harding, surgir numa altura em que o filme I, Tonya, de Craig Gillespie, está na rota da temporada dos prémios. Coincidência ainda maior quando o músico assina também um punhado de canções de beleza lancinante para Chama-me pelo Teu Nome, de Luca Guadagnino. A coincidência só não volta a acontecer na qualidade dos filmes. O filme do italiano é uma obra-prima de todo o tamanho, um dos grandes momentos do próximo ano cinematográfico, aconteça o que acontecer, enquanto I, Tonya é uma "chico-espertice" em forma de biografia sobre a patinadora artística white trash, uma espécie de conto sobre uma América ruinosa dos anos 1990 empolada por uma glorificação do kitsch. Vi o filme no Festival de Toronto e percebi de assentada que a estética de caricatura que tenta ser "engraçadinha" podia levar o filme para aquele ponto do hype infundado.

Rui Pedro Tendinha

Visionamento com ovação

Estamos naquela fase em que os departamentos de marketing dos grandes estúdios de Hollywood colocam em pé de igualdade os jornalistas e os bloggers. Aconteceu precisamente isso no visionamento a abarrotar de Star Wars - Os Últimos Jedi esta segunda-feira em Londres, no gigante IMAX da Cineworld. Cerca de mil almas entre jornalistas de todas as idades e feitios e muitos bloggers, campeões de redes sociais e os chamados social influencers. Nesta altura do campeonato, são muitos os que acreditam que um filme fica mais bem servido com os ecos de uma celebridade no Facebook do que num artigo ou reportagem. A imprensa está a ficar para segundo plano neste circo promocional. Não há muito tempo, lembro-me de estar em Paris num evento de lançamento dos filmes da Netflix e ter visto mais social influencers do que jornalistas.

Opinião

O primeiro Bond da geração dos 70

Em Cannes, o dia foi gasto a falar da gala dos 70 anos que reuniu atores e cineastas que tiveram ligações ao festival e na morte de Roger Moore. Para alguém que cresceu nos anos 80 como eu, este ator britânico foi uma espécie de primeiro herói. Cada vez que algum rapaz da minha geração olhava para o espelho e dizia Bond, James Bond, era Moore o modelo. Todos sabíamos que o anterior 007 era melhor e tal (os nossos pais não se cansavam de o dizer em tom comparativo...), mas este foi o nosso agente secreto, aquele tipo que tinha o cabelo sempre impecável, que sabia beber bem os martínis vodca e que nem ficava tolo de smoking branco. Roger Moore não precisava de fazer muito para ser o perfeito cavalheiro britânico, bastava sorrir ou levantar a sobrancelha. Se Connery era a versão dura e masculinizada da personagem de Ian Fleming, Moore era uma proposta de autoirrisão e pastiche. Não perdia o estilo e simbolizava uma ideia de machismo politicamente incorreto da quintessência britânica, ao mesmo tempo que não levava nada disso a sério. Justiça seja feita, Moore não era tão bom ator como Sean Connery, mas era um Olivier ao lado de George Lazenby e muito mais eficaz do que o seu sucessor, Timothy Dalton. A sua limitação é que não conseguia ir além de Bond. Ele percebia isso e mesmo em filmes como Os Gansos Selvagens (1978) e A Corrida Mais Louca do Mundo (1981) estava a fazer o mesmo número. Moore era um ator espertíssimo. Depois, viveu sempre da herança 007, sobretudo quando era agente da UNICEF nas mais variadas ocasiões. Nasceu para ser 007 (e também o Santo, que era um tubo de ensaio quase perfeito para Bond) e morre agora em missão secreta contra o vilão cancro. O enterro será também secreto no Mónaco, local de muitas missões ultrassecretas. A infância da minha geração está a ficar órfã.

Rui Pedro Tendinha

King Kong girls

Devo começar por confessar a admiração profunda que tenho por Brie Larson, a atriz que o ano passado venceu o Óscar. A sua interpretação em Quarto, de Lenny Abrahamson, era qualquer coisa do registo histórico, um surto de fúria e amor numa das mais inesquecíveis personificações de maternidade. Já antes, em Temporário 12, de Destin Daniel Cretton e nos breves momentos em que surge na comédia de Judd Apatow, Descarrilada, era também de uma intensidade fora do normal em Hollywood. Serve isto para dizer que neste Kong - Ilha da Caveira, o primeiro filme depois da consagração universal, é difícil ver nela o que quer seja para além de uma figura bela e cinegénica. O filme não lhe pede nada e ela não dá nada, nem mesmo a dignidade da "dama que grita". E a proposta era icónica: ser a loura que chama a atenção ao gorila gigante... com direito até ao momento de ficar na mão dele. Mas por falta de química ou por desleixo do argumento, insisto, não reparamos em Brie. É a tal coisa do porte monumental destas grandes produções, ficamos antes a olhar para os efeitos.