Rui Pedro Tendinha

Opinião

Uma exposição que já era cinema

A discussão que Manifesto pode trazer deve ser proveitosa. Um filme que nasce de um conjunto de pequenos filmes que faziam parte de uma videoinstalação para ver numa galeria de arte. Apropriação do cinema às artes visuais? Chico-espertice dos exibidores? Afinal, Manifesto, de Julian Rosefeldt, é cinema ou uma visualização de uma exposição? Para quem teve oportunidade de ver a exposição Manifesto (estreada em 2015 na Austrália, em Melbourne), como é o meu caso, em Paris, no ano passado, a experiência de o ver em sala não se compara ao império dos sentidos que experimentei na sala de exposições das Beaux Arts.As 13 Cate Blanchetts que acabavam por brincar em cacofonia num espaço milimetricamente iluminado e organizado segundo uma discrição elaborada pediam uma sala grande. Pediam também uma disponibilidade nossa perante uma pulsão de interpelações em rituais análogos. Era qualquer coisa de siderante e tinha sempre uma carga sensorial. Carga essa que pressupunha "reconhecimento" de prazer sonoro (como uma experiência de apreensão dos significados) e de jogo aberto com as fronteiras da instalação. Saía-se da sala com vontade de voltar logo (eu, como muita gente, fiquei no fim recolhido a contemplar de longe as 13 telas) ou permanecer em sessões contínuas em frente ao ecrã onde temos a Cate Blanchett punk rocker.Mas a sensação mais forte daqueles pequenos 13 filmes que fazem uma só obra é que, mesmo estando a servir a função "redutora" de instalação de arte, têm cinema. Com boa vontade, Manifesto , nesta versão que hoje chega aos cinemas portugueses, tem também vida de cinema. E chega numa altura em que pode inspirar manifestos de artistas quanto às políticas culturais deste país. Porque esta mulher-disfarce chamada Cate Blanchett inspira. Só é pena a exposição, que viajou por toda a Europa, nunca ter chegado a Portugal...

Rui Pedro Tendinha

Sufjan no cinema

Bem curiosa esta coincidência da canção de Sufjan Stevens, Tonya Harding, surgir numa altura em que o filme I, Tonya, de Craig Gillespie, está na rota da temporada dos prémios. Coincidência ainda maior quando o músico assina também um punhado de canções de beleza lancinante para Chama-me pelo Teu Nome, de Luca Guadagnino. A coincidência só não volta a acontecer na qualidade dos filmes. O filme do italiano é uma obra-prima de todo o tamanho, um dos grandes momentos do próximo ano cinematográfico, aconteça o que acontecer, enquanto I, Tonya é uma "chico-espertice" em forma de biografia sobre a patinadora artística white trash, uma espécie de conto sobre uma América ruinosa dos anos 1990 empolada por uma glorificação do kitsch. Vi o filme no Festival de Toronto e percebi de assentada que a estética de caricatura que tenta ser "engraçadinha" podia levar o filme para aquele ponto do hype infundado.

Opinião

Cannes, Estoril, Cannes

Estive com David Lynch três vezes em circunstâncias mais ou menos surreais. Com Lynch, a palavra surreal é uma adenda redundante. A primeira vez foi numa entrevista em 2001 no Hotel Carlton de Cannes, durante o festival, por alturas do lançamento de Mulholland Drive. Uma conversa fascinante toda ela em moldes de enigmas e advinhas. O cinema não se explica, não se cansava ele de dizer. O mistério é feito por nós. E Lynch, sempre com um sorriso gentil, divertia-se com a perplexidade de alguma imprensa do festival (mal imaginavam certos críticos que, uns anos depois, o seu cinema iria desembocar no experimentalismo radical de Inland Empire). Impossível não reparar na forma como o génio se expressava, jogando muito com as mãos, com os dedos... Há 11 anos, o segundo encontro, quando fui convidado para moderar com Paulo Branco uma conversa em forma de masterclass no primeiro Estoril Film Festival (agora Lisbon & Sintra Film Festival), no Centro de Congressos do Estoril. Uma palestra onde se percebia o culto imenso dos portugueses pelo criador de Twin Peaks. A sala estava a abarrotar e a química com o público era total. Lembro-me perfeitamente que nessa altura estava apenas interessado em falar e promover os prazeres da meditação transcendental. Lynch apostou na conversa mística, mas esteve sempre divertido e a pedir cafés. A sua presença em Portugal não chegou às 24 horas e durante todo esse tempo nunca comeu, apenas quis fumar e recorrer à cafeína, tendo ainda tempo para uma cerimónia musical com meditação num ermo no Estoril. Por fim, neste domingo, no jantar do encerramento do Festival de Cannes voltei a cruzar-me com ele. Voltei a perceber que tem uma aura. E o seu mistério traz simpatia, não sendo por acaso que depois de Will Smith era a celebridade mais solicitada para selfies. Lynch também sabe ser pop star.

Opinião

Ainda há filmes escondidos

Estranhas semanas estas no mercado de estreias em Portugal. Na semana passada, dois filmes relevantes estrearam de forma invisível: The Idol - A Força de Acreditar, de Hany-Abu Assad e Out of the Furnace - Para além das Cinzas, de Stuart Cooper. Além de relevantes, são ótimas obras que mereciam ter espectadores, coisa que mal tiveram (o filme de Cooper ainda atraiu no fim de semana em duas salas cerca de 200 espectadores, enquanto o de Assad nem uma centena de espectadores conseguiu). O primeiro trata-se de um trabalho de um realizador da Palestina que por cá já teve público e furor crítico com obras como Paradise Now - O Paraíso, Agora! (2005) e Omar (2013). Esteve no Festival de Toronto e conta a história verdadeira de um reality show que mexeu com o orgulho da Palestina no Médio Oriente. Tinha tudo para poder ser um pequeno sucesso de estima se tivesse sido mostrado à crítica ou tido um investimento mínimo na promoção.Não se percebe também como Para além das Cinzas, com atores oscarizados como Christian Bale, Casey Affleck, Woody Harrelson e Zoe Saldana não tenha estreado antes (data de 2013). Possivelmente é um dos grandes thrillers do cinema americano dos últimos anos e só chega agora por razões de contrato, sobretudo para alavancar o seu breve lançamento em VOD. Mas é pena não terem mostrado à crítica, não era preciso ser tão boicotado...Tudo isto quando agora chega Velocidade Furiosa 8 sem ser mostrado à imprensa. A Universal sabe que tem aqui um dos maiores sucessos de bilheteira deste ano e dispensa o julgamento dos críticos. Obviamente, ninguém vai deixar de ver o filme por uma bola negra de um crítico mas faz impressão nos dias de hoje ainda haver este medo (ou desprezo) pela imprensa. Além do mais, o 7 chegou a ter defensores entre a crítica...

Rui Pedro Tendinha

King Kong girls

Devo começar por confessar a admiração profunda que tenho por Brie Larson, a atriz que o ano passado venceu o Óscar. A sua interpretação em Quarto, de Lenny Abrahamson, era qualquer coisa do registo histórico, um surto de fúria e amor numa das mais inesquecíveis personificações de maternidade. Já antes, em Temporário 12, de Destin Daniel Cretton e nos breves momentos em que surge na comédia de Judd Apatow, Descarrilada, era também de uma intensidade fora do normal em Hollywood. Serve isto para dizer que neste Kong - Ilha da Caveira, o primeiro filme depois da consagração universal, é difícil ver nela o que quer seja para além de uma figura bela e cinegénica. O filme não lhe pede nada e ela não dá nada, nem mesmo a dignidade da "dama que grita". E a proposta era icónica: ser a loura que chama a atenção ao gorila gigante... com direito até ao momento de ficar na mão dele. Mas por falta de química ou por desleixo do argumento, insisto, não reparamos em Brie. É a tal coisa do porte monumental destas grandes produções, ficamos antes a olhar para os efeitos.