Rui Frias

Rui Frias

O meu Tarrafal

Ele não sabia muito bem identificar o momento em que se apercebeu do sítio onde vivia. Não falo do espaço físico da habitação ou da comunidade envolvente. Ele sabia que vivia num bairro, o seu bairro... Era uma criança feliz no seu mundo, fosse este uma artéria chique da Foz ou um bairro de lata de Nairobi. Who cares? O estigma veio depois, fora dali, quando o bairro passou a ser motivo de olhares desconfiados. Na escola, nas relações sociais, num mero táxi que se apanha até casa. Morada? Bairro São João... A meio da resposta já se notava o silêncio desconfortável, um olhar de esguelha, uma retração corporal. "Já acabei o serviço", desculpava-se tantas vezes o taxista. O mundo feliz da infância era um dos piores guetos da cidade. "Supermercado de droga a céu aberto", ouvia-se a toda a hora. A realidade era da cor da morte que todos os dias visitava o Vale dos Leprosos, a zona do bairro por onde ele dantes se aventurava até à loja dos gelados. O estigma afetou-o como a tantos dos seus amigos. Os que não sucumbiram no vale, pelo menos. Mesmo que, por vezes, o bairro também desse jeito. Se o Tarrafal era o sítio para onde o regime mandava os mais indesejados, imaginem o porquê da alcunha. Impunha respeito perante rufias. Ele partiu. E o bairro, como o conhecera, entretanto foi abaixo. Vinte anos depois, numa livraria, uma capa chama-lhe a atenção. São João de Deus é o livro que conta (e mostra, sobretudo, com fotografia de André Cepeda) a história de um bairro agora apontado como exemplo de requalificação, um lugar intervencionado primeiro à força de bulldozers (como bandeira eleitoral de um ex-autarca) e agora com o traço do arquiteto Nuno Brandão Costa, inspirado no movimento SAAL pós-25 de Abril. "Precisamos menos de política de habitação social e mais de política social de habitação. A habitação social não pode ser um estigma", lê. E fica a pensar: "Era mais disto, por favor." Aquele ele era eu e a morada Bairro São João de Deus, Bloco 8, Entrada 84, Casa 42.

Rui Frias

O óbvio ululante do meio-campo português

Caro engenheiro, deixe-me falar-lhe um pouco sobre Nelson Rodrigues, esse brasileiro a quem cabe a paternidade das boas crónicas sobre futebol. Na verdade, as crónicas de futebol já existiam antes, mas aquelas que valem mesmo a pena ler nasceram com ele, um apaixonado fluminense que esteve para a idade do ouro do futebol brasileiro mais ou menos como Camões para os nossos Descobrimentos. As crónicas de Nelson Rodrigues, como ainda há poucos dias explicava aqui no DN o seu biógrafo, Ruy Castro, não eram propriamente marcadas pela objetividade. Ele, aliás, nem sequer via bem o que se passava no relvado, sofria de uma forte miopia. Mas tinha uma invulgar capacidade de análise que lhe permitia descrever com estilo e humor refinado aquilo que a maioria dos outros não enxergava mesmo vendo bem o relvado.

Rui Frias

RUI FRIAS - Tiago, o Lucho de Meireles

Portugal não será nunca a selecção de Raul Meireles, como os prémios de melhor jogador em campo da FIFA aí estão para demonstrar. Percebe-se. A figura de Cristiano Ronaldo é demasiado grande para que alguém lhe possa fazer sombra na equipa nacional. Como o foi Pelé no Brasil de 58 a 70, Maradona na Argentina de 86, Cruyff na Holanda de 74 ou Eusébio no Portugal de 66. Esta não é, portanto, a equipa de Raul Meireles. Como o Brasil não foi de Vavá ou Garrincha, a Argentina não foi de Burruchaga ou Passarela, a Holanda não foi de Krol ou Neeskens e Portugal em 66 não foi de Coluna ou Simões. Mas Raul Meireles pode muito bem ser, como descrevia de forma feliz o jornal espanhol As após os 7-0 à Coreia do Norte, o "anjo-da-guarda" desta selecção.