Rosália Amorim

Rosália Amorim

Manifestação cívica

A eleição para um segundo mandato presidencial gera tradicionalmente elevado nível de abstenção, mas a taxa de abstenção foi abaixo dos 70% que se temia uns dias antes da data das eleições. No contexto de pandemia e de confinamento, em especial do aumento do número de mortes e de infetados nas últimas semanas, a maior participação dos cidadãos pode ser interpretada como um ato de coragem ao votar no pico da pandemia e uma manifestação de crença na democracia, sobretudo quando vários candidatos alertaram, na ponta final da campanha, para os riscos da abstenção elevada e do fantasma do populismo.

Rosália Amorim

Trapézio com rede?

O anúncio das medidas públicas de apoio para enfrentar o novo confinamento, que decorreu ao final da tarde de ontem, começou pela cultura, um dos setores que serão mais fustigados a partir de hoje. Este é o primeiro dia em que o país volta a fechar, tal como sucedeu em março e abril. O cinema, os produtores, promotores, agentes e profissionais individuais, os teatros, as associações e outros agentes culturais não foram esquecidos neste estado de emergência. Desta vez, o governo promete mais e mais rápido. Veremos se assim é. Da última vez que os portugueses - trabalhadores e empresários - passaram por uma situação destas, não só os apoios chegaram às pinguinhas (e foram sendo reforçados a cada semana, a cada mês) como a burocracia conseguiu criar um novelo difícil de desatar e que asfixiou muitas das medidas, às quais vários empresários nunca conseguiram aceder.

Rosália Amorim

Regresso do lay-off antecipa confinamento

Antecipar o que aí vem. É esta a leitura que se faz do anúncio proferido ontem, ao final da tarde, no qual o governo admitiu "um possível fecho da restauração e do comércio não alimentar" num período "contido". No final da reunião de concertação social, coube ao ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital, Pedro Siza Vieira, anunciar as restrições e apelar à máxima redução de contactos para prevenir os contágios. Um apelo feito a todo o país, de norte a sul. O ministro prevê "ter um período contido [de fecho] para travar o ritmo de crescimento das infeções e internamentos com o novo coronavírus" e antecipa uma situação semelhante à de abril, com o regresso ao lay-off simplificado e com os apoios a fundo perdido reforçados. Medidas que serão fundamentais para que o tecido económico não volte a ficar ligado ao ventilador 24 horas por dia.

Opinião

Duas ou três eleições em 2021?

Os debates para as eleições presidenciais arrancaram na última noite. Marcelo Rebelo de Sousa debateu com Marisa Matias, e outros duelos se seguirão. Independentemente dos candidatos e da expectativa dos cidadãos do que deveria mudar no país, é preciso ter consciência dos poderes presidenciais e saber quais são, de facto, as competências e a função de um presidente num sistema semipresidencialista, que é o nosso, em que o poder executivo está entregue ao governo e a Assembleia da República tem um papel fulcral na definição das políticas públicas. A expectativa é alta, mas a Constituição limita a função, pelo que a magistratura de influência deve ser ampla e sabiamente exercida.

Rosália Amorim

Mau exemplo na TAP para fechar 2020

O ano de 2020 está quase a acabar, mas não deixa de nos surpreender. Pela positiva, com o regresso às bancas todos os dias do Diário de Notícias em papel, cujo primeiro número saiu ontem e que assinalou também os 156 anos deste título de comunicação social, e de que voltarei a falar mais adiante. Pela negativa, com as notícias que nos chegam da TAP e que não passaram despercebidas aos portugueses, incendiando nas últimas horas as redes sociais e criando uma onda de contestação, com fundamento. Administradores da TAP foram aumentados ao longo dos últimos meses, entre eles o CEO interino, Ramiro Sequeira, o qual, segundo as informações tornadas públicas (ainda não confirmadas), beneficia de um aumento superior a 100%, auferindo cerca de 500 mil euros por ano.

Rosália Amorim

Remodelação antes do Ano Novo ou das autárquicas?

O primeiro-ministro tem estado focado no recente Conselho Europeu - essencial no desbloqueio do pacote financeiro para a recuperação económica de Portugal e de todos os países da União perante a pandemia de 2020 - e na preparação da exigente presidência portuguesa da UE, no primeiro semestre de 2021. Mas António Costa, político experiente, sabe que não pode descurar a governação do país num contexto muito difícil, o que implica garantir a coesão da sua equipa no executivo, além de tentar prevenir ou conter a previsível explosão social decorrente da crise económica e do nível de desemprego - que deverão acentuar-se ainda mais nos próximos meses.

Rosália Amorim

Redescobrir os portugueses: tributo a Eduardo Lourenço em tempos de pandemia

Que o português médio conhece mal a sua terra - inclusive aquela que habita e tem por sua em sentido próprio - é um facto que releva de um mais genérico comportamento nacional, o de viver mais a sua existência do que compreendê-la (...) Chegou o tempo de nos vermos tais como somos, o tempo de uma nacional redescoberta das nossas verdadeiras riquezas, potencialidades, carências, condição indispensável para que algum dia possamos conviver connosco mesmos com o mínimo de naturalidade", escreveu Eduardo Lourenço que considera que "os portugueses vivem em permanente representação", na obra O Labirinto da Saudade e no capítulo "Repensar Portugal", num texto publicado em março de 1978.

Rosália Amorim

Não haverá segunda oportunidade

O Orçamento do Estado deverá ser entregue na Assembleia da República na próxima segunda-feira. Empresas e famílias estão ávidas de informação acerca do que aí vem em termos de ajudas de Estado, para combater a crise, e em termos de fiscalidade. As preocupações são infindáveis. O turismo não recuperou o que precisava durante o verão, as indústrias pedem mais exportações (cairam 1,4% em agosto comparando com igual mês do ano passado, em julho a quebra homóloga tinha sido de 7,1%, segundo o Instituto Nacional de Estatística), as startups falam de congelamento dos investidores, as famílias sofreram cortes de rendimentos por efeito do lay-off e temem o desemprego a curto prazo. Outubro será o mês negro para muitas famílias, que poderão sofrer com despedimentos coletivos que se anteveem para esta altura. É urgente que os apoios à manutenção do emprego se efetivem no terreno, que saiam das gavetas dos decisores diretamente para as fábricas, serviços e outras áreas de atividade que foram altamente impactadas pela pandemia de covid-19. O ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital disse aqui, na semana passada, que este será um Orçamento contracíclico e expansionista. Os portugueses querem saber como e em que dimensão. E pedem três (entre muitas) coisas: que os setores e os players apoiados não sejam sempre os mesmos, que a transparência impere e que, de uma vez por todas, os ministérios atuem em rede e não em quintinhas, em prol de um país melhor. Os portugueses querem saber também de que forma as bandeiras nacionais e europeias da digitalização, da descarbonização e da mobilidade podem fazer a diferença nas suas vidas, criar empregos, melhorar a produtividade, aumentar a competitividade das empresas e do país e reter os jovens mais talentosos em território nacional. Além de um Orçamento expansionista, em 2021 chegarão também os fundos europeus para a recuperação económica. A forma como serão definidas as prioridades de investimento requer um sentido de Estado e de serviço público ímpar. Não haverá segunda oportunidade para injetar dinheiro fresco na economia. Não haverá segunda oportunidade para modernizar e transpor as empresas para a era 4.0. Não haverá segunda oportunidade para recapacitar a população de forma que tenha empregabilidade no futuro. Não haverá segunda oportunidade para receber mais de 13 mil milhões de euros de uma assentada, com guidelines bem definidas. É preciso ter também presente que Portugal não será o único e aproveitar este balão de oxigénio dentro da União Europeia. A alocação prevista por Bruxelas atribui 560 mil milhões de euros aos 27 países, com mais 185 mil milhões a distribuir pelos fundos comunitários. A concorrência é grande e não podemos dormir na forma. Jornalista

Rosália Amorim

Trump e 'Masquerade', do 'Fantasma da Ópera'

Medo de ver a realidade em seu redor. Talvez tenha sido este sentimento que fez que Donald Trump tenha desdenhado o vírus que veio da China e que nos obrigou a confinar. Trump, de peito feito, negou o vírus, tal como Bolsonaro, e incentivou aos mais disparatados tratamentos anticovid. Trump será um homem com medo? Medo do vírus, medo de umas eleições que teme perder para Joe Biden, apesar de apregoar o contrário e de forma intimidatória, esquecendo-se de que os Estados Unidos são os Estados Unidos e não uma qualquer Rússia, Turquia ou Coreia do Norte. Trump não é um homem corajoso. Trump é um louco medroso. Estará agora no colo de Melania arrependido dos disparates que disse, desde que começou a pandemia? Trump ignorou a ciência, a saúde, os médicos e especialistas, gozou com as máscaras - tal como outros políticos o fizeram em Portugal, e, a esse propósito, vale a pena recordar o socialista e presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, quando chamou "mascarados" aos que teriam a intenção de prevenir-se de um eventual contágio no Parlamento. Mascarados. Cada um tem um a sua máscara. A da política, a das artes, a do desporto, a da economia, a das sociedades secretas ou a da comunicação social. Mas as máscaras não podem esconder a verdade nem o conhecimento. As máscaras podem fazer sobressair a inteligência, a prudência, a coragem, a ausência de preconceitos e a total disponibilidade para a democracia e a liberdade. "Esconda o rosto para que o mundo nunca o encontre", como canta o Fantasma da Ópera, é receita que não resultará nesta pandemia. "Olhe em volta, há outra máscara atrás de si." A letra de Andrew Lloyd Webber é brilhante. Desmascara mascarados. "Corra e esconda-se, mas um rosto ainda irá persegui-lo!"