Rosália Amorim

Rosália Amorim

Pandemia. "Desconseguimos"?

A primeira vez que ouvi a palavra "desconseguimos" foi em Maputo. Estava em reportagem em Moçambique, para um outro jornal, quando enriqueci o meu léxico com mais esta expressão africana. Na prática, quer dizer "não fizemos", "ainda não está pronto", "ainda não está feito". "Desconseguimos" é o que parece ter acontecido em Portugal, quando analisamos a luta contra a covid-19 e o número crescente de infetados e de mortos. A semana que passou ficou marcada por "desconseguimentos". Ficou marcada pela apresentação do Orçamento do Estado, "expansionista", como diz o governo, mas cuja aprovação no Parlamento, com o apoio da esquerda, ainda é uma miragem e não recolhe críticas favoráveis dos parceiros sociais. Outro dia importante foi o da entrega do plano de recuperação económica pelo governo em Bruxelas, uma reunião da qual a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, saiu a correr por ter ficado a saber que um membro da sua equipa deu positivo no teste à covid-19, obrigando assim a líder a fazer, de novo, confinamento... A declaração do estado de calamidade para todo o país, com a apresentação de oito medidas de contenção, também marcou os dias e gerou polémica. À cabeça vem a intenção de o governo submeter ao Parlamento a aprovação da app StayAway Covid como obrigatória, o que levanta dúvidas aos partidos e constitucionalistas.O governo sugere também o uso obrigatório de máscara na rua, desagradando a muitos que preferem defender o modelo sueco - mesmo sem saber o que isso poderia custar em vidas dos nossos pais e avós ou dos nossos irmãos e filhos. No mesmo dia em que conhecemos as novas medidas de contenção da pandemia, o bastonário da Ordem dos Médicos alertou para a necessidade urgente de articulação entre o setor público e privado.Também ouvimos dois alertas graves, de dois dos mais importantes hospitais do país: o São João, do Porto, cancelou as cirurgias para dar prioridade à covid-19, sinalizando que começa a ficar à beira da rutura; e o Curry Cabral, em Lisboa, avisou que já tem tantos casos de covid-19 como teve no pico e que "a situação está a tornar-se insustentável e não é por virem mais recursos humanos que se resolverá, se não for travada na sua origem", disse o diretor da unidade. Lá fora, o impacto externo deste "desconseguimento" atingiu o pico com o caso de Cristiano Ronaldo, que testou positivo. Além disso, não param de aumentar os casos entre alunos estrangeiros de Erasmus a estudar em universidades portuguesas. Os autoritarismos devem ser repudiados, sempre, e a liberdade individual, direitos e garantias defendidas, sempre. Mas não estará na altura de nos focarmos no essencial e perceber que o coletivo pode ter de sobrepor-se ao individual, para bem da saúde e vida de todos? Ou vamos continuar a brincar com o fogo e a não usar mascara? E façam um favor ao planeta: usem máscaras de tecido recicláveis e ainda ajudam a salvar empregos na indústria têxtil nacional.

Rosália Amorim

Não haverá segunda oportunidade

O Orçamento do Estado deverá ser entregue na Assembleia da República na próxima segunda-feira. Empresas e famílias estão ávidas de informação acerca do que aí vem em termos de ajudas de Estado, para combater a crise, e em termos de fiscalidade. As preocupações são infindáveis. O turismo não recuperou o que precisava durante o verão, as indústrias pedem mais exportações (cairam 1,4% em agosto comparando com igual mês do ano passado, em julho a quebra homóloga tinha sido de 7,1%, segundo o Instituto Nacional de Estatística), as startups falam de congelamento dos investidores, as famílias sofreram cortes de rendimentos por efeito do lay-off e temem o desemprego a curto prazo. Outubro será o mês negro para muitas famílias, que poderão sofrer com despedimentos coletivos que se anteveem para esta altura. É urgente que os apoios à manutenção do emprego se efetivem no terreno, que saiam das gavetas dos decisores diretamente para as fábricas, serviços e outras áreas de atividade que foram altamente impactadas pela pandemia de covid-19. O ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital disse aqui, na semana passada, que este será um Orçamento contracíclico e expansionista. Os portugueses querem saber como e em que dimensão. E pedem três (entre muitas) coisas: que os setores e os players apoiados não sejam sempre os mesmos, que a transparência impere e que, de uma vez por todas, os ministérios atuem em rede e não em quintinhas, em prol de um país melhor. Os portugueses querem saber também de que forma as bandeiras nacionais e europeias da digitalização, da descarbonização e da mobilidade podem fazer a diferença nas suas vidas, criar empregos, melhorar a produtividade, aumentar a competitividade das empresas e do país e reter os jovens mais talentosos em território nacional. Além de um Orçamento expansionista, em 2021 chegarão também os fundos europeus para a recuperação económica. A forma como serão definidas as prioridades de investimento requer um sentido de Estado e de serviço público ímpar. Não haverá segunda oportunidade para injetar dinheiro fresco na economia. Não haverá segunda oportunidade para modernizar e transpor as empresas para a era 4.0. Não haverá segunda oportunidade para recapacitar a população de forma que tenha empregabilidade no futuro. Não haverá segunda oportunidade para receber mais de 13 mil milhões de euros de uma assentada, com guidelines bem definidas. É preciso ter também presente que Portugal não será o único e aproveitar este balão de oxigénio dentro da União Europeia. A alocação prevista por Bruxelas atribui 560 mil milhões de euros aos 27 países, com mais 185 mil milhões a distribuir pelos fundos comunitários. A concorrência é grande e não podemos dormir na forma. Jornalista

Rosália Amorim

Liderança pelo exemplo

Não querendo parecer injusta ou insensível à dificuldade que tem sido, para todos, gerir a pandemia, mais de seis meses depois do confinamento parece-me um pouco tardio anunciar agora novas medidas para o outono-inverno. Anunciar medidas só agora, e com aplicação só a partir de dia 15, é não ter reparado que muitas universidades privadas e colégios já começaram o ano letivo há dias e que muitas empresas estão a trabalhar em pleno. Já há milhares de operários, professores e alunos nas ruas e nos transportes públicos e para quem as regras do plano de contingência chegam com atraso. A consciência cívica e a liderança pelo exemplo ganham maior relevância perante o momento que vivemos. Liderar pelo exemplo exige planear bem e atempadamente, dar o corpo às balas com consciência, prevenir e atuar no calendário certo e motivar os outros a seguir o líder. Aos políticos e governantes pede-se liderança pelo exemplo. Vários setores da sociedade, e da economia em particular, têm dado o exemplo, atuando antes de todas as instituições públicas, planeando, aplicando planos de contingência, produzindo materiais de proteção individual, como tem sido o caso da indústria têxtil e não só. Os portugueses estão preocupados. Factos: há mais 687 infetados e três mortos, segundo dados de ontem, 11 de setembro. Entre as medidas de contingência para o pós-15 de setembro não consta, estranhamente, o uso obrigatório de máscara na rua. A prática tornou-se obrigatória noutras capitais europeias. Se a medida já tivesse sido tomada, talvez pesasse na decisão de os ingleses nos levarem mais a sério. Mas não. Em vez disso, preferiram colocar Portugal, de novo, na lista negra dos países cujo corredor aéreo passa a ter um sinal vermelho. Na prática, Londres volta a considerar Portugal continental um destino não seguro. E, claro, o Algarve é das regiões mais afetadas, com um impacto financeiro significativo. Setembro foi o mês em que mais britânicos visitaram Portugal em 2019. Foram mais de 262 mil, muitos dos quais dormiram no Algarve. O turismo não esperava repetir propriamente este número, mas contava com estes viajantes para atenuar alguns dos efeitos da pandemia nas contas, afinal este seria o mês em que os golfistas começariam a chegar em força, salvando uma parte do negro verão de 2020. Assim, a desilusão foi grande. O país não conseguiu salvaguardar a posição do Algarve, tendo a região ficado praticamente fora da pandemia desde o início em março. O Algarve sai altamente penalizado, mas os números totais das exportações portuguesas também. Só os Açores e Madeira ficaram de fora desta penalização. Portugal tem de dar sinais fortes e visíveis de prevenção. O uso obrigatório de máscara na rua poderia ajudar. Quando à pandemia se juntarem sintomas de constipações e gripes, aí vai ser um "ai Jesus!" Prevenir é sempre o melhor remédio, como todos já sabemos. Sempre ouvi um amigo médico dizer: "Não se atua na doença, mas na saúde." Jornalista

Rosália Amorim

Menos silêncio, mais transparência

Acabou-se a era em que o silêncio valia ouro. Agora chegou o tempo de quebrar o silêncio e sabermos, todos, o que se passou no Banco Espírito Santo (BES), de fio a pavio. Julgávamos nós, os portugueses, que também o Ministério das Finanças tinha pressa em conhecer todo o relatório sobre o BES. Mas, afinal, não é bem assim. O ministro, que já não é ministro, mudou de ideias quando mudou de camisola. Depois de pregar contenção no Eurogrupo e pedir compreensão nas Finanças, Mário Centeno parece ter-se habituado a mudar o discurso conforme a cadeira que ocupa. Enquanto ministro das Finanças deste governo, pasta que exerceu até há cerca de dois meses, exigia saber o que se passava no Novo Banco e esperava ansiosamente que a auditoria fosse conhecida pelo governo. Agora que assumiu a liderança do Banco de Portugal recusa-se a revelar o relatório a quem quer que seja, exceto por ordem judicial. "O Banco de Portugal [BdP] aguarda decisão judicial que aprecie e decida acerca da eventual quebra do dever legal de segredo", refere o supervisor numa nota oficial enviada ao Dinheiro Vivo, do mesmo grupo do Diário de Notícias. A ser decidida essa quebra do dever legal de segredo, o BdP colaborará, de imediato, com o tribunal, ficando, nos exatos termos dessa decisão judicial, autorizado a disponibilizar, desde logo, esse documento ao tribunal", indica a mesma nota, não apontando que o mesmo poderá então seguir para o Parlamento como quer o Bloco de Esquerda (BE).

Rosália Amorim

Desconfinar com festivais e touros, mas sem bola?

Itália, Espanha e outros países europeus começam a ficar, de novo, muito preocupados com o nível de contágio por covid-19. À medida que as populações desconfinam, empurradas pelo calor do verão e pela necessidade psicológica de voltar a ter uma vida (quase) normal, o coronavírus ressurge com novas forças. Há já quem apelide situação de segunda vaga da pandemia. Em Portugal, a situação regista uma melhoria contínua, mas o perigo não desapareceu. À medida que o verão aquece, os ajuntamentos de jovens aumentam e agosto é um mês decisivo para perceber como evoluiu a crise sanitária, ao mesmo tempo que muitos portugueses querem ir para a rua, para as praças, esplanadas ou praias. Agosto é também o mês dos emigrantes e basta circular nas estradas nacionais e ir à praia, de mar ou de rio, para perceber que muitos já chegaram para matar saudades dos seus familiares e, como é habitual, trouxeram a família para passear na terra natal. O importante é que as férias não se transformem num pesadelo para muitos e para o SNS. A luta não acabou e continuar a dar o exemplo é meio caminho andado para conter a pandemia em Portugal. A economia precisa de ser desligada do ventilador para respirar, sozinha e saudável, mas não pode ser à força. Desligar muito antes do tempo certo tem fortes riscos para o doente. O verão é também sinónimo de festivais, um negócio que cresceu em Portugal nos últimos anos e que passou, inclusive, a atrair público internacional por mérito dos cartazes e das organizações exemplares. Nos últimos anos, os festivais de verão viraram uma espécie de catarse, para miúdos e graúdos, depois de um ano inteiro de trabalho. Mas há festivais e festivais. A Festa do Avante! é muito mais do que um festival de música, é um manifesto político do Partido Comunista Português. 
É um evento cuja edição de 2020 continua a ter a capacidade de levantar forte contestação. Porquê? Porque habitualmente junta cem mil pessoas e esse não parece ser um número prudente para um ajuntamento, seja ele de que cor partidária for. Neste ano, a organização ainda não revelou quantos bilhetes vão ser vendidos. Certo é que de dia 4 a 6 de setembro a festa vai acontecer e atrair muita gente, ou não fossem os Xutos & Pontapés cabeças-de-cartaz. Por muito que a organização garanta que os concertos vão ter lugares sentados e marcados, é muito difícil imaginar os portugueses a assistir a um concerto dos Xutos agarrados a uma cadeira, sem sair do sítio, sem saltar, sem cantar e com a máscara, sem emoções, abraços, gritos e mantendo o distanciamento. Os Xutos serão um desafio para o PCP e para o público. A cultura precisa de ser reanimada, mas sem exceções às regras. É por isso difícil de entender porque continuam os estádios de futebol vazios. Se os portugueses aguentam uma tourada ou um concerto dos Xutos & Pontapés sem sair da cadeira e sem infringir as regras, não aguentarão assistir a um jogo?

Rosália Amorim

Portugal 20-30. Habituem-se à nova sigla VEPRESP!

A preparação para a retoma tem de começar agora a desenhar-se. É importante dar esperança aos agentes económicos que estão, ainda e na sua maioria, ligados ao ventilador. Tal como os laboratórios das farmacêuticas vão trabalhando arduamente na preparação e descoberta da vacina, também os economistas, os gestores e o Governo (e, de preferência, envolvendo a oposição) devem preparar, no laboratório, os ingredientes certos para combater a recessão e lançar as bases para a retoma económica.

Rosália Amorim

Desconfinar, sim, mas com colete salva-vidas

Em Espanha, as mesas das esplanadas encheram-se de cidadãos para, logo após o desconfinamento e a abertura de bares e restaurantes, serem bebidas as primeiras cervejas e comidas as primeiras tapas (presunto, queijo, batatas bravas e pão com tomate). Iremos ver o mesmo, com menu lusitano, já nesta segunda-feira, nas esplanadas portuguesas? Seria um bom sinal para ajudar a ressuscitar a economia, mas julgo que os portugueses serão mais prudentes do que foram os espanhóis: sairão à rua desconfinados, mas cautelosos, atentos à evolução do número de novos contágios e de mortes por covid-19. Epifenómenos com os da Azambuja e do Montijo acordaram, de novo, fortes preocupações.

Opinião

Incertezas e contorcionismo

A nota de conjuntura do Fórum para a Competitividade relativa ao terceiro trimestre inquietou vários economistas ontem, ao ser divulgada. A economia portuguesa manteve um crescimento homólogo de 1,9%, mas com uma desaceleração trimestral de 0,6% para 0,3%. Mais, a qualidade do perfil de crescimento mostra deterioração, no mesmo período, com a aceleração do consumo privado, de 2% para 2,3%, e desaceleração do investimento de 10,5% para 8,8%. São demasiadas desacelerações juntas.