Rogério Casanova

Crónica de Televisão

O museu dos enredos obsoletos

"O céu sobre o porto tinha a cor da televisão, sintonizada num canal fora do ar." Foi assim que William Gibson começou o seu primeiro romance, Neuromancer. Pode não ser presença consensual no cortejo das grandes "primeiras frases" - os "Chamem-me Ishmael", os "Todas as famílias felizes...", os "É uma verdade universalmente reconhecida...", etc. -, mas será pelo menos o começo mais reconhecível dentro do género a que chamamos ficção científica. Dependendo da idade de quem lê, será também a evocação nostálgica de uma relíquia cultural desaparecida - o ruído branco que se seguia à mira técnica após o fecho de emissão - ou então um profundo mistério para quem cresceu, primeiro, com as emissões contínuas e, mais tarde, com a programação ad hoc e multiplataforma em que hoje consiste o acto de "ver televisão". A ideia de um canal fora do ar mais facilmente conjura uma mensagem de erro no ecrã de um periférico ou o fundo negro resultante de um cabo desligado.

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Rogério Casanova

Super-heróis vs. gangsters, vol. 2

Isto aconteceu no início de Outubro: um realizador de cinema com mais de 70 anos explicou durante uma entrevista que não considerava os filmes de super-heróis "cinema", mas antes algo mais parecido com "um parque de diversões". Não é novo e já aconteceu antes. O que não costumava acontecer é que, ao longo das semanas seguintes, todos os realizadores de cinema com mais de 70 anos receberam telefonemas a recolher depoimentos sobre o assunto. O que também não acontecia era a possibilidade de, se passarmos tempo suficiente online e carregarmos em todos os botões certos, sabermos o que pensam sobre isto duzentas pessoas diferentes e obrigarmos outras cinquenta a saber o que nós pensamos.

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Rogério Casanova

O cão que mordeu o mundo

Não chega sequer a ser um segredo mal guardado que, numa democracia funcional, muitas das interacções públicas entre líderes políticos e a imprensa têm uma forte componente de encenação teatral. Esta descoberta (ainda com uma capacidade para proporcionar um choque efémero na adolescência) acaba sempre por se tornar reconfortante: o reconforto de saber que existe um guião, de saber que esse guião é conhecido por ambas as partes, de saber que existe um investimento consensual em respeitar alguns formalismos e de saber que há coisas piores do que repetição e previsibilidade. Portanto, as câmaras rolam e os microfones são erguidos, e um enxame de jornalistas grita perguntas como "o que é que acha?", ou "quer comentar?", ou "qual é a sua posição?", e um líder político imaculadamente penteado diz algumas coisas em resposta. Nem sempre há uma relação directa entre as respostas e as perguntas. Por vezes, o político diz as coisas que quer dizer (mesmo que seja apenas para não dizer outras); e, por vezes, o político diz coisas que não queria dizer, e essas coisas constituem uma gafe, e escrevem-se notícias com a palavra "gafe", mas depois tudo volta ao normal, ou então não volta, e o político que disse coisas é substituído por outro político, que vem dizer outras coisas, ou as mesmas coisas de outra maneira.