Rogério Casanova

Rogério Casanova

Joker. O maluco do riso

A desonesta informação oficial indica que o filme tem a duração de 122 minutos, mas a verdade é que Joker começou a 31 de Agosto e ainda não acabou. Uma das coisas que continua a fazer é manchetes, mesmo que muitas dessas manchetes se limitem a noticiar as manchetes que fez antes, ou a sugerir hipóteses especulativas para manchetes futuras. Poderá Joker revolucionar o filme de super-heróis? Poderá provocar massacres? Poderá bater recordes nos Óscares? Poderá curar a acne? É o que acontece aos fenómenos: cada recapitulação aumenta a densidade e reforça a sua condição de fenómeno, mesmo que nada seja acrescentado.

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Rogério Casanova

Esplendores e misérias da enfermagem

Nazaré, a telenovela da SIC que se estreou há duas semanas, começou com um incêndio. Virgílio Castelo, o taciturno dono de uma empresa, está atado a um poste enquanto o seu irmão, o taciturno pretendente a ser dono da empresa, despeja baldes de gasolina à sua volta. "Qual é a tua ideia? Tu... tu vais matar-me?" A resposta é afirmativa e o incidente marca várias personagens, muitas das quais ainda tentam lidar com o rescaldo. Uma delas, Gonçalo, sobreviveu à calamidade, mas o trauma condenou-o a sofrer ataques de pânico sempre que uma chama (literal ou metafórica) deflagra nas suas imediações. Felizmente faz parte de uma novela e quase ninguém fuma, mas isso não significa que o seu dia-a-dia esteja livre de perigos. Um dia, ao chegar a casa, encontra o filho na cozinha a incinerar leite-creme com um maçarico culinário, o que leva Gonçalo, naturalmente, a agredi-lo. "Queres queimar a casa inteira e matar-nos a todos?", reclama.

Rogério Casanova

A máquina da verdade

Num manifesto de 1999 sobre o documentário cinematográfico, Werner Herzog acusou o cinema vérité de superficialidade e de lidar apenas com a "a verdade dos contabilistas". Após citar um "conhecido representante" da doutrina, que afirmou publicamente que "a verdade pode ser facilmente encontrada pegando numa câmara e sendo honesto", Herzog responde que esse género de realismo é redutor, pois "confunde os factos com a verdade", e defende uma abordagem imaginativa diferente, capaz de alcançar uma "verdade poética" mais profunda. Alguns parágrafos depois, acrescenta que "a Mãe Natureza não fala connosco, embora por vezes um glaciar possa peidar-se".

Crónica de Televisão

O fitoplâncton e a opinião designada

Como as epopeias clássicas, a cobertura televisiva de noites eleitorais começa in medias res: com a acção já a decorrer, mas antes do desenlace. Sabemos que haverá vencedores e perdedores, mas não sabemos quem são. Sabemos que a taxa de abstenção foi "preocupante", mas não sabemos quão preocupante. Acima de tudo, sabemos que ainda falta uma hora para aparecerem os números que sustentem as conclusões definitivas que vamos começar a ouvir daqui a cinco minutos.

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Rogério Casanova

O muro, o espelho, e um mundo sem presunto

No princípio da década de 90, quando a queda de uma parede na Alemanha lançou o mote para passar certificados de óbito a toda e qualquer abstracção, era comum encontrar nas páginas culturais artigos preocupados com o futuro das histórias de espionagem: o que aconteceria, perguntavam estas fukuyamices menores, aos enredos clássicos sobre agentes soviéticos, passaportes forjados, toupeiras, traições e postos de vigia em Berlim, agora que a Guerra Fria terminara? O The New York Times chegou ao ponto de falar com John le Carré, perguntando-lhe essencialmente o que é que tencionava fazer à sua vida. Le Carré foi-se safando, e a história de espionagem também, com um catálogo novo de brinquedos - multinacionais corruptas, traficantes de armas, terroristas islâmicos -, mas já na altura era óbvio que a história de espionagem especificamente ancorada na Guerra Fria também trataria de sobreviver ao fim da Guerra Fria. Não só porque a mitologia que estabelecera era demasiado apelativa, mas porque o intervalo temporal que permite a qualquer fenómeno ser reciclado pela nostalgia é cada vez mais curto.