Rogério Casanova

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Deixar a Britney em paz

2007 foi um ano especialmente produtivo no subgénero de fenómeno moderno conhecido nos tablóides de língua inglesa como celebrity meltdown. Como todas as categorias culturais inventadas, esta tem as suas regras e protocolos informais, os seus estatutos, o seu panteão, o seu bestiário de imagens representativas - e 2007 preenche muitos dos espaços no formulário: Amy Winehouse foi hospitalizada pela primeira vez; Paris Hilton e Kiefer Sutherland dormiram uns dias na prisão por conduzirem alcoolizados; Lindsay Lohan passou grande parte do ano a entrar e a sair de clínicas de reabilitação; Alec Baldwin insultou a filha de 11 anos num telefonema gravado; Pete Doherty foi expulso de casa por não pagar renda, e fotografado a intoxicar pinguins no jardim zoológico de Londres. Um ano atarefado, cujo mote fora dado em Fevereiro, quando Britney Spears invadiu um salão de cabeleireiro (numa cidade chamada Tarzana) e rapou o seu próprio cabelo enquanto câmaras a filmavam pela janela. Quando, dias depois, agrediu um paparazzo com um chapéu-de-chuva, o incidente pareceu quase um anticlímax.

Rogério Casanova

Hipercurtisação

A principal característica dos documentários de Adam Curtis é não se parecerem com os documentários de qualquer outra pessoa. São todos, no entanto, muito parecidos uns com os outros. Trabalhando com restrições de formatos e plataformas (Curtis é funcionário da BBC) que não são propriamente catalisadores de individualismo estético ou inovação formal, conseguiu consolidar um conjunto de idiossincrasias tão reconhecível que parodiá-lo se tornou um hábito recorrente na internet: há um youtube célebre (The Loving Trap) que sintetiza os seus maneirismos em três minutos devastadores; e sempre que estreia um documentário novo, volta a circular um cartão de bingo que convida os espectadores a identificar a inevitável reaparição de tiques linguísticos ("But one man thought differently..."), visuais ("imagens de arquivo de tropas soviéticas no Afeganistão") ou musicais ("faixa de Burial").

Rogério Casanova

O calvário gnóstico de Steven Seagal

O Natal chegou e partiu, devidamente pontuado por filmes de Steven Seagal. Talvez tenha sido acidental - uma coincidência de programação - ou talvez seja uma tentativa do universo para corrigir uma injustiça: a sua habitual exclusão do cânone tradicional da quadra festiva (Música no Coração, Fuga para a Vitória, Die Hard, etc.). Qualquer tradição suficientemente ampla para incluir os três exemplos anteriores tem de encontrar espaço para a obra de Seagal, um repositório de narrativas, temas e imagens com conotações religiosas muito mais contundentes do que qualquer obra concorrente - tanto nos aspectos ocultos como até nos mais superficiais (O Homem que Brilha, transmitido nesta semana pelo canal Hollywood, começa praticamente com o grande plano de um cadáver crucificado, a que se seguem dois close ups de uma coroa de espinhos e uma chaga trespassada por um prego).

Crónica de Televisão

Registo Notarial de Toupeiras

Tinker Tailor Soldier Spy, a série de 1979 que permanece a melhor adaptação de Le Carré e um dos melhores produtos da BBC, começa com quatro homens a entrar, à vez, numa sala de reuniões. Um deles fuma um cigarro, outro acende um cachimbo, um terceiro baloiça precariamente um pires em cima de uma chávena (para manter quente uma qualquer mistela). Todos se sentam à mesa. Dois deles abrem dossiês e folheiam papéis. O fumo adensa-se. Ninguém diz uma palavra durante dois minutos, e o silêncio - como em muitos momentos ao longo dos sete episódios - permite ao espectador apreciar o cenário.

Crónica de Televisão

O caixote de Ventura

Em Fevereiro de 2017, o então futuro deputado (e futuro candidato à Presidência da República) André Ventura pediu licença aos espectadores da CMTV, debruçou-se atrás da sua mesa e reapareceu segurando um enorme caixote de cartão. Não foi o primeiro nem o último adereço dramático (óculos escuros, chapéus, melões, etc.) que usou no programa Pé em Riste; foi apenas o maior. "Aqui dentro estão aqui 1416 notícias!", anunciou. Ventura fora acusado por pessoas de outro clube de se preocupar mais com esse clube do que com o seu; a sua intenção era demonstrar que pessoas do outro clube passavam ainda mais tempo a falar do seu clube do que ele sobre o clube delas.

Rogério Casanova

Antropocentrismo à lagareiro

Desde tempos imemoriais que membros da espécie humana adquirem um humilde e salutar sentido de perspectiva através da contemplação do mundo natural. Confrontados com esplendores diversos - o ciclo incessante das marés, a luminosidade dispersa do firmamento, as peregrinações em massa de aves migratórias -, a reacção adulta normal é pensar: "Quão insignificantes são todas estas coisas comparadas comigo!" E temos toda a razão. A galáxia mais espectacular é incapaz de escrever má poesia sobre si própria. A borboleta mais exuberante não consegue organizar fotografias suas em subpastas de "Os Meus Documentos". Quem inventou os vários significados da palavra "interessante" tem, por definição, muito mais interesse do que todas as coisas que lhe interessam. O resto da realidade tem imensa sorte em nos ter por perto, e nem sequer nos agradece (o agradecimento foi outra maravilhosa invenção nossa, tal como os pronomes pessoais e possessivos).

Exclusivo

Rogério Casanova

Estrategicamente apaixonado

Uma das longas-metragens mais curiosas do Verão - Sessão de Apresentação da Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030 - viu nesta semana a estreia oficial da sua sequela - Sessão de Balanço da Consulta Pública da Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030 - disponível em pelo menos uma popular plataforma de streaming (a conta da República Portuguesa no YouTube). A 14 de Outubro segue-se a terceira e última parte da trilogia, a Apresentação Pública do Plano de Recuperação, a estrear perante o prestigiado júri de cinéfilos da Comissão Europeia.

Rogério Casanova

Boa noite, boa sorte e boa malha

Apesar do Oscar que recebeu por The Social Network, apesar da recente subespecialização em escrever êxitos de bilheteira sobre "génios" visionários (Zuckerberg, Steve Jobs), apesar do legado de The West Wing - uma mão-cheia de Emmys e a criptoinfluência que exerceu sobre uma geração não apenas de argumentistas, mas também de políticos (americanos e não só) - a cena mais célebre que Aaron Sorkin escreveu continua a ser a cena central do seu primeiro filme, A Few Good Men. O nobre e feroz interrogador interpretado por Tom Cruise, infatigável na busca da Verdade, manipula Jack Nicholson até este explodir: "You can"t handle the truth!" A sugestão é que o pronome "you", que em inglês tanto pode ser singular como plural, não impugna apenas Tom Cruise, mas o resto da plateia: os que estão no tribunal, e os que estão a ver o filme. Nicholson pode ser o vilão nesse filme, mas a Verdade que enuncia é um suporte estrutural em todos os mundos que Sorkin criou: a ideia de que os bastidores de qualquer poder institucional escondem elementos desagradáveis, mas essenciais, e de que uma causa maior pode justificar atropelos menores. Frequentemente acusado de ser um "idealista" (especialmente durante os anos de The West Wing), Sorkin sempre adoptou e aprovou "-ismos" menos estanques: idealismo poético nas palavras, mas o suposto pragmatismo dos "adultos" quando chegava a hora dos actos. Uma lady no palanque, uma louca na sala de reuniões.

Rogério Casanova

O homem que não gostava de orgias

Calvino incluiu na sua definição de "clássico" a ideia de obras que não se podem "ler", apenas "reler" - não como medida da sua complexidade, mas pelo modo como nos chegam quase sempre em segunda mão. A maioria dos clássicos são textos sociais, no sentido em que muitos dos seus elementos já foram colectivamente absorvidos e distribuídos antes de lermos uma palavra. Mesmo a "segunda mão" já transmite uma ideia redutora do processo: uma cena "famosa" de Robinson Crusoe, digamos, pode ser encontrada na forma de um meme na internet, por sua vez inspirado num sketch do Family Guy, que por sua vez satirizava aquilo que já era uma modernização (o filme Cast Away) "inspirada" pelo clássico em questão. Na impossibilidade de forjar uma relação individual com o clássico, a calibração da surpresa na primeira leitura é sempre distorcida: nenhum leitor fica surpreendido ao encontrar os moinhos no Quixote; por outro lado, é possível que alguns sintam um choque genuíno ao descobrirem que Orgulho e Preconceito, por exemplo, é um repositório de clichés da comédia romântica (clichés que fixou antes de o serem). E inúmeras pessoas que nunca leram Kafka ou Orwell transportam consigo um significado provisório dos adjectivos kafkiano e orwelliano, mesmo que esses significados se refiram apenas a filas na repartição de finanças ou câmaras de vigilância no posto dos CTT. As duas distopias literárias centrais do séc. XX - 1984 e Admirável Mundo Novo - são vítimas especiais desta semidebilidade cultural, não apenas porque influenciaram, consciente e inconscientemente, o tom e o aspecto de quase todas as distopias cinemáticas ou televisivas que existem, mas porque também influenciaram hábitos discursivos simplificados para enquadrar e debater a nossa irritação mais recente, sejam espasmos consumistas ou iniciativas governamentais. É uma debilidade de que Brave New World, a mais recente adaptação da obra de Huxley (os nove episódios estão disponíveis na HBO Portugal) se mostra impotentemente consciente. A dada altura, uma das personagens, cuja actividade no mundo da série é produzir curtas-metragens sensacionalistas, queixa-se de dificuldades para imaginar a sequela do seu último êxito, "A Bomba de Prazer". "Eles querem mais!", lamenta, falando sobre o público. "E eu não sei mais!" Num episódio posterior, outra personagem elabora o dilema: "Eles querem uma novidade, porque cada novidade pode ser a melhor de todas. Portanto, nós damos-lhes a novidade. Maior, mais ruidosa, mais exuberante. Porque se não o fizermos, corremos o risco de eles perceberem que a novidade afinal não é novidade: é apenas o antigo, em maior quantidade. E se é antigo, é aborrecido, e se for aborrecido, eles desligam." É um desabafo interessantíssimo para enfiar na quinta hora de uma série de televisão que não apresenta uma única novidade, mas sim várias antiguidades - maiores, mais ruidosas e mais exuberantes. Novidade há uma, aliás: a corajosa decisão de transformar a sátira de Huxley na história comovente de um homem que comparece a sucessivas orgias e sente tristeza com o que vê. O enredo, apesar de tudo, preserva os rudimentos do livro. Um mundo no futuro distante onde uma noção limitada mas real de "felicidade" é prevalente. Contratempos do passado como a doença, a pobreza, a fome e a ansiedade foram banidos (bem como as suas causas: nomeadamente a procriação ex vitro, e as chatices da vida familiar). A sociedade, tal como no livro, aplica os princípios da mecanização e produção em massa à biologia e à psicologia: há uma hierarquia de cinco castas, todas elas condicionadas desde a infância a aceitarem as suas funções específicas: desde os Alphas e Betas, que se encarregam das tarefas intelectuais e administrativas, aos Epsilon, que basicamente andam de esfregona na mão a limpar o que está sujo. A única anomalia neste novo mundo é uma reserva natural conhecida como "Terra Selvagem", uma Comporta que as castas superiores podem visitar como um parque temático, e onde os habitantes primitivos encenam algumas tradições distorcidas do séc. XX, como a cerimónia de casamento e a corrida aos saldos. A série nunca percebe muito bem o que fazer com este material e depressa se reduz a variações pedestres sobre o apelo do fruto proibido, dramatizando as condições necessárias para as personagens principais descobrirem os impulsos que suprimiram. Num mundo onde a promiscuidade é a norma, a monogamia adquiriu uma aura de transgressão, e uma cena no segundo episódio (quando o espectador, tal como um dos protagonistas, já assistiu à segunda de meia dúzia de longas orgias) mostra um casal improvisado a interromper subitamente um enrolanço: "E se... e se esperarmos? Podia ser... podia ser como uma... noite de núpcias!" Ao contrário do livro, composto quase exclusivamente de diálogo e exposição, a série arranja espaço para alguns tiroteios, perseguições de carro, e até para uma fugaz aparição de Demi Moore, que, entre camisas de noite e frascos de bagaço, desenrasca uma homenagem inadvertida ao papel de Elizabeth Taylor em Quem Tem Medo de Virginia Woolf? O terceiro episódio traz um dos "selvagens" para o novo mundo, onde começa por introduzir uma promissora nota de dissidência, mas rapidamente se transforma noutro homem francamente repugnado pela ideia de orgias. O selvagem do livro aprendeu tudo o que sabe nas obras completas de Shakespeare; o da série tem um walkman com uma cassete de Neil Young. Quanto à ideia central de Huxley - a de que o admirável mundo novo se autoperpetua sem líderes ou vilões - é aqui reduzida à influência despótica de um computador mau, que na sua forma humana ganha o hábito de sobressaltar personagens em corredores escuros. A escolha entre prazer e autenticidade perde grande parte do significado se o papão estiver ao virar da esquina, pronto a punir a escolha errada. "1984 ou Admirável Mundo Novo?" é um exercício intelectual jogado com frequência pelo menos desde os anos 80. Qual a distopia mais plausível, qual a mais relevante? (Na verdade, o jogo começou muito mais cedo, na correspondência privada entre Huxley e Orwell, na qual cada um defendia a superioridade profética da sua própria obra). Como muitos desses exercícios, a escolha é uma espécie de teste de Rorschach invertido, em que deixamos a distopia seleccionada dar nome e forma às vagas silhuetas das nossas ansiedades particulares. Ambos os livros são sobre o terror do conformismo forçado; a diferença crucial é não apenas a intensidade da coerção, mas aquilo que os conformados são obrigados a aceitar. É inteiramente compreensível que um mundo sem fome nem doença e com orgias diárias não pareça um pesadelo intolerável, comparado com guerra incessante, polícias secretas e jantares de couve cozida. Mas qualquer distopia é menos sobre o medo da mudança do que sobre o medo que a mudança deixe de ser possível: de que a mudança deixe de acontecer no momento errado, consolidando algumas patologias específicas do presente e deixando-nos paralisados numa ordem imutável. No longo diálogo que termina o livro, o momento central não é quando o Selvagem reclama sentimentalmente "o direito a ser infeliz" ("a envelhecer, a ficar feio e impotente, a sofrer sífilis e cancro, a não ter o suficiente para comer, o direito a viver num constante estado de alarme por não saber o que vai acontecer amanhã"), mas o momento em que pergunta a um dos Controladores do Novo Mundo qual a necessidade de uma hierarquia estratificada, uma vez que a tecnologia existente permitiria poupar toda a gente a tarefas físicas extenuantes. Porque não um mundo inteiro de Alphas? A explicação do Controlador é um perfeito silogismo de rabo na boca: o condicionamento das classes inferiores (que lhes é imposto) não lhes permite desfrutar do tempo livre, nem das múltiplas orgias que esse calendário alargado iria possibilitar, portanto seria cruel impor-lhes o privilégio. A desconcertante benevolência do raciocínio é um dos aspectos mais plausíveis do livro inteiro. Escreve de acordo com a antiga ortografia