Rogério Casanova

Rogério Casanova

Um holocausto de Sally Rooneys canceladas

O nome pode não ser imediatamente reconhecível para toda a gente, ou será reconhecível apenas na mesma medida em que fenómenos recentes de dimensão comparável são reconhecíveis ("Ferrante", "Knausgaard"), mas é nesse perímetro de familiaridade que reside a sua mais-valia. "Sally Rooney" cumpre hoje a mesma função que "Jonathan Franzen" cumpria por volta de 2010. Ao nível mais elementar, as palavras designam a autora de três livros de ficção que atingiram níveis anómalos de sucesso crítico e comercial. Ao nível simbólico, são forçados a sustentar outros pesos.

Opinião

Este homem não é do 'noir'

Como muitos produtos americanos de sucesso, o film noir foi inventado por emigrantes. Antes de os refugiados da II Guerra Mundial se instalarem em Los Angeles, os californianos não faziam sequer a menor ideia do que havia uma diferença entre a luz e a escuridão. Os exilados alemães, com as suas sombras, neblinas, aguaceiros e outros truques expressionistas estrangeiros, inventaram uma maneira de tornar as palmeiras mais interessantes. Devidamente equipados com gabardinas e cigarros, os protagonistas fictícios podiam agora ajudar os espectadores a perceber pela primeira vez um conjunto de fenómenos importantíssimos: que o uísque geralmente não embebeda, que as filhas de milionários são geralmente ninfomaníacas, que as coisas são geralmente mais sórdidas do que parecem à superfície.

Rogério Casanova

Paz, amor e autoria moral

No dia 10 de Maio de 1849, duas facções rivais de apreciadores de teatro isabelino ensaiaram um motim à porta do Astor Opera House, em Nova Iorque. O pretexto foi uma encenação de Macbeth protagonizada pelo actor inglês (e amigo de Dickens) William Macready, cujos modos teatrais e dicção aristocrática eram preferidos pelas elites letradas. Macready tinha um inimigo profissional no nativo americano Edwin Forrest, e o antagonismo entre ambos começou na diferença de abordagens e nas claques que essa diferença criou: Forrest empregava um vigor masculino menos afectado, que apelava mais às classes operárias (que supostamente o achavam mais "autêntico"). Após vários boicotes, remoques públicos e sabotagens mútuas, a rivalidade explodiu nos protestos do Astor Opera House: a peça de Macready foi interrompida, o teatro foi invadido, o Exército foi chamado, 31 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas.

Rogério Casanova

Perguntas Frequentes Sobre o Euro-2020 (3.ª Semana)

Este é o melhor Campeonato da Europa de sempre? Ou, por outras palavras, este é o pior Campeonato da Europa de sempre? Não, e não, por enquanto. A resposta a perguntas semelhantes será sempre "não" enquanto os eventos duram, e continuará a ser "não" pelo menos até haver mais dois ou três pontos de comparação futuros. A nossa compulsão para o rescaldo instantâneo tende a rasurar contingências e a querer validar instantaneamente o impulso para confundir a proximidade de uma emoção com uma qualquer precedência histórica. O futuro costuma tratar destes assuntos nos seus timings e não cede a pressões. Uma das melhores respostas ao debate periódico sobre a Era de Ouro da Ficção Científica (os anos 30 das revistas pulp? os anos 60 da New Wave?) limitou-se a propor que a Era de Ouro da Ficção Científica são os doze anos - o período em que se formam as memórias às quais todas as experiências posteriores serão comparadas. O melhor Europeu, tal como o melhor Mundial - tal como o melhor livro de ficção científica - nunca deve ser aquele que está a acontecer à nossa frente, nem o primeiro que aconteceu à nossa frente, mas sim aquele que melhor reproduz o deslumbramento da exposição inicial.

Rogério Casanova

Factos extremamente submersos da história de Inglaterra

O prémio Goldsmiths será talvez dos prémios literários mais divertidos (termo técnico) do circuito internacional. Por não ser dos mais "importantes" nem dos mais "prestigiados" (termos igualmente técnicos), não é dos mais acompanhados na imprensa nacional - até porque, ao contrário dos Man Booker ou Goncourt, um galardão não confere o direito automático a ser traduzido no dia seguinte. Em parte, isto é um efeito da sua tenra idade - fundado em 2013, vai apenas na oitava edição - mas também do tipo de obras que ostensivamente premeia. Atribuído em conjunto pela Universidade que lhe dá nome e pela revista New Statesman, o seu objectivo é exaltar precisamente o tipo de obras que o circuito habitual costuma ignorar - a categoria semi-desvanecida a que se costumava chamar ficção "experimental". É nas listas do Goldsmiths que podemos encontrar alguns dos mutantes que sobrevivem na literatura contemporânea: os policiais noir compostos em verso livre, os monólogos torrenciais que se arrastam num único parágrafo, as pirotecnias tipográficas, os dialectos desintegrados. O vencedor de 2019 foi Ducks, Newburyport - o infame romance de 1000 páginas sem um único ponto final (escrito, evidentemente, pela filha do biógrafo de James Joyce).

Rogério Casanova

Anda comigo ver os acidentes

Um dia antes de o MEL ter reunido as velhas direitas no Centro de Congressos de Lisboa para que pudessem ser todas publicamente esbofeteadas em simultâneo pela nova direita, um vídeo circulou pelo éter, ilustrando uma categoria diferente - mais séria, menos metafórica - de bullying: um grupo de crianças a perseguir outra, que ia fugindo pela berma de uma estrada. Quando a vítima atravessa a estrada para se afastar, o vídeo termina com o baque inconfundível de um impacto surdo e sem eco.

Rogério Casanova

A coluna de opinião mais urgente do nosso tempo

Um dos problemas de viver numa cultura periférica é chegar sempre tarde aos brinquedos mais apelativos. Para quem teve uma infância portuguesa nos anos 80, o que isto significava era que os rumores de recreio sobre um "primo da Alemanha" cujos brinquedos se transformavam todos em robots precediam em vários meses o aparecimento de Transformers nas lojas. Para quem escrevia colunas de jornal nos anos 90, a consequência era chegar com meses (ou às vezes com anos) de atraso às mais empolgantes opiniões disponíveis - sobre a "terceira via", sobre os "desafios da globalização", sobre o "politicamente correcto".

Rogério Casanova

O macaco contra os superdragões

O escritor australiano Peter Carey publicou há uns anos uma curiosidade difícil de classificar intitulada Wrong About Japan. Uma mistura de livro de viagem, ruminação cultural e autobiografia falsificada, o livro aproveita uma viagem ao Japão para ensaiar uma breve comédia de incompreensão. Armado com um arsenal de respostas feitas, lugares-comuns e antropologia em segunda mão, o narrador vai partilhando com os nativos intuições diversas sobre o subtexto de alguns artefactos culturais - sempre expressas em atabalhoado sociologês - e esbarra repetidamente em respostas negativas ou num desinteresse bem-educado. Mesmo quando arrisca o aparentemente mais seguro de todos os lugares-comuns - a influência de Hiroshima e Nagasaki na criação de Godzilla e em todo o imaginário pós-apocalíptico da cultura popular japonesa -, encontra apenas sorrisos condescendentes. Alguém lhe pergunta se "andou a ler livros americanos".

Rogério Casanova

Deixar a Britney em paz

2007 foi um ano especialmente produtivo no subgénero de fenómeno moderno conhecido nos tablóides de língua inglesa como celebrity meltdown. Como todas as categorias culturais inventadas, esta tem as suas regras e protocolos informais, os seus estatutos, o seu panteão, o seu bestiário de imagens representativas - e 2007 preenche muitos dos espaços no formulário: Amy Winehouse foi hospitalizada pela primeira vez; Paris Hilton e Kiefer Sutherland dormiram uns dias na prisão por conduzirem alcoolizados; Lindsay Lohan passou grande parte do ano a entrar e a sair de clínicas de reabilitação; Alec Baldwin insultou a filha de 11 anos num telefonema gravado; Pete Doherty foi expulso de casa por não pagar renda, e fotografado a intoxicar pinguins no jardim zoológico de Londres. Um ano atarefado, cujo mote fora dado em Fevereiro, quando Britney Spears invadiu um salão de cabeleireiro (numa cidade chamada Tarzana) e rapou o seu próprio cabelo enquanto câmaras a filmavam pela janela. Quando, dias depois, agrediu um paparazzo com um chapéu-de-chuva, o incidente pareceu quase um anticlímax.

Rogério Casanova

Tlön, Kekistão, Orbis Tertius

No conto de Borges Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, uma conspiração global é acidentalmente descoberta pelo narrador: uma conjura secreta que dedicou anos a falsificar histórias, almanaques e volumes enciclopédicos sobre um mundo inventado chamado Tlön, descrevendo ao pormenor as suas cidades, paisagens, populações, leis e filosofias. Aos poucos, à medida que as falsificações se multiplicam e a sua dispersão e visibilidade crescem, o rigor dessa colossal efabulação começa a encantar a humanidade e a substituir sistematicamente aquilo que outrora era real: "Já penetrou nas escolas o conjectural idioma primitivo de Tlön; já o ensino da sua história harmoniosa (e cheia de episódios comoventes) obliterou o que presidiu à minha infância; já nas memórias um passado fictício ocupa o lugar de outro." Em breve, línguas e hábitos antigos desaparecerão, objectos imaginários ganharão forma física, e o mundo inteiro será Tlön. "Uma dispersa dinastia de solitários", lamenta o narrador, referindo-se à cabala desconhecida que iniciou a patranha, "conseguiu mudar a face do mundo." Por outras palavras, o shitposting de heresiarcas anónimos revelou-se uma força tão poderosa que alterou drasticamente a realidade material.