Rogério Casanova

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Banhada com banho de ouro

Cada autor tem uma cena predilecta: uma disposição específica de elementos (cénicos, verbais) com uma função catadrióptica, que simultaneamente reflecte e refracta o modo como vê o mundo. A predilecção pode ser inconsciente, mas tende a repetir-se de obra para obra como uma marca de água, independentemente da posição que o artista ocupa no espectro entre o genial e o medíocre. Cada história de Kafka inclui um homem sentado numa cadeira à porta de uma sala, à espera de ser chamado, tal como cada peça de Edward Albee inclui uma pessoa a encher um copo com álcool de costas para outra pessoa que está a gritar com ele, ou cada livro de Stephen King inclui um ataque de riso inesperado que funda uma amizade instantânea entre duas pessoas que acabaram de se conhecer, ou cada filme de Christopher Nolan inclui uma cena em que um sociopata com dicção invulgar informa um qualquer deuteragonista que tem três minutos para resolver um cubo de Rubik ou a sua tia preferida vai ter o crânio esmigalhado por um piano gigante.

Rogério Casanova

Lucy no céu com militantes

Lucille Ball, depois de cinco Emmys, duas estrelas no Passeio da Fama, uma Medalha Presidencial, um selo comemorativo, e vários recordes televisivos que ainda perduram, juntou-se em 2021 ao clube restrito de privilegiados (Zuckerberg, Jobs, Abbie Hoffman e o Presidente dos Estados Unidos) que mereceram a única distinção que realmente importa: serem transformados por Aaron Sorkin numa pessoa capaz de repetir muito depressa as palavras de Aaron Sorkin.

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Kyrie Irving e a liberdade de opinião sobre a pica que faz dói-dói

A fase regular da NBA vai começar esta semana, e aproximadamente quinhentos atletas profissionais vão atirar bolas na direcção geral de aros redondos. Entre eles não estará Kyrie Irving, base dos Brookly Nets, rookie do ano em 2012, campeão olímpico em 2016, sete vezes escolhido para o All-Star Game, e o rosto mais visível daquilo que, com excessiva flexibilidade semântica se poderia chamar o "movimento" anti-vacina na competição.

Rogério Casanova

Um holocausto de Sally Rooneys canceladas

O nome pode não ser imediatamente reconhecível para toda a gente, ou será reconhecível apenas na mesma medida em que fenómenos recentes de dimensão comparável são reconhecíveis ("Ferrante", "Knausgaard"), mas é nesse perímetro de familiaridade que reside a sua mais-valia. "Sally Rooney" cumpre hoje a mesma função que "Jonathan Franzen" cumpria por volta de 2010. Ao nível mais elementar, as palavras designam a autora de três livros de ficção que atingiram níveis anómalos de sucesso crítico e comercial. Ao nível simbólico, são forçados a sustentar outros pesos.

Rogério Casanova

A história mais aborrecida do mundo

Porque é que não há mais escritores sérios a escrever sobre a chuva e o calor?" é uma pergunta para qual talvez nunca tenha havido hora certa, mas 2016 foi uma data especialmente mal escolhida. Foi nesse ano que Amitav Ghosh publicou The Great Derrangement, cuja tese central (ou pelo menos mais superficialmente resumível) é que a ficção literária tem mostrado uma notável relutância em abordar o tema das alterações climáticas. Foi também por volta dessa altura que a enxurrada de romances sobre alterações climáticas se tornou tão torrencial que o jornalismo cultural foi obrigado a inventar uma classificação nova (uma das suas actividades preferidas): climate fiction, ou cli-fi.

Rogério Casanova

O elefante no corredor

Não seria uma expectativa razoável para um nicho tão circunscrito, mas o biopic das ciências sociais revelou-se uma sub-categoria cinematográfica improvavelmente prolífica. A última década e meia deu-nos Kinsey (2004), A Dangerous Method (2012) ,The Stanford Prison Experiment (2015), Mad to be Normal (2017, sobre R. D. Laing) e a série Masters of Sex (2013-2016). Muitos destes exemplos são sobre figuras de meados do século XX, quando a pesquisa científica conduzida em universidades era muito mais receptiva à excentricidade - e também quando (talvez por falta de estímulos concorrentes) ainda era possível que figuras das ciências sociais atingissem alguma notoriedade pública. Foi o caso de Stanley Milgram, protagonista de Experimenter - o filme de Michael Almereyda que a RTP2 transmitiu na sexta-feira passada, e talvez o representante mais interessante dessa curiosa sub-categoria.

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O Último Morto-Vivo de George Romero

No panteão das "grandes obras perdidas", O Parque de Diversões nunca pertenceu à mesma categoria exaltada onde cabem o Escudo de Medusa, a Comédia de Aristóteles, ou a versão integral de The Magnificent Ambersons: não apenas por questões hierárquicas, mas porque durante décadas o segredo foi tão secreto que nunca houve procura suficiente para gerar um mito, ou pelo menos um culto. Tony Williams, o académico oficial de George Romero dedicou-lhe página e meia no seu estudo de 2003 (Knight of the Living Dead: The Cinema of George A. Romero), confirmando a existência de uma espécie de pseudo-documentário dramático, caucionando a relevância temática do mesmo na obra do autor, e gabando-lhe até algumas qualidades extra-funcionais, próprias, aliás, de alguém habituado a trabalhar em condições adversas e com recursos escassos.