Rogério Casanova

Rogério Casanova

Conta-me como costumavam contar o que já foi contado

Desbravando corajosamente o denso emaranhado semântico que envolve o "pós-modernismo" (um termo cuja definição começou por variar de disciplina para disciplina, e que acabou a variar de pessoa para pessoa), Umberto Eco reduziu-o a uma "atitude", que descreveu do seguinte modo: "Um homem que ama uma mulher culta sabe que não lhe pode dizer "Amo-te loucamente", pois sabe que ela sabe (e sabe que ela sabe que ele sabe) que a expressão já foi usada em livros de Barbara Cartland. A solução é dizer-lhe "Como diria uma personagem de Barbara Cartland, eu amo-te loucamente". Tendo evitado a falsa inocência, e admitido que essas declarações já não são possíveis, conseguiu todavia dizer o que queria dizer à mulher: que a ama loucamente, num mundo que deixou de ser inocente."

Crónica de Televisão

O fitoplâncton e a opinião designada

Como as epopeias clássicas, a cobertura televisiva de noites eleitorais começa in medias res: com a acção já a decorrer, mas antes do desenlace. Sabemos que haverá vencedores e perdedores, mas não sabemos quem são. Sabemos que a taxa de abstenção foi "preocupante", mas não sabemos quão preocupante. Acima de tudo, sabemos que ainda falta uma hora para aparecerem os números que sustentem as conclusões definitivas que vamos começar a ouvir daqui a cinco minutos.

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Rogério Casanova

Os problemas de uma pessoa adorável

Pensem na pessoa mais adorável que conheçam. Agora multipliquem isso várias vezes. Nem assim vão chegar perto. Tony, o protagonista da nova minissérie de Ricky Gervais para a Netflix, After Life, é um tipo extremamente adorável. A frase anterior não é conclusão deste texto, mas matéria de facto: a doutrina operacional do universo fictício onde a série decorre, povoado quase exclusivamente por outras personagens - vivas, mortas, ou assim-assim - cuja função primária é lembrarem Tony de que ele é um tipo adorável, cuja adorabilidade não é comprometida por qualquer outra coisa que aconteça.

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Rogério Casanova

O muro, o espelho, e um mundo sem presunto

No princípio da década de 90, quando a queda de uma parede na Alemanha lançou o mote para passar certificados de óbito a toda e qualquer abstracção, era comum encontrar nas páginas culturais artigos preocupados com o futuro das histórias de espionagem: o que aconteceria, perguntavam estas fukuyamices menores, aos enredos clássicos sobre agentes soviéticos, passaportes forjados, toupeiras, traições e postos de vigia em Berlim, agora que a Guerra Fria terminara? O The New York Times chegou ao ponto de falar com John le Carré, perguntando-lhe essencialmente o que é que tencionava fazer à sua vida. Le Carré foi-se safando, e a história de espionagem também, com um catálogo novo de brinquedos - multinacionais corruptas, traficantes de armas, terroristas islâmicos -, mas já na altura era óbvio que a história de espionagem especificamente ancorada na Guerra Fria também trataria de sobreviver ao fim da Guerra Fria. Não só porque a mitologia que estabelecera era demasiado apelativa, mas porque o intervalo temporal que permite a qualquer fenómeno ser reciclado pela nostalgia é cada vez mais curto.

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Rogério Casanova

Ballard nas Bahamas

O metabolismo próprio das redes sociais costuma ser demasiado acelerado para formar memórias rigorosas e duradouras, mas de vez em quando surge um evento capaz de fixar indelevelmente uma data. Tal como se lembram dos dias gloriosos do "covfefe" de Trump ou daquele controverso vestido de cor indeterminada, um número significativo de utilizadores do Twitter recorda o que estava a fazer na madrugada de 28 de Abril de 2017: a acompanhar em directo uma sumptuosa calamidade tropical chamada Fyre Festival.

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Rogério Casanova

A longa noite das facas curtas

No terceiro capítulo do romance Time Out of Joint, o protagonista decide ir comprar uma cerveja num quiosque de refrigerantes que avistou à distância. Quando se aproxima, o quiosque de refrigerantes torna-se transparente, decompõe-se em moléculas incolores e por fim desaparece; no seu lugar, fica apenas um pedaço de papel, com uma frase inscrita em letras maiúsculas "QUIOSQUE DE REFRIGERANTES". É o episódio paradigmático de toda a obra de Philip K. Dick, na qual a realidade é sempre provisória e à mercê de radicais desestabilizações, e um princípio criativo cuja versão anémica continua a ser adoptada por qualquer produtor, realizador ou argumentista que procura tornar o seu produto intrigante sem grande dispêndio de imaginação.