Rogério Casanova

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Situações tremendas, pessoas fantásticas

Por ser um dos rituais mediáticos a que todos já assistimos mais vezes em ficções do que no mundo, há algo vagamente irreal na conferência de imprensa de emergência, um evento que é um curioso meio-termo entre a raridade e o lugar-comum. Líderes políticos e peritos técnicos aproximam-se do pódio com expressões solenes, bombardeados por flashes. Os líderes políticos fazem um diagnóstico sóbrio da crise, falam de "medidas", asseguram a eficiência presente e futura de vários processos em curso, adoptam uma retórica de confiança e estabilidade. Os peritos costumam vir de seguida, recitando números e acrónimos num tom mais prático. Um deles pode ser destacado para fazer pedagogia coloquial, e tem autorização tácita para recorrer a um vocabulário diferente, que não exclui a palavra "beijinhos". "Informar" é o principal propósito, mas "tranquilizar" é um forte e compreensível concorrente, e não é um exagero afirmar que ambas as intenções são muito mais fáceis de concretizar quando quem fala consegue pronunciar polissílabos, transmitir plausivelmente a ideia de que o seu significado não é um profundo mistério e convencer-nos de que faz parte do mesmo mundo que nós.

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Super-heróis vs. gangsters, vol. 2

Isto aconteceu no início de Outubro: um realizador de cinema com mais de 70 anos explicou durante uma entrevista que não considerava os filmes de super-heróis "cinema", mas antes algo mais parecido com "um parque de diversões". Não é novo e já aconteceu antes. O que não costumava acontecer é que, ao longo das semanas seguintes, todos os realizadores de cinema com mais de 70 anos receberam telefonemas a recolher depoimentos sobre o assunto. O que também não acontecia era a possibilidade de, se passarmos tempo suficiente online e carregarmos em todos os botões certos, sabermos o que pensam sobre isto duzentas pessoas diferentes e obrigarmos outras cinquenta a saber o que nós pensamos.

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Esplendores e misérias da enfermagem

Nazaré, a telenovela da SIC que se estreou há duas semanas, começou com um incêndio. Virgílio Castelo, o taciturno dono de uma empresa, está atado a um poste enquanto o seu irmão, o taciturno pretendente a ser dono da empresa, despeja baldes de gasolina à sua volta. "Qual é a tua ideia? Tu... tu vais matar-me?" A resposta é afirmativa e o incidente marca várias personagens, muitas das quais ainda tentam lidar com o rescaldo. Uma delas, Gonçalo, sobreviveu à calamidade, mas o trauma condenou-o a sofrer ataques de pânico sempre que uma chama (literal ou metafórica) deflagra nas suas imediações. Felizmente faz parte de uma novela e quase ninguém fuma, mas isso não significa que o seu dia-a-dia esteja livre de perigos. Um dia, ao chegar a casa, encontra o filho na cozinha a incinerar leite-creme com um maçarico culinário, o que leva Gonçalo, naturalmente, a agredi-lo. "Queres queimar a casa inteira e matar-nos a todos?", reclama.