Rogério Casanova

Representação da penanggalan
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Cabeças voadoras

Já que perguntam: vários folclores locais do Sudeste Asiático incluem uma figura mitológica que é uma espécie de mistura entre bruxa, vampira e monstro, associada à magia negra e ao canibalismo. Segundo a valiosíssima Encyclopedia of Giants and Humanoids in Myth and Legend, de Theresa Bane, a criatura, conhecida como leák na Indonésia ou penanggalan na Malásia, pode assumir muitas formas - tigre, árvore, motocicleta, rato gigante, pássaro do tamanho de um cavalo -, mas a mais comum é a de uma cabeça separada do corpo, arrastando as tripas na sua esteira, voando pelo ar à procura de presas para se alimentar e rejuvenescer: crianças, adultos vulneráveis, mulheres em trabalho de parto. O sincretismo acidental entre velhos panteísmos, culto dos antepassados e resquícios de religião colonial costuma produzir os melhores folclores (passa-se o mesmo no Haiti). A figura da leák, num processo análogo ao que costuma coordenar os filmes de terror, combina sentimentalismo e pavor, convertendo a ideia de que os vivos precisam dos mortos na ideia de que os mortos precisam dos vivos.

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Super-heróis vs. gangsters, vol. 2

Isto aconteceu no início de Outubro: um realizador de cinema com mais de 70 anos explicou durante uma entrevista que não considerava os filmes de super-heróis "cinema", mas antes algo mais parecido com "um parque de diversões". Não é novo e já aconteceu antes. O que não costumava acontecer é que, ao longo das semanas seguintes, todos os realizadores de cinema com mais de 70 anos receberam telefonemas a recolher depoimentos sobre o assunto. O que também não acontecia era a possibilidade de, se passarmos tempo suficiente online e carregarmos em todos os botões certos, sabermos o que pensam sobre isto duzentas pessoas diferentes e obrigarmos outras cinquenta a saber o que nós pensamos.

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O cão que mordeu o mundo

Não chega sequer a ser um segredo mal guardado que, numa democracia funcional, muitas das interacções públicas entre líderes políticos e a imprensa têm uma forte componente de encenação teatral. Esta descoberta (ainda com uma capacidade para proporcionar um choque efémero na adolescência) acaba sempre por se tornar reconfortante: o reconforto de saber que existe um guião, de saber que esse guião é conhecido por ambas as partes, de saber que existe um investimento consensual em respeitar alguns formalismos e de saber que há coisas piores do que repetição e previsibilidade. Portanto, as câmaras rolam e os microfones são erguidos, e um enxame de jornalistas grita perguntas como "o que é que acha?", ou "quer comentar?", ou "qual é a sua posição?", e um líder político imaculadamente penteado diz algumas coisas em resposta. Nem sempre há uma relação directa entre as respostas e as perguntas. Por vezes, o político diz as coisas que quer dizer (mesmo que seja apenas para não dizer outras); e, por vezes, o político diz coisas que não queria dizer, e essas coisas constituem uma gafe, e escrevem-se notícias com a palavra "gafe", mas depois tudo volta ao normal, ou então não volta, e o político que disse coisas é substituído por outro político, que vem dizer outras coisas, ou as mesmas coisas de outra maneira.

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Dêem-nos alguma coisa para problematizar

"Bernardo Silva e Gonçalo Guedes", começou o narrador da peça do telejornal, no seu percurso inexorável para a conclusão da frase, "desenharam no relvado... um novo Dia de Portugal". Impulsionados pela conquista da véspera, que adicionou mais um troféu ao nosso palmarés patriótico, Portugal e a RTP chegaram ao 10 de Junho com disposições opostas, mas complementares: o país com imensa vontade de significar, e a estação pública com imensa vontade de interpretar o significado.

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A verdade na zona de exclusão

Há um momento em Vida e Destino, a obra-prima do escritor soviético Vassili Grossman, em que o leitor percebe que o protagonista Viktor Strum não é o "herói" do romance, mas apenas mais uma das suas vítimas. Um físico nuclear talentoso e inteligente, Strum vê o valor objectivo do seu trabalho oscilar ao sabor de caprichos ideológicos, e as suas pesquisas sobre mecânica quântica são publicamente vilipendiadas por não serem "reconciliáveis" com a doutrina do materialismo dialéctico.

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Branco no branco

As personagens fictícias vivem muitas vidas diferentes - e morrem muitas mortes diferentes. A última década e meia de televisão mostrou-nos quase todas as formas possíveis de escangalhar o corpo humano e cessar as funções vitais. Vimos pessoas despedaçadas por zombies e incineradas pelo bafo de dragões; crânios perfurados à garfada (Sons of Anarchy) ou rachados por uma moca de pregos (The Walking Dead); troncos cortados ao meio por serrote (American Horror Story) ou por elevador (Six Feet Under).