Rogério Casanova

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A longa noite das facas curtas

No terceiro capítulo do romance Time Out of Joint, o protagonista decide ir comprar uma cerveja num quiosque de refrigerantes que avistou à distância. Quando se aproxima, o quiosque de refrigerantes torna-se transparente, decompõe-se em moléculas incolores e por fim desaparece; no seu lugar, fica apenas um pedaço de papel, com uma frase inscrita em letras maiúsculas "QUIOSQUE DE REFRIGERANTES". É o episódio paradigmático de toda a obra de Philip K. Dick, na qual a realidade é sempre provisória e à mercê de radicais desestabilizações, e um princípio criativo cuja versão anémica continua a ser adoptada por qualquer produtor, realizador ou argumentista que procura tornar o seu produto intrigante sem grande dispêndio de imaginação.

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Os Vivos Querem Dizer-nos Que Está Tudo Doido

Em 1657, mais de três décadas antes de as pessoas de Salem inaugurarem a sua historicamente célebre operação judicial, uma mulher de East Hampton, em Long Island, tornou-se uma das primeiras pessoas acusadas de bruxaria no Novo Mundo. O seu nome era Elizabeth Garlick. Além de se fazer acompanhar por um gato preto (o que nunca foi, nem é, boa ideia), era resmungona, carrancuda, e propensa a exclamar comentários cruéis e sarcásticos sobre os vizinhos. Eram tempos primitivos e a humanidade ainda não tinha desenvolvido todas as ferramentas conceptuais necessárias para lidar com este género de situações (a liberdade de expressão, o politicamente correcto, a indignação digital, o meme, o Twitter, etc.) portanto não admira que, assim que morreram os primeiros bebés ou nasceram os primeiros bezerros com defeito, a comunidade tenha optado pela acção mais razoável, levando a Sra. Garlick a julgamento. Mas, ao contrário das boas pessoas de Salem, os jurados de Long Island chegaram à conclusão de que não eram suficientemente competentes nas ciências demonológicas para avaliar o caso; e a Sra. Garlick foi ilibada por "falta de provas".

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Carpe Diem

No épico anglo-saxão Beowulf conta-se que a Grande Rainha Modthryth, sempre que apanhava um súbdito temerário a olhá-la directamente, mandava de imediato amarrá-lo, torturá-lo e esquartejá-lo. No caso da Rainha da Televisão Generalista (©) estas restrições bárbaras não se aplicam: os súbditos não só podem olhá-la directamente como muitas vezes não têm outro remédio. Podem olhá-la directamente no quiosque, podem olhá-la directamente no blogue, podem olhá-la directamente no Instagram, e podem olhá-la directamente no ecrã - de manhã, ao fim da tarde, e até ao sétimo minuto do Jornal da Noite (SIC) de segunda-feira, altura em que Rodrigo Guedes de Carvalho interrompeu pacientemente o alinhamento ("já vamos continuar a perceber como correu o início deste ano lectivo, mas para já...") e anunciou que "a grande contratação do ano" acabara de chegar ao Palácio de Carnaxide, onde vai reinar durante os próximos anos. Anunciou também que a figura contratada pela SIC "por valores nunca dantes navegados" (sic) ia ser submetida a uma "entrevista longa, em que responderá a todas as perguntas que forem jornalisticamente relevantes".

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Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.