Rogério Casanova

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Rogério Casanova

Branco no branco

As personagens fictícias vivem muitas vidas diferentes - e morrem muitas mortes diferentes. A última década e meia de televisão mostrou-nos quase todas as formas possíveis de escangalhar o corpo humano e cessar as funções vitais. Vimos pessoas despedaçadas por zombies e incineradas pelo bafo de dragões; crânios perfurados à garfada (Sons of Anarchy) ou rachados por uma moca de pregos (The Walking Dead); troncos cortados ao meio por serrote (American Horror Story) ou por elevador (Six Feet Under).

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O muro, o espelho, e um mundo sem presunto

No princípio da década de 90, quando a queda de uma parede na Alemanha lançou o mote para passar certificados de óbito a toda e qualquer abstracção, era comum encontrar nas páginas culturais artigos preocupados com o futuro das histórias de espionagem: o que aconteceria, perguntavam estas fukuyamices menores, aos enredos clássicos sobre agentes soviéticos, passaportes forjados, toupeiras, traições e postos de vigia em Berlim, agora que a Guerra Fria terminara? O The New York Times chegou ao ponto de falar com John le Carré, perguntando-lhe essencialmente o que é que tencionava fazer à sua vida. Le Carré foi-se safando, e a história de espionagem também, com um catálogo novo de brinquedos - multinacionais corruptas, traficantes de armas, terroristas islâmicos -, mas já na altura era óbvio que a história de espionagem especificamente ancorada na Guerra Fria também trataria de sobreviver ao fim da Guerra Fria. Não só porque a mitologia que estabelecera era demasiado apelativa, mas porque o intervalo temporal que permite a qualquer fenómeno ser reciclado pela nostalgia é cada vez mais curto.

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Ballard nas Bahamas

O metabolismo próprio das redes sociais costuma ser demasiado acelerado para formar memórias rigorosas e duradouras, mas de vez em quando surge um evento capaz de fixar indelevelmente uma data. Tal como se lembram dos dias gloriosos do "covfefe" de Trump ou daquele controverso vestido de cor indeterminada, um número significativo de utilizadores do Twitter recorda o que estava a fazer na madrugada de 28 de Abril de 2017: a acompanhar em directo uma sumptuosa calamidade tropical chamada Fyre Festival.

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A acção de prevenção rodoviária mais fotografada da Europa

Seja por uma qualquer regra audiovisual esotérica, seja pela tendência da memória para a síntese artificial, parece que a televisão só tem espaço para um mágico famoso de cada vez. Os espectadores formados nos anos 1980 lembram-se de David Copperfield, cuja especialidade era a macro-ilusão extravagante: mostrar uma coisa muito grande (um elefante, um avião a jacto, a Estátua da Liberdade) e depois mostrar o espaço vazio previamente ocupado pela coisa muito grande, entretanto desaparecida.

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Crónica de Televisão

New Amsterdam: a crise na saúde

É uma inevitabilidade clínica. Por muitos cuidados que tenha com a saúde, por mais que procure fazer exercício ou manter dieta equilibrada, há um risco a que qualquer televisão está sujeita: a estreia de um novo drama passado num hospital. Resistindo a todos os esforços para a erradicar, a "série sobre médicos" continua a florescer, irrompendo em surtos pontuais, tão ou mais comuns e incontroláveis do que os surtos das suas congéneres etiológicas, a "série sobre advogados" e a "série sobre polícias".

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O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

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O koala xadrezista e a criatividade por sufrágio

Acabadinha de chegar da linha de montagem, ainda com o brilho esperançoso do produto que acredita ser muito melhor do que é, Maniac (Netflix) é o tipo de série que a televisão contemporânea consegue fazer de olhos fechados, com uma mão atrás das costas e a outra a afagar a cabeça de um koala roxo mecânico que joga xadrez num parque urbano. O primeiro grande desafio do espectador, aliás, é convencer-se de que está mesmo a ver tudo aquilo pela primeira vez, pois não há nada que não pareça simultaneamente inesperado e familiar, como a memória de um sonho recorrente e não muito agradável.