Rogério Casanova

Rogério Casanova

A toxicidade e as serras

Mais tarde ou mais cedo, qualquer adepto de futebol, qualquer comentador de futebol, ou qualquer turista de passagem pelo mundo do futebol diz, ou pelo menos pensa, a mesma frase. A frase é "o futebol não é isto" - e normalmente é dita sobre algo que é futebol, e sempre foi futebol. Os "istos" que o futebol não é ocupam um espectro vasto, mas familiar, que vai do mais recente autocarro apedrejado ao guarda-redes que finge uma lesão até se esgotarem os minutos de desconto, passando pelo cliente do café a gritar calmamente um enredo de Le Carré para explicar um fora-de-jogo mal assinalado. O futebol não é aquilo, pensamos (ou dizemos). Antigamente era outra coisa, e é uma pena que já não seja.

Crónica de Televisão

Sangue, suor e as informações que conseguimos apurar

Um quintal delapidado povoado por gatos de rua. Entre charcos de água estagnada, ervas daninhas, enxadas enferrujadas, uma pilha de tábuas e sete latas de tinta, um dos gatos rebola-se de barriga para o ar no meio da poeira. Outro mastiga placidamente um ovo de codorniz. Dois gatos mais jovens perseguem furiosamente as próprias caudas. Um siamês interrompe o seu repouso espreguiçante em cima de uma mesa para afastar com a patinha uma ameixa apodrecida, até esta tombar ao chão.

Rogério Casanova

Shirley

O mais recente acrescento à vexante categoria "filmes sobre escritores", Shirley (disponível para alugar na Amazon Prime) não perde muito tempo antes de abordar directamente o problema central da vexante categoria "filmes sobre escritores". Passam apenas vinte minutos até ouvirmos pela primeira vez o som inconfundível de uma máquina de escrever a ser martelada. Uma personagem aproxima-se com alguma hesitação e observa, a uma distância respeitosa, a escritora à sua secretária. A máquina é martelada mais um pouco. Uma página é lida e rasgada. Um suspiro é emitido. Um cigarro é incinerado. "Queres saber o que é que faz um escritor? Absolutamente nada."

Premium

Rogério Casanova

Situações tremendas, pessoas fantásticas

Por ser um dos rituais mediáticos a que todos já assistimos mais vezes em ficções do que no mundo, há algo vagamente irreal na conferência de imprensa de emergência, um evento que é um curioso meio-termo entre a raridade e o lugar-comum. Líderes políticos e peritos técnicos aproximam-se do pódio com expressões solenes, bombardeados por flashes. Os líderes políticos fazem um diagnóstico sóbrio da crise, falam de "medidas", asseguram a eficiência presente e futura de vários processos em curso, adoptam uma retórica de confiança e estabilidade. Os peritos costumam vir de seguida, recitando números e acrónimos num tom mais prático. Um deles pode ser destacado para fazer pedagogia coloquial, e tem autorização tácita para recorrer a um vocabulário diferente, que não exclui a palavra "beijinhos". "Informar" é o principal propósito, mas "tranquilizar" é um forte e compreensível concorrente, e não é um exagero afirmar que ambas as intenções são muito mais fáceis de concretizar quando quem fala consegue pronunciar polissílabos, transmitir plausivelmente a ideia de que o seu significado não é um profundo mistério e convencer-nos de que faz parte do mesmo mundo que nós.