Rogério Casanova

Rogério Casanova

O Último Morto-Vivo de George Romero

No panteão das "grandes obras perdidas", O Parque de Diversões nunca pertenceu à mesma categoria exaltada onde cabem o Escudo de Medusa, a Comédia de Aristóteles, ou a versão integral de The Magnificent Ambersons: não apenas por questões hierárquicas, mas porque durante décadas o segredo foi tão secreto que nunca houve procura suficiente para gerar um mito, ou pelo menos um culto. Tony Williams, o académico oficial de George Romero dedicou-lhe página e meia no seu estudo de 2003 (Knight of the Living Dead: The Cinema of George A. Romero), confirmando a existência de uma espécie de pseudo-documentário dramático, caucionando a relevância temática do mesmo na obra do autor, e gabando-lhe até algumas qualidades extra-funcionais, próprias, aliás, de alguém habituado a trabalhar em condições adversas e com recursos escassos.

Rogério Casanova

Anda comigo ver os acidentes

Um dia antes de o MEL ter reunido as velhas direitas no Centro de Congressos de Lisboa para que pudessem ser todas publicamente esbofeteadas em simultâneo pela nova direita, um vídeo circulou pelo éter, ilustrando uma categoria diferente - mais séria, menos metafórica - de bullying: um grupo de crianças a perseguir outra, que ia fugindo pela berma de uma estrada. Quando a vítima atravessa a estrada para se afastar, o vídeo termina com o baque inconfundível de um impacto surdo e sem eco.

Rogério Casanova

A coluna de opinião mais urgente do nosso tempo

Um dos problemas de viver numa cultura periférica é chegar sempre tarde aos brinquedos mais apelativos. Para quem teve uma infância portuguesa nos anos 80, o que isto significava era que os rumores de recreio sobre um "primo da Alemanha" cujos brinquedos se transformavam todos em robots precediam em vários meses o aparecimento de Transformers nas lojas. Para quem escrevia colunas de jornal nos anos 90, a consequência era chegar com meses (ou às vezes com anos) de atraso às mais empolgantes opiniões disponíveis - sobre a "terceira via", sobre os "desafios da globalização", sobre o "politicamente correcto".

Rogério Casanova

A Superliga no fim do mundo

Proclamar que vivemos tempos sem precedentes e que algo-deve-ser-feito costuma ser uma estratégia eficaz como polémica opinativa ou propaganda política, mas a sua aplicação enquanto gambito publicitário é mais limitada. A retórica apocalíptica funciona, mas tem de ser calibrada de modo mais cuidadoso. Sentirmo-nos receosos e desesperados pode levar-nos a querer comprar urgentemente qualquer coisa (uma arma semi-automática, um bilhete para uma conferência sobre a liberdade de expressão, mil rolos de papel higiénico), mas o impulso também pode ser refreado se desconfiarmos que o desespero de quem vende é ainda maior que o nosso.

Rogério Casanova

Deixar a Britney em paz

2007 foi um ano especialmente produtivo no subgénero de fenómeno moderno conhecido nos tablóides de língua inglesa como celebrity meltdown. Como todas as categorias culturais inventadas, esta tem as suas regras e protocolos informais, os seus estatutos, o seu panteão, o seu bestiário de imagens representativas - e 2007 preenche muitos dos espaços no formulário: Amy Winehouse foi hospitalizada pela primeira vez; Paris Hilton e Kiefer Sutherland dormiram uns dias na prisão por conduzirem alcoolizados; Lindsay Lohan passou grande parte do ano a entrar e a sair de clínicas de reabilitação; Alec Baldwin insultou a filha de 11 anos num telefonema gravado; Pete Doherty foi expulso de casa por não pagar renda, e fotografado a intoxicar pinguins no jardim zoológico de Londres. Um ano atarefado, cujo mote fora dado em Fevereiro, quando Britney Spears invadiu um salão de cabeleireiro (numa cidade chamada Tarzana) e rapou o seu próprio cabelo enquanto câmaras a filmavam pela janela. Quando, dias depois, agrediu um paparazzo com um chapéu-de-chuva, o incidente pareceu quase um anticlímax.

Rogério Casanova

Hipercurtisação

A principal característica dos documentários de Adam Curtis é não se parecerem com os documentários de qualquer outra pessoa. São todos, no entanto, muito parecidos uns com os outros. Trabalhando com restrições de formatos e plataformas (Curtis é funcionário da BBC) que não são propriamente catalisadores de individualismo estético ou inovação formal, conseguiu consolidar um conjunto de idiossincrasias tão reconhecível que parodiá-lo se tornou um hábito recorrente na internet: há um youtube célebre (The Loving Trap) que sintetiza os seus maneirismos em três minutos devastadores; e sempre que estreia um documentário novo, volta a circular um cartão de bingo que convida os espectadores a identificar a inevitável reaparição de tiques linguísticos ("But one man thought differently..."), visuais ("imagens de arquivo de tropas soviéticas no Afeganistão") ou musicais ("faixa de Burial").

Rogério Casanova

O calvário gnóstico de Steven Seagal

O Natal chegou e partiu, devidamente pontuado por filmes de Steven Seagal. Talvez tenha sido acidental - uma coincidência de programação - ou talvez seja uma tentativa do universo para corrigir uma injustiça: a sua habitual exclusão do cânone tradicional da quadra festiva (Música no Coração, Fuga para a Vitória, Die Hard, etc.). Qualquer tradição suficientemente ampla para incluir os três exemplos anteriores tem de encontrar espaço para a obra de Seagal, um repositório de narrativas, temas e imagens com conotações religiosas muito mais contundentes do que qualquer obra concorrente - tanto nos aspectos ocultos como até nos mais superficiais (O Homem que Brilha, transmitido nesta semana pelo canal Hollywood, começa praticamente com o grande plano de um cadáver crucificado, a que se seguem dois close ups de uma coroa de espinhos e uma chaga trespassada por um prego).

Crónica de Televisão

Registo Notarial de Toupeiras

Tinker Tailor Soldier Spy, a série de 1979 que permanece a melhor adaptação de Le Carré e um dos melhores produtos da BBC, começa com quatro homens a entrar, à vez, numa sala de reuniões. Um deles fuma um cigarro, outro acende um cachimbo, um terceiro baloiça precariamente um pires em cima de uma chávena (para manter quente uma qualquer mistela). Todos se sentam à mesa. Dois deles abrem dossiês e folheiam papéis. O fumo adensa-se. Ninguém diz uma palavra durante dois minutos, e o silêncio - como em muitos momentos ao longo dos sete episódios - permite ao espectador apreciar o cenário.

Crónica de Televisão

O caixote de Ventura

Em Fevereiro de 2017, o então futuro deputado (e futuro candidato à Presidência da República) André Ventura pediu licença aos espectadores da CMTV, debruçou-se atrás da sua mesa e reapareceu segurando um enorme caixote de cartão. Não foi o primeiro nem o último adereço dramático (óculos escuros, chapéus, melões, etc.) que usou no programa Pé em Riste; foi apenas o maior. "Aqui dentro estão aqui 1416 notícias!", anunciou. Ventura fora acusado por pessoas de outro clube de se preocupar mais com esse clube do que com o seu; a sua intenção era demonstrar que pessoas do outro clube passavam ainda mais tempo a falar do seu clube do que ele sobre o clube delas.

Rogério Casanova

Antropocentrismo à lagareiro

Desde tempos imemoriais que membros da espécie humana adquirem um humilde e salutar sentido de perspectiva através da contemplação do mundo natural. Confrontados com esplendores diversos - o ciclo incessante das marés, a luminosidade dispersa do firmamento, as peregrinações em massa de aves migratórias -, a reacção adulta normal é pensar: "Quão insignificantes são todas estas coisas comparadas comigo!" E temos toda a razão. A galáxia mais espectacular é incapaz de escrever má poesia sobre si própria. A borboleta mais exuberante não consegue organizar fotografias suas em subpastas de "Os Meus Documentos". Quem inventou os vários significados da palavra "interessante" tem, por definição, muito mais interesse do que todas as coisas que lhe interessam. O resto da realidade tem imensa sorte em nos ter por perto, e nem sequer nos agradece (o agradecimento foi outra maravilhosa invenção nossa, tal como os pronomes pessoais e possessivos).