Rogério Casanova

Rogério Casanova

Os autodidactas da realidade

Nunca vi nada assim..." "São imagens indeléveis... inacreditáveis." "Estamos a testemunhar algo histórico." Não foi a maior ou sequer a mais interessante das várias dissonâncias que pontuaram a tarde televisiva de quarta-feira, mas foi talvez a que mais realçou a sua natureza de tarde "televisiva": o facto de o comentário na CNN ser uma reprodução exacta das mesmas coisas que o comentário na CNN diz quatro ou cinco ou dez vezes por ano. Se é verdade que algumas das imagens que o espectador da CNN estava a ver eram de facto "inacreditáveis" e "históricas", também é verdade que algumas das coisas que o espectador da CNN estava a ouvir eram repetições de coisas que já tinha ouvido noutras ocasiões - o incêndio em Notre-Dame, estátuas a cair ao chão ou um dos múltiplos ciclones que fustigam anualmente a costa da Florida.

Rogério Casanova

A Liga das Opiniões Extraordinárias

Apesar de todo o tempo que dedicam nos bastidores a operações mundanas como elaborar regimes de abdominais e planear dietas, ou a gestos mais esotéricos como inverter triângulos e imaginar falsos noves, um treinador de futebol é avaliado essencialmente de acordo com as suas duas funções mais visíveis e fáceis de assimilar: 1) seleccionar os jogadores para um jogo e gesticular enquanto eles ganham, perdem ou empatam; 2) encarnar uma "personalidade" na televisão e falar sobre o que aconteceu no jogo anterior ou o que pode acontecer no jogo seguinte.

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Palmeiras desarrumadas

Wild Palms, uma mini-série produzida por Oliver Stone em 1993, foi transmitida como Palmeiras Bravias pela RTP, e repetida em Portugal pelo menos mais duas vezes: em 1999 pela TVI (no seu horário "nobre" da altura para ficção estrangeira: as madrugadas de domingo), e três ou quatro anos depois pela SIC Radical. As memórias que terá deixado a espectadores nacionais são necessariamente vagas e fracturadas: talvez a recordação difusa de um rinoceronte numa piscina, ou de uma criança vestida de marinheiro a mutilar um adulto. Ao contrário do que sucedeu com outras séries da mesma altura, nunca ascendeu ao estatuto de "culto" nem acumulou massa crítica suficiente para ser nostalgicamente revisitada. Há várias razões para isto, mas a principal é que Wild Palms, enquanto série de televisão, era bastante má, e continua a ser bastante má: o tempo não fez nada por ela nesse departamento. Por outro lado, é hoje muito mais interessante do que quando se estreou, por motivos quase totalmente alheios a si própria.

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Mudar de canal

As eleições, regra geral, são engraçadíssimas. Não o acto de votar em si, que para ser engraçado precisa de um tratamento da escola "poesia marciana" (em que o gesto de enfiar um papelinho numa caixa com um buraco é despojado de contexto e reobservado por olhos alienígenas), mas o modo como as acompanhamos. Um conjunto orgânico de filtros mediáticos, hábitos de consumo e contingências logísticas transformou-as numa combinação de evento desportivo - com orçamentos, tácticas, incerteza no marcador - e série de prestígio - com narrativa longa, simbolismo, carga temática. A pergunta retórica exasperada que alguém faz invariavelmente em Portugal por altura das eleições americanas - porque é que nos interessamos tanto por um sufrágio distante? - faz tanto sentido como perguntar porque nos interessamos mais por filmes ou séries americanos do que pela última produção do teatro local. Porque sim, porque há na televisão, porque são maiores e mais visíveis do que as outras, porque é aquilo a que toda a gente está a prestar atenção; qualquer resposta tautológica será a correcta.

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Fauna, Flora, Moita e Flores

E o Partido Comunista?" Homens de boina, curvados conspiratoriamente sobre mesas. Fado. Fumo de cigarro. "É um partido sem rumo desde que o Gonçalves foi desterrado para o Tarrafal." "Oh... Dizem o mesmo dos anarco-sindicalistas." Mais fumo. Imenso fumo. "Ninguém se mexe! Isto é uma RUSGA!" Francisco Moita Flores regressou novamente ao passado, com a sua máquina de escrever, a sua máquina de nevoeiro, e a sua fiel colecção de polícias. Em O Atentado (quatro episódios já disponíveis na RTP Play), os polícias não investigam o Estripador de Lisboa, nem elites pedófilas, mas sim o atentado falhado contra Salazar em 1937. Porque se trata de uma "ficção histórica", o primeiro episódio não tem outro remédio senão abrir com um baile. A cerimónia em questão é um casamento. A noiva, filha de um polícia, dança com o seu marido, que também é polícia. São observados por vários polícias, que conversam com outros polícias sobre assuntos policiais. Tratam-se invariavelmente pelo nome completo e dizem uns aos outros aquilo que invariavelmente já sabem. "Caríssimo Baleizão do Passo... então não deixou saudades lá na Polícia Política". "Não... Mandei-os à fava e regressei à PSP." Noutro canto da sala, um polícia de uma das polícias critica a política de convites a polícias de outras polícias. "Tens aqui uma bela festa", diz ao pai da noiva, "mas podias não ter convidado o Baleizão do Passo. Como sabes, ele não deixou saudades". Como sabemos, a maioria das personagens introduz as suas observações com a frase "como sabes"; como também não esquecemos, o resto das personagens responde com frases que começam por "não te esqueças": "Não se esqueça, chefe, que o Agostinho Lourenço é o homem mais poderoso do país, a seguir ao Professor Salazar." O pai da noiva interrompe a música para fazer um discurso. O discurso consiste inteiramente na apresentação das personagens principais, com nome e cargo. "Quero agradecer a presença do Comandante X, do Sargento Y, e também do Capitão Z, que, apesar de ser da outra polícia, é um amigo de longa data." Todas as grandes figuras do regime estão presentes, menos uma. Como dramatizar essa ausência através de diálogo? "Se tivesse outra fillha para casar, podia convidar o Professor Oliveira Salazar." "O... o Presidente do Conselho?" "Sim. Ele não iria recusar um convite de um chefe de brigada da sua polícia preferida." A única dúvida de recursos humanos ainda por esclarecer ao fim de cinco minutos é a que polícia pertence o polícia que acabou de casar com a filha do polícia. "O que é que faz o noivo?" "É nosso colega" "Nosso colega... ponto e vírgula. Ele não trabalha na Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. "Pois não. Trabalha na Polícia de Investigação Criminal." Entretanto, noutro lado da cidade, alguns gatunos tentam aproveitar o facto de todos os polícias do país estarem reunidos no mesmo salão de baile para roubarem automóveis. Um deles hesita. Outro motiva-o. "Tem de ser, Vaz. Sem estes carros, não vamos conseguir matar o Salazar!" Apesar desta motivação, o golpe corre mal. Um homem leva um tiro e reage da única maneira possível: "Ai! Deste-me um tiro, cabrão!" Os planos dos bandidos estão constantemente a correr mal, o que os obriga a encontrarem-se em sucessivos cafés, para conspirarem à meia-luz enquanto incendeiam centenas de cigarros. "A Rua Barbosa du Bocage... a missa de Domingo... a bomba!" Alguém com a alcunha Espeto de Pau é preso por polícias, que o espancam com um espeto de pau. Os conspiradores tentam a todo o custo encontrar outros conspiradores que ainda não saibam o que aconteceu ao Espeto de Pau, mas sem sucesso. "Prenderam o Espeto de Pau!" "Sim, eu sei." O resto da série vai demonstrando que, ao contrário dos bandidos, nem todos os polícias são iguais. Há polícias maus e há polícias bons. Os polícias bons (da PIC) reúnem-se todos no mesmo gabinete. Um deles tem como principal característica ser esperto ("Tu és esperto", informa-o o superior hierárquico). Outro chama-se Arengas, e é engatatão: a primeira cena mostra-o a engatar uma engatada, engatatonamente. O terceiro membro da brigada está permanentemente sentado atrás de uma secretária, e a sua única função é não perceber o que se passa, fazendo perguntas específicas que permitam aos colegas explicar o guião em voz alta ou, em alternativa, não explicar o guião em voz alta ("Não vou discutir este caso contigo. Primeiro, porque não tenho tempo. Segundo, porque tenho mais que fazer"). Os polícias maus (da PVDE) passam o tempo a interrogar prisioneiros recorrendo à técnica oficial dos polícias em séries sobre polícias: gritar muito alto com enunciação perfeita. "FALAS OU NÃO FALAS?" "Eu não sei nada, juro!" "FALA! FALA! ONDE É QUE ESTÁ A BOMBA?" Os oficiais superiores falam mais baixo, devido à pressão exercida nas cordas vocais pela força com que franzem a testa e cerram os maxilares. António Pedro Cerdeira reproduz o seu velho truque assimétrico de franzir apenas um lado da testa, enquanto cerra o maxilar do lado oposto, simbolizando assim a dualidade do Homem. "Obriga-o a falar. Depressa." Fazendo as contas ao número de episódios, este "depressa" deve acontecer lá para o fim do mês. Apesar de toda a urgência artificial, se há coisa que nunca falta aos polícias nas séries sobre polícias é tempo. O mesmo não se pode dizer do planeta, segundo o mais recente documentário de David Attenborough (A Life on Our Planet, Netflix). "Tenho 93 anos", garante Attenborough, embora a afirmação careça de fact-checking (é possível que tenha pelo menos o dobro), "e este é o meu testemunho". As primeiras imagens mostram a cidade de Pripyat: ruínas invadidas por vegetação, edifícios desabitados percorridos por lobos, muitos deles com o número regulamentar de patas. A ideia é partir de um exemplo do potencial humano para o acidente catastrófico e aumentar a escala. O documentário serve também como semi-retrospectiva da sua carreira e dos acidentes de outra ordem (históricos, cronológicos) que a possibilitaram. Imagens de arquivo mostram um jovem Attenborough - talvez com apenas 140 anos - a abraçar gorilas ou a percorrer as florestas da Papua-Nova Guiné. Muitas destas possibilidades de aventura, sugere, estão hoje esgotadas ou pelo menos drasticamente abreviadas. Contadores numéricos (população mundial, níveis de CO2 na atmosfera, etc.) estabelecem uma espécie de cronómetro informal para contar o tempo que resta às espécies ameaçadas, à floresta tropical, à moita, às flores. "Não nos limitámos a arruinar o planeta. Estamos a destruí-lo." Depois de uma carreira a fazer de polícia bom do mundo natural, Attenborough parece agora empenhado em assumir o papel de polícia mau. Uma ou outra sequência evoca o tipo de esplendor visual em que se especializou (um pássaro que parece ter sido construído pela Lockheed Martin e ter um nome de código, e que emite um som semelhante ao disco dos telefones analógicos quando se marcava o 9); outras recuperam o seu talento para a montagem antropomorfizante: um comentário sobre a deflorestação no Bornéu é ilustrado com um orangotango a trepar a uma árvore solitária e raquítica, antes de observar a clareira à sua volta. A cara do orangotango é automaticamente dotada de emoções tão humanas como se falasse com a voz de Canto e Castro, ou estivesse a ser interrogado por polícias: "Eu não sei nada, juro." Escreve de acordo com a antiga ortografia

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Uma pertinente desconstrução das desconstruções pertinentes

Lovecraft Country, que se estreou na HBO Portugal a 17 de Agosto, é uma série de televisão igual a tantas outras nos seus aspectos essenciais: uma descarga controlada de "excelentes" valores de produção, em que um orçamento pesado, mínimos olímpicos de competência técnica, e uma atenção profissional a pormenores de cenário e decoração fazem o trabalho de sapa, compensando a quase total ausência de ingredientes como originalidade, imaginação ou capacidade de criar estranheza. Os seus defeitos e limitações são tão familiares que acabam por ser rasurados pelas exigências simetricamente reduzidas que colocam à atenção do espectador. Os três episódios transmitidos até agora são uma mnemónica dirigida a uma matriz anestesiada: a rede interna de associações e expectativas de todos os espectadores que já reconhecem esta sintaxe visual, atalhos narrativos e maneirismos segmentados a quilómetros de distância, e que os assimilam com a mesma naturalidade com que os leitores de romances assimilam semiconscientemente os indicadores de diálogo ("disse", "declarou", "indagou", etc.). - Lovecraft Country - afirmou solenemente a HBO. - Sim - respondeu o espectador, sem pensar muito no assunto.

Exclusivo

Rogério Casanova

Pânico, pandemia, blá-blá-blá

Tal como o veado de Père David ou o mutum-do-nordeste, o intelectual público costuma ser tratado como uma espécie extinta no seu habitat natural, e que apenas é possível observar em cativeiro: nas listas anuais de "pensadores mais influentes", ou na subcategoria de artigo jornalístico que questiona se "esta-coisa-que-sempre-foi-assim-estará-a-deixar-de-ser-assim?". "O que aconteceu ao intelectual público?" ou "O fim dos intelectuais?", perguntam esses artigos, em média uma vez por ano. Vários depoimentos são recolhidos, de figuras apresentadas como "intelectuais", mas que recusam, com maior ou menor confiança, a designação. Os tempos estão a mudar, explica um. As coisas não são assim tão simples, explica outro. Uma coisa é certa: talvez - conclui o artigo. Entretanto, a ocasião passa e o intelectual público regressa à sua reserva natural e ao cargo que lhe foi atribuído por inerência: um cargo que, no caso português, implica ficar perto de um telefone, a aguardar tranquilamente um convite da Gulbenkian ou de Fátima Campos Ferreira para "pensar Portugal", ou um telefonema de um jornalista a perguntar "o que aconteceu à ideia de Europa?" ou se "a internet é boa ou má?".

Rogério Casanova

A toxicidade e as serras

Mais tarde ou mais cedo, qualquer adepto de futebol, qualquer comentador de futebol, ou qualquer turista de passagem pelo mundo do futebol diz, ou pelo menos pensa, a mesma frase. A frase é "o futebol não é isto" - e normalmente é dita sobre algo que é futebol, e sempre foi futebol. Os "istos" que o futebol não é ocupam um espectro vasto, mas familiar, que vai do mais recente autocarro apedrejado ao guarda-redes que finge uma lesão até se esgotarem os minutos de desconto, passando pelo cliente do café a gritar calmamente um enredo de Le Carré para explicar um fora-de-jogo mal assinalado. O futebol não é aquilo, pensamos (ou dizemos). Antigamente era outra coisa, e é uma pena que já não seja.

Crónica de Televisão

Épater la Borgensie

A palavra dinamarquesa hygge teve o seu ano de glória em 2016, num caso exemplar de internacionalização da marca. Publicaram-se livros inteiros sobre o conceito, o Oxford Dictionary incluí-a na sua lista de vocábulos do ano e foi promovida ao panteão universal das palavras supostamente intraduzíveis, ao lado de outros clássicos da categoria, como a alemã Waldeinsamkeit, a russa toska ou a nossa saudade. Como em todas elas, "intraduzível" significa apenas que muitas vezes não há um equivalente directo, pelo que traduzir é também explicar. E em 2016 era impossível abrir um jornal sem tropeçar numa explicação. Hygge é qualquer coisa como uma sensação de bem-estar, conforto, aconchego. Conjura lareiras, vidros duplos, tapetes felpudos, camisolas de malha, comida caseira e pressão arterial 12/8. Hygge é o que acontece quando tudo o que acontece é agradável, e o conceito foi integrado na manifestação específica de escandifilia universal que atribui aos países nórdicos o monopólio de segredos da felicidade.