Rogério Casanova

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Rogério Casanova

Carpe Diem

No épico anglo-saxão Beowulf conta-se que a Grande Rainha Modthryth, sempre que apanhava um súbdito temerário a olhá-la directamente, mandava de imediato amarrá-lo, torturá-lo e esquartejá-lo. No caso da Rainha da Televisão Generalista (©) estas restrições bárbaras não se aplicam: os súbditos não só podem olhá-la directamente como muitas vezes não têm outro remédio. Podem olhá-la directamente no quiosque, podem olhá-la directamente no blogue, podem olhá-la directamente no Instagram, e podem olhá-la directamente no ecrã - de manhã, ao fim da tarde, e até ao sétimo minuto do Jornal da Noite (SIC) de segunda-feira, altura em que Rodrigo Guedes de Carvalho interrompeu pacientemente o alinhamento ("já vamos continuar a perceber como correu o início deste ano lectivo, mas para já...") e anunciou que "a grande contratação do ano" acabara de chegar ao Palácio de Carnaxide, onde vai reinar durante os próximos anos. Anunciou também que a figura contratada pela SIC "por valores nunca dantes navegados" (sic) ia ser submetida a uma "entrevista longa, em que responderá a todas as perguntas que forem jornalisticamente relevantes".

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O Horizonte Internacional do Universo

A Grande Entrevista (RTP3) a Jerónimo de Sousa começou com uma equipa de reportagem a acompanhar o líder do PCP num "típico dia de trabalho": o líder do PCP a viajar de carro até à Soeiro Pereira Gomes, o líder do PCP a beber um café, o líder do PCP a cumprimentar alguns camaradas, o líder do PCP a olhar de soslaio a câmara com um sorriso nervoso enquanto um deles insulta Mário Centeno, etc. A minipeça terminou no gabinete de imprensa (onde o líder do PCP lê alguns artigos pré-seleccionados dos jornais diários), enquanto a narração nos informa com alguma mágoa que o gabinete pessoal de Jerónimo fica no andar de cima, mas que o pedido para o filmar foi negado pelo Partido. "O gabinete não tem, de facto, nada de especial", garante o líder do PCP. "Você ficaria profundamente desiludido se lá fosse... portanto... verificar... é um gabinete que dá para a função, mas não é nada de especial", reiterou. Mas o desgosto provocado pela recusa era audível, traduzido numa continuidade de mistérios: "... tal como os gabinetes de Álvaro Cunhal e Carlos Carvalhas, também nunca filmados...", revelou a narração, num tom de melindrada curiosidade. Tanto a curiosidade como a recusa contagiam o espectador, que começa a imaginar os segredos escondidos no mágico gabinete, locus de produção laboral, o único sítio onde o trabalhador político pode ser devidamente observado a fabricar política. Um mapa de Lisboa com pontos estratégicos assinalados a vermelho para a futura revolução? Dois tabuleiros repletos de papéis, com as etiquetas respectivas ("direitos adquiridos" e "direitos por adquirir")? Talvez por vingança, a entrevista propriamente dita concluiu com a seguinte pergunta: "Já tirou alguma selfie com o Presidente Marcelo?" A resposta, já agora, foi negativa, o que inclui automaticamente Jerónimo de Sousa numa minoria em vias de extinção.

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Da doca de Santo Amaro às luas de Saturno

Como outros fenómenos climáticos, a vaga de calor produz migrações em massa, com milhares de pessoas à procura de lugares mais confortáveis, onde a vaga de calor não se faça sentir com tanta intensidade e seja possível trocar opiniões sobre a vaga de calor. Respondendo à perturbação no equilíbrio deste delicado ecossistema, alcateias de repórteres selvagens abandonaram de pronto os seus habitats naturais e percorreram o país de norte a sul, privilegiando as áreas com maior concentração de presas. Tal como os crocodilos e outros predadores de oportunidade aguardam que a presa vulnerável se aproxime da água - na praia fluvial de Braga, ou na doca de Santo Amaro - antes de a emboscarem com um microfone à frente da boca, perguntando o que pensa sobre a vaga de calor. "Então como é que tem sido isto com o calor?" "Não se aguenta. Só se está bem na água." "Vou agora perguntar aqui a esta outra senhora... também tem sofrido com o calor?" "Muito. Muito calor!"

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México e os oitavos-de-final: uma história de amor

Após duas semanas de guerrilha subversiva, com uma sucessão de prognósticos incorrectos e estímulos involuntários ao crescimento económico (de Gibraltar), em que cada dia trouxe um gigante caído, uma expectativa destruída ou uma tradição reduzida a pó, é reconfortante assistir ao regresso da normalidade e poder voltar a escrever uma das frases que melhor define a história recente dos Campeonatos do Mundo: o México foi eliminado nos oitavos-de-final. A frase tem uma longa e comovente história. É transmitida de pais para filhos, como uma variante geracional da tocha olímpica.

Diário do Mundial

Opinião de Rogério Casanova: William Carvalho, social-democrata

De todos os prognósticos que podiam ter sido feitos sobre o Uruguai-Portugal, o mais ignóbil - o mais insultuoso - seria prever um "bom espectáculo". Não foram bons espectáculos que nos trouxeram aqui. O Uruguai chegou a este ponto - e refiro-me a um itinerário maior do que a soma dos jogos do seu grupo - não com espectáculos, mas adoptando uma abordagem fanática à pura competência. E Portugal dedicou (cada vez mais se suspeita que involuntariamente) grande parte dos últimos três anos a purgar quaisquer possibilidades adjectivais, reduzindo tanto os seus métodos como os seus triunfos a uma gigantesca tautologia: isto funciona através do seu funcionamento, ora atentem, por obséquio, nesta taça que aqui temos.

Diário do Mundial

Instruções Para Dizer Adeus

A oportunidade de observar variações estilísticas fundadas sobre uma tradição com continuidade no tempo será talvez o apelo mais forte do futebol internacional. Tendemos a ver uma identidade nacional, ou pelo menos a nossa ideia caricatural da mesma, traduzida no relvado, mesmo quando as forças concertadas da homogeneização tornam essas ideias irreconhecíveis. Mas se formos realmente dedicados à procura de estereótipos nada disso nos incomoda, e tendemos a fazê-lo não só com as equipas, mas com os respectivos adeptos. Tudo isto, como é óbvio, é o jogo das generalizações - e todos sabemos como são as generalizações.

Diário do Mundial

Dia de São Estereótipo

Durante largos minutos temeu-se o pior. Quando a Suécia inaugurou o marcador no Estádio Olímpico de Sochi, o cenário de o campeão em título ficar matematicamente afastado do Mundial logo ao segundo jogo (como acontecera à Espanha em 2010) tornou-se uma possibilidade real. Foi um momento alarmante e todos percebemos que só com muita calma e contenção se poderia evitar a consequência mais previsível e devastadora de tamanha calamidade: um dilúvio global de alusões jocosas à Operação Barbarossa.

Diário do Mundial

A amnésia de Modric

Não retirando qualquer mérito aos vários agentes e instituições desportivas responsáveis pelo espectáculo do Campeonato do Mundo (jogadores, treinadores, organização, adeptos, etc.) há um factor insuficientemente apreciado que muito tem contribuído para algumas das mais memoráveis erupções de qualidade dentro das quatro linhas. Refiro-me, como é óbvio, ao sentido de oportunidade dos aparelhos judiciais europeus.