Ricardo Paes Mamede

Ricardo Paes Mamede

António Costa, as vacas magras e a esquerda

A Lusa perguntou ao primeiro-ministro se contaria com os partidos de esquerda na resposta à crise. António Costa respondeu que ficaria muito desiludido se só pudesse "contar com o PCP e com o BE em momentos de vacas gordas". Há duas interpretações possíveis para esta resposta: a primeira é que se trata de um apelo desajeitado a entendimentos à esquerda, para evitar o aumento da conflitualidade social; a outra é que o líder do PS está a posicionar-se para uma alteração de rumo a breve trecho. Sobre isto tenho muito mais dúvidas do que certezas.

Ricardo Paes Mamede

Não, o vírus (ainda) não trouxe o socialismo de volta

Lia-se há dias num editorial do Financial Times: "Será necessário pôr em cima da mesa reformas radicais - invertendo a orientação política prevalecente nas últimas quatro décadas. Os Estados terão de ter um papel mais activo na economia. Devem encarar os serviços públicos como investimentos e não como um peso, e procurar formas de tornar os mercados de trabalho menos inseguros. A redistribuição estará novamente na ordem do dia; os privilégios dos ricos serão postos em causa." O jornal que tantas vezes defendeu a liberalização, as privatizações e a desregulamentação dos mercados antecipa agora a necessidade de pôr tudo isto em causa, num regresso anunciado a uma espécie de social-democracia radical.

Opinião

Aprender a viver com a incerteza radical

O voo de um bando de estorninhos é um espectáculo fascinante. É-o por motivos estéticos, mas também científicos. Não existe um maestro que guie a acção daqueles milhares de pássaros. A coreografia única que produzem em conjunto baseia-se em regras simples de comportamento. Cada ave reage ao que fazem as outras que a rodeiam. O resultado é imprevisível: mesmo que tivesse a inteligência de um humano, nenhum estorninho saberia para onde iria o bando a seguir. Mas a imprevisibilidade - e a enorme complexidade que emerge a partir de regras tão simples - não conduz ao colapso do grupo. O bando mantém-se coeso e o resultado é impressionante.

Ricardo Paes Mamede

A vã busca dos culpados pelos problemas do país

O ministro Augusto Santos Silva é perito em criar polémicas. Manteve o hábito quando disse que um dos principais problemas das empresas portuguesas é "a fraquíssima qualidade da sua gestão". Nas reacções que se seguiram, o debate fez-se por acusações cruzadas, na busca de alguém a quem atribuir as culpas pelos males da economia portuguesa. Dar prioridade à identificação de culpados, ao invés da compreensão de problemas complexos, reflecte um traço cultural-religioso que nos é característico - e que é hoje reforçado pela lógica comunicacional prevalecente. Mas é uma prática que pouco acrescenta e que muito ignora.

Opinião

A solução é regionalizar. Mas qual é o problema?

Mais de duas décadas após ter sido recusada em referendo, a regionalização é outra vez tema de debate. Grande parte dos actores políticos mostra-se favorável à criação de regiões administrativas. Não faltam argumentos para defender a concretização de um objectivo que, para além do mais, está inscrito na Constituição. É menos fácil perceber os propósitos e os cuidados que deveriam guiar esta mudança na forma de governar o país.

Ricardo Paes Mamede

Livrar a função pública das Finanças

É uma das principais novidades na orgânica do novo governo: a tutela do emprego público passou do Ministério das Finanças para o recém-criado Ministério da Modernização do Estado e da Administração Pública. Já não acontecia desde 2002, quando Manuela Ferreira Leite chamou a si este pelouro. Talvez o novo governo queira tratar a função pública como algo mais do que uma rúbrica de custos. Nas últimas décadas não tem sido muito mais do que isso.