Ricardo Paes Mamede

Ricardo Paes Mamede

A direita e os impostos

Abriu a corrida à descida dos impostos. Primeiro o PSD depois o CDS vieram propor que o Estado português abdique de receitas superiores a três mil milhões de euros. Não é surpreendente: a redução da "carga fiscal" tem sido uma bandeira distintiva das direitas. Mas há três problemas. Primeiro, PSD e CDS foram responsáveis há apenas seis anos pelo maior aumento de impostos de que há registo - e não foi por acaso. Segundo, a diminuição das receitas fiscais que propõem tornaria mais difícil resolver os problemas que PSD e CDS acusam o governo de ter descurado. Terceiro, quando se defende uma medida política convém justificá-la - e a justificação que apresentam é menos válida do que pode parecer.

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Tem sido uma forma de reestruturação da dívida

Há cinco anos a reestruturação da dívida pública estava no centro do debate político. Para além do PCP e do BE, vários movimentos da sociedade civil faziam daquela a sua bandeira. Em Março de 2014, um manifesto assinado por sete dezenas de pessoas de diferentes áreas políticas (entre os quais eu me incluo) defendia a necessidade de reestruturação da dívida pública portuguesa, como condição para a retoma do crescimento e do emprego. Hoje quase não se ouve falar no tema. Não é que a reivindicação fosse errada. É que a reestruturação da dívida tem vindo mesmo a acontecer. No ano anterior, em 2013, o Estado português tinha pago sete mil milhões de euros de juros, equivalente a 4,4% do PIB. A expectativa que existia então era de que o peso dos juros na economia portuguesa continuaria a aumentar nos anos seguintes.

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"Contas certas": o bom, o mau e o vazio

Nos últimos dias ouvimos a frase vezes sem conta e tudo indica que continuaremos a ouvi-la até Outubro: o "governo das contas certas". Era difícil ao PS encontrar uma formulação mais certeira para disputar as eleições que aí vêm. Para quem se preocupa com o rigor analítico, a expressão é equívoca - mas isso pouco importa. Mais preocupante é a ausência de perspectiva de futuro que ela contém. Todos queremos que as contas batam certo. A questão é: o que queremos fazer com isso?

Ricardo Paes Mamede

A maior conquista da geringonça

Os anos eleitorais não são bons para fazer balanços. Há demasiados atores políticos interessados em influenciar a perceção do mundo. Mesmo quem se esforça por manter uma distância crítica é afetado pelo ruído mediático ou pelas suas próprias convicções. Por estas e outras razões, a prudência recomenda que se aguarde alguns anos até fazer um balanço rigoroso dos fenómenos políticos. Com todas estas cautelas, há um aspeto que pode vir a revelar-se o maior contributo da geringonça para o desenvolvimento do país: a confiança na democracia.

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Ricardo Paes Mamede

A Alemanha redescobriu o papel do Estado (mas só para alguns)

O ministro da Economia alemão, Peter Altmaier, anunciou uma nova estratégia de desenvolvimento industrial para o seu país. Entre outras coisas, prevê a possibilidade de participação do Estado no capital de várias empresas nacionais. Se tivermos em conta a história do desenvolvimento económico nos últimos 200 anos, não há nada de especial neste anúncio. Já quando olhamos para o que tem sido a União Europeia nas últimas três décadas, isto é um escândalo.