Ricardo Paes Mamede

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O fim-de-semana político para além da táctica

Para quem vê a política como um campeonato de futebol, o fim-de-semana foi espectacular. Numa partida decisiva a jogar em casa, a equipa que lidera o campeonato entrou a marcar. Demasiado confiante, baixou a guarda e o adversário acreditou. O jogo foi para intervalo já empatado e recomeçou com uma pressão crescente sobre o primeiro classificado. Quando a viragem do resultado parecia iminente, o treinador chamou os jogadores e mudou de táctica. Numa decisão de risco, mandou-os avançar no campo. Ao primeiro erro do adversário, a poucos minutos do fim, a equipa da casa marcou, para gáudio dos apoiantes. A vitória no campeonato parece agora mais próxima e ninguém poupa elogios à genialidade do treinador.

Opinião

Para além de racistas

Há tempos vi um vídeo que não vou esquecer tão cedo. É de noite. Vários tipos negros, com camisolas de capuz e ténis, olham à volta agitados. De repente começam a correr, todos na mesma direcção. A câmara mostra então um homem branco já velho, sentado num automóvel, girando a chave da ignição sem sucesso. O homem olha pela janela assustado. Os negros aproximam-se, rodeiam o carro, começam a empurrá-lo. A expressão do condutor é agora de pânico. O plano alarga-se. Percebemos que o carro está parado numa passagem de nível e um comboio vem na sua direcção. Em esforço, os jovens conseguem tirar o carro da linha. O idoso está em choque e os jovens acalmam-no. O condutor sorri-lhes, agradecido.

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5 desejos para 2019

1. Uma nova lei de bases da saúde que defenda o SNS. A prestação de cuidados de saúde à generalidade da população é um dos maiores sucessos da democracia portuguesa. Em poucas décadas foi possível recuperar um atraso civilizacional de mais de meio século, colocando Portugal entre os países de mundo com melhores serviços de saúde. Continuamos a queixar-nos e com boas razões para isso. São horas de espera nas urgências e centros de saúde, semanas de espera por consultas de rotina, meses de espera por algumas cirurgias e anos de espera por um médico de família. Ainda assim, continua a ser nos hospitais da rede pública que os portugueses mais confiam. Estas conquistas não podem ser dadas como certas. Nos últimos 30 anos a saúde assumiu-se como um negócio muito lucrativo, conduzido por interesses poderosos. Já não estamos a falar de consultórios privados ou de pequenas clínicas, mas de grandes grupos económicos que prosperam na razão directa da degradação dos serviços públicos. Em 2019 vai discutir-se uma nova Lei de Bases da Saúde. Que sirva para assegurar um Serviço Nacional de Saúde que seja público, universal, de qualidade e tendencialmente gratuito.

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Desafios hercúleos em Angola

Na sua recente visita a Portugal, o presidente angolano fez do combate à corrupção a mensagem central do seu discurso. "Quando nos propusemos a combater a corrupção em Angola sabíamos que era preciso coragem, porque estávamos a mexer com o ninho do marimbondo, e a picada da vespa é dolorosa", disse João Lourenço. Na verdade, o nível de corrupção é apenas um dos muitos desafios difíceis que a sociedade e as autoridades angolanas enfrentam.

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Prevenir o populismo em Portugal

O jornal britânico The Guardian decidiu estudar a fundo os populismos na Europa. Para tal pediu a 30 cientistas políticos de várias universidades do mundo para classificar os partidos que concorreram a eleições legislativas nacionais. De seguida, somou os votos das formações consideradas como populistas em cada ano e analisou a sua evolução ao longo das últimas duas décadas. Concluiu assim que entre 1998 e 2018 o peso eleitoral dos populismos no Velho Continente passou de 7% para 25%. Portugal surge neste estudo como uma das pouquíssimas excepções onde o populismo não teve até aqui qualquer sucesso eleitoral relevante. Duas questões se colocam: a que se deve a excepcionalidade lusa? E o que pode ser feito para prevenir o vírus de chegar a Portugal?