Raúl M. Braga Pires

Raúl M. Braga Pires

Níger: na tomada de posse do presidente Mohamed Bazoum

O Níger assiste hoje à tomada de posse do recém-eleito presidente (PR) Mohamed Bazoum (55,75%), sendo que "na véspera", na noite de 30 para 31 de Março, assistiu a uma tentativa de golpe de Estado, liderada por um grupo de militares que não passou das imediações do palácio presidencial, no bairro do Plateau, uma espécie de "Restelo de Niamey", onde se concentram os serviços da presidência e outros centros do poder nigerino.

Raúl M. Braga Pires

Qatar 2022 e o reverso da medalha

O próximo Mundial de Futebol está praticamente à porta. Digo-o desta forma porque o tempo, para mim, tem passado mais rapidamente em tempos de confinamento. Nunca fui tão produtivo como agora, talvez por ter de inventar entretenimento e, quando dou por mim, estou sempre a entreter-me com algo ligado ao que me dá mais prazer, o trabalho e, já é sexta-feira outra vez. O desejo e a ânsia em ultrapassar esta fase também ajudará certamente e a verdade é que o pessegueiro à porta de casa é a árvore mais florida da rua, indicando que o Inverno já foi e que os bichinhos vão começar a comer borboletas para as terem no estômago, só porque sim.

Opinião

Sahara Marroquino versus Sahara Ocidental: De Gdim Izik a Guerguerat

O mês de Novembro é sempre complicado em Marrocos, já que vários acontecimentos históricos se celebram durante este mês. Desde logo a Marcha Verde, de 06 de Novembro de 1975, que este ano comemorou 45 anos. Esse dia marcou o avanço de mais de 300 mil marroquinos que, às ordens do então Rei Hassan II, avançaram sobre o então sahara Espanhol, uma colónia africana sob administração espanhola, à imagem dos actuais enclaves de Ceuta e Melilla, no Mediterrâneo. Hassan II, antecipando a saída espanhola, avança porque em política não há vazios. Enquanto Marrocos avança para sul, a Mauritânia de Moktar Ould Daddah, o primeiro Presidente da agora República Islâmica, avança para norte e, o Sahara fica, grosso modo, dividido ao meio entre marroquinos e mauritanianos. A Mauritânia retira-se em 1979, pelos elevados custos a que a sua presença militar comportava e, também, para não antagonizar marroquinos e argelinos, já que se trata(va) do elo mais fraco entre os três, com quem tem fronteiras e de quem depend(e)ia economicamente. Dá-se também a coincidência de a polisario ter sido fundada em Zouerate, na Mauritânia, em 1973, localidade a partir da qual iniciou a luta armada contra a presença espanhola. Esta retirada mauritaniana é regulada com Marrocos, que passa a administrar efectivamente a totalidade do território actualmente em disputa. De forma telegráfica, as Nações Unidas colocaram o Sahara Ocidental no mesmo patamar de Timor-Leste sob ocupação indonésia e apresentou como solução, em 1991 e em sintonia com Marrocos e com a polisario, a realização de um referendo para a população local se pronunciar sobre se quer ser independente ou confirmar a soberania marroquina. A realização do referido referendo nunca aconteceu e nem faz já parte dos relatórios onusianos sobre a disputa, sendo no entanto esta a âncora, ainda hoje, dos sahraouis independentistas. Outro acontecimento recente do "Novembro sahraoui" foi Gdim Izik em 2010. Tratou-se de um protesto interessante por todas as características envolvidas. A partir de 08 de Outubro um grupo de contestatários sahraouis iniciou um acampamento, 12 km a sudeste de Lâayoune, como forma de protesto pela forma discriminatória como as autoridades marroquinas os tratavam. Este acampamento foi crescendo ao longo de um mês, sendo que era a base nocturna do protesto. Ou seja, durante o dia os aderentes iam para a cidade trabalhar e à noite reuniam-se no acampamento num protesto festivo com todas as características de uma população de raiz nómada. De 5 mil "campistas" na primeira semana, rapidamente se passou a 14 mil em Novembro. Recordo que na altura o pormenor que mais me impressionou foram os cerca de 8 mil sacos de plástico distribuídos diariamente, necessários à recolha de lixo e dejetos humanos. Ou seja, era impossível as autoridades marroquinas não detectarem toda esta logística em movimento, numa das regiões mais policiadas do Mundo. Neste caso, como no da semana passada em Guerguerat, Marrocos voltou ao "modus operandi" do falecido Hassan II, que se explica num dito português. O do "deixa-os poisar", enquanto mediatiza a insubordinação internacionalmente em seu favor e, a 08 de Novembro de 2010, 2 dias após a celebração dos 35 anos da Marcha Verde, pura e simplesmente varreu o acampamento, acabando com o protesto, sem mortos e com 3 mil detidos. Noutra perspectiva, um mês de espera também serve para "fazer a cama" a políticos a substituir, no grande xadrez dominado pelo Palácio, sendo que à época, constatava-se a rivalidade entre o "Walli" Mohamed Guelmouss, o "Governador" do Rei para as regiões de Boujdour (o "nosso" Cabo Bojador), Lâayoune e Tarfaya e o Presidente do Município de Lâayoune, Hamdi Ould Rachid, membro do Partido Istiqlal, no Governo em 2010 e também irmão do Presidente do CORCAS, o sempre polémico Conselho de Aconselhamento Real para as questões sahraouis e quem, de facto, governa o Sahara Marroquino. Ou seja, o caso Gdim izik, no contexto da política interna marroquina demonstra que há um início de acampamento, um durante e um pós-acampamento. Ora após o desmantelamento deste, os que conseguiram fugir não foram deserto adentro, regressaram à cidade e, em fúria, destruíram tudo o que puderam, porque as forças de segurança estavam concentradas na protecção do aeroporto! Porque será? Em quem caiu o ónus do falhanço à protecção da cidade? No Presidente da Câmara de Lâayoune, irmão do Presidente do CORCAS, em tom de aviso a este último. É só Política, como poderia ser só Rock n"Roll! Antes de esmiuçar Guerguerat, assinalar que em Novembro também se assinala em Marrocos a Festa da Independência no dia 18, apesar desta ter acontecido em Março e Abril de 1956, dos franceses e dos espanhóis, respectivamente. Isto porque no ano anterior à independência, a 18 de Novembro de 1955 o ainda Sultão Youssuf Mohammed (Mohammed V) fez um discurso durante a oração dessa sexta-feira, no qual assinalou que "Marrocos sai agora da pequena jihad para se engajar na grande jihad do desenvolvimento e da democratização". Um ano mais tarde, no mesmo dia, consuma-se oficialmente o fim do Protectorado francês que durou 44 anos, decidindo-se concentrar todas as datas referidas numa comemoração única.

Opinião

Os Acordos de Abraão são como o "Glutão do detergente"

Quem já tem cabelos brancos, ou já não os tem, lembra-se certamente do anúncio dos glutões que iam comendo as nódoas da roupa, enquanto a máquina ia rodando, ou a sabonária fazia do fato-de-macaco bacalhau de molho. Os Acordos de Abraão, são um processo em andamento e os glutões Trump e Netanyahu, após terem comido primeiro os Emirados Árabes Unidos, comeram agora também o Bahrein (Dois Mares, na tradução literal), o que fez a notícia da semana, com assinatura em Washington a 15 do corrente. O próximo será certamente Marrocos e, para breve, apontem! Se bem que para estes últimos, os ganhos serão tão substanciais, que merecerão análise futura e exclusiva. A seu tempo o farei. Voltando a Abraão, ou melhor, aos glutões, a importância destes Acordos históricos deverão ser vistos e analisados abstraindo-nos das figuras de Trump e de Netanyahu e do que representam. Trump quer ser reeleito a todo o custo, o tempo escasseia e, Netanyahu quer escapar da prisão ou, pelo menos, que se prove em Tribunal que não corrompeu, nem foi corrompido e/ou, tendo-o feito, que foi a bem da Nação. A importância do momento é o da quebra de um ciclo baseado na violência e na vingança da honra, pilar do Código Social e Relacional em toda a Região MENA. A lógica e o historial de violência entre judeus e árabes, na Região, foi-me explicada numa imagem por conhecedor profundo das dinâmicas locais e que a resumiu da seguinte forma: "É como se fossem 2 cães a morderem a boca um do outro e acham que quem morder com mais força ganha!". Regularizar as relações num papel assinado, não vai impedir o conflito (e conflito não é guerra), mas esse existirá sempre, já que faz parte da condição humana. Agora, será certamente um passo importante para abrir os espíritos e atacar a origem da "zizania" permanente, que começa logo a ser cultivada nos manuais da Escola Primária, em ambos os lados, com a demonização permanente do Outro. Os dados estão lançados e o que quero mesmo dizer, é que acredito que daqui a uns 20 ou 30 anos, se Deus quiser, estarei ainda numa Universidade perto de si a cantar Hossanas à Política Externa de Trump para o Médio Oriente, da mesma maneira que hoje, as Escolas Realistas das Relações Internacionais a cantam à Política Externa de Richard Nixon, pelos ensinamentos que teve enquanto Vice-Presidente de Dwight Eisenhower (1953-1961) e que lhe deram o traquejo e a visão para visitar a "herética República Popular da China" enquanto Presidente, em 1972. Em 1971 já tinha aliás, enviado secretamente Henry Kissinger em missão importante, para "sentir a temperatura" de Zhou Enlai, o Primeiro-Ministro de Mao Zedong. Como é sabido, a regularização das relações entre americanos e a China comunista tudo mudou. A Coca-cola ganhou o maior mercado de sempre e Taiwan teve que ceder o seu lugar de Membro Permanente do Conselho de Segurança nas Nações Unidas ao "diabo com olhos em bico"!

Raúl M. Braga Pires

11 de Setembro e o que ficou por fazer em 19 anos

Em Portugal, salta à vista uma falha gritante neste contexto e que é a seguinte. 19 anos após acontecimento que marcou indubitavelmente uma mudança de paradigma a todos os níveis, nenhuma universidade portuguesa teve a... nem sei como lhe chamar! Será audácia, será coragem ou será atrevimento? De criar de raiz uma Licenciatura/Mestrado de Estudos Islâmicos, Estudos Árabes, Magrebinos, Mediterrânicos, ou algo do género, aproveitando a moda e o momento que se seguiria e que se poderia hoje comparar ao aumento súbito que os grupos desportivos de bairro tiveram em atletas, logo após a Medalha de Ouro ganha por Carlos Lopes nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984. O meu espanto, é que o momento, há 19 anos, seria de encaixe financeiro garantido para a Academia ao explorar este filão que se abria aos olhos de todos, mas a velha ordem persiste em impor-se nesta "Albânia de intranet". Sim, temos Twitter mas parece que é só para brincar com a vizinhança intra-bairro, que a Baixa-da-Banheira não comunica com a Alta, tribo desconhecida e tudo o que é desconhecido evita-se, quando não, elimina-se.