Raúl M. Braga Pires

Raúl M. Braga Pires

Qatar 2022 e o reverso da medalha

O próximo Mundial de Futebol está praticamente à porta. Digo-o desta forma porque o tempo, para mim, tem passado mais rapidamente em tempos de confinamento. Nunca fui tão produtivo como agora, talvez por ter de inventar entretenimento e, quando dou por mim, estou sempre a entreter-me com algo ligado ao que me dá mais prazer, o trabalho e, já é sexta-feira outra vez. O desejo e a ânsia em ultrapassar esta fase também ajudará certamente e a verdade é que o pessegueiro à porta de casa é a árvore mais florida da rua, indicando que o Inverno já foi e que os bichinhos vão começar a comer borboletas para as terem no estômago, só porque sim.

Opinião

Tinariewn, a música de intervenção touaregue nos Grammy Awards 2021

A música hipnótica dos malianos Tinariewn, Desertos, na tradução literal, confunde-se com a resistência que herdaram de seus pais e avós à presença colonial francesa e, mais recentemente, ao Poder subsaariano e negro que emana a partir da Capital do Mali, Bamako. Negro na cor da pele e também negro nas acções tenebrosas que o Exército Maliano executou durante as décadas de 90, tendo como alvo as comunidades de mouros e tuaregues no norte, vulgo Azawad, vasta região que desde o tempo colonial não esqueceu uma ambição em tornar-se independente do "Mali do Sul". É aliás em consequência deste estado de guerra racial e étnico entre Norte e Sul, que o providencial Coronel Muammar Khadafi entra em cena e garante a paz no seu "quintal das traseiras", abrindo as portas da sua "Jamahiriya"* a jovens que quisessem estudar, a artesãos e quadros que quisessem trabalhar e também a quem quisesse ingressar nas Forças Armadas, formando assim a sua famosa Guarda Pretoriana, que após a sua morte regressou ao Azawad de armas, bagagens e toyotas todo-o-terreno e ainda convencidos pelos franceses de que, em breve, seriam independentes. Não será aliás, por acaso, que ao 9º álbum, de nome "Amadjar", em português, "O estrangeiro de passagem" ou "que passa", os Tinariewn estejam nomeados para a 63ª edição dos Grammy Awards, na Categoria "World Music". A história de "despaisamento" destes 6 magníficos, sempre acompanhados também por vozes femininas, reflecte-se nas letras que cantam tendo por base um sincretismo musical que se apoia na música tradicional tuaregue, no "Chaabi"** marroquino e no "Rai"*** argelino, cujas guitarras eléctricas e percussões fazem de cada tema uma "oração de blues do deserto". Um fadinho eléctrico e ritmado por cabaças e pele de testículo de camelo, portanto, que de forma hipnótica e em crescendo, vai cantando em Tamasheq, as mágoas e esperanças dos "homens azuis", como os franceses os carimbaram, visto a cor original do "Chéche", o turbante, lhes ficar colada ao rosto, por via da transpiração. Tudo isto ecoa no silêncio do vasto Sahara, tendo-se tornado inspiração de resistência e esperança não apenas para os tuaregues com nacionalidade maliana, mas também no Níger, Chade, Argélia e ainda para berberes marroquinos, argelinos, líbios e mouros mauritanos, que mantêm a esperança de um dia verem constituída a Tamazgha, uma Confederação a construir, grosso modo, desde o Mediterrânio até ao Rio Níger, isenta de passaportes, na boa tradição nómada e dos homens livres. É esta a utopia que os Tinariwen alimentam, visto também serem a encarnação moderna de uma figura central na História e na hierarquia social Tuaregue, a do "Griôt", o "Cantador de Histórias", cuja importância para qualquer líder tribal é a de um "Fernão Lopes da tradição oral"! Como nota final, para quem esta banda é desconhecida e lhe queira sentir o gosto, sugiro que procure primeiro pelo tema "Nànnuflày" e depois avance para "Sastanàqqàm" ou ainda para uma desbunda que fizeram ao vivo com os Red Hot Chili Peppers com "Cler Achel", que voltarei ao tema em Janeiro para festejarmos em maior sintonia e regozijo este Grammy, oxalá! *Estado das Massas **Popular (não pimba) ***Folclore

Opinião

A originalidade da Tunísia

A Tunísia cometeu uma proeza no pós-Primavera Árabe, já que aprovou a única Constituição (Janeiro de 2014) do chamado Mundo Árabo-Islâmico que remete a religião para a tutela do Estado e não o contrário, como todas as outras desse mesmo Mundo. O artigo 1º refere, de facto, o Islão como religião da Tunísia, mas não como Religião de Estado, sendo que a referência apenas aparece após definir o país como Estado livre, independente e soberano. Facto é, também, que, mantendo a tradição das "constituições islâmicas", a referência ao Islão tinha obrigatoriamente que aparecer à cabeça deste articulado, por todas as razões, já que a aprovação da mesma dependia do Governo islamista liderado pelo Ennahdha (Renascimento) e também para não dar azo a interpretações erróneas doutros estados dos quais sabia que iria depender economicamente no processo de reconstrução, nomeadamente da Turquia, como hoje depende e, do Egipto, caso a aventura Morsi/Irmandade Muçulmana (IM)tivesse tido a capacidade de se impor e singrar, servindo também de modelo para a região.

Raúl M. Braga Pires

Um "Avante Russo" no Mali. Possibilidade ou ilusão?

A começar, uma informação importante e validada. O ex-PR Ibrahim Boubakar Keita (IBK), encontra-se bem de saúde, tendo sofrido um Acidente Isquémico Transitório (AIT) que, de forma simplista, se pode considerar como um mini-AVC. Ainda hospitalizado, mas em liberdade, já que passou por um mini-confinamento preventivo e sob tutela militar, a partir de 18 de Agosto, o dia do golpe, IBK recupera do referido AIT, encontrando-se livre de perigo e livre também do isolamento a que foi obrigado durante 10 dias.

Raúl M. Braga Pires

Líbano: o que ainda há por dizer?

Já tudo foi dito sobre o assunto, sobre a história da criação francesa de um país-reduto para os cristãos no Médio Oriente, sobre esse falhanço presente nas quotas religiosas que impõem equilíbrios permanentemente no "fio da navalha", sobre o peso do Hezbollah, dos iranianos, dos israelitas e da corrupção endémica nos destinos do país, do choque que se tornou ira quando a poeira assentou e que resultou em manifestações que acabaram na demissão do governo. Falou-se muito também da necessidade de mudança, mas não se falou de futuro. Não se alvitrou ainda sobre como os libaneses chegarão ao futuro. Falou-se na inevitabilidade de futuras eleições, mas não se falou do futuro próximo. Esse mesmo que permitirá aos libaneses virarem a página e terem um sono tranquilo.

Opinião

Arábia Saudita autoriza a condução no feminino

Finalmente, o único país no mundo que não permitia à mulher conduzir anunciou a anulação desta proibição para breve, muito provavelmente para junho de 2018. Esta alteração radical da postura da Casa de Saud, que também inclui o fim das proibições de a mulher frequentar recintos desportivos ou ainda de assistir a concertos de música, deve-se a três fatores fundamentais. O primeiro, é o facto de o novo rei Salman bin Abdulaziz al Saud, entronizado em 2015, querer ganhar o cognome de "o Reformador, o Líder da Mudança", lançando para tal a Visão 2030, um pacote de reformas sociais e económicas tendo em perspetiva uma Arábia Saudita pós-petróleo. É a partir daqui que se explica esta mudança, já que a motivação é económica. Ou seja, a pressão demográfica (2.º fator), com um crescente número de mulheres face aos homens e todas com formação superior, obrigou ao início do que se pode considerar como um processo de "saudização" da mulher (3.º fator), a qual deverá ser um membro ativo na futura economia saudita. Ora, e a partir daqui, poderemos perceber a catadupa de anulações de proibições que aí virão, já que uma mulher para ser um ativo, um vetor económico da sociedade em que se insere, não poderá ter constrangimentos em viajar sozinha nem necessitar da autorização do "tutor" para tal. Prevê-se uma revolução social, bem-vinda, no reino saudita e por isso mesmo esta nova lei só entrará em vigor em junho de 2018, já que há que preparar a máquina administrativa para esta mudança e há ainda que convencer as lideranças religiosas de que uma mulher ao volante não é haram, ilícito. Para tal, certamente que muito será citado o exemplo da primeira esposa de Maomé, Khadija, a rica comerciante que muitas caravanas conduziu de Meca para Damasco e vice-versa.