Raúl M. Braga Pires

Raúl M. Braga Pires

Kais Saied 2% mais legitimado que Abdelmadjid Tebboune!

Esta é a actual anedota magrebina, em referência ao resultado do referendo tunisino da passada segunda-feira, a uma nova Constituição, em comparação com o referendo à "Constituição de Tebboune" na Argélia, em 2020. Esta diferença de 2% não é estabelecida pela votação no "sim" à Constituição, mas na taxa de participação. Na segunda-feira 25, 28,3% dos mais de nove milhões de inscritos, participaram no processo. Tebboune, na Argélia, teve menos 2% de participação popular!

Raúl M. Braga Pires

A NATO no Magrebe/Sahel (depuração)

Na continuação do artigo que publicámos esta semana sob o título NATO no Magrebe/sahel: uma questão de sobrevivência, uma possibilidade, e sendo públicos o acordado e decidido na Cimeira NATO de Madrid, que terminou ontem e que se pode resumir à aprovação das candidaturas da Finlândia e da Suécia e a um novo conceito estratégico, que define a Rússia como "a maior e mais directa ameaça à segurança da Aliança Atlântica", quando no conceito estratégico anterior se definia (a Rússia) enquanto parceiro estratégico, termina com o limbo da indefinição do inimigo objectivo, desde o fim da guerra fria. Desde 1991 até ontem o Ocidente/NATO andou meio perdido no "nevoeiro do consumo", desde o imperativo de estancar o tribalismo eslavo, sem aspas, na ex-Jugoslávia (1991-2001), passando pela "guerra humanitária de Clinton" (Somália, 1993), até à intervenção humanitária, também sem aspas, na Líbia (2011). A Rússia, para muitos "economicamente falida e militarmente obsoleta", como respondeu um colega de curso num exame oral, com chumbo garantido dada a leitura, volta a recentrar o já esquecido e quase científico poder centrípeto da hinterlândia. Moscovo, no centro da Eurásia (a maior massa de terra do planeta), com mapas nas paredes das salas de aula que não deixam dúvidas sobre a sua centralidade, nunca escondeu a sua vontade e poder de sucção da periferia. Por isso mesmo veem no Cabo da Roca a "cabeça da Europa" e não as "nádegas", como nós!

Raúl M. Braga Pires

Mimouna

Relativamente à publicação da semana passada, "Páscoa, Ramadão e Pessach", esqueci-me de referir que a Páscoa Ortodoxa se realizou no passado fim-de-semana e por falta de espaço, não referi que as "pressões de abril" sobre o Secretário-Geral das Nações Unidas, também se enquadram neste momento ecuménico, que poderia no mínimo ter criado um ambiente mais propício para garantir abertura para a ajuda humanitária aos civis "entre a mira e a parede". Isto relativamente à Ucrânia.

Raúl M. Braga Pires

Páscoa, Ramadão e Pessach

A cada 33 anos os três calendários abraâmicos coincidem nas páscoas católica e judaica e Ramadão. O jejum islâmico dura entre 29 e 31 dias, sendo que a Sociedade Astronómica da Tunísia, já vaticinou a possibilidade de o Eid, a Festa do fim desse mês (Ramadão é nome de mês) de privações diurnas, acontecer no próximo dia 30 de abril. No entanto, só se saberá na véspera, com a visualização da Lua Nova, sinal do início do mês seguinte, de nome Shawwal.

Raúl M. Braga Pires

França-Mali e a diplomacia da mandioca!

A acrescentar a toda a tensão existente e crescente entre a Junta Militar liderada por Assimi Goita no Mali e a presença francesa no país, há a assinalar nesta semana a expulsão do embaixador francês, Joel Meyer. Não espanta, a Junta interpretar declarações de oficiais franceses como agressivas e antimalianas, como também não espanta que perante a escassez de açúcar, mandioca e banana nos mercados, veja reacção político-diplomática deste calibre e lá conseguem evitar tumultos sociais por mais um mês ou dois. A população continua na escassez do estômago, mas ganha na ilusão da justiça feita e as dificuldades recalcam-se de novo até ao próximo momento panela-de-pressão!

Raúl M. Braga Pires

Iémen e a "guerra dos livros"

Saltou à vista do observador atento, nesta semana, mais um indício da precariedade da já apelidada "guerra esquecida", entre houthis xiitas zaiditas e os outros, os sunitas. Todos muçulmanos, com os primeiros apoiados pelo Irão e os segundos apoiados pela Arábia Saudita, materializando no século XXI o grande cisma do islão do século VII, após a morte do profeta Maomé. Trata-se portanto, de um cenário de guerra por procuração, que a modernidade apelida agora de proxy, pela proximidade de alinhamentos ideológicos aos patrocinadores e neste caso também, pela proximidade territorial entre os verdadeiros contendores. Irão e Arábia Saudita confrontam-se quase directamente e em terreno neutro, o Iémen.

Raúl M. Braga Pires

Por um Qatar 2022 apenas árabe!

A organização do Campeonato do Mundo Qatar 2022, à medida que os países se foram qualificando, guardou para esta fase a publicação de um cartaz com uma "parede-arcada que não o é" e com três portas abobadadas fechadas que simbolizam a entrada. Frente a essa parede com portas, estão vários jogadores envergando o equipamento oficial de cada país que representam. As portas estão de frente para quem vê o cartaz e os jogadores estão de costas viradas para o público e de frente para as portas em que querem entrar, o Mundial de Futebol, Qatar 2022. Até aqui tudo bem, tudo faz sentido, não fosse a fachada apresentada uma iconografia berbere usada num evento e por um país árabe. Os activistas berberes magrebinos, com enfase para os marroquinos, mobilizaram-se nas redes sociais, contra mais este abuso e aculturação da sua identidade, propondo a formação de um colectivo de advogados berberes que tome em consideração processar judicialmente a poderosa organização deste Campeonato do Mundo de Futebol. Este palco, bem explorado, daria à causa amazigh uma visibilidade ainda mais interessante, ao caminho reivindicativo que esta(s) comunidade(s) autóctone(s) do Magrebe têm tomado e cujo sentido tem visto caminhos cada vez mais académicos e científicos.