Por falar nisso

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Carta a um habitual do Restelo

Já contei esta história mas, esta semana, Pacheco Pereira pediu-me (acho, se calhar estou enganado) para voltar a contá-la. No dia 1 de maio de 1974 cheguei à fronteira de Vilar Formoso vindo de um exílio de cinco anos. O comboio vinha cheio de jovens como eu, e menos jovens, todos arrebatados (muitas bandeiras vermelhas e negras nas janelas, atravessando a Espanha ainda franquista), mas não sabíamos bem o que nos esperava. O comboio parou e na minha carruagem entraram dois tipos fardados de Guarda Fiscal. Disse o mais velho: "Fiquem sentados, um de vós recolha os passaportes de todos e traga-mos." Fui eu quem se levantou e cumpriu a ordem. Dois dias antes muitos de nós tinham ocupado o consulado-geral em Paris e obrigámos o cônsul a fazer-nos um passaporte. Tínhamos emigrado ou exilado a salto, sem esse documento.

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Dos convites que levam às guerras à despedida amarga das lendas

Em 1950, num discurso de jantar para a nata dos jornalistas americanos, no National Press Club, em Washington, o então secretário de Estado Dean Acheson traçou o mapa que a América não deixaria ser pisado pelos comunistas: a linha descia pelo Japão, as ilhas Ryukyus e Filipinas... Esqueçam as ilhas Ryukyus, só a Wikipédia se lembra delas, e o Japão e as Filipinas não vêm ao caso. O importante não foi o dito mas o não dito: Dean Acheson não falou da Coreia. E essa ausência foi interpretada como um encolher de ombros americano, caso a Coreia do Norte tentasse anexar a Coreia do Sul. Ai é?, disse-se em Pyongyang, capital norte-coreana, com um suspiro de alívio. E por isso ousaram atravessar o paralelo 38 e conquistaram Seul, a capital da Coreia do Sul. Seguiu-se uma guerra de três anos, um milhão de soldados e duas vezes e meia mais de civis mortos.

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Desconfie mais, desconfie melhor

No ano passado falei aqui dos rapazes meus vizinhos, nas Torres de Lisboa, onde é a sede do DN. E também da Yupido, a milionaríssima empresa dos tais rapazes. Lamentei então a minha falta de visão. Eu devia ter-me cruzado com os rapazes, talvez no café do bairro. E, como sou razoavelmente soberbo com os remediados mas gosto de ser gentil com os muito ricos, poderíamos ter entabulado conversa, podia ter pintado um clima... E hoje eu seria o biógrafo autorizado do Torcato, do Filipe ou de qualquer dos outros sócios da Yupido. Como disse, falhei o encontro e a ocasião de lhes fazer saber a minha derretida admiração - não os conheci, repito, mas eles não podiam ser senão admiráveis.

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Oiçam Trump a não falar no fuzil AR-15

A crónica A Versão dos Afogados, além de ter dado o título coletivo a uma recolha de textos do Luis Fernando Verissimo, é uma lição sobre a necessidade da teimosia. Não fiques só por aí, ouve outras versões. Ficar por aí, naquela crónica, é engolir como universal o que contam alguns sobreviventes de naufrágios. O barco virou, afundou, encalhou ou explodiu, o que interessa é que o nadador caiu à água, o colete salva-vidas escorregou, as braçadas já esmoreciam, aconteceu o primeiro gole de uma onda, o quase desmaio, o fim inevitável...

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Grande, grande dia o de hoje!

E hoje! É hoje, 12 de janeiro de 2018, dia igual ao do primeiro dia de aula de Rudy Bridges, em 1960. Lembro, Rudy, de 6 anos, entrava na escola primária de Nova Orleães, Louisiana, até então reservada a meninos brancos. Vieram polícias da capital Washington para patrulhar o bairro e quatro guarda-costas para fazer entrar Rudy na escola e para a levar de volta a casa, à tarde. À porta, uma multidão de pais brancos insultava a menina. Lá dentro, no primeiro dia, um silêncio: nenhum coleguinha apareceu. No dia seguinte, um pai branco trouxe a filha, logo outros se seguiram e o mundo retomou a marcha.

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Nunca é tarde: um conto de Natal

Já passou a quadra, mas não muito, deixem-me contar uma história de Natal. Não sei se se lembram de um pormenor do atentado em Manchester, em maio passado. Dele eu só tinha uma vaga ideia - tive de recuperar as histórias nos jornais de então para também eu me recordar. Um bombista suicida fez-se rebentar no pavilhão Arena, no fim do espetáculo de uma cantora para adolescentes - entre as vítimas, 22 mortos e 59 feridos graves, havia várias crianças. A tragédia já banalizada, para a qual não temos explicação, como se pudesse haver explicações para uma pessoa inocente ficar sem pernas porque outra pessoa tinha um caderno de queixas... Estupefactos, agarramo-nos às palavras, de raiva ou de perdão e de reação resta-nos o acender de velas. Que mais fazer? Talvez procurar o pormenor que nos acalme a impotência.

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A Catalunha, nós todos, na véspera de...

No dia 10, o presidente do governo da Catalunha declarou a independência. Ou não. Ou não porque Carles Puigdemont, oito segundos depois de declarar a independência, suspendeu-a. E deu prazos a Madrid para discutir o facto consumado (ou não) da independência suspensa. Senão... Então, o presidente do governo de Espanha, Mariano Rajoy, exigiu a Puigdemont uma resposta clara: declarou ele a independência, sim ou não?

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Espanha é uma matriosca infinita

Para ser imparcial, confirmei que a notícia que se segue é a mesma nos jornais El País, de Madrid, e La Vanguardia, de Barcelona, e saiu na Reuters, agência de notícias londrina. Uma comarca catalã dos Pirenéus, encravada nas montanhas e dedicada a desportos de inverno na fronteira de Espanha com França, ameaça fazer uma avalanche de votações sobre os destinos pátrios. Dizem os jornais que o pequeno Vale de Aran, dez mil habitantes, fará um referendo sobre o que escolher caso a Catalunha se torne independente. E o resultado dirá provavelmente que quer continuar a ser espanhol. No referendo de 1 de outubro, promovido por Barcelona, só 24% dos habitantes de Aran votaram, cerca de metade da participação do resto da Catalunha. E a esmagadora maioria, 84%, rechaçou, então, a independência catalã.

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O Anjo Pornográfico

O brasileiro Ruy Castro vai hoje lançar em Lisboa a edição portuguesa de O Anjo Pornográfico, a sua biografia do brasileiro Nelson Rodrigues. Se fosse anúncio de cerveja poderia dizer-se: provavelmente do maior biógrafo da língua portuguesa sobre o maior cronista da língua portuguesa. Será na Fnac do Chiado, o que sugere uma proximidade. Desce-se a Rua Nova do Almada, vira-se à esquerda. Segue-se pela Rua da Conceição até ao cruzamento com a Rua da Prata e foi lá. Numa manhã do inverno de 1928, alguém à janela da mansarda pombalina viu o dono da Tabacaria chegar à porta, pensou na menina que come chocolates e arrancou uma obra-prima que cabia em duas páginas de jornal. Assim, num repente, uma obra-prima, abusando do tempo do patrão que lhe pagava para fazer traduções comerciais... - a Fernando Pessoa bastou-lhe o génio.

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Trump, o Gajo de Alfama

Eu estava com pressa, ia de mala para Washington, quando fiz sinal ao táxi, no Saldanha. Ele parou mas o velho taxista baixou o vidro da janela como quem não quer ganhar uma bandeirada: "Não posso levá-lo, chefe. Tenho de ir para casa, estão a bombardear tudo, não ouviu?" O rádio do carro falava de ataques. "Não está a ouvir? Ataques por todo o lado e a minha mulher que não responde...", ele tinha o telemóvel na mão, tremia e fazia mais uma tentativa. Eu estava inclinado para a janela, mala ao lado e a precisar de ir rapidamente para a Portela. Ele tinha ar desamparado e apontava-me para o rádio e o seu noticiário sobre ataques... cibernéticos. Pois.