Péssima Companhia

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António Araújo

Bullitt

Dez minutos alucinantes. A perseguição automóvel nas ruas de São Francisco, com a duração exacta de dez minutos e cinquenta e três segundos, é a mais lendária da história do cinema e, quando recordamos Bullitt, é sempre dessa sequência que falamos. Realizado em 1968 pelo britânico Peter Yates, com Steve McQueen no papel principal, o filme parecerá a muitos uma vulgar fita policial, terrivelmente datada, até grotesca. No entanto, Bullitté muito mais denso do que parece, e sobre ele têm sido escritos autênticos tratados em várias línguas, como um, bem volumoso, da autoria dos espanhóis Luis Aragón e Iván Gómez (Bullitt. Un Policía Llamado Steve McQueen. Historia, Análisis, Mito, 2016). Bullitt, sem receio de exagero, é uma obra essencial para compreender a masculinidade contemporânea, as relações homem/mulher, os casamentos e os divórcios, a moda, o sexo, os acidentes de viação que vitimam os adolescentes, até as discussões recentes sobre a malfadada "ideologia de género". Porquê? Por causa do cool.

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António Araújo

A História irónica

Em Janeiro de 1998, quando rebentou o escândalo, Monica refugiou-se em casa da mãe. Na televisão, o Presidente jurava ao país que nunca tivera relações sexuais com "essa mulher, Miss Lewinski". E, para fugir das bocas do mundo, essa mulher, Miss Lewinski, permaneceu algumas semanas enclausurada no apartamento materno, enquanto lá fora dezenas de repórteres acampavam no passeio e milhões de pessoas discutiam o que de oral se passara numa Casa que ainda dizem ser Branca. Que o apartamento da mãe de Monica Lewinski ficava num dos seis edifícios que integram o complexo Watergate é apenas mais uma ironia, das muitas em que a História é fértil. Vários famosos moraram lá, de Plácido Domingo a Mstislav Rostropovich, passando por Robert McNamara, Condoleezza Rice ou Alan Greenspan. Ah, e Elizabeth Taylor, claro, quando esteve casada com John Warner, o seu sexto mas não último marido. Menos famosa, mas não menos influente nas ironias da História, outra moradora do complexo Watergate foi Rose Mary Woods, secretária pessoal de Richard Nixon durante toda a vida, muito antes sequer de este chegar à Casa que ainda dizem ser Branca. Rose trabalhava com ele desde 1951, e permaneceu-lhe fiel até ao fim, contra tudo e todos. Acompanhou-o até à Califórnia após Nixon ter resignado, metendo-se num helicóptero e deixando para sempre aquela Casa, que ainda dizem ser Branca. Por ele mentira descaradamente sobre a destruição das gravações secretas que Nixon fazia das conversas que tinha no Salão Oval, exactamente no mesmo lugar em que, anos depois, Bill Clinton e Monica Lewinski também manteriam conversas de bem funda oralidade. Que o escândalo Watergate tenha sido espoletado por um informador secreto com o nome de código "Garganta Funda" é apenas outra ironia, das muitas em que a História é fértil. Não foi Nixon, note-se, quem começou a gravar secretamente as conversas no Salão Oval, prática começada por Roosevelt em 1940. Mas seria o desastrado depoimento de Rose Mary Woods perante um grande júri em 1974, em que garantiu a pés juntos ter apagado inadvertidamente dezoito minutos de conversas essenciais do caso Watergate, que retirou o pouco que restava da credibilidade do Presidente, precipitando a sua queda. Que a primeira intrusão criminosa no complexo Watergate tenha sido um furto de jóias em 1965, e que esse furto tenha sido cometido no apartamento de Rose Mary Woods, é apenas mais uma ironia, das muitas em que a História é fértil. A ironia maior talvez resida, porém, no facto de o complexo Watergate ter sido desenhado por um fascista. Luigi Moretti nasceu em Roma na via Napoleone III, num apartamento onde morou praticamente toda a vida. Filho natural de um engenheiro - e também arquitecto - de origens belgas, Moretti licenciou-se com brilho na Escola de Arquitectura de Roma. Em 1933, pouco depois de se formar, conheceu Renato Ricci, presidente da Opera Nazionale Balilla, a organização paramilitar de juventude fascista, que serviria de inspiração e modelo à nossa Mocidade Portuguesa. Ricci nomeou-o director técnico dos Balillas e, nessa qualidade, Luigi Moretti concebeu diversos centros da juventude mussoliniana. Em 1937, desenhou o Fórum Mussolini (mais tarde denominado Fórum Itálico), grandioso complexo desportivo de Roma que deveria albergar as Olimpíadas de 1940, com as quais o Duce sonhava ultrapassar em fausto e glória os Jogos de Berlim de 1936. Considerado um dos mais importantes arquitectos italianos do século XX - e, sem dúvida, um dos maiores arquitectos do período fascista -, Moretti participou no concurso para a construção do Palazzo Littorio (ou Casa del Fascio) e concebeu vários edifícios da famosa EUR, acrónimo de Esposizione Universale Roma, planeada para marcar com pompa os vinte anos do regime. Contudo, e à semelhança do que ocorrera com as Olimpíadas de 1940, o deflagrar da 2.ª Guerra deitaria por terra o sonho da Exposição Universal de Roma. Moretti foi também autor de várias casas de hierarcas do fascismo, entre as quais a de Ettore Mutti, o todo-poderoso e impetuoso secretário do Partido Nacional Fascista, caído em desgraça em 1940 e assassinado em 1943, naquele que foi um dos maiores mistérios do período fascista, sobre o qual pairam ainda hoje as mais desvairadas teorias. No seu Segredos de Roma, Corrado Augias recorda-se de brincar em criança nas imediações da casa de Ettore Mutti, na Porta San Sebastiano, de onde viu sair uma fila ordeira de cidadãos romanos que se entregavam, com metódico afinco, a pilhar os despojos da residência do prócere fascista tombado em desgraça - e ceifado à bala no pinhal de Fregene. Edificada junto à Porta Ápia, na Muralha Aureliana, a casa concebida por Luigi Moretti primava pela discrição, sendo lá que Ettore Mutti recebia as suas muitas amantes, entre outros encontros políticos. A moradia de Moretti não ofendia o espaço envolvente, antiquíssimo, e, à parte um ou outro mosaico com a efígie de Mussolini, pouco parecia ser a residência de um fascista concebida por outro fascista. O arquitecto era um homem culto, um bibliófilo apaixonado, conhecedor profundo da história antiga, respeitador do passado e das suas formas. Em 1942, mergulhou numa prudente obscuridade, o que não o salvaria de em 1945 ser detido por colaboracionismo e preso por um breve período na cadeia de San Victor. Logo no final de 1945, abriu novo ateliê de arquitectura e, graças às suas relações no sector imobiliário e no Vaticano, deu redobrado impulso à carreira, assinando inúmeros projectos de hotéis e blocos de apartamentos, além de moradias para magnatas e até a aldeia olímpica dos Jogos de Roma de 1960. Fundou uma revista da especialidade, abriu uma galeria de arte, teve papel activo no planeamento urbano de vários bairros romanos, recebeu vários e prestigiosos prémios. Desenhou edifícios pelo mundo fora, do Canadá ao Koweit, de França à Argélia. Em 1962, concebeu o complexo Watergate, em Washington D.C., onde, dez anos depois, um grupo de meliantes seria apanhado a vasculhar a sede do comité nacional do Partido Democrata. Luigi Walter Moretti morreu em 1973, vítima de enfarte, aos 66 anos, quando velejava no seu barco ao largo da ilha de Capraia. Os historiadores ainda hoje não se entendem sobre a origem do nome "Watergate", mas o facto é que, devido às tropelias de um Presidente e à aselhice da sua fiel secretária, o sufixo "gate" passou a designar tudo quanto é escandaloso, vil ou corrupto. "Monicagate", "Lewinskygate", "Sexgate" são alguns dos nomes do caso que envolveu Bill Clinton e a estagiária de uma Casa que ainda dizem ser Branca. Também entre nós a política e o futebol têm gerado um sem-fim de "gates", tantos que seria fastidioso enumerá-los. Diz-se, e é verdade, que o Watergate marcou um ponto de viragem nas relações dos americanos com a política e que a confiança dos cidadãos no poder nunca mais foi a mesma. É dessa falta de confiança, diariamente alimentada por sucessivos "gates" e escândalos, que surgem os líderes e os populismos contemporâneos, que muitos não hesitam em apelidar de fascistas. Que tudo tenha começado num edifício concebido por um fascista é mais uma ironia da História, das muitas em que a História é fértil.

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António Araújo

Tédio

Em Abril de 1906, Alexei Peshkov visitou a América. Anos antes, adoptara o pseudónimo "Gorki", que significa "amargo", por entender que era sua missão denunciar sem contemplações a terrível verdade da Rússia dos czares. É como repórter socialista que Máximo Gorki viaja até aos Estados Unidos, num tour de propaganda e angariação de fundos. Tudo parecia bem encaminhado: recepção entusiástica de Mark Twain, digressão planeada nas costas leste e oeste, convite da Casa Branca, Gorki é acolhido por milhares de pessoas que esperaram longas horas à chuva pela sua chegada ao Novo Mundo. Recém-libertado dos calabouços de São Petersburgo, onde estivera preso por ter participado na rebelião falhada de 1905, muitos americanos encaravam-no, e à sua causa, com indisfarçada simpatia, considerando que era um imperativo histórico de justiça apoiar os revolucionários russos, da mesma forma que os revolucionários franceses de 1789 tinham apoiado os Founding Fathers e a sua luta pela independência. Gorki reciprocou, proclamando que a América era o país mais democrático do planeta. Seguiram-se banquetes de homenagem em clubes selectos de Nova Iorque ou nas residências de socialistas ilustres e endinheirados, entrevistas aos principais jornais da cidade, palestras ovacionadas. De súbito, a bomba. Descobriu-se que a mulher que o acompanhava, uma antiga actriz do teatro de Moscovo, e que dera entrevistas na qualidade de esposa ("Entrei numa das peças do meu marido, mas abandonei os palcos. Agora sou apenas a sua mulher"), não era afinal a legítima, que ficara na Rússia, à solidão e ao frio. "Madame Gorki", para mais, era - ou tinha sido - casada com um general ultraconservador, do círculo íntimo de Nicolau II. Twain mostrou-se ultrajado, a Casa Branca retirou discretamente o convite, cancelaram-se conferências, esfumou-se o plano de visita à Califórnia. Na América puritana, os responsáveis pelos serviços de imigração chegaram a fazer ameaças de expulsão e os Gorki andaram em bolandas em Nova Iorque, sendo sucessivamente despejados de vários hotéis da cidade. É com esse estado de espírito que o jornalista-escritor visita Coney Island, outrora a península dos konijnen ("coelhos", em holandês), agora o vazadouro hedonista das classes trabalhadoras de Nova Iorque. Aos fins-de-semana, milhares de pessoas acotovelavam-se no areal apinhado ou nas filas quilométricas para atracções e divertimentos colectivos de toda a espécie. Foi lá que surgiu a primeira montanha-russa, colossal, patenteada em 1884. Foi lá que inventaram o cachorro-quente, barato e rápido. Foi lá que, graças à recém-descoberta electricidade, se fazia praia até de noite, por turnos. Foi lá que instalaram a Vaca Inexaurível, posto de abastecimento de leite non-stop, máquina em formato de vaca que funcionava 24 horas por dia. Ou um hotel com a forma de elefante, do tamanho de uma catedral, onde numa das patas gigantescas, de 20 metros de diâmetro, existia uma tabacaria e, na outra, um diorama. Nos domingos de Verão, a praia de Coney Island era o lugar de maior densidade demográfica do mundo. À noite, o Luna Park iluminava-se pelo poder de um milhão e 300 mil lâmpadas eléctricas. Na Cidade dos Anões, onde se exibiam seres humanos de baixa estatura, o frenesi do lucro acicatava a promiscuidade e a luxúria: 80% dos recém-nascidos eram ilegítimos. A Babel capitalista, em suma. Regressado à Europa, é no seu refúgio de Capri que Máximo Gorki escreveu um artigo a que chamou "Tédio", tão-só. Foi o imenso tédio das gentes, a sua indizível melancolia, o que mais o impressionou em Coney Island. Despontava então a civilização dos tempos livres e do ócio remunerado. Junto aos Jerónimos, Eça deparava com um trabalhador de filho ao colo, com a mulher de xale de ramagens, pasmando para a estrada, pasmando para o rio, a gozar pacatamente o seu domingo. Gorki, de seu lado, observava com repugnância as multidões em transe de tristeza, de olhares inexpressivos, que comparou a enxames de moscas pretas. As construções grotescas da "tecnologia do fantástico", como lhes chamou, marcaram-no pela sua "escassez de realidade", patente nas réplicas de Veneza e seus canais, nos pastiches da decadente Pompeia, nos Túneis do Amor, na arquitectura vazia de Dreamland e de outros lugares falsamente oníricos, feitos de papier maché e de miséria. Pairando sobre tudo isso, um tédio constante e morno, quase letal. "O tédio, que brota sob a pressão do indivíduo consigo mesmo, parece converter-se num lento círculo de agonia. Arrasta na sua dança melancólica dezenas de milhares de pessoas e varre-as, formando um monte abúlico tal como o vento varre o lixo das ruas", escreveu Gorki, o "amargo", sempre cáustico e azedo. "A vida é feita para pessoas que trabalham seis dias por semana, pecam no sétimo dia e pagam pelos seus pecados confessando-os e pagando pela confissão", acrescentou. Este desprezo pelas massas exprime bem o dilema do intelectual contemporâneo, que admira o povo em teoria, mas na prática tem por ele uma aversão profunda, arreigadíssima. Máximo Gorki, arauto dos bolcheviques, não se apercebeu de que aquilo que vira em Coney Island era, sem tirar nem pôr, a verdadeira ditadura do proletariado, como bem assinala o arquitecto Rem Koolhaas num livro dedicado a Nova Iorque Delirante. Ou, se quisermos, emergira ali, nos arredores de Manhattan, a rebelião das massas de Ortega y Gasset. Temos hoje horror ao tédio. A nossa atenção e sentidos são permanentemente convocados, estimulados e titilados por um vendaval ininterrupto de notícias divertidas, vídeos engraçadinhos e outros excitantes palermas. Tudo é programado ao milímetro e ao segundo para impedir o ennui e para eliminar os pensamentos melancólicos do nosso espírito, cada vez mais infantilizado. A principal função do polegar oponível do Sapiens consiste agora em deslizar imagens patetas no ecrã de um smartphone. Nas praias e nos cafés, nos jardins ou nas ruas, tudo agarrado ao telemóvel. A toda a hora, de dia e ou de noite, levamos connosco uma Coney Island de bolso, muito portátil. Com isso evacua-se o tédio, decerto, mas perde-se também o seu enorme valor cultural e civilizacional. Sem falar no "ócio criativo", outrora muito apreciado nas melhores universidades inglesas, eram as tardes lânguidas da puberdade que levavam os adolescentes a ler. A ler horas a fio, sob o incentivo do tédio e da circunstância singela, mas decisiva, de não haver nada para fazer, absolutamente nada. Devoravam-se obras quilométricas, intermináveis mas fundamentais, que hoje amarelecem nas prateleiras, esmagadas pelo pó da ignorância e pela sujidade da desmemória. Para um teenager, entre a gratificação imediata de um like e a lenta e densa trama de Guerra e Paz a escolha é óbvia, irrecusável. Sem tédio, perdendo-se a capacidade de lidar com o tédio, é impossível aprender uma língua morta, estudar com afinco o latim ou o grego antigo, repetir à náusea os exercícios de violino ou harpa, gastar os dias a contemplar as nuvens do céu ou as avezinhas dos bosques. Não é por acaso que a Inglaterra, cinzenta e húmida, sempre foi grande terra de birdwatchers. Matámos o tédio, muito bem, paz à sua alma. Mas, com essa morte, matámos também o que restava da nossa cultura humanista, baseada no livro e na leitura, na música dos planetas, no espanto da Natureza. Duvidam? Uma em cada cinco das livrarias registadas no Ministério da Cultura já não existe. Das restantes, apenas um terço reúne os requisitos para ser considerada livraria; e 40% dos livros ali expostos acabarão por ser devolvidos às editoras, por falta de compradores. Depois do tédio, as trevas.Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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António Araújo

A vida violenta no Barreiro, em 1920

No dia 26 de Setembro de 1920, José António Marques levantou-se da cama às 14 horas e 28 minutos. Sabemo-lo com esse grau de exactidão porque José António Marques manteve um registo minucioso, nas raias do obsessivo, de todos os acontecimentos da sua existência, passada no Barreiro entre 1900 e 1993. José António começou a escrever um diário aos 15 anos e, salvo alguns hiatos, só parou em 1988. Não é difícil perceber o extraordinário valor histórico e documental desta empresa privada, íntima e ínfima, que o autor nunca pensou dar à estampa mas que a Câmara Municipal do Barreiro e a freguesia de Santo André em boa hora decidiram publicar. O diário relativo ao ano de 1920, meticulosamente organizado por Rosalina Carmona, viu a luz não há muito, e tomara que se editem mais volumes desta obra preciosa, tão comovente.

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António Araújo

Reinaldo, ainda e sempre 

Que os leitores de um jornal o disputassem a murro é algo que faz pensar, tamanha é hoje a crise da imprensa. Que esse jornal tivesse começado em Barcelos ainda mais impressiona. Que se chamasse Jornal do Repórter X é mesmo coisa bizarra. Mas verídica. Junto dos ardinas ou nas bancas de jornais, a freguesia chegava a vias de facto para comprar o periódico dirigido por Reinaldo Ferreira, o mais inventivo repórter português de todos os tempos.

António Araújo

As virtudes da censura

Louvores, muitos louvores, à veneranda instituição censória. Graças a ela, temos hoje entre nós, vivaz e faceto, Monsieur de Chimpanzé, opereta em um acto que, a muito custo, Júlio Verne conseguiu levar à cena nos Bouffes-Parisiens, em Fevereiro de 1858. Foi um desastre. O único exemplar que se conhece dessa "macacada musical", como a define o manuscrito, foi encontrado mais de um século depois daquela fatídica representação em Paris, sendo publicado apenas em 1980, imagine-se. A descoberta foi feita nos arquivos do gabinete da Censura, a quem todas as peças teatrais deveriam ser submetidas. Ignora-se se os censores levantaram qualquer objecção à opereta de Verne, uma vez que o processo administrativo desapareceu, só restando o original da peça. Até o libreto musical se esfumou, crê-se que para todo o sempre. É pena.