Péssima Companhia

No fio da navalha

António Araújo

No fio da navalha

O vírus chegou pouco antes de 2020. Só os jovens o combateram, levando auxílio e mantimentos aos médicos que trabalhavam dia e noite em condições desumanas, arriscadíssimas. Ameaçados pelas autoridades, de um lado, e pelos movimentos anticientíficos, do outro, os clínicos faziam o que podiam para salvar vidas em desespero. O excesso de população fizera o mundo mergulhar no caos e, com apoio nas redes de computadores e em sofisticadas tecnologias de vigilância, crescera brutalmente a ameaça do totalitarismo. À espreita, a eugenia: o governo só garantia tratamento a quem aceitasse ser esterilizado, pois entendia que os que estivessem infectados e doentes não eram aptos a ter filhos. Escasseavam os remédios e os equipamentos, mas os médicos organizaram-se num sistema paralelo, quase clandestino, que, bem ou mal, ia funcionando como podia.

António Araújo

Adeus, princesa

Quem passou férias no Algarve a seguir à revolução de Abril lembra-se bem das filas intermináveis, a perder de vista. Enchente de veraneantes, ruptura de abastecimentos, filas para tudo, para o pão, para o leite, para a água, horas passadas naquilo, naquilo a que então chamavam "bichas", termo que mais tarde viria a ganhar outros usos, mais desprezados e desprezíveis. Filas tremendas, quase tão gigantescas como as que, no dia 25 de Abril de 1975, nas primeiras eleições livres da nossa história, riscaram o país de cima a baixo, de norte a sul, fazendo desse sufrágio, convém lembrá-lo, o mais participado em décadas de democracia: 91,66% de votantes, número não mais repetido.

António Araújo

Bullitt

Dez minutos alucinantes. A perseguição automóvel nas ruas de São Francisco, com a duração exacta de dez minutos e cinquenta e três segundos, é a mais lendária da história do cinema e, quando recordamos Bullitt, é sempre dessa sequência que falamos. Realizado em 1968 pelo britânico Peter Yates, com Steve McQueen no papel principal, o filme parecerá a muitos uma vulgar fita policial, terrivelmente datada, até grotesca. No entanto, Bullitté muito mais denso do que parece, e sobre ele têm sido escritos autênticos tratados em várias línguas, como um, bem volumoso, da autoria dos espanhóis Luis Aragón e Iván Gómez (Bullitt. Un Policía Llamado Steve McQueen. Historia, Análisis, Mito, 2016). Bullitt, sem receio de exagero, é uma obra essencial para compreender a masculinidade contemporânea, as relações homem/mulher, os casamentos e os divórcios, a moda, o sexo, os acidentes de viação que vitimam os adolescentes, até as discussões recentes sobre a malfadada "ideologia de género". Porquê? Por causa do cool.