pedro marques

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O princípio do fim de Rio

Passam hoje exatamente três anos sobre as eleições europeias. Uma vitória sólida do PS, o início de um ciclo de derrotas pesadas do PSD em eleições nacionais, que culminou na recente maioria absoluta. António Costa arriscou o sufrágio das suas políticas governativas, colocando dois dos seus ministros a encabeçar a lista. Rio insistiu em Paulo Rangel e a campanha acompanhou o estilo do próprio, negativa e distante das pessoas. No fim, o PSD acabou por ser penalizado pelos próprios erros, saindo com uma pesada derrota que viria a ter repercussões nos ciclos eleitorais seguintes.

pedro marques

União

Pode-se criticar muita coisa ao projeto europeu, mas a verdade é que pela segunda vez em apenas dois anos, confrontada com momentos absolutamente críticos, a União Europeia soube fazer justiça ao seu nome, "União". O primeiro foi a pandemia e a crise por esta provocada. Depois de algumas hesitações iniciais, a UE conseguiu superar as expectativas até dos mais otimistas: quando as vacinas eram escassas, a UE adquiriu-as de forma centralizada, distribuindo-as de modo equitativo; e lançou um grande programa de apoio e recuperação económica, financiado por dívida comum, para fazer face à crise covid. Não apenas estas iniciativas nos livraram de males maiores - imaginemos como seria se tivéssemos de competir com os grandes países da UE na compra das vacinas, ou a dimensão da crise económica e social sem o apoio europeu -, como poderão, espero, vir a ter efeitos mais duradouros na própria arquitetura da União. O segundo momento é a ameaça militar russa sobre a Ucrânia. Após a intervenção da Rússia na Crimeia e na região de Donbass, em 2014, a UE tinha adotado sanções económicas setoriais e contra algumas personalidades russas próximas do Kremlin, mas o impacto das medidas então tomadas foi escasso. A baixa eficácia não se deveu a um erro de conceção. Além da natural dificuldade em aprovar medidas fortes, pois afetariam a economia da própria UE, acresceram as diferentes prioridades estratégicas dos Estados membros. Putin procurou sempre usar esse não alinhamento como arma. Até agora, com sucesso. O setor energético tem sido o mais utilizado. A dependência do gás russo por parte de alguns países da UE não é de agora. Países como Finlândia, Bulgária e Eslováquia dependem quase exclusivamente desse fornecimento. Na Alemanha a dependência é de quase 50%. Quando, em 2011, o governo de Angela Merkel decidiu encerrar as centrais nucleares (as últimas três fecham neste ano), aumentou a dependência da economia alemã do gás natural. O fornecedor mais barato e fiável (pelas quantidades disponíveis e simplicidade logística) era a Rússia. Daí a opção de construir o Nord Stream 2, iniciado em 2018, a que praticamente todos os países europeus se opuseram, por aumentar a dependência europeia da Rússia. Em sentido contrário, Macron anunciou há poucos dias que a França lançará um grande projeto para a construção de centrais nucleares, reduzindo a dependência do gás e as emissões de CO2 - mas sem resposta para os riscos nucleares nem os detritos das centrais. Estratégias diametralmente opostas de países vizinhos, confirmando a predominância dos interesses nacionais sobre os interesses comuns na UE, como se as consequências energéticas e ambientais não atravessassem livremente as fronteiras. Mas eis que Putin decidiu desafiar o Ocidente e, em particular, a União Europeia, que não conhece a linguagem dura das armas e que até foi criada para a evitar. Perante a ameaça concreta de guerra nas suas fronteiras, a UE soube unir-se além dos interesses individuais. Unanimemente aprovou sanções (incluindo parar o Nord Stream 2) que serão tanto mais duras quanto for a agressão russa. Desta vez, a UE não hesitou. Diz-se que é nos momentos difíceis que se revelam os grandes homens. Talvez seja também assim com os grandes projetos. A União Europeia está mostrar sê-lo.