Pedro Marques Lopes

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Opinião

Uma guerra

As fake news não são simplesmente mentiras. Mentiras e boataria sempre existiram e não foi por isso que a democracia liberal não se consolidou e não se transformou no sistema que mais efetivamente defendeu valores como a justiça e a liberdade contra os seus inimigos. As fake news fazem parte de um processo que visa criar perceções, cimentar preconceitos, gerar sentimentos que conduzam à destruição do Estado de direito e de direitos que julgávamos inalienáveis e irreversíveis. Quer-se atingir um limite de que não é preciso propagar mais mentiras. Em que são as pessoas comuns, e não os propagandistas, que se encarregam de fazer as mentiras viver, prosperar e reproduzir-se. Um clima em que já ninguém é capaz de discernir a verdade da mentira, em que a opinião valha mais do que um facto, em que alguém que passou a vida toda a estudar uma matéria esteja ao mesmo nível de alguém que nunca dedicou um segundo ao tema. Contará apenas ter muitos seguidores num qualquer Facebook ou Twitter e isso, já se sabe, é fácil de comprar.

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Pedro Marques Lopes

Tancos e a degradação das instituições

Um assalto a um paiol que estava guardado como se lá estivesse papelada inútil; responsáveis que desconheciam o inventário; um chefe do Estado-Maior do Exército que não percebe que foi no turno dele que tudo aconteceu; um ministro que diz graçolas do género "nem sei se houve assalto"; agentes de autoridade que acham que ter um mandato lhes permite definir a cada momento o que é o interesse nacional; e gente que mente com quantos dentes tem na boca.

Pedro Marques Lopes

Os meus pais e o Infarmed

Os meus pais vieram do Porto para Lisboa há quase cinquenta anos. Ao meu pai foi dada uma oportunidade que não teria se tivesse ficado no Porto e a minha mãe, professora, esteve mais de um ano parada até que conseguisse ser colocada numa escola da zona de Lisboa. Ninguém os empurrou e a sua sobrevivência económica não estaria em causa se tivessem permanecido na cidade onde nasci. Felizardos, eles e muitos outros homens e mulheres que puderam escolher. Outros, muito provavelmente a maioria, tiveram mesmo de rumar para o sul. As empresas em que trabalhavam mudaram as suas instalações, os serviços públicos fecharam e as hipóteses de trabalho foram-se tornando cada vez mais escassas.