Pedro Lains

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Boris Johnson e a pergunta do momento

Afinal, ao contrário do que esperava, a estratégia do Brexit compensou, isto é, os resultados das eleições desta semana deram uma confortável maioria parlamentar ao homem que prometeu a saída do Reino Unido da União Europeia. A dimensão da vitória põe de lado explicações baseadas na manipulação das redes sociais, da imprensa ou do eleitorado. E também põe de lado explicações que colocam o desfecho como a vitória de uma parte do país contra outras, como se constata da observação do mapa dos resultados eleitorais. Também não se pode usar o argumento de que a vitória dependeu de um melhor uso das redes sociais, pois esse uso estava ao alcance de todos e se o Partido Trabalhista não o fez só ele pode ser responsabilizado. O Partido Conservador foi mais profícuo em mentiras declaradas, mas o Partido Trabalhista prometeu coisas a mais, o que é diferente eticamente, mas não do ponto de vista da política eleitoral. A exceção, importante, mas sempre exceção, dada a dimensão relativa da região, foi a Escócia, onde Boris Johnson não entrou. Mas a verdade é que o Partido Conservador conseguiu importantes vitórias em muitos círculos tradicionalmente trabalhistas. Era nessas áreas que o Manifesto de esquerda tradicional teria mais hipóteses de ganhar, pois são as áreas mais afetadas pela austeridade dos últimos nove anos. Mas tudo saiu ao contrário. Porquê?

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A minha preferência

Este país precisa de menos política e mais acção e isso é mais facilmente atingido com um acordo parlamentar para os próximos quatro anos. Como deve ser feito, não sei. Mas é importante que o seja, de modo que não passemos a legislatura a discutir quem vai votar o quê, com quem, quando ou como. Essa é a primeira das prioridades. A segunda é que as políticas dos próximos anos sigam a senda do reequilíbrio das condições de vida dos cidadãos, nos rendimentos, no acesso à saúde e à educação, e em tudo o resto que torna a sociedade mais justa e equilibrada. A terceira e última prioridade é que tudo isto seja feito num enquadramento económico e financeiro sustentado, tal como aconteceu até aqui. A economia seguirá estas prioridades da melhor forma, transformando-se como se tem transformado.

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Lições da greve dos camionistas

Podemos retirar três lições da greve dos camionistas, relacionadas com a moldura institucional, o nível de desenvolvimento infra-estrutural e as relações de trabalho em Portugal. Quanto ao primeiro tema, aquilo que podemos observar a partir de longe é que o país tem um quadro legislativo bem montado, que permite a actuação do governo em matérias sensíveis, como a do abastecimento de combustível. As greves devem ser todas iguais, mas os sectores em que elas ocorrem são diferentes e os governos devem poder agir de forma diferente, consoante o impacto de cada greve no funcionamento do país. Como concluiu Susana Peralta no Público, a greve foi dirigida por "um negócio de outsourcing da luta vendido por" um indivíduo que soube aproveitar as dificuldades salariais no sector. A pessoa em causa pensava que sabia jogar com a lei, mas teve como resposta um governo a recorrer à força institucional que lhe era permitida. Goste-se ou não, foi isso que aconteceu. Essa capacidade de resposta é uma herança do desenvolvimento institucional do país, que não deve ser esquecida - nem as suas consequências retiradas da alçada da supervisão democrática.

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O que fazer com o 10 de Junho?

O que aconteceu neste ano com as comemorações do 10 de Junho foi um desastre anunciado. Na verdade, poucos nas esferas do poder sabem bem como lidar com a data, o que reflecte um problema maior, espalhado pelo país, relativamente ao que fazer com o passado, com a história. Abandonada à sua sorte, a data acabou por servir para uma discussão em círculo fechado, sobre temas mal definidos e pouco relevantes - o que nada tem de irrelevante. Alguma coisa tem de ser feita. Mas o quê? A história é feita de datas, entre outras coisas, e há datas simbólicas que tendem a receber especial atenção das instituições, do público em geral. Portugal tem datas importantes no seu passado, claro, da independência ao fim da conquista cristã e à definição das fronteiras, da revolução de 1383-1385 à chegada de Vasco da Gama à Índia, da Restauração à Revolução Liberal de 1820, ou da Implantação da República ao fim da ditadura do Estado Novo. Estas datas são importantes e estão quase todas no calendário das comemorações nacionais, como devem estar, para o bem e para o mal. São, todavia, datas internas, nacionais, menos importantes a nível internacional.

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Em Davos, algo mudou

De repente, algo mudou em Davos, a conferência em que os ricos e poderosos deste mundo procuram ter voz. Em primeiro lugar e por circunstâncias diversas, faltaram alguns dos principais líderes mundiais. Em segundo lugar, foi dado palco ao novo presidente brasileiro que nada disse e cujo ministro da Economia, amigo de Davos, continuou desconhecido como dantes. Por fim e mais importante, falou-se de empresas e mudanças climáticas, de empresas e filantropia, de empresas e sociedade, mas o que mais sobressaiu foi o desgaste dessa conversa. Ao contrário, o que teve êxito foi tudo o que foi dito sobre taxar os mais ricos. Nada disto é por acaso. Vejamos então em que ponto estamos - com Portugal em pano de fundo.

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Compreender Marques Mendes

Em Portugal, há recorrentemente espaço televisivo para políticos no activo comentarem notícias generalistas, uma especificidade no mundo desenvolvido. Trata-se de uma original mistura entre comentário político e espaço noticioso. Foquemos o caso mais saliente dos dias que correm para tentar perceber a razão dessa peculiaridade nacional. A conclusão é que ela não decorre da ignorância das audiências, da falta de especialistas sobre os temas comentados, ou da inexistência de jornalistas capazes. A principal razão é que este tipo de comentário serve acima de tudo uma forma de fazer política.