Pedro Lains

Onde pára a geração Erasmus? 

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Onde pára a geração Erasmus? 

A opinião em jornais, rádios e televisões está largamente dominada por homens, brancos, nascidos algures no século passado. O mesmo se passa com jornalistas e políticos que fazem a maior parte dos comentários. Este problema está há muito identificado e têm sido feitos alguns esforços para se chegar a uma maior diversificação desta importante função dos órgãos de comunicação social. A diversidade não é receita mágica para nada, mas a verdade é que ela necessariamente enriquece o debate. Quando se discute o rendimento mínimo de inserção, por exemplo, o estatuto, a experiência, o ponto de vista importa não só dentro da dicotomia entre esquerda e direita, mas também consoante as pessoas envolvidas estejam mais ou menos directamente ligadas aos efeitos das políticas em discussão. Esta constatação é demasiadamente banal para precisar de maior reflexão. Acontece que, paradoxalmente ou não, se tem assistido a uma maior diversificação social entre a classe política activa do que propriamente entre aqueles que sobre ela opinam.

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Lições da greve dos camionistas

Podemos retirar três lições da greve dos camionistas, relacionadas com a moldura institucional, o nível de desenvolvimento infra-estrutural e as relações de trabalho em Portugal. Quanto ao primeiro tema, aquilo que podemos observar a partir de longe é que o país tem um quadro legislativo bem montado, que permite a actuação do governo em matérias sensíveis, como a do abastecimento de combustível. As greves devem ser todas iguais, mas os sectores em que elas ocorrem são diferentes e os governos devem poder agir de forma diferente, consoante o impacto de cada greve no funcionamento do país. Como concluiu Susana Peralta no Público, a greve foi dirigida por "um negócio de outsourcing da luta vendido por" um indivíduo que soube aproveitar as dificuldades salariais no sector. A pessoa em causa pensava que sabia jogar com a lei, mas teve como resposta um governo a recorrer à força institucional que lhe era permitida. Goste-se ou não, foi isso que aconteceu. Essa capacidade de resposta é uma herança do desenvolvimento institucional do país, que não deve ser esquecida - nem as suas consequências retiradas da alçada da supervisão democrática.

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O que fazer com o 10 de Junho?

O que aconteceu neste ano com as comemorações do 10 de Junho foi um desastre anunciado. Na verdade, poucos nas esferas do poder sabem bem como lidar com a data, o que reflecte um problema maior, espalhado pelo país, relativamente ao que fazer com o passado, com a história. Abandonada à sua sorte, a data acabou por servir para uma discussão em círculo fechado, sobre temas mal definidos e pouco relevantes - o que nada tem de irrelevante. Alguma coisa tem de ser feita. Mas o quê? A história é feita de datas, entre outras coisas, e há datas simbólicas que tendem a receber especial atenção das instituições, do público em geral. Portugal tem datas importantes no seu passado, claro, da independência ao fim da conquista cristã e à definição das fronteiras, da revolução de 1383-1385 à chegada de Vasco da Gama à Índia, da Restauração à Revolução Liberal de 1820, ou da Implantação da República ao fim da ditadura do Estado Novo. Estas datas são importantes e estão quase todas no calendário das comemorações nacionais, como devem estar, para o bem e para o mal. São, todavia, datas internas, nacionais, menos importantes a nível internacional.

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A austeridade, afinal, acabou ou não?

Desapareceram, aos poucos, os economistas e afins que, por moto próprio ou respondendo a perguntas acertadas, durante anos nos disseram que era preciso austeridade, que era preciso cortar nos salários, nas pensões, nas ajudas à pobreza, nas fundações, nos institutos, no que fosse. Desaparecidos que estão, não podemos contar com eles para responder a uma das grandes perguntas que tem grassado o debate público dos últimos três anos. Todavia, muitos dos que fizeram as perguntas ou criaram o ambiente próprio recordam-nos afincadamente que a austeridade continua, sempre a mesma, sem dúvidas e sem enganos. Acrescentam apenas que é uma austeridade disfarçada e não assumida. Em que ficamos, continuamos ou não com a austeridade?

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Em Davos, algo mudou

De repente, algo mudou em Davos, a conferência em que os ricos e poderosos deste mundo procuram ter voz. Em primeiro lugar e por circunstâncias diversas, faltaram alguns dos principais líderes mundiais. Em segundo lugar, foi dado palco ao novo presidente brasileiro que nada disse e cujo ministro da Economia, amigo de Davos, continuou desconhecido como dantes. Por fim e mais importante, falou-se de empresas e mudanças climáticas, de empresas e filantropia, de empresas e sociedade, mas o que mais sobressaiu foi o desgaste dessa conversa. Ao contrário, o que teve êxito foi tudo o que foi dito sobre taxar os mais ricos. Nada disto é por acaso. Vejamos então em que ponto estamos - com Portugal em pano de fundo.

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"Gilets jaunes": se querem a globalização, alguma coisa tem de ser feita

Há muito que existe um problema no mundo ocidental que precisa de uma solução. A globalização e o desenvolvimento dos mercados internacionais trazem benefícios, mas esses benefícios tendem a ser distribuídos de forma desigual. Trata-se de um problema bem identificado, com soluções conhecidas, faltando apenas a vontade política para o enfrentar. Essa vontade está em franco desenvolvimento e esperemos que os recentes acontecimentos em França sejam mais uma contribuição importante.

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Pedro Lains

As principais vítimas do Brexit serão aqueles que o provocaram

Há quase dois anos, o referendo sobre o Brexit foi obra de um primeiro-ministro e de um governo. Mas foi também obra da situação da sociedade e da economia da Grã-Bretanha, assim como da histórica desconfiança, suposta ou real, daquele país relativamente ao resto da Europa ocidental. Qual dos três factores foi o mais importante na determinação dos resultados do referendo e do caminho incerto que desde então tem sido trilhado é a pergunta que se impõe. Se o factor mais importante foi a má liderança e a má política, podemos esperar que pouco mude no futuro próximo e que as estreitas relações da Grã-Bretanha com os vizinhos europeus continuem fortes e progressivas. Se os outros dois factores forem os determinantes, então muito mudará. A resposta, todavia, poder ser optimista.