Pedro Lains

Subitamente, os economistas…

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Subitamente, os economistas…

Devagar, subitamente, comecei a ler no Twitter economistas de renome internacional a pedir que os governos por todo o mundo gastassem o que fosse necessário para combater a expansão do vírus que presentemente põe a humanidade em perigo. Essa posição é correctíssima, mas tem um lado estranho. Trata-se na verdade de uma posição unânime, abarcando vários tipos de economistas, incluindo aqueles que ainda há pouco tempo defenderam o contrário para combater a Grande Recessão (2008-2018). O crescendo de opiniões expressas nos meios de comunicação social culminou com recente declaração da presidente do BCE "exigindo" a Centeno e ao Eurogrupo que "voltem a gastar mais". O que é ainda mais notável, vindo como veio da anterior directora do FMI. Sabemos que a actual crise sanitária e a crise financeira que a precedeu são coisas diferentes, mas isso não significa que não possamos retirar lições sobre as razões de tão generalizada mudança de opinião.

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Boris Johnson e a pergunta do momento

Afinal, ao contrário do que esperava, a estratégia do Brexit compensou, isto é, os resultados das eleições desta semana deram uma confortável maioria parlamentar ao homem que prometeu a saída do Reino Unido da União Europeia. A dimensão da vitória põe de lado explicações baseadas na manipulação das redes sociais, da imprensa ou do eleitorado. E também põe de lado explicações que colocam o desfecho como a vitória de uma parte do país contra outras, como se constata da observação do mapa dos resultados eleitorais. Também não se pode usar o argumento de que a vitória dependeu de um melhor uso das redes sociais, pois esse uso estava ao alcance de todos e se o Partido Trabalhista não o fez só ele pode ser responsabilizado. O Partido Conservador foi mais profícuo em mentiras declaradas, mas o Partido Trabalhista prometeu coisas a mais, o que é diferente eticamente, mas não do ponto de vista da política eleitoral. A exceção, importante, mas sempre exceção, dada a dimensão relativa da região, foi a Escócia, onde Boris Johnson não entrou. Mas a verdade é que o Partido Conservador conseguiu importantes vitórias em muitos círculos tradicionalmente trabalhistas. Era nessas áreas que o Manifesto de esquerda tradicional teria mais hipóteses de ganhar, pois são as áreas mais afetadas pela austeridade dos últimos nove anos. Mas tudo saiu ao contrário. Porquê?

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A minha preferência

Este país precisa de menos política e mais acção e isso é mais facilmente atingido com um acordo parlamentar para os próximos quatro anos. Como deve ser feito, não sei. Mas é importante que o seja, de modo que não passemos a legislatura a discutir quem vai votar o quê, com quem, quando ou como. Essa é a primeira das prioridades. A segunda é que as políticas dos próximos anos sigam a senda do reequilíbrio das condições de vida dos cidadãos, nos rendimentos, no acesso à saúde e à educação, e em tudo o resto que torna a sociedade mais justa e equilibrada. A terceira e última prioridade é que tudo isto seja feito num enquadramento económico e financeiro sustentado, tal como aconteceu até aqui. A economia seguirá estas prioridades da melhor forma, transformando-se como se tem transformado.

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Lições da greve dos camionistas

Podemos retirar três lições da greve dos camionistas, relacionadas com a moldura institucional, o nível de desenvolvimento infra-estrutural e as relações de trabalho em Portugal. Quanto ao primeiro tema, aquilo que podemos observar a partir de longe é que o país tem um quadro legislativo bem montado, que permite a actuação do governo em matérias sensíveis, como a do abastecimento de combustível. As greves devem ser todas iguais, mas os sectores em que elas ocorrem são diferentes e os governos devem poder agir de forma diferente, consoante o impacto de cada greve no funcionamento do país. Como concluiu Susana Peralta no Público, a greve foi dirigida por "um negócio de outsourcing da luta vendido por" um indivíduo que soube aproveitar as dificuldades salariais no sector. A pessoa em causa pensava que sabia jogar com a lei, mas teve como resposta um governo a recorrer à força institucional que lhe era permitida. Goste-se ou não, foi isso que aconteceu. Essa capacidade de resposta é uma herança do desenvolvimento institucional do país, que não deve ser esquecida - nem as suas consequências retiradas da alçada da supervisão democrática.

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Atavismo institucional

Todos devemos recordar-nos das reportagens televisivas sobre a vinda dos técnicos do FMI a Lisboa, vistos como tendo a salvação do país nas mãos. E todos também devemos recordar-nos do tratamento especial que esses técnicos tiveram por parte do governo de Pedro Passos Coelho, que os instalou num hotel de luxo, onde tomavam regularmente o pequeno-almoço com Ricardo Salgado e outros altos dignitários da economia e da finança nacional. Fica para a ironia da história o facto de os mesmos técnicos terem sido redondamente enganados por Salgado, que deles conseguiu esconder as contas do banco que presidia e que então alegremente forjava. E, claro, todos deverão ainda recordar que o FMI foi chamado a Portugal por uma confluência de interesses privados e partidários, ajudados pela intervenção de supostos especialistas em coisas económicas, apoiados em ideias antigas e ultrapassadas sobre como se devem gerir economias em tempos de crises financeiras internacionais. Tudo isto pode resumir-se à simples conclusão de que os técnicos do FMI e seus aliados se enganaram redondamente em Portugal. Mas, enganaram-se ou, simplesmente, enganaram os mais incautos?

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Compreender Marques Mendes

Em Portugal, há recorrentemente espaço televisivo para políticos no activo comentarem notícias generalistas, uma especificidade no mundo desenvolvido. Trata-se de uma original mistura entre comentário político e espaço noticioso. Foquemos o caso mais saliente dos dias que correm para tentar perceber a razão dessa peculiaridade nacional. A conclusão é que ela não decorre da ignorância das audiências, da falta de especialistas sobre os temas comentados, ou da inexistência de jornalistas capazes. A principal razão é que este tipo de comentário serve acima de tudo uma forma de fazer política.

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As principais vítimas do Brexit serão aqueles que o provocaram

Há quase dois anos, o referendo sobre o Brexit foi obra de um primeiro-ministro e de um governo. Mas foi também obra da situação da sociedade e da economia da Grã-Bretanha, assim como da histórica desconfiança, suposta ou real, daquele país relativamente ao resto da Europa ocidental. Qual dos três factores foi o mais importante na determinação dos resultados do referendo e do caminho incerto que desde então tem sido trilhado é a pergunta que se impõe. Se o factor mais importante foi a má liderança e a má política, podemos esperar que pouco mude no futuro próximo e que as estreitas relações da Grã-Bretanha com os vizinhos europeus continuem fortes e progressivas. Se os outros dois factores forem os determinantes, então muito mudará. A resposta, todavia, poder ser optimista.

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A atrocidade, o mundo e Portugal

Ainda estamos longe de um pedido de desculpas ao mais alto nível, que um dia acontecerá. Até lá, devemos perceber melhor o tráfico de escravos do Atlântico e como Portugal e os portugueses se envolveram. Um caminho que nos ajudará a melhor perceber o mundo global de hoje e reconhecer o quanto foi feito à custa da repressão dos mais fracos. Um passado que nos põe de sobreaviso sobre a necessidade de se resolverem problemas actuais, à escala global. O mundo pode e deve ser diferente.