Pedro Cruz

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Crónica de El-Rei D. Carlos III

Carlos III é um homem preparado para reinar, mas é um príncipe com passado. Por causa das causas que defendeu, dos discursos que fez, das posições que tomou, das convicções firmes que assumiu em matérias como o ambiente, a sustentabilidade, a construção e os apoios sociais. Foi, portanto, um príncipe com opinião e ação o que, como se sabe, está vedado a Suas Altezas Reais. Ter opinião e, com base nela, agir. Ao contrário do que Isabel II conseguiu fazer durante um reinado de 70 anos, porque não se conhecem posições, opiniões, estados de alma ou embirrações da Rainha.

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Encosta-te a mim…

Marcelo está mais leve do que nunca. Como canta o hino de uma juventude partidária, o presidente está, agora, "completamente livre e completamente solto". Já não pode ser candidato outra vez, faltam quatro anos para o fim do mandato e, todos sabem, incluindo ele, que a contagem decrescente já começou. Não que antes de ser reeleito Marcelo não estivesse livre e solto. Mas tinha uma eleição para ganhar, queria transformar em votos a popularidade que tem, e o governo da República era, primeiro dependente de uma geringonça e, depois, minoritário. Com a maioria de Costa, Marcelo está, finalmente, liberto.

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Minoria absoluta

O povo, ou a "arraia-miúda", que Marcelo desenterrou no discurso do 10 de Junho, tem sempre razão. Quando chamado a votar, escolhe de acordo com um amplo leque de critérios, que vão desde a proximidade ideológica, à "tradição" familiar, a identificação com determinado líder político, a influência de amigos ou de referências próximas. E, claro, vota também com a carteira. E vota em quem acredita que vai ganhar. E vota, muitas vezes, não para premiar um governo, mas para castigar oposições. Nas últimas eleições, claramente, o povo votou para castigar os parceiros do Governo durante quatro anos, e que o deixaram cair nos últimos dois. E, pela quarta vez desde o 25 de Abril, decidiu atribuir maioria absoluta a um só partido.

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É fazer as contas

António, chamemos-lhe assim, recebe o salário mínimo nacional: 705 euros. Desconta, como todos nós, para a Segurança Social. No caso dele, 77,55 euros por mês. O valor líquido mensal é de 625 euros. António é licenciado, em marketing. Trabalha como vigilante numa daquelas empresas a que, erradamente, chamamos de "segurança". Faz o turno da noite, da meia-noite às oito da manhã. Quando "tem sorte", fica com o horário da tarde, das 16.00 à meia-noite. Como entra à meia-noite, tem de ter carro próprio.

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O povo de Marcelo

Talvez os cronistas do reino se tenham precipitado quando colaram a Mário Soares o cognome de Presidente-Rei. É certo que os epítetos são dados em função das circunstâncias e, depois de Eanes, Soares foi, na verdade, um presidente verdadeiramente popular. Mais pelo que fez antes de chegar a Belém, do que pelos dez anos em que ocupou o palácio. Mas o verbo fácil de Soares, a sua capacidade de improviso e de relacionamento, as presidências abertas junto do "povo", o carisma que emanava, faziam dele uma figura que se impunha. Que era amada. Quase consensual. Um soberano. Um republicano, laico e socialista que foi um príncipe da democracia. Soares não gostaria, por certo, destas analogias com títulos monárquicos. Mas nunca os renegou. Uma republicana ironia.