Paulo Pedroso

Paulo Pedroso

Pós-geringonça

A geringonça morreu no debate do orçamento de Estado para 2020, o que não quer dizer que o governo não dure uma legislatura nem que o principal foco de equilíbrio que o sustenta não continue a ser o diálogo com os partidos à sua esquerda. Mas significa que esta legislatura será fértil em episódios parlamentares e acordos de geometria variável, acabando com a polarização direita-esquerda da anterior e gerando coligações ad-hoc, numa gestão casuística e tática de todos os partidos. Se o quotidiano pode bem ser gerido assim, há que saber como serão tomadas as grandes decisões, que na legislatura anterior dependeram dos pactos celebrados à esquerda.

Paulo Pedroso

Na Catalunha joga-se Espanha

Aparentemente nada liga a exumação de Franco do Vale dos Caídos e as pesadas penas determinadas pelos tribunais espanhóis contra um grupo de independentistas catalães. Mas os dois acontecimentos estão umbilicalmente ligados ao modo como Espanha fez a sua transição para a democracia, por uma evolução outorgada pelo caudillo e conduzida nos seus primeiros passos em total respeito pelas suas determinações e por homens que foram da sua confiança e escolha. Esses homens co-criaram com todas as forças da oposição, legal e ilegal e com os regressados do exílio, um sistema constitucional e um Estado social e democrático de direito, que levou Espanha à rota do sucesso económico, à modernização social e à União Europeia. Uma história de sucesso, portanto. Mas um sucesso que se fez da manutenção de muitos tabus que uma revolução teria derrubado e produziu soluções sub-ótimas para questões essenciais.