Paulo Baldaia

Paulo Baldaia

Costa ficará refém da ditadura da maioria?

Numa legislatura em que um partido tem a maioria dos deputados, teria sido importante que o Presidente se tivesse concentrado em marcar os limites do funcionamento dessa maioria, bem como em sinalizar a ambição a que deve estar sujeita essa maioria para fazer o que tem de ser feito, "sem álibis, nem desculpas". A ditadura da maioria não se impõem desde já apenas na organização da mesa da Assembleia da República, manifesta-se igualmente na recusa em aceitar que o mundo mudou, de tal forma que o programa do governo não pode ser basicamente o programa eleitoral desenhado há quatro meses.

Opinião

Ninguém quer a verdade inteira

A primeira coisa a fazer quando olhamos para uma guerra é assumir que ninguém tem a verdade inteira e que, mesmo que ela fosse possível, ninguém a queria. Para quê? O trabalho que dá ter de questionar as nossas próprias convicções, admitir que os "bons" também têm muita maldade, viver sabendo que apoiamos quem mata. Numa guerra, o que interessa, estando nós do lado dos sobreviventes, é a dimensão da destruição. Não há guerras OK (Zero Killed). Mais tarde ou mais cedo, todos seremos confrontados com as opções que fazemos. Por isso, mais vale estar sempre à procura da verdade, para que ela não nos surpreenda totalmente, quando já não for possível mudar a marcha.

Paulo Baldaia

A arma que vai derrotar Putin

Os europeus saíram à rua para apoiar a Ucrânia e pedir a paz, os governos apressaram-se a emprestar dinheiro para Kiev comprar armas. Faz sentido? Se olharmos para a guerra com olhos de guerreiros, a resistência armada, mesmo que apenas adiando a derrota, é sempre vista como uma coisa heroica. Mas a mim até o apelo do presidente Zelensky aos cidadãos de Kiev para ficarem e defenderem a capital me custa aceitar, pelo número de vítimas civis que a guerra urbana acarreta. A guerra com armas é para os militares. Derrotar um ditador como Putin, rodeado de uma oligarquia multimilionária, só se consegue com sanções inteligentes. Fechar a torneira do dinheiro é a única coisa que os amigos do czar percebem. É nos Abramovich desta vida que reside a solução para esta guerra. Olhemos para a estratégia que levou ao reforço do poder militar da Ucrânia, pensando que dessa forma evitavam mais imperialismo russo. Depois de todas as armas que compraram nos últimos anos, os ucranianos não passaram a estar capazes de evitar uma invasão dos russos, apenas resistirão mais tempo. O que se torna muito difícil de perceber é que o Ocidente considere (bem) que não faz sentido resolver este conflito pela força das armas, mas entenda que faz sentido emprestar mais umas centenas de milhões de euros para a Ucrânia lhe comprar armas, que os russos se têm encarregado de destruir, à medida que sobem mais uma escala na criminosa invasão do seu vizinho, ex-povo irmão das repúblicas socialistas soviéticas. A Ucrânia tem um PIB a rondar os 140 mil milhões de euros e, nos últimos 15 anos, praticamente triplicou a percentagem dessa riqueza que é gasta anualmente com o seu exército. É fazer as contas, como dizia o secretário-geral das Nações Unidas, no tempo em que era apenas candidato a primeiro-ministro de um país da União Europeia. Eu fiz, de cabeça. Um ponto percentual equivale a mil e quatrocentos milhões de euros, sendo que 4% são 5,6 mil milhões a cada ano que passa, muitos milhares de milhões desde que a Crimeia foi anexada por Moscovo, em 2014. É uma gota de água, comparada com a riqueza que o vizinho gigante gasta para continuar a ser uma potência militar de primeira grandeza. Uma potência nuclear. Quando a guerra faz que tudo o resto que acontece no mundo não mereça mais que um minuto da nossa atenção, os pacifistas são vistos como traidores por ambos os lados da barricada. Só que é preciso não gastar mais tempo a contribuir para a matança, sem fechar de vez a torneira do dinheiro à oligarquia liderada por Putin. Em todos os cantos do mundo, onde esses oligarcas possam ter um cêntimo que seja, é preciso fechar-lhes a torneira. Esta é uma batalha onde não há espaço para tréguas nem paninhos quentes e, sobretudo, não pode haver perdão para qualquer réstia de hipocrisia dos líderes ocidentais. Nenhuma vida tem preço, nem há pragmatismo que justifique hesitações nesta guerra em que Putin acabará inevitavelmente derrotado.

Paulo Baldaia

Voto absolutamente útil para o PS

A esquerda viu utilidade na vitória do PS, não quis passar pelo que passou em 2015, penalizou PCP e Bloco de Esquerda e mantém-se maioritária no parlamento. Do pedido de maioria absoluta para a dramatização de uma direita que se aproximava, a mudança de discurso na campanha socialista foi, está visto, completamente eficaz. Tanto mais que as sondagens que refletiam um empate técnico mostravam igualmente ser possível uma maioria de direita, mas sempre com o Chega. Se Passos Coelho foi a cola para a geringonça de 2015, André Ventura, e a incapacidade Rui Rio em afastar-se sem margem para dúvidas de um partido racista e xenófobo, foi a cola para os eleitores de centro-esquerda se mobilizarem e votarem PS.

Paulo Baldaia

O novo homem do leme

A mensagem de Natal do primeiro-ministro é das melhores peças de propaganda que vamos ter até 30 de janeiro. Confiante de que a Ómicron não fará, nem nada que se pareça, os estragos que o vírus fez há um ano, quando ainda estávamos a iniciar a vacinação, António Costa pode apostar numa mensagem e numa campanha monotemática. O palco que lhe interessa, onde estará sozinho porque já não tem de o dividir com Marcelo, é o palco de onde pode ver toda a oposição no meio da assistência, enquanto ele, "no posto de comando", tudo fará para nos levar à vitória na "guerra que ainda não acabou".

Paulo Baldaia

Malditos pobres que teimam em ser pobres

Um governo que se diz de esquerda e existe há seis anos apoiado por socialistas e comunistas está no seu estertor preso à dura realidade de não ter sido capaz de mudar estruturalmente a vida dos pobres para que os seus descendentes não tenham de continuar a ser pobres. Reduziu-se a taxa de abandono escolar, o que é um ótimo sinal, mas falta conseguir o passo seguinte que é melhorar a qualidade do emprego para pessoas que chegam ao mercado de trabalho com melhores qualificações.