Paulo Baldaia

Opinião

Continuam a marcar-se os (pretos) com ferro quente

Identificar uma pessoa como (preta) é racismo. O erro na notícia da Lusa, em que a deputada Romualda Fernandes é assim identificada, é o insulto não ter sido visto antes de chegar a todas as redações. Reparem, José Pedro Santos não viu o insulto e o insulto ganhou a dimensão de um escândalo, quer do ponto de vista jornalístico, quer do ponto de vista político. Esse é o erro que levou um jornalista sério a assumir a sua responsabilidade e a demitir-se das funções de editor de política. Em muitas páginas online da comunicação social o insulto foi amplificado, porque ninguém viu. É um erro mais comum do que seria desejável, porque tudo é feito a correr.

Paulo Baldaia

"Este país está a precisar é de um militar"

A frase deste título ouvi-a a semana passada num dos fóruns da comunicação social com público. Ela tem mais peso agora que nas milhentas vezes que foi dita quando a pré-falência do país fez regressar o FMI, porque parece haver cada vez mais pessoas com uma genuína vontade de viver num regime autoritário. Trocam a liberdade pelo fim da "pouca-vergonha" que entendem existir, seja na justiça, que deixa "os poderosos viver na impunidade", ou na falta de segurança, que acontece por haver "pessoas diferentes (imigrantes ou ciganos) que se recusam viver como nós".

Paulo Baldaia

O maior perigo para Marcelo é Marcelo

Marcelo é Tom Cruise em Minority Report, agindo preventivamente para nos salvar do mal. No caso do Presidente, para salvar o país da insensibilidade social do governo, de coligações negativas da oposição, do vírus, do que mais vier como ameaça e da própria Constituição quando ela atrapalha o melhor país do mundo com os seus maravilhosos cidadãos. O problema será quando Marcelo nos tiver de salvar do próprio Marcelo. Não vai ser bonito de ver quando descobrir que o maior defensor da estabilidade entrou no segundo mandato convencido que quer, pode e manda, promovendo a instabilidade mais do que defendê-la. Estará Marcelo preparado para perceber que se está a contrariar a si próprio?

Paulo Baldaia

Marcelo não quer ser o boneco do ventríloquo Costa

A solidariedade institucional que Marcelo prometeu total, enquanto durar a pandemia, não servirá para reduzir a sua capacidade de influência. Fica o primeiro-ministro com a certeza de que este segundo mandato será, como sempre foi com outros presidentes, bem diferente e com propensão para ser mais conflituoso. Também não vale a pena olhar para o episódio da promulgação dos três diplomas com a certeza de que ele representa uma viragem de 180 graus na relação entre os palácios. É só Marcelo a deixar claro que mantém intacta a sua independência. Veremos o que acontece quando o Presidente da República recuperar a sua inteira liberdade, mais ainda se nesse momento houver igualmente uma dificuldade maior do PS para encontrar apoio à sua esquerda.

Paulo Baldaia

Ou fazem caminho ou chama-se o bloco central

O encontro de Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos confirmou uma fragilidade que se espera poder vir a resultar num combate sem tréguas, sem o qual os dois partidos correm o risco de perpetuar o Partido Socialista no poder. Por muito que procurem cantar vitória, Rio e Rodrigues dos Santos perceberam que as presidenciais os fragilizaram e encenaram um murro na mesa que volta a colocar o Chega no centro das atenções, mesmo que pela decisão de o excluir da aliança autárquica.

Paulo Baldaia

Eclipse à esquerda favorece Costa

Há cinco anos, contra Marcelo Rebelo de Sousa, a esquerda teve mais de 40% dos votos e a direita ganhou à primeira volta. Desta vez, Marcelo foi o candidato do bloco central e a esquerda que entendeu ir a votos ficou-se pela metade. PCP e Bloco quiseram marcar terreno e o tiro saiu pela culatra. A agravar o erro estratégico de comunistas e bloquistas, a consolidação da extrema-direita reduz-lhes a quase nada o espaço de manobra para afirmar opções políticas que possam pôr em causa a estabilidade política. Uma maioria de direita já não é impossível e será tão mais provável quanto mais a esquerda se mostrar dividida.

Paulo Baldaia

Acontece que o dinheiro é do povo, meus amigos

Vocês querem ver que os deputados perderam a cabeça e colocaram Portugal, de novo, à beira do abismo onde acabará por cair, perdendo, definitivamente, o direito de ser olhado com respeito por uma comunidade internacional que, verdadeiramente, só obedece aos famosos mercados? É, aconteceu! Aprovaram uma norma no Orçamento do Estado que impede o Governo de prever uma abertura dos cofres do Terreiro do Paço, lá para maio, e retirar mais 476 milhões para confortar os donos do Novo Banco, por desvalorização de ativos.

Paulo Baldaia

Rioísta me desconfesso

Confessamos pecados, praticados em atos, pensamentos e omissões, e transportamos para o domínio público o que tínhamos até então guardado em segredo, mais ou menos, disfarçado. Foi o que fiz em agosto de 2013, neste mesmo jornal, em artigo a que dei o título "Rioísta me confesso". Nesse texto, tornei público o que era evidente para a maioria das pessoas (jornalistas e amigos) que comigo partilhavam o dia-a-dia profissional, mas também para os que me lessem ou ouvissem com alguma regularidade: eu vejo em Rui Rio uma forma diferente de estar na política.

Opinião

Morte religiosamente assistida deixa de ser obrigatória

Portugal está em vias de passar a ter a morte medicamente assistida como opção à, até agora obrigatória, morte religiosamente assistida. Como vão ficar sem o monopólio, numa hipocrisia sem tamanho, os que não querem a eutanásia por motivos religiosos queriam um referendo, mas só estariam disponíveis para aceitar o resultado desse referendo se o povo votasse maioritariamente contra a eutanásia. Um dogma é um dogma e nenhuma igreja deixa que os seus fiéis se juntem aos infiéis para decidir o contrário do que é suposto ter Deus decidido em nome de todos.

Paulo Baldaia

Enxotado como cão com pulgas

O episódio do apoio do primeiro-ministro a um candidato à presidência do Benfica mostrou, uma vez mais, que os interesses dos homens do futebol prevalecem sobre o interesse geral. O mais importante acabou por ser a defesa de Luís Filipe Vieira. Já António Costa podia ser tratado como acabou por ser, enxotado como cão com pulgas. Não é de excluir (é até muito provável) que a expulsão dos políticos da comissão de honra tenha sido concertada, mas imaginar que o primeiro-ministro se deixou subalternizar deve deixar-nos ainda mais perplexos. Política e futebol são como água e azeite, não se misturam. Como a água, a política é mais densa e sempre que alguém insiste em misturá-los acontece que o futebol, como o azeite, fica por cima. A perversidade destas relações revela-se nisso mesmo, na pouca importância dos representantes do povo quando aceitam fazer parte do séquito.