Paulo Baldaia

Paulo Baldaia

O governo falhou e é preciso dizê-lo

Eduardo Cabrita, ministro com telhados de vidro, a acusar a oposição (de direita) de não ter dito nada quando se flexibilizaram as regras no Natal e a sentenciar que, por isso, não pode criticar agora, é uma nova forma de censura que levada a sério iria mudar a política para sempre. Ficaria a oposição obrigada a apresentar alternativas para tudo o que fizesse o governo, alternativas que teriam de ser acompanhadas de crítica fundamentada às propostas do executivo, para que essa crítica pudesse ser repetida no momento que o governo falhasse. Viveríamos em berraria constante.

Paulo Baldaia

Ai, se fosse com o governo do Passos...

Não conheço frase politicamente mais irritante do que aquela que agora utilizo para título. Ela pressupõe que há um tratamento diferenciado e generalizado entre os jornalistas e os comentadores para governos de esquerda e governos de direita. Mais grave ainda, de acordo com os que passam a vida a repetir essa frase, essa diferenciação é persecutória e baseia-se no preconceito de que a direita tem culpa em tudo e a esquerda não tem culpa em nada. Basta ver com isenção a isenção que se reclama para perceber que as coisas não são bem assim, mas, convenhamos, às vezes parece que a coisa corre mais molenga quando são os socialistas que estão sob escrutínio.

Paulo Baldaia

PSD troca a sua história por um prato de lentilhas

Causa-me enorme repulsa ver o PSD, mesmo que apenas nos Açores, aceitar o apoio do Chega para formar uma geringonça em que a velha AD (PSD, CDS e PPM) é apenas a pele do cordeiro com que o lobo vai atacar a democracia, disfarçando-se de democrata. O anúncio não deixa margens para dúvidas, o acordo é feito com base em propostas populistas e isso revela que o PSD, lá como cá, troca parte da sua história por um prato de lentilhas. O poder partilhado nos Açores, com a desculpa da autonomia devida aos açorianos, é muito pouco para que um partido social-democrata (de centro-direita e centro-esquerda, segundo o seu líder) aceite a balela de que é absolutamente necessário reduzir os apoios sociais numa das regiões mais pobres do país, num momento em que o país atravessa a maior crise sanitária, económica e social da sua história democrática. A questão da revisão constitucional também não é de somenos, já que ela poderia permitir ao PSD juntar-se ao PS para fazer a reforma da Justiça que se exige e tantas vezes foi anunciada por Rui Rio. Por este caminho, essa reforma e a redução do número de deputados serão farinha Amparo para engordar o discurso populista que agradará aos eleitores do Chega, mas nada acrescenta à qualidade da democracia. Não parto do princípio de que o Chega não tem o direito natural, por ser de extrema-direita, de fazer parte do sistema democrático em que uma geometria muito variável estabelece maiorias. Longe vai o tempo em que o arco do poder era um exclusivo do PSD e do PS e em que qualquer um dos dois podia chamar o CDS, deixando todos os outros do lado de fora. O que é preciso que aconteça é, no mínimo, que o Chega abandone totalmente o discurso racista e xenófobo. Sem isso, bem pode o Tribunal Constitucional entender que o partido de André Ventura cumpre todos os requisitos para fazer parte do sistema democrático, os que são verdadeiramente democratas é que não podem ficar descansados. Não vale a pena, no entanto, querermos acertar contas com a democracia, queixando-nos dela porque ela tem uma amplitude tão grande que até cá cabe a extrema-direita que floresce nos Açores, no resto do país, na Europa e em muitas outras partes do mundo. Faltam estadistas, políticos de grande calibre que saibam perceber a necessidade de integrar os extremismos e que saibam igualmente traçar o caminho que responde às necessidades e inquietudes de todos os que se dispõem a votar nestes partidos. Podemos querer livrar-nos do Chega e de André Ventura (já agora, convinha que as televisões deixassem de procurar audiências dando cobertura a tudo o que faz o grande manipulador), mas não podemos livrar-nos dos seus eleitores, porque eles são o povo, que em democracia é o soberano. Os eleitores do Chega não são todos estúpidos, racistas e marginais, a maioria serão pessoas deserdadas por este regime que todos defendemos, mas que não encontrou resposta para eles. A velha frase "a democracia é o menos maus dos sistemas políticos que se conhecem" só é verdade para quem tem o mínimo para viver uma vida com dignidade, para todos os outros é o pior dos sistemas políticos. A história está carregada de ditaduras que começaram muito democraticamente. Jornalista

Paulo Baldaia

Valha-nos Nossa Senhora da Nazaré

Nós somos bons a reagir, protestar, refilar, remendar, remediar, refazer, improvisar e inventar. Não nos peçam é para prevenir, isso tira o salero à vida. A prevenção não é uma característica portuguesa. Prevenir é evitar que alguma coisa aconteça e, se não vai acontecer, então é melhor não fazer nada. Acontecendo, reagimos, protestamos, refilamos, remendamos, remediamos, refazemos, improvisamos e inventamos. Não nos deixa mais descansados ouvir o segundo na hierarquia do governo, Pedro Siza Vieira, dizer ontem que o governo irá "avaliar melhor onde ocorrem com mais frequência os contágios". Valha-nos Nossa Senhora da Nazaré, padroeira da vila e, provavelmente, das ondas gigantes, como esta que anda a espalhar contágios de norte a sul de Portugal. A esta altura do campeonato, o governo ainda vai "avaliar melhor"? Nesta altura do ano, a praia da Nazaré dá-nos ondas tão grandes que o mar atrai os melhores surfistas do mundo. Na água, apesar do imenso perigo, tudo corre como previsto e com grande profissionalismo. Com a pandemia a atingir recordes todos os dias, o pior é o que se passa em terra, em locais onde as grandes ondas não chegam mas a vista tudo alcança. As imagens não enganam, as ondas são gigantes, as pessoas incumpridoras e a autoridade reativa. Uma sinédoque perfeita para explicar o mar revolto em que vivem as zonas mais urbanas do país. Já sabíamos quando desconfinámos, em abril, que iria haver uma segunda vaga da pandemia. Estava prevista para o inverno, chegou no outono e apanhou-nos como uma onda gigante da Nazaré apanharia os distraídos que entrassem no mar com uma prancha de bodyboard. Sem plano, andamos desorientados a ver o número crescer todos os dias. Para este sábado está marcado um Conselho de Ministros extraordinário, com a covid-19 como tema único, já depois de ontem o executivo ter ouvido os partidos e os parceiros sociais. Esperamos todos que saia dessa reunião um plano para o imediato e para o curto e médio prazo. Até agora, quem tinha a obrigação de organizar a defesa do país andou a apanhar bonés. Sempre a correr atrás do prejuízo, sem saber o que fazer no imediato mas já a testar a paciência dos portugueses, preanunciando um confinamento nos feriados da primeira quinzena de Dezembro, para fazer de conta que no Natal e na passagem do ano estará tudo bem. Por amor da santa, orientem-se! Apostem na prevenção, defendam-se na legalidade para poder a cada momento avançar com as restrições que a realidade impuser. Defendam-se e defendam-nos, criando um catálogo de medidas e os critérios com que elas serão aplicadas. Mas não se esqueçam de que é preciso que as vossas decisões sejam lógicas, coerentes e compreensíveis por todos, porque essa é a única maneira de serem aceites. Não seria mau que o poder político estivesse de novo em comunhão de esforços, unido no discurso e nos propósitos, sem andar permanentemente a medir os ganhos e as perdas da popularidade dos seus principais atores. Ninguém pode falhar, mas é certo que são António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa que estão na crista da onda. Como a onda é grande, convém que não sejam engolidos pela onda. Jornalista

Paulo Baldaia

Se o Bloco faltar, o PSD não falta

Levando à letra as afirmações de António Costa, o PSD estaria livre de responsabilidades numa eventual crise política. Não foi a pedido dos partidos à esquerda, nem consequência da pressão dos jornalistas a querer saber, nesta fase, mais do que é suposto saber sobre a matéria que Costa disse o que disse. O primeiro-ministro, em entrevista ao Expresso, declarou solenemente que "no dia em que a sua subsistência depender do PSD este governo acabou", passando a responsabilidade política de uma crise inteiramente para os seus parceiros à esquerda. Acontece que as declarações de Costa comprometem-no a ele, mas não ilibam Rui Rio do que vier a ser feito pelo partido que lidera. Há pelo menos três fortes razões para o PSD viabilizar de cruz, com uma abstenção, o Orçamento do Estado (OE) para 2021. Vamos começar pela que mais condiciona nos bastidores da intriga política. O OE será aprovado, em votação final global, um mês antes das eleições presidenciais, eleições em que o PSD e o PS terão de apoiar explícita e implicitamente Marcelo Rebelo de Sousa. Apoiar Marcelo não é, no entanto, anunciar o apoio partidário à sua reeleição ou dar liberdade de voto aos militantes. Tanto mais que o apoio do PSD será sempre dado num tom crítico, à espera de mudanças no segundo mandato, e a liberdade de voto do PS será sempre acompanhada dos maiores encómios, à espera de que não haja mudanças no segundo mandato. Apoiar Marcelo é garantir que a crispação política não aumenta, que a estabilidade governativa é um dado adquirido, que às crises sanitária, económica e social não acresce uma crise política. Verdadeiramente, a extrema urgência de atenuar os efeitos da crise económica e social ao mesmo tempo que se prossegue, em condições completamente imprevisíveis, o combate à pandemia provocada pelo novo coronavírus é razão suficiente para não permitir aos dois partidos qualquer veleidade nesta matéria. Não estão condenados a entender-se até que a crise tenha passado, mas o eleitorado não lhes perdoaria se o seu comportamento não permitisse aproveitar inteiramente o momento em que, acrescendo às medidas que forem inscritas no OE, vão começar a chegar da Europa milhares de milhões de euros para passarmos das Tormentas à Boa Esperança. A terceira razão prende-se com um facto que, sendo de interesse menor para a população em geral, é sempre importante para a afirmação de Portugal na Europa e no mundo. No final do ano, termina a presidência alemã da União Europeia e a 1 de janeiro começa a presidência portuguesa (pela quarta vez, depois de o ter feito em 1992, 2000 e 2007). A Europa acompanha o resto do mundo nas preocupações com a pandemia e a crise económica, mas acrescem problemas específicos bem difíceis de gerir. À cabeça, o Brexit e o entendimento do governo de Londres de que é possível alterar unilateralmente regras de um tratado com que as duas partes se entenderam. Está, portanto, em palco uma opereta com um suspense em crescendo mas com um final totalmente previsível. Ouvem-se do lado do PSD as ameaças de deixar o PS a falar sozinho se lhe falharem os parceiros de esquerda que verdadeiramente escolheu e vê-se no lado do PS uma sobranceria de fim de ciclo. Como bem notou Ana Sá Lopes, no Público, "os governos acabam como as rosas e os casamentos. As rosas murcham, os casamentos às vezes nem se sabe bem o que lhes acontece." Estará murchando o governo e acabando a geringonça, mas podemos estar todos descansados: nada morre antes do tempo. O Orçamento do Estado para 2021 tem aprovação garantida. A alternativa é lançar o país num caos, coisa que os extremistas iriam adorar. Jornalista

Paulo Baldaia

Presos na sala de espelhos

Do sítio onde a maioria das pessoas participa no debate político, alguns não conseguem ver, de esguelha que seja, o que os outros veem com total clareza. Não há um esforço de aproximação. Se Cavaco Silva e Passos Coelho pedem o fim da obrigatoriedade das aulas de Cidadania e Desenvolvimento, à esquerda nem há conversa. Vindo de quem vem, traz água no bico, sentenciam as redes sociais. A direita também não faz por menos e para tratar uma ferida propõe que se corte uma perna à criatura. Andamos nisto.

Opinião

Portugal racista e os cúmplices

Num país em que uma vítima de racismo é julgada e sentenciada sem que se conheça o estado em que estão os processos contra os agressores, já podemos assumir que o racismo não é apenas um desvio de dúzia e meia de malucos e que o resto do país também tem responsabilidades pela generalizada indiferença com que lida com o tema? Num país em que o governante que tem responsabilidades nesta matéria, meio ano depois do flagrante delito, no mesmo mês em que a vítima foi sentenciada, o que tem para lhe dizer é que "para ser uma boa justiça nunca pode haver resultados imediatos", já podemos assumir que há uma cumplicidade do governo no falhanço da luta contra o racismo?

Opinião da direção

Milhões de euros depois...

Nos últimos anos, o sistema financeiro consumiu muito dinheiro dos contribuintes. Milhares de milhões de euros depois a banca está melhor mas o problema está longe de estar resolvido. Utilizando um eufemismo, a Comissão Europeia e os governos chamam-lhe NPL (non-performing loans, ou seja, créditos não produtivos), mas em Portugal toda a gente fala de crédito malparado, que continua acima da média dos outros bancos da zona euro.