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Leonídio Paulo Ferreira

América redescobre índios, alguns meio vikings, outros meio açorianos

Quando era criança Deb Haaland passava o verão com os avós maternos numa casa sem água corrente em Mesita, uma das seis aldeias do Novo México onde continua a viver o Pueblo of Laguna, uma das quase 600 tribos índias que os Estados Unidos reconhecem, escreveu o The Washington Post. Aos 60 anos, a congressista tornou-se de um momento para o outro uma celebridade, e por isso esta historieta pessoal, porque foi escolhida por Joe Biden, vencedor das presidenciais de 3 de novembro, para secretária do Interior, uma pasta ministerial que lhe dá controlo sobre vastos territórios do país e também sobre muitos assuntos índios. Será também apenas o segundo nativo-americano, expressão politicamente correta para índio ou índia, membro de uma administração americana. Antes, Charles Curtis, que se dizia da tribo Kaw do Kansas, foi vice-presidente de Herbert Hoover entre 1929 e 1933.

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Obama entre Rota e as Lajes

Tirando a viagem de mochila às costas quando tinha 26 anos, Obama visitará hoje pela primeira vez Espanha, depois de ter assistido na Polónia à cimeira da NATO. É dado como certo que o presidente americano irá a Rota, a base que os Estados Unidos usam perto de Cádis e que ganhou importância estratégica por ser o porto dos quatros navios que patrulham o Mediterrâneo com o sistema Aegis contra mísseis. Numa altura em que os Estados Unidos desinvestem em várias bases mundo fora, incluindo as Lajes, a passagem de Obama por Espanha até pode ser entendida como um favorecimento do país vizinho como aliado no âmbito da NATO, mas é ideia exagerada.

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América sobreviveria a Trump presidente

Harry Truman era um campónio do Missouri sem curso superior nem mundo, John Kennedy uma marioneta do Papa, Jimmy Carter um simples plantador de amendoins, Ronald Reagan um ator de segunda categoria e George W. Bush só entrou em Yale graças à cláusula que dá acesso aos filhos de antigos alunos. Pelo menos foi o que os seus rivais repetiram até à exaustão, prevendo o desastre assim que assumissem a presidência. E, no entanto, a América sobreviveu a todos estes inquilinos da Casa Branca. Alguns, admita-se, até ficaram bem nos livros de história.

Leonídio Paulo Ferreira

Conspiração de mulheres

Podia pensar-se que é por causa do favoritismo de Hillary Clinton que as mulheres estão a bater todos os recordes de doações para a campanha presidencial e afins, mas a verdade é que também nas fileiras republicanas o mesmo acontece (ainda que antes de se saber se Donald Trump vai mesmo ser o candidato). Segundo o The New York Times, 43% de todo o dinheiro investido até agora nestas eleições foi dado pelas americanas, atenuando, e muito, o fosso tradicional com os homens. E refletindo não só o desejo de ter uma mulher na Casa Branca, como sobretudo mostrando como o crescente sucesso na vida profissional e empresarial está a dotar de meios a parte feminina do eleitorado americano.

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O Magrebe é já aqui

Num recente discurso, Sarkozy elogiou Marrocos, criticou a Argélia e mostrou-se preocupado com a Tunísia. Há razões para duvidar da perspicácia do ex-presidente francês, e agora candidato a regressar ao Eliseu, sobre a evolução do Magrebe, não só porque representa os interesses da velha metrópole como porque foi ele próprio responsável pelo caos num dos países da região, essa Líbia que mandou bombardear. Mas, pensando bem, acaba por fazer um diagnóstico plausível do que se passa no Sul do Mediterrâneo. E sobretudo do momento político de cada um dos três países passados cinco anos sobre a Primavera Árabe, que começou na Tunísia mas alastrou mais para Oriente (o Maxerreque) do que para Ocidente (o Magrebe, em árabe).

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Merkel exige refugiados a falar alemão. Faz bem

AAlemanha quer que os candidatos a asilo aprendam a língua e vai penalizar aqueles que recusem ter aulas. Mas o projeto da chanceler Merkel está já a ser criticado pela Pro Asyl, ONG de defesa dos refugiados sediada em Frankfurt e criada há 30 anos por um pastor protestante. Argumenta a organização que ao fazer ameaças as autoridades reforçam a ideia de que os refugiados não pretendem integrar-se na sociedade, quando, insiste, é o governo que falha na oferta de oportunidades de ensino, formação e emprego.

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Síria empurra Turquia para os braços de Israel

Atentado em Ancara e imediata mensagem de condolências de Benjamin Netanyahu a Recep Erdogan. Gesto diplomático banal entre dois velhos aliados não fosse a rutura entre Israel e a Turquia, que data de 2010. Mas há fortes sinais, e as condolências são mais um, de que israelitas e turcos estão prestes a chegar a acordo sobre o incidente do barco Mavi Marmara e a recolocar os respetivos embaixadores em Ancara e Telavive. O que significa que a guerra civil na Síria e a agitação atual e futura no Médio Oriente não param de obrigar os líderes a rever estratégias e a procurar novas alianças. E se não é o petróleo desta vez a ajudar, pelo menos o gás tem um papel-chave, já lá iremos.

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Para onde foi a prata?

Continua a ser uma aventura atravessar a Avenida 9 de Julho, a mais emblemática de Buenos Aires, onde fica o Teatro Colón. Belíssimo, foi inaugurado há um século, numa época em que a prosperidade da Argentina era tanta que não só atraía massas de imigrantes (espanhóis e italianos, até portugueses, se bem que o bisavô transmontano de Borges tenha chegado na era colonial) como oferecia um nível de vida que batia países como a França e a Alemanha; e esmagava o do Brasil, rival desde o tempo em que a invasão napoleónica da Península Ibérica provocou ondas de choque em toda a América Latina. O nome da avenida famosa pelas 14 faixas (ou serão 18?) homenageia a data em que o país se tornou independente em 1816, mesmo que na época fosse pouco mais do que a região de Buenos Aires e tivesse como nome Províncias Unidas. Foi um processo complicado o da separação, pois se de início a junta se indignava com a usurpação do trono espanhol por um irmão do imperador francês, não tardou a cortar laços com um Fernando VII reposto mas tão autoritário que acabou com o liberalismo das Cortes de Cádis. Morria o vice-reino do Rio da Prata, nascia um grande país, que se estende hoje do Chaco, a norte, até à Terra do Fogo, a sul, e dos Andes ao Atlântico. Um país que apesar das crises que destruíram a tal prosperidade que existia em vésperas da Primeira Guerra Mundial está no G20, esse grupo das economias mais poderosas onde até há pouco Cristina Kirchner era presença certa nas cimeiras. Ora, acabou a era dos Kirchner. De Cristina e também de Néstor, o marido que foi presidente antes dela e entretanto morreu. Não nos admiremos desta sucessão dentro de um casal, já tinha acontecido antes na Argentina, quando Juan Perón morreu e Estela, mulher e também vice-presidente, lhe sucedeu. Coisa de peronistas, dirão alguns, como se não houvesse dinastias noutros países e Hillary Clinton não tentasse pela segunda vez imitar o marido como presidente dos Estados Unidos. Mas sim, muitos dos males da Argentina costumam ser atribuídos ao peronismo, ideologia tão vaga hoje que acolhe os peronistas de esquerda como os de direita, mas que na origem se inspira num militar, Juan Perón, que combinava autoritarismo com preocupações sociais e no estrangeiro talvez seja menos famoso do que a sua companheira dos anos 1940, Evita, a amiga dos descamisados.

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Um imigrante para presidente?

O que têm Arnold Schwarzenegger e Henry Kissinger em comum? Se respondeu que ambos cresceram a falar alemão, ficou a meio caminho da resposta certa. É que por terem nascido na Áustria e na Alemanha nenhum deles alguma vez chegará a presidente dos Estados Unidos, apesar de o ator ter tido sucesso como governador da Califórnia e o académico se manter o mais famoso dos chefes da Diplomacia. A Constituição americana, a mais velha em vigor no mundo, veta o acesso à chefia de Estado aos cidadãos nascidos fora do país, o que nem surpreende porque é a regra, incluindo em Portugal (o artigo 122.º do texto fundamental fala de "portugueses de origem"). E o assunto nunca gerou grande polémica nos Estados Unidos, mesmo quando alguns extremistas de direita quiseram provar que Barack Obama tinha nascido no estrangeiro e não no Havai, mas volta à ordem do dia porque Donald Trump decidiu questionar a legitimidade de um dos rivais à nomeação pelo Partido Republicano às presidenciais de novembro. Na mira está Ted Cruz, filho de um cubano e de uma americana e nascido no Canadá.

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Génio coreano

Convém não desvalorizar o contributo do paquistanês Abdul Qadeer Khan para o programa nuclear da dinastia Kim - por alguma razão ficou conhecido como o "padrinho da bomba norte-coreana", tanta informação terá vendido a Pyongyang no final dos anos 1990. Mas não se pense também que não existe tecnologia norte-coreana envolvida neste projeto que foi sonhado por Kim Il-sung, fundador do país comunista, concretizado em 2006 pelo filho e herdeiro Kim Jong-il e em vias de ser aperfeiçoado pelo neto Kim Jong-un, pelo menos a acreditar na explosão desta semana, que o jovem líder reclama ter sido o teste a uma bomba H, mais poderosa que as seis a dez ogivas tipo A que se dá por certo já ter.