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Defender Istambul

Se há prova de que a Turquia é um país europeu tanto como é um país do Médio Oriente, essa chama-se Istambul. E não é só por causa da geografia, que espalha a cidade pelas duas margens do Bósforo, o que quer dizer Europa e Ásia; nem sequer pela longa história, mesmo que já se tenha chamado Constantinopla e sido capital do Império Romano; é mesmo pelo cosmopolitismo das gentes, pelos mil e um pormenores nas ruas. Recordo-me de visitar Istambul com a expectativa de ver a Hagia Sophia, a Mesquita Azul, o Topkapi e o bazar e descobrir que a essas maravilhas do passado se somavam as livrarias na Rua Istiklal, a loja de profiteroles, o café de charme ou o cinema onde passavam filmes ocidentais (creio que era um da saga Harry Potter). Não admira que seja tão visitada, tão sonhada pelos turistas.

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Trump? É bem feito!

Sim, a 8 de novembro, a América vai eleger um novo presidente, mas não esquecer que escolherá igualmente uma nova Câmara dos Representantes, um terço do Senado e ainda 12 dos 50 governadores estaduais. É também por isso que Trump é uma tremenda dor de cabeça para o establishment do Partido Republicano, vítima da deriva populista das bases. E sem dúvida que nos bastidores muita boa gente está a fazer contas se é melhor estratégia tentar ainda travar o magnata, cada vez mais certo como candidato presidencial republicano, ou evitar criticá-lo daqui para a frente em nome da unidade partidária. Está o Partido Republicano em crise? Bem, perdeu as últimas duas presidenciais e arrisca-se a somar neste ano a terceira derrota consecutiva, o que não lhe acontece desde a era Roosevelt/ /Truman, na primeira metade do século XX. Mas nas intercalares de 2014, o partido até reforçou a maioria na Câmara, reconquistou o controlo do Senado e aumentou para 31 o número de governadores. Portanto, pergunte-se a Obama se os republicanos contam e a resposta do presidente democrata só poderá ser um convite para se ver os entraves que o Congresso pôs às suas políticas, desde a reforma do sistema de saúde até ao acordo sobre o nuclear do Irão. A questão que se coloca mesmo é se vão deixar de contar após 8 de novembro, com congressistas e governadores a serem arrastados pelo efeito Donald Trump. Quase todas as sondagens preveem uma derrota de Trump seja frente a Hillary, a favorita democrata, seja se o rival for Sanders. Assim, mesmo com as desistências de Cruz e Kasich das primárias persiste a tentação nos republicanos de forçar uma alternativa ao magnata desbocado, imprevisível e de percurso ideológico tão oscilante que até já foi democrata. Mas um terceiro candidato poucas hipóteses tem. A história mostra que quando há uma divisão séria num dos campos, esse campo perde. Aconteceu aos republicanos em 1912, mas também em 1992, quando o independente Ross Perot obteve 19% dos votos e na prática tirou a Casa Branca a Bush pai para a oferecer a Clinton, o marido de Hillary. Mas mesmo sem um candidato conservador rival de Trump, é evidente que muitos republicanos vão evitar o apoio declarado ao magnata. Que se saiba, até agora só dois senadores e três governadores estão ao seu lado, e tanto Bush pai como Bush filho, os dois antigos presidentes republicanos vivos, recusam o habitual apadrinhamento. Também contra está Paul Ryan, speaker da Câmara e ex-candidato a vice-presidente. Imaginemos então que muitos republicanos ficam em casa furiosos com Trump, que para alguns é demasiado liberal mas para outros sobretudo pouco fiável. E que ao mesmo tempo o eleitorado democrata se mobiliza para votar Hillary, até mesmo aqueles que agora estão com Sanders. O impacto será devastador na corrida à Casa Branca, notório na Câmara, mas atenuado no Senado e sobretudo entre os governadores, pois só quatro estados agora republicanos vão a votos. Derrotado, humilhado, dividido, mas não destruído. É esse o cenário previsível para o Partido Republicano na manhã de 9 de novembro, quando se conhecerem os resultados. A Casa Branca, com a sucessão democrata assegurada, manterá os Estados Unidos numa linha progressista, até porque surgirão vagas no Supremo Tribunal. E um Congresso amigável ajudará. Mas, depois de digerir a derrota, os republicanos deverão reinventar-se como partido, mesmo que condenado à oposição por uns tempos. E se perceber como evitar novos Trumps é vital, também convém rejeitar o reacionarismo que diabolizou Obama e afasta as minorias étnicas e que a médio prazo terá ainda piores consequências para o partido que foi o de Lincoln. Pobre Partido Republicano, pobre América que precisa dele. Mas Trump é bem feito!

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A mais curta refeição oficial da vida dele

Há um pormenor na biografia de Hans--Dietrich Genscher que por vezes passa despercebido: nasceu na metade oriental da Alemanha e chegou a conhecer o comunismo. Assim, que a reunificação fosse o projeto de uma vida não é coincidência. E pode-se tentar imaginar o que sentiu quando, ministro dos Negócios Estrangeiros, soube da queda do Muro de Berlim. Numa entrevista 25 anos depois à Deutsche Welle, contou que estava num jantar em Varsóvia, já com o novo governo polaco do Solidariedade, quando o informaram. "Foi a refeição oficial mais curta da minha vida", notou, acrescentando que ele e o chanceler Helmut Kohl só queriam chegar a Berlim. Já se sabia que a história estava a mexer, só não se sabia que a um ritmo tão acelerado que, daquele 9 de novembro de 1989, resultaria, menos de um ano depois, a reunificação alemã.

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Lula 2022

Não falta muito para o Brasil ter uma daquelas datas em que todos os balanços são feitos: 7 de setembro de 2022, dia do bicentenário da proclamação de independência por D. Pedro, o herdeiro do trono português que preferiu ser imperador brasileiro. Ora, há uma possibilidade, não tão remota assim, de o presidente nessa altura ser Lula da Silva. Basta para isso que queira tentar um terceiro mandato em 2018; necessita também, claro, de vencer essas eleições, o que exige limpar-se o quanto antes das acusações de corrupção que nos últimos tempos têm vindo de todo o lado, manchando o nome de um dos mais admiráveis políticos da história brasileira.

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Com medo de Moscovo, mas fora da NATO

Simulações sobre os efeitos de uma invasão relâmpago russa no Báltico, revelação de um exercício de ataque nuclear à Suécia, análises sobre as vantagens da adesão de suecos e finlandeses à NATO. Tem sido enorme a pressão para que os dois países escandinavos neutrais esqueçam o tradicional não-alinhamento e peçam a integração na Aliança Atlântica fundada em 1949. E as próprias opiniões públicas começam a mostrar uma inclinação para a adesão que surpreende, mesmo que a própria Rússia de Vladimir Putin ajude e muito ao espírito de Guerra Fria com a anexação da Crimeia, o apoio aos separatistas da Ucrânia e os voos militares tão longe como as Ilhas Britânicas ou a costa portuguesa.

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A Rússia não pode excluir-se da Europa

Pode a Rússia dar-se ao luxo de recusar ser europeia? Igor Gretskiy garante que não e fala com a autoridade de quem é professor na Escola de Relações Internacionais da Universidade Estatal de São Petersburgo. E quais são os seus argumentos? Primeiro que tudo a história, com o período soviético a ser a exceção num percurso nacional marcado desde sempre pela atração pelo Ocidente. Segundo, e mais importante ainda, a falta de alternativa ao modelo europeu, tanto político como económico. Afinal, escreve o académico russo no primeiro número de 2016 da New Eastern Europe (uma excelente revista editada na Polónia e escrita em inglês), "apesar da atual crise nas relações com o Ocidente, a Rússia e a Europa têm um futuro comum, pois não existe uma verdadeira alternativa à via europeia para o desenvolvimento".

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A guerra civil por Pérez-Reverte

Escreve Arturo Pérez-Reverte no seu mais recente livro: "Todas as guerras são más, mas a guerra civil é a pior de todas, pois põe o amigo contra o amigo, o vizinho contra o vizinho, o irmão contra o irmão." Publicado em novembro em Espanha, La Guerra Civil Contada a Los Jovenes vai já na quarta edição, o que mostra como esse conflito iniciado faz agora 80 anos (1936-1939) não só se mantém vivo na memória dos espanhóis mais velhos, que o viveram ou ouviram os relatos dos pais sobreviventes, como desperta o interesse das gerações mais novas.

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Contra os jihadistas não é hora de cautelas

A França de Hollande agora na linha da frente do ataque ao Estado Islâmico, o Reino Unido de Cameron a receber carta branca da Câmara dos Comuns para levar os bombardeamentos à Síria, a Alemanha de Merkel a mobilizar tropas para a luta ao jihadismo... mas sem entrar em combate. Pode-se sublinhar que os franceses só podiam reagir assim, em força, depois dos atentados em Paris; e que os britânicos não fazem mais do que assumir o tradicional papel de ajudantes dos Estados Unidos, já envolvidos na guerra aos jihadistas; mas mesmo assim, por comparação com as outras duas potências europeias, parece cauteloso o compromisso alemão, decidido pelo governo e ontem confirmado pelo Bundestag. Uma fragata de apoio no Mediterrâneo Oriental ao porta--aviões francês Charles de Gaulle, seis aviões Tornado para reconhecimento e 1200 militares, é esta a contribuição alemã, que se soma ao treino que já dá aos peshmergas no Curdistão iraquiano.

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Czar contra sultão: versão século XXI

Moscov Selim é o título de uma novela de Georgios Vizyenos, um escritor grego da segunda metade do século XIX. É também o nome da personagem principal do livro, um fiel súbdito do sultão otomano que ficara a admirar todas as coisas russas desde que fora feito prisioneiro numa das muitas guerras entre os dois impérios. Ao juntar o nome claramente islâmico Selim a outro russo óbvio, o autor, um homem da sua época, pretendia chocar. Nem num nome nem em mais nada, tirando os campos de batalha, turcos e russos eram capazes de se juntar. Eram os tempos da cobiça por Constantinopla (atual Istanbul) e da luta pelo controlo do Bósforo.